Órion
5 Hey Angel
Notas iniciais
—Com todo o respeito, senhorita, essa me parece uma ideia péssima, sem contar que um casamento entre nações seria algo que favoreceria todos nós. —Antes que eu possa falar algo, a senhora Sears o interrompe.
—A vida dela não é um objeto de troca, ela não será usada desse jeito. —Sinto a minha gratidão pela mulher crescer. —Se ela se casasse para fazer uma aliança, logo não teria controle nem sobre o próprio país. E ainda mais, se ela quer casar com o garoto, deixe-a, a rainha tem razão em muitos sentidos, eu duvido que ela acharia um pretendente melhor. —Vejo-a piscar para mim.
—Não podemos manter um casamento em segredo, o povo pode ficar revoltado quando descobrir. —Essa deve ser a primeira vez que Sean fala, ele é o mais novo dos conselheiros, mesmo que isso signifique que ele deva estar com quase quarenta.
—E se contarmos, os dois poderão morrer antes de nos dar um herdeiro, se o casamento acontecer, deve ser em segredo.
—Esse casamento não pode acontecer, uma herdeira com um guarda? Não me parece uma boa ideia.
—Ah! Cale a boca, Emmett. —Olho surpresa para a senhora Sears, e deixo escapar uma risada fraca quando ela ergue os dedões e faz sinal de positivo para mim.
—O casamento acontecerá, no sábado. —Senhora Sears dá gritinhos animados, mas a maioria dá sala parece protestar. —Será algo bem pequeno, e todos estão convidados a comparecer, até lá, só quero que as reuniões sejam feitas para tratar de assuntos realmente importantes.
Me despeço de todos e me retiro da sala, sou recebida por Werner, que, eu percebo, está se esforçando muito para permanecer parado, seus olhos estão em um tom impressionante de azul, mais escuro do que nunca.
—A maioria não aprovou a ideia, mas a senhora Sears deu o maior apoio. —Os ombros do garoto estão muito tensos, decido que dar uma volta no castelo é o melhor para ele agora. —Mas não é como se realmente importasse, eles me dão conselhos, eu opto por segui-los ou não. Na verdade, geralmente eu presto mais atenção no que você acha.
—Como você sabe o que eu acho?
—É fácil, depois de um tempo convivendo com você, se torna fácil saber o que você pensa das coisas, por exemplo, quando está incomodado ou não gosta da situação de algo, você costuma ficar tenso demais, a postura correta e o corpo pronto para atacar. E quando você gosta de algo, você fica mais a vontade, não perde a postura, mas fica mais relaxado e tranquilo.
—Alguém andou prestando muita atenção em mim. —Quando vejo o sorriso convencido dele, resolvo fingir que não o escutei.
—Por exemplo, quando o príncipe sugeriu o casamento, você parecia que ia pegar a sua faca e perfurá-lo repetidas vezes. Boa forma de dizer que não aprova algo, embora agora eu veja que essa decisão não foi totalmente impessoal.
Ele resmunga algo, provavelmente negando que tinha agido daquela forma e tudo o que eu posso fazer é dar risada.
—Eu sempre soube que um dia vocês acabariam juntos! —Sinto meu corpo inteiro estremecer, minhas bochechas ficam extremamente vermelhas, só não mais do que as de Werner. Antes que possa me recuperar, senhora Sears já está nos abraçando, tento não mostrar o quanto isso me deixa desconfortável e dou um sorriso falso para a pequena, mas forte, mulher. —Eu me lembro que, na primeira vez que visitei o castelo vi vocês dois treinando juntos, deviam ter uns dez anos…
—Onze, na verdade. —A corrijo, mas ela parece não prestar atenção.
—A conexão entre os dois… —A senhora suspira. —Quando comentei com o meu marido, ele disse que era uma ideia estupida, mas olha os dois agora, tão bonitinhos.
Olho para Werner, que parece ter levado um susto, e para a mulher a minha frente, ela não mudou muito desde a sua primeira visita, tirando o fato de que agora, há mais fios prateados em seu cabelo do que castanho, e as rugas ao redor dos pequenos olhos escuros terem aumentado consideravelmente. Me pergunto com quantos anos ela deve estar agora, talvez cinquenta?
—É uma pena que eu tenha que ir agora, meu marido já deve estar impaciente em seu carro. —Ela dá um sorriso amigável para mim. —Eu só queria que vocês dois soubessem que sempre tiveram, e sempre terão, meu apoio.
E então sai com passos animados, assim que ela se afasta posso ouvir a risada aliviada de Werner, e, como se fosse algo contagioso, começo a rir também. Sinto que um peso enorme sai de meus ombros, mesmo não sendo tão próxima, senhora Sears é uma das únicas que nunca pareceu me ver como a rainha, e apenas isso, o seu apoio se torna mais importante do que eu imaginava.
●●●
Na sexta a família de Werner chega, seu irmão não parece muito animado, mas a sua irmãzinha não consegue ficar mais de cinco minutos sem suspirar ou dar um gritinho animado. Tento parecer o mais calma possível quando sua mãe vem em minha direção e, depois de uma reverencia, me abraça. Faço o possível para esconder o quanto isso me apavora, mas, pela risada fraca de seu pai, posso perceber que não fiz um bom trabalho.
—Sua mãe também não era muito boa com contato físico. —O comentário faz com que meu coração bata mais devagar por alguns instantes. Darrel não era apenas o guarda real de minha mãe, mas também uma das pessoas mais próximas a ela. —Como você está, Naomi?
