Áurea

1 O Canário das Flores


A manhã daquela quarta feira estava de trincar os dentes. A tempestade havia deixado para trás galhos quebrados e poças do tamanho de bovinos no chão lamacento, tudo oculto por uma densa cortina de névoa e orvalho que dançava lentamente sob um céu carregado de nuvens tão escuras que mal via-se os primeiros feixes azuis do dia.

Tão longe quanto a cidade mais próxima, estava aquele pontinho no meio do nada. Uma luz amarela destacava-se no sertão verdejante, bem no pé de uma serra, tão ínfima que não passava de um vagalume inerte na grandiosidade da mata. O galo cacarejava e as vacas mugiam no velho curral do casebre dos Alves, escondido da vista das estradas de terra batida e dos campos de pastagem.

O senhor Márcio terminou de coar o café, e enroscando a tampa da garrafa quase até o fim, serviu-se de um copo. Contraiu os lábios quando lhe veio o calor á boca e o forte gosto na língua. Colocou o copo sujo na pia da cozinha, apertou o cinto de couro gasto contra a cintura enquanto lançava o chapéu de pano desbotado na cabeça. Atravessou a sala de estar pequenina até a varanda e contemplou os ventos gelados da manhã, roçando na pele queimada pelo sol, dura com a obstinação dos anos. O terreiro estava inundando com a relva molhada. O curral ficava na entrada do velho casebre. O filho Lucas já havia apartado as vacas e o leite chiava ao bater contra os baldes metálicos.

— Como ela tá hoje? Essa bicha aí não deu meio balde ontem. — Disse enquanto fechava a porteira. Logo ao lado havia um banquinho de madeira de uma só perna em uma das estacas. Lançou-lhe a mão calejada.

— Tá melhor hoje, mas ainda acho que nois devia vender ela logo. Tem aquele cara do açougue que disse que paga bem por ela. Dá pra vender melhor no tempo das água. — Mais leite jorrou no balde enquanto falava.

— Eu vo falar com o Adalberto pra vir buscar ela aqui. Num tá prestando então num serve. — Disse o velho senhor, ajeitando o banquinho na terra do lado de uma vaquinha baixinha, gorda e com longos chifres.

— Tiro sua razão não pai. — O leite miou nas tetas. Lucas se levantou, o banquinho preso por uma fita de couro curtido ao redor da cintura, a camisa suja de lama e esterco. Um canário piou longe, cantarolando uma melodia lenta e sonolenta.

— Bem, vamo ver se vai ter jeito de ir lá. O tempo tá prometendo chuva de novo.

— Pelo menos é bom pro pasto e pra represa. Tava mesmo precisando de uma água. — O filho deu de ombros, caminhando para outra vaca, o bezerro ao lado, amarrado por cordas, lutando pra alcançar as tetas.

— Não sei não meu filho. O velho Bruxo contou pra mim que são sinais filho, sabe. Que o tempo tá mudando e escurecendo. Os dias tão menores e as noites tão ficando mais escuras.

— Aquele homem lá é que num é boa coisa pai. O senhor num devia estar indo lá.

— Ele faz muito ajudando com os chás dele quando sua mãe tá passando mal Lucas.

— Ele parece meio fora da casinha sabe? Com aquelas roupas esquisitas que tá sempre usando e aquele jeito de falar.

— É o jeito dele. Ele num faria mal há uma mosca. — ele pigarreou, meteu as mãos na teta da vaca leiteira que escolhera — mas concordo que aquele homem é diferente. Tem uma coisa nele. Uma sensação.

— Eu lhe falo pai, aquele homem lá é feiticeiro. É do Coisa Ruim.

— Ah, deixa de bobagem Lucas! O homem só é estudado em planta e sabe fazer uns xarope bom. Larga a mão de ser besta. — O senhor Márcio rosnou, a cabeleireira grisalha no rosto escondendo a pulga atrás da orelha nas feições. Era bem verdade que o velho que morava depois da colina, na antiga casa dos Rosa, era um sujeito incomum, inexplicável por meios normais. Por vezes podia jurar que vira retratos se mexerem nas colagens dos jornais enquanto ia até lá pedindo remédios. E mais de uma vez saiu a esmo na noite fria com os clarões vermelhos provocados pelo que devia ser uma serra toda em chamas, para depois de escalar a colina ver a escuridão total engolir o vale.

