Índigo

7 Capítulo 7


THE e Cecília jogaram por algum tempo. Percebi que Cecília estava se dirvertindo, de uma maneira que eu nunca tinha visto ela se divertir. THE estava gastando o tempo que deveria ser da consulta, mas eu sabia que seria mais produtivo ela interagir com outra criança do que conversar comigo, sendo que ela dificilmente se abria. THE deixou ela ganhar algumas vezes, o que era bom para levantar a autoestima de Cecília, apesar de ela não ficar triste ao perder. O espírito competitivo é uma das qualidades dessa menina.

No fim da “consulta”, nós nos despedimos de Cecília, e os Bomaro foram embora.

– É, THE, desse jeito vou ter que te dar parte do meu salário – brinquei.

Ficamos apenas mais alguns minutos na sala, era hora de almoço.

– Vamos nos encontrar com Russel agora?

– Assim que eu terminar de me arrumar, THE. Enquanto isso, desligue o Xbox, por favor.

Ok.

Como prometido, eu me arrumei a fim de voltar a parecer uma psicóloga, enquanto THE desligava o video-game. Depois, saímos do consultório.

Eu esperava encontrar, na sala de recepção, Rosalyn desligando o computador, a TV e o ar condicionado, guardando as coisas para sair para o almoço. Não foi o que encontrei.

A Srta. Muylaert estava lá, realmente. Mas, mesmo do corredor, ouvi uma segunda voz, que me parecia ligeiramente familiar.

– Eu preciso mesmo falar com ela!

– Já disse, senhor – disse Rosalyn. — Só com hora marcada. E ela não marca no horário de almoço, além de só atender crianças.

Cheguei à recepção, onde Rosalyn estava de pé atrás de sua mesa, discutindo com um adolescente de blusa preta, olhos castanhos e cabelo preto que mantinha seus braços apoiados sobre a mesa.

– Você – eu disse, e o garoto se ergueu.

– Doutora – ele disse, com satisfação. — Lembra-se de mim?

– Claro.

– Conhece este rapaz, doutora? — Perguntou Rosalyn.

– Sim – respondi. — Ele estava na minha palestra na Faculdade de Psicologia.

– A senhora tem uma boa memória – disse o garoto. — Admirável.

– O que o traz aqui? — Perguntei gentilmente.

– Eu preciso conversar com a senhora. É realmente urgente.

Parte de mim queria mandar o menino ir embora. Mas algo nos olhos dele chamavam completamente minha atenção. À luz do sol que entrava pela janela, era difícil distinguir a cor exata. Na palestra, eu vira claramente que eram castanhos. Mas na luz, eles ficavam mais claros. Assumiam um lindo tom de âmbar, podendo passar por verde ou... azul, se olhasse com mais vontade.

Desde a palestra ele tinha me impressionado. Eu sabia que o que ele tinha a falar era importante.

– Eu já expliquei a ele como funcionam as coisas, doutora. Mas ele não ouve.

Seu eu não tivesse marcado de almoçar com Russel, talvez...

– Eu tenho um horário. Entre duas e meia e três da tarde. Você pode vir?

Percebi pelo canto do olho que Rosalyn estava ficando impaciente. Ela parecia uma mistura de raiva e constrangimento tentando se esconder.

– Posso, doutora – disse o garoto. — E obrigado. Eu sei que a senhora não vai se arrepender.

O menino se virou para ir embora.

– Espere – eu disse, e ele se voltou para mim. — Qual é o seu nome?

O garoto olhou para THE, que permanecia em silêncio ao meu lado. Os dois se encararam por alguns segundos, como se estivessem se conhecendo através de uma conversa silenciosa. O garoto sorriu, seus olhos ainda sobre THE.

– Dizim – disse ele, e olhou para mim – Henry Dizim.

Em seguida, deu uma última e rápida olhada em THE e foi embora.

Eu tive o pressentimento de que THE estava fortemente envolvido no que Henry Dizim queria me dizer.

Não pedi para Rosalyn ligar o computador e registrar o encontro. Eu sabia, de algum modo, que a conversa que teríamos não tinha nada a ver com um tratamento psicológico. Talvez nem tivesse a ver com Psicologia.

Eu e THE fomos juntos e à pé ao restaurante que eu estava acostumada a frequentar. Ficava a duas quadras do consultório.

– Quem era aquele menino? — Perguntou THE.

– Eu não sei. Eu só sei que ele estava na minha palestra. E também sei, de algum modo, que ele é importante.

– Eu também senti isso – disse THE, e eu o encarei.

