Notas iniciais
É um capítulo um tanto quanto emocionante, do meu ponto de vista. Espero que vocês gostem! Link para a música: http://www.vagalume.com.br/we-the-kings/well-be-a-dream.html

No fim daquele péssimo domingo, eu estava exausta e não demorei a pegar no sono. Fui para a escola no dia seguinte e aparentemente aquele dia seria um pouco melhor; consegui passar despercebida por Ivy e Jessie não deixou Ben vir falar comigo. Eu fiquei realmente grata, pois ainda não estava a fim de falar com ele. Só pensar no assunto já me dava ânsia.

Lauren, Jessie e eu fomos à sala de aula e ficamos lá sentadas enquanto o sinal não batia, conversando. Apenas nós três, como antigamente. As duas ainda comentavam rindo o que deviam ter feito e dito durante a briga no estacionamento. Ver nós três lá, naquele clima calmo e alegre me fez lembrar quando tudo isso começou:

Era o primeiro dia de aula da segunda série. O sinal do intervalo tinha acabado de bater. Jessie e eu fomos juntas pegar nossas lancheiras e seguimos para o corredor em direção ao refeitório. No meio do caminho, uma ruivinha banguela com um sotaque estranho parou na nossa frente.

– Oi — ela disse.

– Oi — Jessie e eu respondemos em uníssono.

– Meu dente de leite acabou de cair — ela nos mostrou um dente na mão e sorriu, deixando a mostra o desfalque na sua arcada dentária.

Perguntei-lhe se isso iria interferir na hora de ela comer e ela disse que não, então Jessie olhou para mim por uns segundos, então de volta para a ruivinha e a convidou para sentar conosco no intervalo. Ela aceitou.

Ela colocou sua lancheira vermelha em cima da mesa e disse:

– Meu nome é Lauren.

– O meu é Jessica, mas pode me chamar de Jessie. O dela é Hanna.

– Você tem olhos bonitos, Jessie.

– Hanna? Oi? Terra chamando — Lauren estava acenando com a mão em frente aos meus olhos.

Eu ri quando voltei à tona de minhas memórias, mas Jessie e Lauren me olhavam sem entender. Contei para elas que estava me lembrando do dia em que nos conhecemos, então começamos a relembrar momentos da nossa amizade.

A sala de aula ficava cada vez mais cheia, assim como nossas recordações, que iam aumentando cada vez mais.

– Pois é... E agora estamos aqui juntas no último ano, na semifinal do campeonato estadual, tudo por causa de um dente de leite — Lauren comentou e nós rimos.

– Semifinal essa que pode mudar nossas vidas — eu disse, logo antes de o professor entrar na sala e cortar o fluxo de nossas memórias.

As duas últimas duas aulas transcorreram na mesma calmaria, e pouco antes de bater o sinal dando fim ao período letivo daquele dia, me ocorreu uma ideia.

– Ei, meninas, vocês vão fazer algo hoje à tarde? – perguntei, enquanto saíamos.

– Eu não.

– Nem eu, por quê? – perguntou Jessie.

– Vocês se lembram daquela sorveteria cor-de-rosa que fica lá do outro lado da cidade e que nós costumávamos ir quase todos os dias depois da aula?

– Nossa, eu não vou lá desde que minha família teve que se mudar para esse lado da cidade e vocês duas tiveram que convencer suas famílias a se mudarem também! – Lauren relembrou.

– Nem eu! Então, eu estava pensando, nós poderíamos almoçar e depois ir lá, como nos velhos tempos.

– Ótima ideia!

Saímos da escola e combinamos que cada uma iria para sua casa trocar o uniforme e Lauren passaria para nos buscar o mais rápido possível, pois estávamos famintas.

Menos de 20 minutos depois de eu ter chegado em casa, as duas chegaram e seguimos para um restaurante que ficava perto de nossa antiga escola. Conversamos sobre vários assuntos, atuais e passados, esquecendo-nos de todos os problemas que tínhamos. Aquela era uma tarde para aproveitarmos uma as outras.

Do restaurante fomos direto para a sorveteria, ouvindo e cantando músicas pelo caminho. A sorveteria Nuage de Glace continuava no mesmo lugar, mas haviam pequenas mudanças. O letreiro que ficava na frente havia sido substituído por outro, escrito com letras cursivas, alternando a cor das palavras entre rosa, lilás e azul, que combinavam com a fachada pintada de roxo e branco. A cor das paredes também pareceu diferente do que eu me lembrava.

No lugar de rosa escuro, agora apresentavam um rosa bebê, fazendo com que o ambiente parecesse ainda mais aconchegante e convidativo.