Com o fim da conversa os dois seguiram trabalhando em silêncio e mesmo que Lucas fizesse menção de puxar um ou outro assunto Márcio fazia pouco caso, não estava de humor para papo. Longos minutos seguiram-se assim, e talvez uma hora tivesse passado quando ela apareceu no horizonte. Lucas foi o primeiro a ver:

— Tá esperando visita meu pai?

— Eu não — ergueu os olhos para a estrada de terra que dava direto no terreiro e atravessava pelo curral, até a represa. Uma figura vinha caminhando lá de cima, uma forma feminina.

— Quem que é hora dessa? E apé ainda. Vê lá pai.

— Deve tá querendo informação ou o carro quebrou. — Ergueu-se — Eu vou vê quem que é. — Disse, desamarrando o banquinho da cintura. Assim que o fez caminhou até a porteira para receber a visita — dia!

— Bom dia! — disse com cordialidade, a luz do poste que iluminava o curral revelou-a e Márcio ficou completamente confuso. Era uma jovem de longos cabelos negros, lisos e brilhantes. A pele pálida, quase fúnebre. E embora tivesse as feições muito belas, o que chamava mais sua atenção eram as roupas. Um longo vestido amarelo de época, adornado com detalhes em renda branca, uma cartola cor de caramelo lhe servia de chapéu, pendendo da direita para a esquerda, escondendo um bocado do rosto. Trazia nas mãos uma bolsinha de moedas lilás na qual mexia sem olhar. Os dedos frenéticos. Do pescoço pendia uma corrente fina, preso nela havia um pingente que lembrava uma flor.

— Tá perdida moça? — perguntou Márcio sem cerimônia.

— Acho que dá pra dizer que é o caso — ela deu um sorriso desajeitado — estou procurando a casa de um amigo da minha família.

— Ah é? E quem é esse sujeito moça?

— Leonel Losbalto. — Disse, e a menção do nome o senhor Márcio ergueu os olhos.

— Você é aparentada do Leonel?

— Eu não diria que somos parentes. Mas eu preciso vê-lo. É uma questão muito importante.

— Sujeito estranho, ele. Bem, num é querendo ofender nem nada. Mas é um sujeito estranho. — Márcio abriu a porteira, os olhos caídos encarando-a debaixo pra cima.

— Por quê? — Perguntou, um sorrisinho meigo nos lábios.

— O povo aqui da região chama ele de velho Bruxo. Nome engraçado pra um senhorzinho como ele.

— Acho que cabe perfeitamente bem na descrição dele. — Disse, sem emoção na voz — você pode me levar lá. Me mostrar a entrada?

— Uai moça, poder eu até posso, mas hora dessa? Ainda tá muito cedo.

— É uma questão muito importante. Das maiores, eu diria. — A moça colocava uma urgência sucinta na voz.

— Ô Lucas! — Márcio chamou, o garoto foi rápido a chegar a porteira, como se estivesse esperando a oportunidade para ser introduzido á conversa.

— Senhor? — respondeu, prontificado.

— Mostra pra moça a entrada do rancho do seu Leonel e volta pra cá pra gente terminar o serviço.

— Sim senhor. — Disse, desamarrando rápido o banquinho da cintura, pegou uma lanterna numa velha tábua pregada á altura do pescoço perto do desembargador — me acompanha moça. Não é muito longe. — Disse, seguindo pela estrada.

— Moça, tenho uma pergunta pra você primeiro. — Márcio indagou, ao que passava curral á dentro de novo — qual que é o teu nome?

— É Celeste. Celeste Lacerdes. — respondeu inexpressiva, acompanhando Lucas.

Os dois caminharam em silêncio algum tempo, Lucas nervoso com a bela mulher que seguia-o. Ela olhava encantada para tudo que via, embora não comentasse nada. Tinha olhos incomuns, cor de ouro. Aquele rapaz nunca tinha visto olhos daquela cor. Deviam ser lentes de contato.

— Você é da capital moça? — Lucas tomou coragem pra perguntar quando a casa desapareceu na curva da estrada, atrás dos montes de terra vermelha.

— de Goiânia? Não, não. Eu venho do Sul. Minha família é toda de lá. — Respondeu, a voz desprovida de sentimento. Tão fria quanto os ventos.

— E o Leonel também é do Sul? É normal ter tanta roupa antiga por lá?

— Leonel é Pernambucano. Conheceu meu pai no trabalho e os dois ficaram muito amigos. Agora papai está preocupado com ele e eu vim dar uma olhada.

— Daqui já dá pra ver a porteira lá embaixo. Aí é só seguir pela trilha e você tá lá. — Disse logo quando alcançaram o topo de uma colina.

