Ônix
10 Capítulo IX - Curse
Notas iniciais
Capítulo IX — Curse
De tudo o que eu havia ouvido nos últimos dias, que mais me pareciam como semanas, longas e torturantes, Tatia ousava me contar toda uma historia digna de um prêmio em Cannes ou até mesmo um Oscar de melhor Roteiro dramático para, no fim, dizer que me abandonou, mas que sou sua família e que deveria ir com ela para sabe-se lá onde?
Por favor, quem ela pensava que eu era? Uma criança desesperada por atenção?
Será que seria insanidade de mais dar um soco nela?
—Liah, você precisa vir comigo – Tatia parecia a ponto de implorar, seria interessante, considerando que naquele exato momento a única coisa que ainda me mantinha naquela sala era o fato de a historia ainda não parecer ter terminado – se não... A maldição vai retornar.
—A maldição? – meu ceticismo estava evidente em meus braços cruzados, o sarcasmo em minha voz e minha expressão fácil, espero que ela tenha entendido – não me diga que vou espetar meu dedo em algo afiado e dormir por mais mil anos?
Ouvi meus pais, ou melhor, meus pais adotivos, segurarem a respiração, desviei meu olhar em sua direção e notei que eles a fitavam, esperando sua reação, quase como se temessem o que ela faria.
Era quase como se esperassem que eu fosse atacada, mas para alguém que soava tão desesperada como ela para que eu a seguisse, não creio que me machucar seria o melhor movimento a se fazer.
—Liah, o círculo de bruxas que te amaldiçoou estava verdadeiramente disposto a impedir que Klaus usasse você – Tatia se sentou novamente, parecendo quase a ponto de desistir – eles tinham algo como uma trava de segurança. Enquanto alguma cópia estivesse viva, seria possível te trazer de volta, mas assim que ela morresse...
—Quer dizer que existe outra cópia viva? – a pergunta foi automática, quantas de nós não deveriam existir ao redor do mundo?
—Não mais – Tatia me olhou, um desespero crescente parecia toma-la e não conseguia manter minha pose cética por muito mais tempo, ela parecia verdadeiramente assustada, apenas não sabia exatamente com o que – ela foi transformada em vampira, então é apenas uma questão de tempo até que você volte a estar sob o efeito da maldição.
—Quanto tempo? – era uma pergunta inevitável, mesmo que eu não soubesse exatamente se queria ou não saber da resposta.
—Provavelmente em seu aniversário, esse tipo de feitiço precisa de datas específicas ou acontecimentos de importância – ela soou cansada pela primeira vez naquele longo dia, mas ainda assim, algo em sua voz, na maneira como explicou, parecia apenas fora de lugar, errada.
Me virei irritada, então, além de perde meus pais, ser amaldiçoada a ficar congelada no tempo durante mil anos, ser abandonada por minha adorável tia, a qual era uma cópia assim como eu, ainda estava fadada a voltar a, digamos, hibernar até o nascimento de outra cópia?
Era simplesmente demais para mim.
Sai da sala sem pensar, apenas deixando todos para trás, seus olhares me seguiram enquanto eu sumia pelo arco da porta em direção as escadas, simplesmente não aguentaria ouvir nenhuma outra palavra.
Amaldiçoada. Era só o que me faltava mesmo.
Passei a noite acordada, sem conseguir fechar os olhos por mais do que alguns minutos, os pensamentos inundando minha mente, todas as palavras ressoando no silêncio do quarto, quase como um aviso de que, nada mais seria como antes.
Suspirei cansada, porque não poderia ser apenas uma adolescente comum, com dramas comuns, preocupada com as provas finais e a formatura. Não com genes de lobisomem e essa maldição sem sentido que me parecia como um conto de fadas da Disney.
Talvez devesse vender minha história de vida para a próxima animação deles, pelo menos ficaria rica para quando voltasse a acordar, se eu voltasse.
Estava tão dispersa em meus pensamentos que nem me dei conta de como o tempo havia passado rápido, até o momento em que meu celular despertou e tive de tomar a difícil decisão de ir ou não a escola, meu estomago reclamou me lembrando que não comia nada a muito tempo.
Sempre odiei acordar cedo e ser obrigada a ouvir os professores falando sobre coisas que provavelmente não iriamos usar em nosso futuro, sempre tão entediante e monótono. Mas ainda assim eu conseguia ser uma das melhores alunas da turma.
Como? Sinceramente não tenho a mínima ideia.
Mas agora era tudo era diferente, até mesmo ouvir os professores falando durante horas parecia extremamente atraente, considerando é claro que a outra opção era encarar a realidade da minha vida.
Meu aniversario seria em quatro meses, então esse era o tempo que me restava. Não tinha a mínima ideia do que fazer dele.
Mesmo correndo o risco de uma nova aparição sobrenatural me encontrar, sai da cama e me arrumei com mais preguiça que o normal para enfrentar um dia na escola.