Apenas dou de ombros e o vejo sorrir, desde pequena, sempre apreciei a companhia de Darrel, que era a única pessoa capaz de me acalmar depois da morte de meus pais, e, quando ele coloca a sua mão em meu ombro, sinto todo o nervosismo ir embora e consigo sorrir, de verdade.
—Mostrarei a vocês os quartos em que ficarão hospedados, há vestidos em seus quartos e costureiras disponíveis para qualquer ajuste que for preciso. —Os olhos de Millie, a irmã de Werner, brilham de animação. —Você gostaria de vir comigo? —A garotinha parece confusa, como se não tivesse certeza de que o convite era para ela. —Eu poderia lhe mostrar os meus vestidos, e, caso você goste de algum deles, poderia pedir para que façam um em especial para você.
Millie balança a cabeça positivamente tão rápido que eu me pergunto como ela não fica tonta, mas logo, corre e abraça as minhas pernas.
—Posso ver o seu vestido de noiva? —Quando balanço a cabeça positivamente, lagrimas se formam nos seus olhos grandes e azuis, parecidos demais com os de seu irmão, e sorri.
—Qualquer coisa que precisarem, eu tenho certeza que as criadas ficarão felizes em realizar, mas, caso seja um assunto que deva ser tratado justamente por mim, meu quarto fica no final do corredor.
Millie anda o caminho todo de boca aberta, essa é a primeira vez que ela visita o castelo, e até as flores a deixam impressionada.
Assim que abro a porta para o meu quarto, a vejo prender a respiração, ela não se meche, apenas observa e, depois de um bom tempo, sorri.
—Vossa Majestade, quem é essa bela senhorita ao seu lado? —Millie balança os cabelos loiros e cacheados, confiante.
—Meu nome é Emillie Stela Callahan, prazer em conhecê-la. —Sorrio orgulhosa, a garota se comporta como se houvesse sido criada no castelo.
—Ela veio escolher um modelo de vestido para usar amanhã. —Embora possa sentir a agitação da garota ao meu lado, ela continua controlada. —A senhorita poderia nos dar umas dicas de que vestido ficaria melhor quando adaptado para uma garota de sete anos. —A criada parece honrada pelo pedido, mas não tanto quanto Millie, que parece animada pelo simples fato de eu saber a sua idade.
Logo estamos com uma pilha de vestidos em cima da cama, Emillie faz com que cada novo vestido mostrado a ela, se torne o seu favorito, até que, depois de analisar praticamente todos, finalmente o escolhe.
—Vai ficar tão lindo em você. —Ouço Jeanne falar e concordo com ela, o tom azul realça os olhos da garota, e, já posso imaginá-la na igreja com ele. Millie parecerá uma princesa, o que eu tenho certeza, é a sua intenção. —Poderemos prender o seu cabelo em um coque e deixar alguns desses cachos soltos, eu já estou até vendo. —Suspiro junto com elas só de imaginar. —Agora eu só preciso tirar as suas medidas e correr para preparar esse vestido.
Mesmo enquanto a criada tira as medidas, Millie não consegue parar de sorrir, acho que nunca vi alguém sorrir de forma tão intensa, tirando o dia em que propus o casamento para Werner, minhas bochechas coram só de lembrar.
—E então? É agora que eu vejo o seu vestido? —Olho para Millie, demorando alguns segundos para entender, Jeanne parece já ter arrumado todos os vestidos, exceto o escolhido, e me olha, esperando meu sinal. Confirmo com a cabeça e a vejo desaparecer pela porta de meu quarto.
Respiro fundo e me dirijo ao guarda-roupa, pego o ultimo vestido e o estendo na cama. A garota coloca a mão sobre a boca e posso ver as lagrimas que se formam em seus olhos.
—Werner vai ficar maravilhado quando a vir. —Sorrio para ela e volto a me concentrar no vestido, é simples e delicado, o bordado da parte de cima do vestido é composto de flores, brilho e algumas perolas, há também um grande decote, que eu vinha me questionando se era adequado para o casamento, mas Millie não pareceu se importar, então resolvi deixar as minhas preocupações de lado. E então há a saia, comprida e volumosa, talvez até mais do que eu gostaria, mas, como eu sou a noiva, tenho que me destacar, pelo menos é isso que Jeanne tenta me convencer, e, pela primeira vez, percebo que isso é a verdade. Eu sou a noiva e tenho que me destacar.
—Garanto que você roubará toda a minha atenção. —Vejo as bochechas dela corarem, mas ela não me olha, apenas passa suas pequenas mãos pelo vestido, ainda impressionada demais. —Você sabia que, assim que o seu irmão se casar comigo, você será uma princesa? —Sua atenção se volta para mim, os olhos arregalados. —E eu deixarei você me visitar quando quiser, e escolher os vestidos que quiser. —Ela está prestes a chorar, de novo. —Mas somente se você manter tudo isso em segredo por um tempo.
Millie balança a cabeça positivamente e se joga em meus braços, me aperta com força e, quando se separa, está chorando.
—Sinto muito por chorar tanto. —Ela fala, limpando as lagrimas rapidamente. —Eu não quero que você pense que eu sou tão fraca.
—Eu nunca seria capaz de pensar uma coisa dessas. —Millie me olha como se não acreditasse em mim. —Como eu poderia julgá-la se você chora por estar feliz com a minha companhia? —Vejo-a dar de ombros, mas agora ela está sorrindo de novo. —Sabe o que a gente deveria fazer agora mesmo? Pedir algo para comer, talvez um pouco de sorvete. O que você acha?
Não preciso que ela me diga nada para saber que ela concorda com a ideia.
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