— Onde está a porteira?

— Tá ali moça! Bem ali! — Disse apontando — num fica longe. Quer que eu te leve até a casa do seu Leonel?

— Acho que não vai ser preciso. Já consigo ver. Obrigado por me mostrar. — Celeste deu um sorrisinho gentil e então ficou emparelhada com Lucas — me responde uma coisa Lucas, muita gente visita o senhor Leonel?

— Uai, nunca vi ninguém vindo pra cá, quero dizer, fora meu pai. E também tive pouco contato com seu Leonel, mas meu pai conta que ele vive falando do afilhado que trabalha no governo, mas nunca vi esse tal de afilhado vindo aqui ver como ele tá.

Notou alguma coisa diferente na noite de hoje? — Celeste não lhe encarava. Fuçava na bolsa de moedas com frenesi.

— Não uai. Teve uma chuva danada. Daquelas que trovão treme as parede da casa.

— Luzes diferentes?

— Não entendi a pergunta.

— Luzes, cores diferentes das habituais. Verdes, por exemplo.

— Olha moça, quando chove eu vou dormir. Tem nada melhor que o barulho da chuva pra dormir não. Eu não tô entendendo mesmo é porque esse tanto de pergunta. Quem é você?

— Desculpe. É a força do hábito. — Celeste ergueu a cabeça para encara-lo. O sorriso gentil nos lábios.

O rapaz a encarou por alguns segundos, dentro daqueles olhos dourados. Alguma coisa se mexia neles. Asas. Sim. O reflexo de um pássaro. Lucas ouviu um assovio, longe, lento e aconchegante. O pio aumentou e suas vistas escureceram.

»————A————«

Um estampido quebrou a monotonia silenciosa da aurora, vindo de dentro da neblina. Não mais que um segundo depois, emergindo do nevoeiro havia uma silhueta sombria onde num momento antes não havia nada. Um silvo reverberou pelos pastos logo em seguida, e de detrás de uma colina ergueu-se uma luz avermelhada que vibrou por uma fração de segundos no céu e então desapareceu. A brisa soprou mais forte, dissipando um bocado de névoa e estava tão gelada que fez eriçar os pelos dos braços descobertos por dobras nas mangas do paletó caqui de Cristiano. Seus dedos endureceram com leveza mesmo envolvidos pelo veludo dos bolsos laterais. Ajeitou a lapela do paletó como se estivesse próximo da porta para uma reunião de negócios muito importante. Atrás de si as marcas de passos deixadas pela botina de couro curtido desapareciam como mágica assim que tirava seus pés do chão úmido. Seguia por uma trilha quase invisível, se não fossem as ligeiras falhas no capim verdejante.

Os olhos giraram de um lado para o outro, contemplando o cenário rural. Para onde quer que olhasse pouco havia além de planícies de pasto para o gado que sumiam de vista pelos planaltos até os pés das serras, que eram divididas pelas cercas de arame distantes, não mais que contornos negros. Os montes erguiam-se selvagens tomados pelo matagal denso. Árvores que cresciam tortuosas formavam assentos nos galhos grossos, divididas aqui e acolá pelo campo aberto.

Quando já ia avistando a cerca de arame farpado no horizonte, a mais próxima de si, no que subiu uma colina, escutou um assovio que veio até ele perdido nas brisas aéreas. Olhou os céus em tempo de ver surgir da cortina de névoa um canário, tão amarelo quanto casca de banana. Passou tão rápido que fez zunir as orelhas do homem e zarpou na frente fazendo de poleiro um pequizeiro. Cristiano pigarreou, comprimiu os olhos. A ave soltou um pio, quase como um bocejo, agitou as penas, trêmula, e então ficou parada, silenciosa observando-o com os miúdos olhos amarelos.

Ao dar-se por si quase havia dado de frente com a porteira. Balançou a cabeça, aturdido, aquilo não estava ali um momento antes. Um amontoado de madeira tão velha que dela caíam pedaços de tábua lascada, colocada numa das estacas que seguravam o arame, havia uma placa de ferro enferrujada e esburacada onde, pintada com tinta vermelha e branca, lia-se: Rancho Terra Cota. Em algum lugar cerrado á dentro uma seriema entoou o cântico matinal. Os ventos sopravam mais fortes, arrepiando os pelos da nuca. Deu uns passos á frente encostando-se na porteira velha verificando seu relógio de pulso. 05:34 tic, tac, tic, tac 05:35. Largou os braços debruçando-se na porteira, o relógio á mostra. As hastes estalaram penosamente sob o peso daquele homem. Estava impaciente. Ouviu o canarinho cantar uma melodia lenta e melancólica. Quase um réquiem.

