Órion
8 The Beach
Notas iniciais
Órion, 26 de fevereiro de 2216
Acordo em um quarto bagunçado e em uma cama mais bagunçada ainda. O cheiro de Werner está em todo o lugar e em todo o meu corpo. O observo dormindo ao meu lado, os braços com músculos bem definidos cruzados em frente ao seu corpo.
Assim que me levanto o garoto acorda, parece assustado de inicio, mas logo seu corpo relaxa e eu o vejo sorrir.
—Tarde demais para você trazer as suas coisas para cá e dividirmos o quarto? —O observo em silêncio enquanto me levanto e tento procurar algo para vestir. —Ou talvez só ficarmos aqui o dia inteiro?
—Sua família vai embora hoje, você não quer se despedir deles? —O garoto balança a cabeça negativamente, mas logo está de pé. Me joga a sua camisa e sorri.
—Talvez você devesse deixar pelo menos algumas peças de roupas aqui. —Deixo uma risada fraca escapar enquanto visto a sua camisa.
Ir até a porta que separa nossos quartos parece um desafio, então, vou com passos rápidos o suficiente para não ter a chance de mudar de ideia.
Estou sentada na grande sala de reuniões, esperando que todo o conselho chegue. Os dedos de Werner estão apoiados levemente em meu ombro, o polegar traçando círculos em minha pele.
Convido-o a se sentar, mas ele recusa e continua em seu costumeiro lugar. Quando todos chegam e se posicionam em seu local, uma onda de inquietação passa na sala. Os papeis sendo folheados e conversas paralelas. Me levanto e vejo todos os olhares cravados em mim.
—Ótimo. —O único som da sala, além de minha voz, é a respiração aliviada dos membros do conselho. Me sento novamente e observo cada um. —Comecem.
—O rei de Aslaria se recusa a vir até a senhorita… senhora. Ele pede para que Vossa Majestade entenda que seu país está em uma situação muito complicada, com as guerras entre Astrus e Obria perto demais, ele diz que não pode abandonar o seu povo em uma situação como essa. —A sala fica em absoluto silêncio enquanto penso.
—Ele mencionou algo sobre os boatos da aliança entre Aslaria e Etros? —Mais silêncio.
—Não, Vossa Majestade. —Respiro fundo e balanço a cabeça negativamente, indignada com a situação.
—Faça-o falar, e fale com os nossos aliados e informantes, até saber muito bem o que anda acontecendo entre os dois, não haverá reunião alguma. —Vejo-o concordar com um aceno de cabeça enquanto faz anotações em sua agenda.
—Mais algo? —Tento esconder o quanto a minha cabeça parece doer e o quanto o sono parece dominar cada centímetro de meu corpo.
—Há mais boatos, Vossa Majestade. —É senhora Sears que está falando agora, há algo em sua expressão que me faz saber que, sejo o que for, é preocupante. —Estão dizendo que os rebeldes de Etros chegaram a nosso país. —Não consigo esconder a minha surpresa, os rebeldes mataram os meus pais e agora estão de volta, a mão de Werner segura com mais firmeza o meu ombro, o que faz com que eu me recomponha.
—Já houveram ataques? Qualquer coisa que indique que os boatos são verdadeiros? —Minha voz sai mais firme do que eu esperava, posso vê-la me olhar, desanimada.
—Houveram alguns ataques, mas nenhuma morte. Não há como saber se foram mesmo os rebeldes, mas há sempre a possibilidade. —Fico em silêncio. —Os guardas relataram que há algumas pessoas agindo de forma muito estranha ultimamente, mas nada que parecesse preocupante, não até descobrirmos sobre os boatos.
—O que Vossa Majestade irá fazer? —É Werner quem me pede, está em posição e pronto para seguir as minhas ordens.
—Aumente a segurança nas ruas, se for preciso, tire alguns soldados aqui do palácio. —Ele está prestes a protestar, mas não o faz. —Selecione alguns deles, que sejam de sua mais absoluta confiança, para buscarem informações mais precisas e interrogar as vitimas. —Respiro fundo. —Recrutaremos mais alguns jovens, de dezoito a vinte e dois anos, para o nosso exercito, mas apenas os que realmente querem, não forçaremos ninguém a entrar. —Libero Werner, que parece não gostar da ideia de me deixar sozinha. —Mais alguma informação que possa ser útil? —Silêncio. —Algum conselho?
—Talvez não seja a melhor ideia abaixar as defesas do castelo, a senhora deve pensar nas consequências que esse ato pode causar. —Emmett fala, ouço mais alguns murmúrios em concordância, até mesmo senhora Sears parece concordar.
—Eu jurei que sempre faria o melhor para o meu povo, não posso ficar trancada em uma fortaleza observando enquanto todos morrem ou se machucam. —Há mais algumas discussões.
—Não será nada bom para eles perderem uma rainha. —Apenas me levanto.
—Eles não irão perder a rainha, além de ter cinco guardas apenas dedicados a mim, eu ainda posso contar com as minhas habilidades. —Nenhum deles parece muito animado, mas não discutem. —Terminamos por hoje.
Werner parece exausto deitado em minha cama, seus olhos estão quase se fechando e a voz é mais fraca que o comum. O observo sentada em minha poltrona, sinto que pareço quase tão exausta quanto ele.
—Minha mãe me mandou uma carta hoje, meu pai está muito perto de ter um ataque de ansiedade, parece que ficou sabendo sobre os rebeldes. —Me afundo na poltrona. —Ele quer voltar para o castelo. Voltar como guarda real. Minha mãe acha que ele ainda se sente culpado pelo que aconteceu.
—Mas ele nem estava no castelo, o que poderia ter feito? —O garoto se levanta e me encara, os olhos tristes.
—Exato. —Werner caminha até mim. —Mas na cabeça dele, ele não estava aqui para protegê-la, e é isso que o mais deixa furioso.
Prendo a respiração quando o vejo parar em minha frente e beijar delicadamente a minha testa, quero pedir para que ele fique comigo, mas nenhuma palavra sai.
—Boa noite, Naomi.
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