Último Romance
1 Ter fé e ver coragem no amor
As pessoas passavam por mim e me viam sentado no banco daquela praça, jogando milho aos pombos, alimentando-os com a paciência de quem já não tem pressa para nada. Naquela época, quem por acaso passasse pela Praça do Senhor do Bonfim e não me visse ali pela manhã estranharia. Ou eu estaria de ressaca, depois de alguma farra na noite anterior, ou teria batido as botas de uma vez por todas.
Os pombos se tornaram minha única companhia desde que minha esposa, Lilica, se foi — faz exatamente dez anos. O tempo, meus caros, é cruel. Ele leva todos aqueles que você ama. Quando Lilica partiu, vítima de um câncer, foi como se tivessem me arrancado uma parte do peito com uma lâmina fria. Depois, o mesmo tempo, malvado e tão algoz, foi espetando minha vida devagar, levando meus amigos, um por um. Egoísmo ou não, às vezes penso que teria preferido ir antes deles.
Bem me lembro quando Otaviano, do bar da esquina, teve um ataque cardíaco no meio de uma bebedeira. Bebia demais — e foi justamente isso que o matou. Mais irônico ainda: ele era o dono do bar. É incrível como a morte pode ser sarcástica; o que lhe dava o sustento acabou se tornando o motivo de sua partida, e isso ficou gravado para sempre no atestado de óbito.
Não posso me esquecer da adorável dona Ruth, levada pela maldita diabetes. É trágico perceber que adoçar a vida pode cobrar um preço tão amargo. E o casal Bira e Ana Maria? Foram perfeitos um para o outro até o fim — e que fim cruel! Morreram vítimas da violência, assassinados por um bandido sem vergonha que invadiu a casa deles. Não quero nem imaginar morrer assim.
Na verdade, esse é o assunto que mais ocupa minha cabeça nestes últimos dez anos: como vou morrer? No auge dos meus setenta e tantos anos, penso que já vivi de tudo. Fui criança de verdade — não dessas de hoje, que passam a vida com o rosto grudado na tela de um celular. Fui jovem, frequentei muitas festas, mas sem deixar de estudar. Namorei mulheres erradas e algumas certas, até que encontrei Lilica.
Ah, Lilica… ela era linda de um jeito que nem o tempo conseguiu apagar. Nem a morte ousou me roubar a lembrança do seu rosto. Nós dois tínhamos trinta e dois anos quando nos conhecemos, e, acreditem, não tínhamos nada além de um emprego modesto e alguns sonhos que não sabíamos se se realizariam. Ela era secretária, eu, um simples chefe de almoxarifado numa firma de advocacia sem grandes perspectivas.
Mas houve um dia — lembro como se fosse agora — em que ela entrou na sala carregando uma pilha de pastas. O salto dela fez um barulhinho seco no piso, e, quando levantou os olhos e me viu, sorriu como quem pede licença para existir. Não era um sorriso qualquer; era como se ela me dissesse, sem palavras: “Você ainda vai se meter na minha vida”.
Começamos com pequenas conversas na hora do café. Eu, tentando ser engraçado; ela, fingindo não notar. Um dia, levei-lhe uma flor amassada no bolso do paletó. No outro, deixei um bilhete com um poema que nem sei se era bom, mas ela guardou. Lilica ria com facilidade, e quando ria, franzia o nariz. Nunca vi nada mais bonito.
Depois de um mês de flores, poemas e trocas de olhares, começamos a namorar. Fizemos promessas sobre um futuro que não sabíamos se viria — e veio. Casamos no cartório, e, à noite, fizemos um jantar simples na casa da minha mãe. Lembro de Lilica lavando a louça do próprio casamento, com o vestido ainda molhado de chuva e os cabelos presos de qualquer jeito. Ela riu o tempo todo, dizendo que preferia assim, “porque ninguém tem paciência para festa grande”.
Nos anos que se seguiram, o casamento foi feito de pequenas coisas:
O café que ela deixava pronto para mim, mesmo quando brigávamos;
As noites em que dançávamos na sala, ao som de um rádio velho, só porque chovia lá fora;
Os domingos em que ela fazia bolo de fubá e me obrigava a esperar esfriar, como se fosse um teste de paciência;
A mania dela de roubar a minha parte do pudim “só para provar”.
Nunca fomos de viagens caras, mas fizemos uma para a praia de Marataízes, e foi lá que percebi que amor é mais sobre dividir um picolé no calçadão do que sobre jantares chiques.
Claro, houve discussões — algumas feias, daquelas que fazem a gente dormir de costas um para o outro. Mas no dia seguinte, sem pedir desculpas, ela me acordava com um seco e ao mesmo tempo molhado “tem cuscuz e café” e pronto: tudo estava perdoado.
Ficamos juntos por mais de quarenta anos. Até que a morte voltou, como sempre volta, para encerrar a história.
Então, meus jovens, talvez o que poderia ter sido o início de um romance seja, na verdade, o fim das lamentações de um velho que tem nas aves suburbanas a sua companhia mais fiel. Nos últimos anos, coloquei na cabeça que, por já ter vivido um grande amor, posso morrer em paz.
Podem ir embora, fechar a página — ou o que quer que usem para ler hoje em dia.
Tudo bem, vocês venceram. Não sei como a vida de alguém como eu poderia ser interessante neste momento, mas vamos prosseguir.
Prometo que este será o meu último romance.
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