— Vivo me questionando como descobre notícias tão ou mais rápido que os próprios Aurores. Não acham que um só investigador seria suficiente para o caso e enviaram você até aqui — Cristiano suspirou, cerrando os punhos — Ou devo supor que você se dispôs de prontidão a se intrometer no meu trabalho, Celeste?

— Tenho tanto direito quanto qualquer outro de estar aqui. Pelo estatuto de divulgações de informações mágicas... — era uma voz feminina, rouca de sono.

— Eu conheço o estatuto. E conheço mais — Cristiano virou-se para encara-la — sei que está aqui por ordens de... — fez algum silêncio, em que o homenrazão mediu as palavras — daquela professora.

— É Marta Cristiano. — A voz de Celeste perdera o tom sonolento de súbito. Uma jovem que dava aos ombros de Cristiano emparelhou-se, os cabelos negros esvoaçando no vento. lançou-lhe um olhar fulminante pelos olhos cor D'ouro. Em parte seu rosto estava oculto pela aba da cartola. Seu vestido dançava ás brisas ocasionais.

— Professora Marta não tem tido exatamente uma relação das melhores com a Assembléia e tampouco com o departamento de Aurores. — Não queria encarar Celeste nos olhos. Era dito que a temporada da Bruxa na Europa tornara-a tão boa em Oclumência e nas artes da mente que olhar em seus olhos dava a ela informações íntimas e confissões de segredos profundamente protegidos.

— Isso é o que dizem. Só um monte de mentiras. — Celeste não fez cerimônia para se aproximar, os pés protegidos por galochas de borracha amarelas.

— Não é uma boa ideia ofender meu departamento. A última pista sobre o assassino de Aurores leva há...

— Leva até Marta. A quem mais levaria? É a guardiã dele — Celeste ergueu os olhos para além da porteira — por que não podemos ir? O que está esperando?

— Às 05:40. Primeiro os Aurores da Perícia de pistas Mágicas precisam revistar o lugar. — Cristiano bufou, impaciente.

— Então você está atrasado um minuto. — Disse Celeste, encarando-o com desdém. Cristiano tornou a olhar o relógio de pulso. 05:41.

— Certo, deixe-me passar na frente. Nao quero que achem que eu te trouxe comigo. — Cristiano fez menção de tirar algo dos bolsos internos do paletó — Espere! Está maluca?! — Agitou as mãos dentro das vestes como se sua vida dependesse disso. Celeste metera a mão na tranca da porteira e estava parada ali, em choque. Uma expressão de decepção e desprezo no rosto — Qual é o problema, seu sequelado? — Havia inconfundível decepção em sua voz.

— Pode haver um feitiço para intrusos aí! Maldições mortais aguardam bruxos inconsequentes como você. — Alertou Cristiano puxando enfim o objeto que procurava. De madeira escura, pouco menor que uma régua — Se afaste, eu cuidarei da porta de entrada — pigarreou, ergueu a varinha — REVE... — Não terminou o feitiço. As dobradiças estalaram quando Celeste empurrou-a. Os olhos arregalados, exalando incredulidade. A mão que usou para abrir a porteira ainda esticada.

— Você precisa usar magia pra tudo?— perguntou, quase com raiva.

— É um procedimento padrão antes de fazer entrada em residências Bruxas. Só uma tola como você sairia metendo a mão nas coisas. Nesse ritmo daqui algum tempo não haverá Bruxos talentosos se os que existem colocam a vida em risco por coisas que seriam facilmente resolvidas. — Cristiano guardou a varinha outra vez, tomou a frente. Celeste abriu a boca para falar quando ele passou por ela mas um tímido sorriso surgira em seus lábios. O elogio indireto havia a afetado.

Os dois caminharam ainda uns cinco minutos, as barras das calças de Cristiano úmidas com o orvalho da grama. Fez-se um longo silêncio depois do momento na porteira, que só era quebrado pelo cantar dos pássaros. Celeste parecia muito entretida com algo dentro do seu porta moedas, balançava o dedo indicador como se procurasse por alguma coisa minúscula. Cristiano aproveitou a distração da mulher para se distanciar o máximo que podia. Não queria ser associado com nada que pudesse ligar ele há uma linha de delatores da Assembléia.

