Capítulo XII: Pela manhã...

Eu nem vejo a manhã seguinte chegar direito. Em um estado grogue de sono, meio acordado meio dormindo, me remexo molemente na cama apenas para perceber que estou sozinho. Com alguma dificuldade, pela súbita claridade do meu quarto, pisco devagar os olhos e faço o máximo para abri-los por completo, os sentindo pesados e ligeiramente inchados. Solto um grunhido quase imperceptível, ainda com a cara parcialmente enterrada no travesseiro, e, ali, um cheiro bem característico vem me dar bom dia: o cheiro de Dougie.

Esquisito ou não, eu simplesmente passo algum tempo com o rosto descansado sobre o travesseiro, quieto, quase imóvel. Um pouco mais desperto, posso escutar vagamente, no fundo da minha cabeça, algumas vozes altas no andar de baixo de casa e a gargalhada inconfundível de Chaz.

Isso me faz me erguer da cama. Se até mesmo Chaz já está acordado, deve ser no mínimo onze horas da manhã.

Os meus pés demoram um pouco para caminharem no ritmo apressado que eu quero, já que a minha mente aparentemente ainda não está desperta por completo. Tropeçando em algumas peças de roupa aleatórias jogadas pelo chão, eu caminho para fora do quarto meio vacilante, desejando piamente não me embolar nos degraus da escada e acabar morrendo com uma rachadura na cabeça no final das contas.

Posso distinguir com alguma dificuldade as vozes de Chaz, Kara, Dougie e Andi. Tateando os meus lados para manter o que me resta do meu pobre equilíbrio (afinal, eu nunca havia dormido tão mal como a noite passada), me arrasto até a cozinha, de onde sei que as vozes barulhentas vêm.

"Desculpa, acordamos você?", é a primeira coisa que escuto no momento em que ponho meus pés na cozinha, olhando em volta à procura da dona da voz irônica com que me é feita a pergunta.

Kara está sentada sobre a bancada ao lado da pia, segurando um copo d'água entre as mãos enquanto me oferece um sorriso ordinário no rosto. Os seus cabelos estão presos em uma trança castanha e azul e, novamente, as roupas que veste são curtas demais na minha opinião (desde quando pedaços de panos viraram roupas?), mas simplesmente não comento nada sobre.

"Claro que não, eu estava acordado há muito tempo, já", respondo no mesmo tom irônico de voz, rondando com os olhos inchados de sono pela cozinha à procura dos outros.

Chaz está sentado à mesa com um pacote de salgadinhos por perto, mastigando de boca aberta, os seus pés com as meias por cima do assento de outra cadeira e as pernas consequentemente esticadas. Ele está me olhando curioso por entre o cabelo também castanho, bagunçado, parcialmente coberto por uma touca remendada (bem provavelmente feita por mamãe). O único som que faz é o barulho dos seus dentes quebrando os salgadinhos em milhares de pedaços, os quais eu infelizmente consigo ver triturados do lugar que estou parado.

Dougie e Andi, que antes aparentemente estavam engatados em alguma conversa muito interessante, estão sentados do outro lado da mesa, oposto a Chaz, e me olham da mesma maneira curiosa que meu irmão. Andi me sorri cheia de doçura e se ergue, deixando um Dougie estranhamente quieto para trás enquanto se aproxima de mim.

"Bom dia, dorminhoco", ela diz divertida, pinçando a ponta do meu nariz com o polegar e o indicador enquanto me oferece um sorriso brilhante.

"Ei, An", eu respondo ainda meio grogue e perdido de sono, me inclinando para frente para lhe beijar a boca rapidamente. "Bafo, é melhor você nã–"

"Eu não me importo, sabe disso", é o que eu escuto vagamente antes de me ver envolto em um beijo meio complicado demais para mim (pelo menos, nesse horário da manhã).

Eu me sinto estranho de alguma maneira, mesmo com os braços molemente em torno da cintura de Andi, sabendo que Kara, Chaz e Dougie provavelmente estão nos observando. Nunca gostei de demonstrações de afeto em público, mas também nunca me importei muito em fazê-lo com Andi. Mas, estranhamente, nesse instante, a única coisa que penso é de me desgrudar o mais rápido possível dela, porque a sensação estranha caída sobre o meu estômago está quase insuportável.

"Ah, arranjem um quarto, vocês dois...", é a voz debochada de Chaz que nos faz separar um do outro.

Depois de finalmente retirar a língua da garganta de Andi, incrivelmente parecendo mais perdido do que antes, eu olho em volta para constar que de fato os outros três estão ainda nos observando com sorrisos sacanas – da parte de Chaz e Kara – e um par de olhos confusos – da parte de Dougie. Eu decido então simplesmente ignorar os sorrisos e olhares irritantes.

"É, foi mal...", comento mal humorado enquanto me sento também à mesa ao lado de Chaz para lhe roubar os salgadinhos. Com a boca cheia, continuo, passando o olhar de Dougie e Andi para Kara. "Então... Qual é o assunto tão interessante que estava rendendo tantas risadas assim?"

"A gente estava conversando sobre o tempo em que você e Dougie estudavam juntos", é Kara quem me responde. Ela deixa o copo d'água ao lado da pia e ajeita um pouco dos cabelos atrás das orelhas. "Da vez em que você quis matar aula e voltou para casa de braço engessado."

"Ah, é, eu me lembro disso...", eu respondo logo em seguida, inconscientemente esticando um sorriso pelo rosto. "Os caras foram para a pista de skate e eu fui junto, acabei levando um tombo épico e desloquei o punho na batida. Devo ter alguma cicatriz ainda...", comento meio bobo enquanto procuro pelo meu próprio braço direito por alguma marca ou cicatriz do tombo.