A casa estava vazia e agradeci por isso, achei um bilhete de desculpas no balcão e meu café da manhã preparado como sempre, comi o dobro que de costume, ignorando o bilhete.
Meu psicológico não saberia lidar com nada assim tão cedo.
Saí antes do que de costume, tanto que recebi a mensagem da Nanda perguntando se eu iria hoje quando já estava chegando ao estacionamento.
O ar gelado da manhã batia contra meu rosto, mas eu o ignorava, andei o tempo todo de cabeça baixa, tentando me manter aquecida, a temperatura havia caído muito pela noite, arrumei a touca agradecendo mentalmente por ter pego uma.
Não sei exatamente como descrever a escola, um pouco aterrorizante e muito mais calma do que devia, alguns alunos já estavam ali e se encarregavam da decoração para o Halloween, o que estava tornando o ambiente sinistro, alguma coisa estava levando os enfeites normalmente simples, a adquirissem uma aparência levemente macabra.
Depois de tudo o que havia acontecido apenas essa semana, como alguém poderia pensar em decorar a escola para um feriado dedicado ao sobrenatural?
Revirei os olhos, eu já havia tido sobrenatural de mais por toda uma vida.
Passei de cabeça baixa até meu armário, evitando chamar atenção para mim, por mais que todos parecessem mais dispostos a se concentrar em seus afazeres próprios, eu apenas não queria ser obrigada a conversar.
O silêncio estava realmente atrativo para esse dia.
Peguei meus livros e fui discretamente para a sala, haviam poucas pessoas hoje, todos pareciam distraídos e distantes. Nanda entrou pouco tempo depois e se sentou ao meu lado, como sempre, me lançando um olhar de quem queria saber o que estava acontecendo.
Odiava o fato de ela me conhecer tão bem. Era impossível guardar qualquer segredo dela.
—Liah comece a falar — ela falou um pouco baixo, evitando chamar atenção, mas com um tom claro de quem não aceitaria um "não e nada" como resposta.
—Não agora – o professor entrou na sala antes mesmo que ela pudesse pensar em um xingamento e eu quase sai de meu lugar para abraça-lo.
Foi um alívio não ser obrigada a falar agora. Precisava de mais tempo para processar tudo aquilo.
As aulas passaram calmamente, tentei meu máximo não pensar em nada que não fosse as aulas, o que me fez focar no que os professores falavam, acho que foi o dia em que mais prestei atenção nas aulas em toda minha vida.
Mas como em algum momento eu seria obrigada a enfrentar a Nanda, o intervalo chegou rapidamente e em todo o caminho até o pátio, onde ela me arrastava para algum lugar mais isolado, tentei pensar em algumas desculpas para tirar seu foco do que realmente importava sem ser obrigada a mentir.
—Estou esperando – minha melhor amiga se sentou em um uma das mesas de piquenique do pátio, que se encontrava completamente vazio, os outros estudantes pareciam preferir a cafeteria graças ao clima mais frio.
Nem todos sabiam apreciar o inverno.
—Eu e o Erick brigamos de novo — falei a única verdade que vinha a minha mente — ele acha que sou obrigada a contar tudo a ele.
—O que ele quer que você conte? – Nanda questionou verdadeiramente curiosa.
Não era exatamente esse o foco que ela deveria seguir.
—Absolutamente tudo – soltei a frase mais ampla que consegui, mas eu sabia que não surtiria o efeito esperado, ela era inteligente de mais para cair em algo assim.
—O que você não está contando?
—Muita coisa – minha voz soou baixa, mas ainda assim ela escutou, estava cansada de mentir, de inventar historias e de ser obrigada a pensar em cada uma de minhas palavras.
Estava cansada de tudo aquilo.
—Como assim? L. o que você não está contando para nós dois?
—Nanda eu não posso falar...
Seus olhos escuros me fitaram verdadeiramente confusos, Nanda havia entendido em minhas palavras que não era algo simples, ela sabia que eu não poderia mesmo falar, não era por não querer dizer nada. Ela me conhecia bem o suficiente para entender minhas motivações sem nem mesmo precisar deixa-las evidentes.
—É por causa da Rachel, não é? Depois daquele dia você só foi ficando mais estranha – ela me fitava esperançosa, desviei o olhar sem conseguir sustenta-lo – e a palavra escrita na lousa.
—Nanda...
—E também tem algo relacionado a seu irmão, eu sei que você acha que ele está vivo – fui obrigada a voltar a meu olhar em sua direção, ela estava simplesmente colocando todas as peças juntas sem que eu precisasse dizer uma única palavra — Eu estou certa, não estou?
—Sim, mas...
—Mas nada Liah, eu sou sua melhor amiga, sua irmã – ela pegou minha mão por cima da mesa e me fitou de forma confiante, senti vontade de abraça-la naquele instante – pode me contar qualquer coisa.
—Eu sei, me mata não poder dizer nada – minha voz saiu quebrada, era de mais para mim, tudo aquilo me fazia sufocar e não sabia como me livrar daquele peso – não posso te jogar no meio dessa bagunça também.
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