Finalmente avistou, quase coberta por palmeiras e árvores serranas o teto de palha de uma velha casa de pau a pique. Era cercada por arames velhos e uma porteira branca escancarada á entrada.

— Cristiano! bem em tempo de me ajudar com isso aqui. Venha cá um minuto. — Mal chegara ao terreiro de terra batida, via-se de frente com meia dúzia de homens, deixando cair e arrastar pelo chão seus longos sobretudos negros de couro. O bordado de três varinhas formando um triângulo, e no centro um enorme "A" destacava-se em branco no peito. Dois deles o cumprimentaram cordialmente com um aceno de cabeça assim que atravessou o colchete da entrada, e então voltaram a cochichar entre si, examinando papéis amarelados. Viu outros três parados do lado de fora da porta da cabana, repartindo um cantil. Expressões de pedra. A voz que o chamara, no entanto, estava de joelhos, debaixo de uma árvore mangueira.

— João, bom dia. — Cristiano cumprimentou, os pés acelerados para onde estava o homem de cabelos grisalhos.

— O que há de bom, me pergunto. — Os dedos enrugados buscavam analisar silenciosamente o corpo deitado sob a maca, inerte.

— Morreu há quanto tempo? — Perguntou Cristiano, ajoelhando-se ao lado do companheiro Auror. Examinou com um olhar frio os espessos bigodes do homem morto. As pálpebras fechadas e um borrão preto maior que olheiras comuns ao redor dos olhos.

— Quatro horas. Morreu dormindo. O corpo estava estirado sobre o sofá.

— A Maldição da Morte? — Cristiano tateou os bolsos da camisa de botões que usava.

— Duro seria alguém ter entrado aqui para executa-la. Havia feitiços poderosos ao redor de toda a propriedade. Penetrar a casa foi tão árduo que tivemos de chamar por Aurores especialistas na remoção de feitiços. Mesmo eles não se asseguraram de que todas as defesas estivessem desabilitadas. Por isso informei que viesse no horário marcado. Teria diminuído as chances de ser azarado, ferido ou disparar alarmes pela propriedade. Acho que o velho Duque aqui estava esperando visita.— O velho suspirou, os olhos azuis piscavam, torpes.

— Mas nenhuma das defesas foi acionada? — Cristiano examinou a varinha que jazia ao lado do corpo, quase tão grande quanto uma régua, umas partes com arranhões, lascas de madeira soltas e marcas de dedo no punho. Fora amplamente usada ao longo de seu tempo.

— Receio que não. Nenhuma das defesas parece ter sido ativada. O último feitiço executado fora o do patrono. Acredito que tenha tentado enviar uma mensagem há alguém, provavelmente dos Aurores. Tourado deve ter descoberto o perigo que corria e tentou pedir por ajuda.

— E quem teria recebido essa mensagem, senhor?

— Não sei — João gemeu, limpando a garganta — talvez o afilhado. Mas quem quer que tenha sido o endereçado, acho que não a recebeu.

— Senhor, talvez o Duque tenha deixado alguma mensagem, uma direção. Com certeza nos ajudou. O feitiço Fidellius estava sob esse lugar. Quem quer que tenha o matado, era guardião do Segredo. Isso reduz muito nossa lista de suspeitos. Podemos realizar comparativos entre as vítimas, finalmente descobrir um elo entre todas. Alguém que tinha afinidade com todos em comum.

— Isso nos dá alguma coisa, embora eu ache que ínfima. Todos membros da Assembléia, com boas relações entre eles e entre os demais membros — João coçou o nariz — e nenhuma não há nenhuma suposição sobre como as mortes ocorreram. Feitiços que não deixam rastros não existem. Toda forma de magia deixa uma marca, seja ela física ou mental.

— Então acha que pode ter sido Oclumência? Alguém penetrou na mente dele e... — Pensou por um instante. Se fosse como as vítimas anteriores não fazia tanto sentido pensar que alguém havia derretido seu cérebro.

— Percebe agora, não é? Outro assassinato sem explicação. — João crispou os lábios — queria entender o porquê. A ligação — O velho ergueu os olhos cansados, a testa franzida — é como se tentássemos capturar algo que não existe.

— Mas existe senhor. Existe e está matando. — Cristiano apalpou os bolsos das calças. Vazios.

— E estamos tão longe de capturar o que quer que seja agora como estávamos quanto encontraram Arabella.

