Última Dose de Felicidade
3 Strange
Notas iniciais
– Espera aí. O que foi que acabou de acontecer?
– Eu só fiz uma brincadeira, Hanna! Uma brincadeira e ela ficou assim!
– Eu sei, Jessie, mas por que ela ficou desse jeito?
– Não faço a menor ideia! Eu falei alguma coisa de errado? – Jessie parecia realmente desolada.
– Acho que não, Jes. Fica calma, você sabe como a Lauren é. Amanhã de manhã ela nem vai lembrar disso.
– Mas eu vou. Tipo, ela desistiu de assistir Em Chamas! Ela tava tão animada pra esse filme, ela vem falando nele há meses!
– Jessie, não foi a primeira nem a última vez que vocês brigaram por nada. Vai ver ela só está de TPM ou algo assim – Eu não acho que seja algo tão simples assim. A Lauren tem estado meio, hm, “diferente” já faz algum tempo. Mas isso não é coisa de se comentar quando sua melhor amiga está à beira de um ataque de nervos, certo?
– Tudo bem, tudo bem. Eu vou ficar calma. Foi só mais uma das reações exageradas da Lauren. Vai passar – Jessie disse mais para si mesma do que para mim, enquanto respirava fundo.
– Isso aí. Pense numa desculpa rápido que os meninos estão vindo, e eles não entendem nada de TPM.
– Voltamos, meninas! Espera, cadê a Lauren? – perguntou Peter.
– Hm, ela foi embora, ela não estava se sentindo muito bem e resolveu ir pra casa – menti.
– Não estava se sentindo bem? O que ela tinha? – Chris estava realmente preocupado.
– Não era nada demais, era só uma dor de cabeça, acho que deve ter sido a emoção do jogo de hoje – respondeu Jessie.
– É, ela pediu desculpas por sair assim do nada, mas ela não queria que começasse a piorar e nós dissemos que tudo bem, o importante é que ela fique bem.
Não sei se alguém desconfiou da nossa veemência, mas ninguém falou mais nada. Chris passou o resto da noite meio desconcentrado, abatido até. Após assistirmos o filme, Jessie, Chris e Peter foram embora cada um em seu carro e Ben se ofereceu para me levar.
Ao chegarmos à minha casa, ele estacionou o carro e desceu para me acompanhar até a porta, como de costume.
– Ei, Han, tem certeza de que a Lauren só tava com dor de cabeça? – Ele perguntou. Como ele sempre sabe quando eu tô mentindo? Será que eu minto tal mal assim ou ele que me conhece tão bem?
– Não. Nem eu e a Jessie sabemos o que ela tem, na verdade. Vou ligar pra ela daqui a pouco pra perguntar. Desculpa não ter contado a verdade, é só que eu achei melhor esperar até ter certeza do que era.
– Não precisa se desculpar, amor. Eu entendo.
– Obrigada. Eu te amo.
– Eu também te amo – ele disse, logo antes de me beijar. — Tenho que ir agora. Amanhã eu passo aqui pra falar com sua mãe, ok?
– Tudo bem. Boa noite, amor.
– Boa noite, Han, durma bem.
Após nos despedirmos com mais beijos, entrei em casa e ouvi o barulho do carro de Ben se afastando. Minha mãe e Louis, meu padrasto, já estavam dormindo, descansando após uma semana cansativa de trabalho. Subi para o meu quarto, troquei o vestido por um pijama mais confortável, tirei a maquiagem e peguei o celular para ligar para Lauren.
– Alô, Lauren?
– Oi, Hanna.
– Oi, La, tá tudo bem?
– Hm, acho que sim. Desculpa pelo que eu fiz no cinema. Sabe, aquele drama todo.
– Era sobre isso que eu queria falar. Queria saber o que aconteceu.
– Eu também não sei. Acho que é a TPM que me deixou mais estressada. Ou talvez só agora tenha caído a ficha de que nós estamos quase ganhando o campeonato e eu tenha ficado um pouco nervosa, não sei. Como foi o filme? A Jessie ficou muito chateada comigo?
– O filme foi bem legal, teria sido mais legal se você estivesse com a gente, mas foi legal. Ela ficou chateada, sabe, mas não exatamente com você, com a situação mesmo. Tenho certeza que vocês conseguem se resolver.
– Amanhã eu vou na casa dela, preciso pedir desculpas. Não me orgulho do que fiz.
– É, você precisa pedir desculpas, mas não precisa ficar se martirizando, acontece, todo mundo tem seus momentos.
– É, acho que você tem razão.
– Então tá, vou dormir agora. Beijos, Lauren, boa noite.
– Boa noite, Han. Obrigada por ter ligado.
– Nem precisa agradecer. Tchau.
– Tchau.