Assim que chegamos, pude ver um brilho de alegria nos olhos de Lauren e Jessie, e me perguntei se os meus próprios também apresentariam esse brilho. Se não, o fizeram assim que entramos e fomos reconhecidas por Dona Amelie, uma senhora de cabelos grisalhos e olhos que pareciam estar sempre sorrindo.

– Mon Dieu! Garotas, como vocês cresceram! – ela disse, saindo de trás do balcão onde atendia os clientes para nos abraçar. Depois de tantos anos passando ali quase todos os dias, Dona Amelie era uma espécie de tia para nós.

Conversamos por algum tempo, matando mutuamente a saudade, e depois pedimos nossos sorvetes e fomos no sentar. Estar ali de novo provocava uma sensação quase mágica.

Depois que terminamos, com certa relutância, nos despedimos de Dona Amelie e prometemos que voltaríamos em breve. No carro, seguíamos em silêncio enquanto Lauren dirigia rumo à casa dela, quando Jessie disse subitamente:

– Por que nós não fazemos um álbum de fotos?

– Um álbum de fotos? – perguntei sem entender.

– É, a gente pega nossas fotos, de desde que éramos pequenas, e coloca num álbum.

– Hoje a gente meio que tirou o dia pra relembrar o passado, né? – disse Lauren, rindo, aparentemente em aprovação á ideia.

– Eu gostei. E nós podemos ir atualizando ele com novas fotos, conforme fomos tirando.

– Sim, nós podemos – respondeu Jessie, com ar taciturno, provavelmente perdida em lembranças.

– Vamos fazer assim então: nós passamos rapidamente na casa de cada uma, pegamos as fotos, salvamos as que ainda não foram reveladas num pen-drive, depois voltamos e mandamos revelar e compramos um álbum bem bonitinho, pode ser? – propôs Lauren.

– Tudo bem, mas com quem vai ficar o álbum?

– Depois a gente vê isso, Han – replicou Jessie.

A primeira parada foi na casa de Jessie. Conseguimos algumas boas fotos lá, muitas de quando éramos mais novas. Depois seguimos para minha casa, onde conseguimos um número um pouco menor de retratos de idades variadas. A maior parte das fotos mesmo estava na casa de Lauren, que amava fotografia e nos garantiu um bom número de fotos mais recentes.

Depois de reveladas as fotos, fomos organizá-las em minha casa. Enquanto escolhíamos e organizávamos por ordem aproximada de data, não pudemos evitar comparações de antes e depois, relembrar os momentos que antecederam e seguiram o instante capturado pela imagem, e comentários sobre como havíamos tido uma infância feliz. Olhar todas aquelas fotos nos fez perceber que já havíamos passado por muitas coisas, e ainda haveríamos de passar por muitas outras, inimagináveis. A única certeza era a de que nada nunca iria mudar nossa amizade, nada nunca iria destruir tudo o que havíamos construído até ali. Era algo especial demais para ser jogado ao vento.

As horas voaram com nossas lembranças, e já havia escurecido quando demos o trabalho por terminado. Combinamos que por hora o álbum ficaria com Lauren, e nos revezaríamos na posse dele. Jantamos juntas e então as acompanhei até a porta para me despedir.

– Boa noite, Han! Foi uma ótima ideia a sua de irmos à Nuage de Glace – disse Jess.

– Foi mesmo! Tivemos um dia muito divertido hoje, com todas essas lembranças – completou Lauren.

– Cada coisa que a gente já viveu, né? Não fossem pelas fotos eu não me lembraria de nem metade disso. Foi bom reviver um pouco disso.

– É para isso que servem as fotos. Elas eternizam os momentos. As pessoas se vão, mas uma parte delas ainda fica ali, retratada na imagem – Jessie acrescentou.

– Obrigada, meninas, por terem me chamado pra me juntar a vocês aquele dia, na segunda série. Foi a melhor coisa que já me aconteceu.

– Nós é que agradecemos, L. O que seria de nós sem uma ruiva italiana pra completar o time? – disse Jessie e tascou um beijo na bochecha de Lauren, fazendo suas orelhas ficarem extremamente vermelhas.

– Acho que nós temos que ir, né? Tá ficando tarde – Lauren fez bico.

– É, mas a gente se vê amanhã – Jessica tentou nos animar.

– E depois de amanhã, e depois, e depois... – brinquei, fazendo-as rirem.

– Tchau, Han! Boa noite! Jess, eu te levo em casa, eu tô de carro mesmo.

– Tchau, meninas! – disse, me despedindo. — Eu amo vocês – acrescentei, assim que elas se viraram, indo ao encontro delas para um abraço em grupo que selava nossa amizade.

Notas finais
Espero que tenham gostado :) comentários são muito bem-vindos