— E quanto aos olhos? — Cris fazia iluminar o rosto do cadáver com mais clareza. A ponta da varinha brilhando sob as cicatrizes do rosto e pescoço.

— Tirados. Desapareceram. — João riu-se com frustração — está tudo em perfeito estado. Nervos, pele, cérebro intacto. Mas os olhos... É como se nunca tivessem estado ali. Teria acreditado que nunca os tivera se não tivesse o conhecido em vida.

— E você o conhecia bem senhor? Contam que Leonel fora um dos melhores Aurores dos seus tempos de Academia.

— Sem dúvida. Forte como um touro. Não se deixava derrubar por ninguém. Não vejo como alguém o tenha derrotado, mesmo com a idade tenho certeza que seria páreo para o mais cascudo dos dragões.

— Sem dúvida foi um golpe baixo. E como o afilhado reagiu?

— Como esperado. Está na Ponte Paulista revirando papéis e gritando como uma gralha para que tragam tudo que tiverem sobre o caso. O pobrezinho era apegado demais ao padrinho.

— Homem formidável como era. — declarou Cristiano, como se o conhecesse, o que era bem mentira de sua parte.

— Você não faz ideia filho. Fora um Bruxo excepcional mesmo na hora mais sombria. Quando Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado reacendeu ao poder, este Auror esteve pronto a enfrentar a ameaça que cairia sobre nós, fortes apoiadores de Dumbledore, Mestiços e Nascidos Trouxas.

— Ele lutou na Guerra Bruxa?

— Todos lutamos de alguma maneira. Este — indicou o cadáver com a cabeça — fez resistência contra o movimento de supremacia na Bahia, bem quando ameaçaram matar todo praticamente de magia Não Europeia. Levou uns bons Comensais da Morte ao chão. Um Touro.

— Não é atoa que o chamavam Duque Tourado.

— Isto você diz porque não o viu naquele dia. Cinco contra um. Cinco! Eram tantos lampejos, estrondosos! Ondas tão altas como árvores de gameleira. — A voz de João havia adquirido um tom de murmúrio á medida que falava. Para Cristiano, aquilo destacava a gravidade daquele assassinato em particular.

— Deve ter sido impressionante. Um espetáculo! — Cristiano ergueu-se, sabia que não havia nada ali que pudesse ajudar muito mais além do que sabiam.

— Como um Auror famoso como Tourado veio acabar num rancho no meio do nada, morando numa casa de Trouxas? — A voz rouca de Celeste cortou o ar. Ela vinha caminhando pelo terreiro até o defunto. Seus dedos tão rápidos marcando traços de tinta com a pena de avestruz no bloco de notas que trazia consigo.

— O que ela faz aqui?! — João levantou-se de sobressalto, uma mescla de impaciência e fúria.

— Auror Sênior João Américo Lacerdes. — Celeste fitou-o, as mãos ainda desenhando freneticamente —poderia me responder umas perguntas?

— Não! Definitivamente não Celeste! — João agitou-se, furioso. Começou a caminhar de volta para a cabana.

— Auror Sênior João Américo, é importante que a comunidade esteja informada sobre cada novo capítulo desde caso. Com este já são cinco bruxos mortos. — Celeste o seguiu assim que passou por ela.

— Celeste, vou pedir que se retire imediatamente! Decidimos que a área ainda não é segura. — João apressou-se a falar, apontando a varinha para o céu, faíscas incandescentes cortaram o ar e brilharam sobre as nuvens negras.

— Mas ainda há perguntas. Pode me indicar outro subordinado se não quiser falar comigo — mirou Cristiano, os olhos d'ouro cortantes — um que saiba informações úteis que podem ser compartilhadas com a comunidade. Isso acalmaria os ânimos.

— Os seus ânimos e os da sua sociedade com toda certeza. — Abaixou a varinha, virando-se para Celeste — diga-me, outra matéria sensacionalista sobre a incompetência dos Aurores, é? — O velho virou-se para ela, a boca retorcida de fúria — não precisamos de mais descrédito do seu jornal maligno!

— Como ousa?! Guarda ressentimento tempo demais para uma só vida, pai. — Celeste virou-se, furiosa e passou acelerada para dentro da casa.

— E não toque em nada menina! Qualquer adultério que eu encontrar aí dentro vai lhe garantir problemas muito maiores dos que já têm! Uns que nem essa sua lei da Imprensa pode resolver!— Gritou por fim enquanto a filha sumia porta á dentro. — Maldita lei da Imprensa! Não é como antigamente, hoje em dia qualquer adolescente, mal sai daquela Escola e já quer meter o nariz nas coisas que não lhe dizem respeito! — Voltava para Cristiano, bufando — estou lhe dizendo rapaz, não respeitam nada! Quando eu contar a mãe dela. Ágatha sempre soube como lidar com o gênio forte daquela mal criadazinha.