– Você sentiu? Como assim sentiu.

– E-eu não sei explicar, Angel. A presença dele tinha alguma coisa estranha. E ele parecia realmente necessitado em falar com você.

– Entendo.

Fiquei tentada a perguntar se era simplesmente aquilo. Mas eu resolvi não perguntar. Se THE estava omitindo alguma coisa, ele simplesmente não queria dizer, e eu não iria obrigá-lo.

Quando chegamos ao restaurante, Russel já estava sentado em uma das mesas, lendo um livro.

– Russel – eu disse ao me aproximar.

– Angel. — Ele marcou a página do livro com um marcador e o deixou sobre a mesa ao se levantar para me abraçar. — Que prazer revê-la depois de tanto tempo – ele olhou para THE. — Então esse é o pequeno.

THE fez uma cara de bravo. Eu tive certeza de que ele estava se roendo por dentro para não gritar “Eu não sou pequeno!” para Russel.

– É, este é o THE. Abreviação de Tgonk Hall-Ether, o verdadeiro nome dele. Ele não gosta.

– Infelizmente, ele tem razão. — Quando Russel disse isso, THE esboçou um sorriso. O fato deles dois terem a mesma opinião sobre o nome de THE fazia com que o garoto gostasse um pouco mais de Russel. — Vamos sentar.

Eu me sentei de frente para Russel, e THE sentou entre nós. Decidimos o que iríamos almoçar. O restaurante tinha um clima agradável. O som ambiente era um CD que tocava músicas relaxantes no violino, acompanhado por outros instrumentos clássicos, como flauta transversa e piano.

A comida não demorou para chegar, pois o restaurante não estava muito cheio. Mas enquanto esperávamos, ao som de Fascinação, expliquei a Russel o que havia acontecido. Sobre THE ser meu ex-paciente. Sobre as confissões de THE todas as sessões. Sobre o diagnóstico que dizia que os pais eram infantis, e o filho maduro. Sobre o aconselhamento médico. Depois, ouvimos o testemunho de THE sobre o que seus pais fizeram, coisa que eu ainda não tinha ouvido em detalhes.

– No carro, quando me levavam para a escola, eles brigaram comigo e disseram que conversaríamos quando chegássemos em casa. Nós conversamos mesmo. Mas não foi uma daquelas conversas normais, em que um fala e outro escuta, e depois vice-versa. Eles ficaram gritando comigo, dizendo que eu era intrometido e incompetente. Que não devia ter falado nada a Angel, pois o que acontecia dentro de casa só cabia a nós três. Disseram que Angel ficaria achando que eles eram péssimos pais. Eles gritaram tanto comigo que fizeram meus ouvidos doerem. Eles quebraram coisas minhas em acessos de raiva. Eu fiquei... Assustado. E eu... Eu...

– Pode falar, THE – disse Russel.

– Eu chorei. Eu estava desesperado. Eu nunca havia visto nem ouvido meus pais serem tão monstruosos. Eles começaram a ficar realmente bravos. Minha mãe me disse... disse que eu era um fardo que eles tinham que carregar. Um pesadelo. Ela... Disse que preferia que eu não tivesse nascido. Meu pai gritou coisas absurdas, me xingando. Ele dizia coisas tão horríveis, palavras que eu nem sabia que existiam. Quando ele foi ficando cada vez mais impaciente, começou a pegar as coisas do quarto e jogar em mim. Eram coisas leves, a maioria de plástico, mas elas machucavam. Ele jogou várias coisas, muitas e muitas vezes. Eu perdi completamente o controle e pedi que ele parasse. Eu gritei, eu implorei, mas ele não me deu ouvidos. Minha mãe começou a perceber que ele estava fugindo do controle, e também gritou para que ele parasse, mas ele não deu ouvidos. Ela chorava com as mãos trêmulas, e resolveu interferir com as próprias mãos. Aí os dois começaram a discutir, e eu fugi correndo para o banheiro. Meu pai tentou me alcançar, mas eu tranquei a porta a tempo. Eu fiquei trancado, desesperado e chorando por muito tempo. Dormi no chão do banheiro. De madrugada, quando eles estavam dormindo, eu peguei meu celular e fugi. Tentei falar com Angel, mas ela só me ligou depois.

Quando ele terminou, eu estava chorando. Russel tinha anotado tudo o que ouvira.

– Isso vai ser difícil. Mas se temos alguma chance de conseguir, THE é essa chance.

– Estou pronto para contar isso para o Tribunal, se você precisar – disse THE. — Eu só quero que a Angel seja minha mãe.