Desliguei o celular e fui dormir. Aconteceu muita coisa num dia só e eu precisava organizar meus pensamentos. Adormeci bem rápido, devido ao cansaço. Meus sonhos oscilaram entre jogos de vôlei, festas de aniversário e meu time ganhando o campeonato. Ao contrário do que parece, foram sonhos bem tranquilos e eu consegui ter uma ótima noite.
***
Acordei no sábado pela manhã com o despertador do celular. Me sentia bem disposta. Levantei, fiz minha higiene matinal e desci para esperar Jessie, que viria para desejar os parabéns pra minha mãe. Havia acabado de descer as escadas quando ouvi o som da campainha.
– Oi, Jessie! Tudo bem? Pode entrar.
– Bom dia, Han! Sua mãe já acordou?
– Ainda não, mas acho que ela não vai demorar muito. Ainda temos tempo pra arrumar tudo.
“Arrumar tudo” na verdade era arrumar a mesa para a cesta de café da manhã que a Jessie trouxe e colocar os pães de queijo que Louis tinha feito para assar. Depois que a mesa estava arrumada, ficamos na sala conversando enquanto esperávamos; o presente da minha mãe escondido atrás de uma almofada ao meu lado.
Ouvimos passos na escada e rapidamente nos levantamos, mas eram apenas meu padrasto e seu filho.
– Bom dia, meninas! – disse Louis, meu padrasto. Minha mãe se casou com ele há uns 11 anos, 2 anos após ela se separar do meu pai. No ano seguinte, eles tiveram um filho, Tom, que é um pestinha, mas eu amo ele.
– Bom dia Sr. Louis! Bom dia, Tom! Tudo bem? – respondeu Jessie.
– Bom dia! – eu disse. – Achei que fosse minha mãe. Ela já acordou?
– Já, ela está terminando de se arrumar. Sabe como ela é. – respondeu Louis.
Nesse momento minha mãe começou a descer. Começamos um coro de parabéns pra você e percebemos o rubor instantâneo em suas bochechas. Acabamos e ela parecia realmente emocionada. Não estava chorando, mas tinha lágrimas nos olhos, e ela não as deixaria cair. Minha mãe não é do tipo que chora, não na frente das pessoas, pelo menos.
Entregamos os presentes, que ela abria e agradecia, demonstrando ter gostado de todos. Disse que usaria o vestido que eu dei quando fosse me ver jogando a final do campeonato. Estávamos todos lá, conversando felizes, quando Tom disse:
– Vocês vão ficar só conversando? Eu tô morrendo de fome e quero comer os pães de queijo antes que esfriem.
Então, levantamos rindo e fomos para a cozinha tomar café da manhã.
– Jessie, obrigada por trazer a cesta de café da manhã, sem ela seria um café da manhã bem sem graça – Louis disse rindo.
– Mas o senhor que fez esses pães de queijo maravilhosos. Preciso pegar a receita.
– Lá no Brasil é uma receita bastante comum, mas ninguém nunca fez pães de queijo tão bons quanto minha vó. É uma receita de família, mas eu passo para você sem problemas.
Continuamos nosso café da manhã, e, quando acabamos, Jessie me ajudou a arrumar a cozinha enquanto Minha mãe, Louis e Tom iam para a sala assistir televisão. Quando terminamos, Jessie me disse que iria embora e fui com ela até a sala, onde ela se despediu de todos.
– Ei, Jessie, vamos naquele clube novo que abriu perto da escola essa noite? Tá todo mundo dizendo que é muito bom, mas nós não fomos lá ainda – convidei, depois de acompanha-la até a porta.
– Vamos sim! Tava mesmo querendo fazer alguma coisa hoje à noite. Passo aqui às 8:00, ok? Ou melhor, eu venho às 4:30, daí a gente estuda um pouco pra prova de biologia e depois nos arrumamos juntas, pode ser?
– Claro! Vou falar com o Ben e com a Lauren. Ah, falando na Lauren, liguei pra ela ontem à noite.
– O que ela disse? – Jessie parecia preocupada.
– Ela pediu desculpas, disse que está meio nervosa com o campeonato e acabou descontando na gente. Ela ficou preocupada, queria saber se você tinha ficado chateada com ela, mas falei pra ela não se preocupar com isso.
– Você acha que eu devo ir conversar com ela?
– Espera, acho que ela vai conversar com você. Se ela não for, você fala com ela lá no clube.
– Hm, tudo bem então. Mas não acredito muito nessa história de “estou nervosa por causa do campeonato”, pra mim tem alguma coisa por trás disso. Não é a primeira vez que ela fica estranha desse jeito.
– Eu também acho, Jes. Ela não era assim. Não sei o que está acontecendo.
– A gente precisa descobrir. Precisamos arrumar uma maneira de fazer ela falar.
– Exatamente. Seja lá o que for, nós vamos descobrir.
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