— Ela tomou para si uma de suas melhores partes senhor. A resiliência.

— Queria que tivesse herdado algum bom senso também — tossiu — sempre foi uma ferazinha incontrolável, aquela ali, não como a irmã, não.

— Ainda assim ouvi dizer que é uma Bruxa excepcional. Uma estudiosa da Oclumência muito habilidosa.

— Uma mentirosa por tabela, é isso que ela é. — João verificou o relógio de pulso dele próprio, afastando a manga da capa — eu preciso me reportar aos Sete agora. Querem estar a par de tudo que acontece relacionado a este caso em particular — puxou a manga para baixo de novo — veja se encontra alguma coisa útil aqui e me encontre na Ponte — deu de costas — e Cristiano? —Havia uma nota de clemência sua voz — conto com você pra quebrar nosso estigma. Precisamos encontrar esse assassino e colocá-lo na sela mais exposta daquela prisão. É vital para recobrar a fé do nosso povo em nós.

Cristiano nada disse, respeitoso. Assentiu com a cabeça e mirou-o. E então o homem desapareceu com um estalo.

Estava claro quando entrou na cabana, uma luzinha cintilante dançava pela sala, pelas paredes de barro, argila e cal, o sofá com furos laterais e a TV antiga fora do ar. Havia uns retratos nas paredes, embora não parecessem ter sido do Duque.

— A família Trouxa que vivia aqui.— A voz de Celeste perfurou a monotonia dançante da luzinha — engraçado como esses retratos parecem tão... — Ela olhava para no que estavam um senhor magro de pele escura, bigodes negros e chapéu de palha, ao lado de uma garotinha sorrindo com a boca faltosa de uns dentes e com ainda uma mulher gorducha sentada numa cadeira com a cabeleireira castanha esparramada pelos ombros — eternos. — A mão não parava de escrever.

— O que quer dizer? — Ele relutou em encarar a jornalista. Examinava o sofá velho com os olhos.

— É como se estivessem presos nessa memória. Como se este momento juntos tivesse marcado tão profundamente essa família que conseguiram eternizar a cena.

— É um retrato velho dos Trouxas. Não tem nada demais nele. Teria sido mais útil um Retrato Bruxo. Talvez pudesse nos contar o que houve aqui.

— Nada que não saibamos. O retrato do velho Eurico não tinha muito a dizer quando encontraram Bárbara morta, tinha? — Celeste conversava, embora ainda com os olhos fixos na moldura.

— Nada que nenhum de nós não saiba. Morreu dormindo. Nesse ritmo os Bruxos terão de descobrir um meio de não dormir mais.

— Todas essas mortes, todo esse mistério... E um vínculo de ligação tão remoto.

— Vínculo? Que vínculo encontra entre essas pessoas?

— A Ceifa, é claro. — Virou os olhos amarelos para Cristiano, receosos.

— A Ceifa não passa de uma lenda. — Falou, a boca seca.

— Então julga que não há nenhum padrão nos ataques? Que o assassino mata às cegas? Errr! Que trocadilho mórbido — Celeste fez uma pausa — Todos os mortos até agora estavam envolvidos no caso.

— Um caso arquivado há oito anos.

— Quatorze mortos! Nenhuma prisão. O indivíduo que não é visto, os olhos roubados. É tudo uma mera coincidência?

— Não há dúvidas de que seja o mesmo assassino. Mas a Ceifa em si não existe. É tolice pensar que algo tão absurdo como este nunca tenha chegado ao conhecimento da Assembléia. Nem mesmo os Sete foram capazes de encontrar pistas.

— Ou encontraram e não quiseram compartilhar. — Celeste deu um passo a frente, a expressão determinada.

— Está me dizendo que os Sete não são aliados da Assembléia? Que traíram todos e guardaram para si um segredo capaz de salvar vidas? — O homem estava indignado, estupefato com a indagação.

— Tanto o poder de salvar vidas como o de tirar elas. — Disse rápido, ríspida — seja lá o que a Ceifa tem buscado todos esses anos o fez silenciosamente e — fez uma pausa, escolhendo as palavras — escolheu os aliados certos.