"Porque você não tem quase nenhuma cicatriz mesmo...", Andi diz e eu quase posso senti-la revirando os olhos.

"Não são tantas assim, An."

"Você tem aquela nas costelas por ter quebrado três delas quando a gente foi esquiar..."

"Ah!", Chaz exclama e começa a rir, quase se engasgando com os seus salgadinhos. "Tem uma enorme nas costas de quando a gente brincava de luta e você caiu em cima da mesa de vidro da sala, eu me lembro disso. Tinha pouco mais de 15 anos e já ganhava de você, maricas."

"Tem também a queimadura na perna de escapamento da moto...", é a vez de Kara de dizer, finalmente pulando na bancada, ainda com um sorriso ordinário no rosto.

"Ei! Me ajude aqui, Poynter!", eu reclamo meio rindo e ele apenas revira os olhos, com um sorriso tímido esticado pelos cantos da boca. "Mas a queimadura foi por causa do Charlie, a moto era dele."

"Ah, Charlie! Falando nele... A mamãe teve a infelicidade de encontrar a mãe dele no supermercado um dia desses", Kara resmunga. "E adivinhe? Nem preciso dizer, né, é bem provável que ele e a família venham para cá hoje à noite."

"Para a festa? Mamãe convidou o Charlie?", eu repito meio incrédulo, fazendo as contas involuntariamente dentro da minha cabeça de quanto tempo não o vejo.

"Infelizmente...", Kara resmunga mais uma vez.

"Quem é Charlie? Era do colégio também?", Dougie pergunta, coçando a lateral do pescoço, meio confuso. "Não me lembro dele..."

"Era sim, Charlie Simpson", Chaz estica um pouco mais as pernas sobre a cadeira ao seu lado antes de oferecer à Kara um sorriso sacana. "Um moleque que vivia dando em cima da Kara, meio loiro, alto, burro feito uma porta."

"Você realmente não pode deixar passar nada...", Kara resmunga mais uma vez enquanto Andi ri e eu começo a querer gargalhar. "Mas, se quer saber, ele dava em cima de qualquer coisa que andasse sobre duas pernas, então..."

"E o pior é que ele sempre conseguia qualquer garota que quisesse...", eu digo meio aéreo, nem ao menos percebendo o que estou dizendo de fato enquanto Kara resmunga ao fundo um irritado 'mas eu não!'. "Como, eu não faço a mínima ideia."

"Ameaçado, Haz?", ouço Chaz me provocar, debochado.

"Não. Sem querer me gabar, mas posso dizer que tinha lá as minhas garotas, também", digo presunçoso e logo Andi me cutuca forte as costelas com o cotovelo.

Por um instante, enquanto rio e tento me desviar das investidas de Andi, passo os olhos rapidamente em torno de mim mesmo à procura de Dougie. Ele se mantém sentado meio afastado, observando tanto Kara e Chaz começarem a discutir sobre Charlie Simpson quanto eu e Andi. Algo na sua expressão facial me diz que ele está desconfortável com algo e é somente quando ele finalmente vira seus olhos para mim que eu me deixo ser golpeado no braço por Andi, num murro particularmente forte e pesado.

"Au, vai me aleijar dessa maneira", reclamo com um sorriso bobo no rosto enquanto me ergo e me afasto de Andi com alguma pressa. "Ei, cadê os pais, aliás? E o Leo?"

"Você só percebeu que eles não estão aqui agora?", Kara ergue uma das sobrancelhas, descrente.

"Bom... Sim, oras! O meu desenvolvimento cerebral é lento pela manhã."

"...São quase meio-dia", Chaz comenta enquanto ouço distante Kara bufar um contundente 'incrível!'.

"Manhã!", rebato como se aquilo fosse a coisa mais óbvia de todo o mundo. "Sério, cara, onde eles foram?"

"Fazer alguma coisa na cidade, comprar umas coisas que estavam faltando pra festa... Sei lá. Algo assim", Chaz me responde e sorri forçado.

"E Leo disse que precisava ajeitar um problema que deu na firma", Kara completa.

"Mas... Hoje é sábado!", eu digo como se aquilo fosse uma obviedade. Kara apenas dá de ombros e rola os olhos, acostumada, assim como todo o resto da família, à preocupação profissional exagerada de Leo. "Ele vai acabar surtando ainda um dia desses com tanto trabalho nas costas... Kay, você vai ficar encarregada do nosso almoço, então."

Kara simplesmente bufa alguma coisa, tentando esconder um sorriso, enquanto se vira para a pia para começar a preparar nosso almoço. Chaz também se ergue e logo Dougie está fazendo o mesmo, atraindo o meu olhar, assim como o de Andi. Ela ensaia abrir a boca para dizer algo, mas simplesmente comenta, sem precisar de fato de alguma pergunta.

"Vou subir um pouco, tomar um banho, arrumar minhas coisas...", ele explica e a única coisa que consigo pensar é no porquê de ele estar mentindo dessa maneira para ficar sozinho. Claro, eu não o conheço perfeitamente bem, mas acho que sei saber quando ele está mentindo ou não.

Andi, no entanto, não parece perceber qualquer mudança no humor de Dougie, apenas concordando com a cabeça e lhe oferecendo um sorriso compreensivo antes de ir ajudar Kara com o almoço. Eu fico o olhando por mais um tempo, de sobrancelhas franzidas, esperando que ele simplesmente me diga algo, mas nada acontece. Com um muxoxo sem muito sentido, ele se despede e se afasta até desaparecer do meu campo visual.

Eu fico feito um babaca parado no meio da cozinha até Andi me gritar algo, entre gargalhadas, me chamando para ajudá-la com o almoço também.