Última Dose de Felicidade
21 My Immortal
Notas iniciais
Caí sentada no sofá e fiquei lá por um tempo chorando, até que Lauren me ligou e disse que em meia hora passaria em casa para irmos ao ginásio. Só então me lembrei do jogo, e, enquanto secava as lágrimas e tentava não as deixar cair, me perguntei se eu estaria em condições de participar. Todas as vezes que pensava sobre isso, pensava sobre as palavras de Emma e de como ela estava certa. Eu precisava ir aquele jogo, se não por mim, por Jessie.
Tomei um banho rápido, vesti um conjunto de moletom no maior estilo “roupa de ficar em casa” possível, peguei minha bolsa e fui até a sala esperar por Lauren. Alguns minutos depois ela estava me chamando lá na porta, então eu peguei as chaves e saí. Louis levaria minha mãe e Tom mais tarde, pois ainda era muito cedo para que os torcedores chegassem. Cumprimentei-a com dois beijos na bochecha e ela me perguntou:
– Tudo bem?
– Me pergunte depois do jogo.
Entramos no carro e fomos boa parte do caminho em silêncio, até que Lauren o quebrou:
– Eu estava pensando seriamente em desistir do jogo.
– Eu também.
– E o que te fez mudar de ideia?
– Abre aspas a Jessie nunca ia querer que você desistisse fecha aspas, Emma me disse.
– Pelo menos para alguma coisa essa Emma serve – retrucou Lauren.
– Não fale assim dela!
– Tá. De qualquer forma ela está certa. Uma vez Jessie me disse para nunca desistir de meus sonhos. E isso não é só o meu sonho, ou o seu sonho. Isso é o nosso sonho.
Os olhos de Lauren estavam marejados e eu decidi terminar a conversa ali para não começarmos a chorar novamente. Não ia ser muito bom para a imagem do time duas jogadoras chegarem chorando, mesmo nós tendo um bom motivo para isso. Além de que era preciso nos focarmos no que realmente importava no momento.
Chegamos ao ginásio alguns minutos antes do combinado. O jogo seria às 20:30, mas o treinador havia pedido para que todas as jogadoras estivessem lá às 19:00.
Ficamos jogando conversa fora com as meninas do time. Todas estavam irradiando empolgação, menos Lauren e eu, mas ninguém tocava no assunto por um bem maior: a final. Eu não prestei muita atenção na conversa, mas não permiti que meus pensamentos vagueassem. Eu precisava me concentrar naquele momento. Aquele jogo era uma peça importantíssima para o meu futuro e a conquista do meu sonho, e eu não poderia estragar tudo.
Jessie era titular o time e o treinador tivera que substituir ela de última hora. Lauren e eu também éramos titulares, então se você considerar que a nova jogadora titular ainda não havia pego o ritmo do time e eu e Lauren o havíamos perdido, nosso time estava apenas com três jogadoras.
Rob chegou e nos colocou na quadra para aquecermos. Ele percebeu que, apesar dos esforços, Lauren e eu ainda estávamos meio desfocadas em relação ao grupo, e veio conversar conosco. Disse que entendia o que estávamos passando e sentia muito por isso, ninguém no mundo deveria passar por essa situação, mas nós havíamos nos esforçado muito para chegar até ali, todos nós. Não poderíamos nos deixar abalar àquela altura. Nós concordamos, pois tudo aquilo era verdade, e prometemos dar o nosso melhor para aquele jogo.
Faltando alguns minutos para o início do jogo, peguei minha garrafa de água para me reidratar e aproveitei essa pausa para olhar em volta. As arquibancadas estavam cheias, e eu nem havia notado quando os torcedores começaram a entrar. Olhando mais atentamente, pude ver Minha mãe, Louis, Tom e mais alguns parentes em uma das fileiras. Eles também me viram e acenaram freneticamente, então eu sorri e dei um leve aceno em retribuição.
Observei o time adversário, se aquecendo do outro lado da quadra. Pareciam apenas garotas normais, mas eu sabia que elas eram jogadoras exímias e que teria de tomar cuidado com elas.
O jogo estava para começar, então guardei minha garrafa de água, respirei fundo algumas vezes para me concentrar, afastei todos os pensamentos negativos de minha mente e, tocando o pingente em meu pescoço, murmurei, antes de entrar em quadra:
– Por Jessie.
Me lembro muito bem daquele jogo. Me lembro de vários detalhes, da torcida vibrando a cada lance, do movimento do juiz ao levar o apito à boca, dos treinadores estimulando os times. Me lembro de, em algum momento, procurar Jessie com os olhos, até me dar conta de que isso era em vão. Me lembro de sua voz, constantemente em minha cabeça, dizendo “Vamos, Hanna, eu confio em você. Eu sei que você consegue”.
Me lembro de tudo isso, e me lembro de que, mesmo com todos os esforços, com todo o preparo, com toda nossa confiança, com todo o apoio que tínhamos, o outro time nos venceu, por 3 sets a 1.
Quando paro para me recordar daquele jogo, sempre penso em como aquilo tudo foi injusto. Não estou querendo dizer que o time delas não era bom o suficiente, mas o jogo em si foi injusto. Foi injusto comigo e com Lauren, pois tudo ainda estava tão recente e ninguém pode nos culpar por não lidar bem com o sentimento de perda. Foi injusto com nosso time, que era bom e tinha capacidade de ganhar, mas perdeu pela fraqueza emocional de duas jogadoras. Foi injusto com as jogadoras que ficaram no banco, pois apesar de não serem titulares, estavam em melhores condições psicológicas de jogar e poderiam ter feito um trabalho melhor. Foi injusto com a torcida, com a minha família e a de outras jogadoras também, que foram ali depositar toda sua confiança em nós.
Foi um jogo injusto, mas ninguém nunca disse que a vida seria justa.
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