— Me poupe das suas suposições. E se quer um conselho, guarde-as dos leitores do seu jornal também. Nossa comunidade não é tão ignorante quanto era há anos atrás. Arranje uma matéria melhor que lendas sobre maldições e sociedades secretas. — Cristiano cuspiu as palavras com insolência, era tudo tão ridículo e incabível.

— Ouça o que digo Auror...

— Ouça você! Não manche mais o nome da sua família espalhando mentiras! Vai matar seu pai de desgosto. — Levantou-se, firme — você mente sobre os Aurores, sobre a sua família, mente sobre histórias fantasiosas de Bruxos e Seitas malignas e até sobre fatos concretos!

A tensão na sala havia mudado. Num momento discutiam sobre verdades e mitos. Agora no entanto, o clima ficara desgostoso e escuro. A luzinha ficou mais fraca.

— Que quer dizer com fatos concretos?

— Você sabe muito bem.

— É claro que é o rapaz de novo! Vocês nunca têm nada para falar que não seja sobre o garoto, não é? Ele é inocente seu grande estúpido!

— Veja como fala com um Auror menina! Não pode sair por aí insultando uma autoridade e pensando que não haverá consequências!

— O que você vai fazer? Vai me prender? Vai me torturar como torturou...

— CHEGA! — Berrou, furioso. Os nós dos dedos comprimidos na varinha — chega.

Celeste fitava-o impassível. Os olhos brilhando como pepitas douradas:

— Me respeite! você não tem o direito de gritar comigo Auror — cuspiu a última palavra — me leve presa se quiser, mas não me trate como se eu fosse qualquer coisa.

— Quanta ignorância! Se você não fosse uma pessoa tão ignorante seria uma bruxa excepcional. Mesmo os Sete reconhecem o potencial que você tem.

— Para o inferno com a opinião deles! — fechou os dedos contra o pingente no pescoço — eu conheço o meu potencial. — Girou os calcanhares, intrépida, foi para a saída.

— Ele admitiu que o matou Celeste! Todos sabem disso. — A voz de Cristiano era não mais que um esforço rouco de encaminhar a discussão. Sentia de que se pudesse convencer Celeste a aceitar a verdade, talvez tivesse uma chance de consertar alguma coisa que estava quebrada.

— Ele admitiu que usou a Maldição da Morte, não que o matou. — parou á porta.

— O que é tanto um crime quanto o assassinato. — O homem soltou a varinha — não importa o quanto pense no assunto. Ele é, de alguma forma, criminoso.

— É só um garoto. Estava com medo e tentou proteger a irmã!

— Celeste, por favor, ouça um pouco de palavras lúcidas pra variar. Se estiver disposta, posso mostrar provas irrefutáveis.

— Eu conheço essas provas — suspirou — por que ao invés de ficar pensando sobre as diferentes formas de prender um rapaz inocente não começa a raciocinar algo útil de verdade? Algo que ajude a pegar esse assassino ladrão de olhos? — Não esperou resposta, saltou para fora.

Houve um momento de amargo silêncio. O burburinho de cochichos havia cessado. A claridade azulada começava a invadir lentamente a sala pela porta.

Cris andou de um lado para o outro, vasculhando objetos, qualquer um que fosse mágico ou pudesse ajudar, mas não encontrou mais do que talheres e pratos velhos, roupas rasgadas e utensílios da vida camponesa Trouxa. Laços, chapéis, esporas, um berrante empoeirado e um espelho quebrado.

— Cristiano Comodoro? — chamou um gorducho de capa negra á porta — nós vamos levar o corpo. O senhor gostaria de fazer uma última checagem antes que seja realocado?

— Não há necessidade. Devo voltar á sede e reportar tudo que foi descoberto. — Disse, em tom profissional. Era bem verdade que não havia nada de novo a reportar.

— Como desejar. — O funcionário não fez cerimônia para se retirar.

Cristiano permaneceu imóvel, encarando a estática na TV enquanto as equipes faziam o trabalho de remoção do lado de fora, absorto em tantos pensamentos que uns mesclavam-se a outros. O assassino misterioso. A Ceifa. O rapaz homicida. Desejava profundamente que estivessem todos envolvidos no mesmo esquema para que pudesse dar cabo de todos eles.

Já estava claro quando saiu da tapera, e embora as nuvens de tempestade ainda continuassem pairando no céu claro, havia o pálido brilho da manhã sob a pele negra do Auror, que dava-o algum conforto.

Notas finais
Gente, quem achar interessante favor comentar. Me incentiva muito.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.