Era noite e chovia muito, as árvores ao redor tremiam e se balançavam loucamente aos arredores de uma casa humilde, parecia-se muito com uma cabana de acampamentos de verão. Os ventos eram tão fortes que estilhaços de galhos recém caídos atacam a casa com muita ferocidade. Dentro, havia uma família de quatro pessoas. A mãe dizia: “protejam-se em baixo da mesa, ou atrás das paredes de material... Afastem-se da janela!”; o pai, por sua vez, abraçou suas duas filhas e as ajudou a escondê-las dos pedaços do vídro da janela que se quebravam com as batidas do lado de fora. A chuva começou a adentrar a residência e alguns deles eram tão fortes que raspavam na mãe das crianças fazendo sair até mesmo sangue.

A menor das crianças gritava por sua mãe, enquanto a maior tentava se aproximar para ajudá-la, mas o vento era muito forte. Todos então partiram para a cozinha que estava próxima, na tentativa de se proteger junto aos azulejos que rodeavam o cômodo. “Teria sido uma boa idéia?” – pensou o patriarca da família, mas era o que eles podiam fazer no momento, a mãe estava ferida e era o cômodo mais próximo disponível. Um galho maior que os que destruíram a sala onde estavam antes arrebentou o vidro da cozinha com uma força ensurdecedora, e voou direto na cabeça do pai, que desmaiou com a pancada. Ao seu redor, estavam as duas meninas; Sophia e Anna, que se abraçaram enquanto sua mãe corria para perto delas, junto ao corpo caído de seu marido. – Roger! Roger! Acorde, por favor! Não me deixe sozinha, não pode fazer isso comigo! – Dizia enquanto não conseguia conter as lágrimas que se misturavam com o rosto molhado da chuva da tempestade.

Depois de algum tempo encolhidas no chão, Roger já demonstrava se recuperar da batida na cabeça que o adormecera, o vento ainda batia forte e pelos buracos que ele deixou nas janelas dava para escutá-lo assobiar. Pelos vãos deixados pela tempestade, dava para saber que o tempo não iria melhor, talvez até mesmo piorasse dali para frente, e então pensaram que talvez fosse melhor correr para algum abrigo melhor, mas antes que pudessem sequer pensar em alguma opção, foram surpreendidos por trovoadas tão fortes que seus barulhos eram ensurdecedores. Parte do telhado de outras partes da casa já haviam se perdido pelo ar, voando para longe, mas para o pai ainda havia esperança e ao olhar para sua esposa, sorrindo, disse que não iria deixar nada acontecer com elas.

Em meio à enorme chuva de raios que começara enquanto a chuva em si diminuía. A mãe, Belle, observou um enorme clarão seguido por um som muito alto de um raio que acabara de cair, este por sua vez atingiu um reservatório de gás que era usado pelos moradores da região em suas casas. Ao notar, Belle avisou Roger e o perigo que isso traria. Todas as casas eram conectadas a este reservatório por meio de canos que ficavam abaixo do nível do chão e o raio fez com que tudo explodisse e uma enorme fogueira deu-se início. Roger sabia que o fogo seria atraído pelo gás que era levado pelos canos, causando outras explosões nas residências e então correu para que pudessem se salvar o mais rápido possível.

Belle nem acreditou na velocidade em que seu marido preparou as malas das crianças, pequenas, com pouca coisa; somente o essencial. Ela o ajudou com roupas e alguns pequenos mantimentos para que eles pudessem se abrigar em algum outro lugar, longe do inferno que aquela pequena vila se tornaria daqui a alguns minutos. Ao se encaminharei para a porta de saída, foram surpreendidos por uma parte da casa que estava cedendo e parte do concreto atingiu a mãe das crianças com força. Foi tudo muito rápido, quando a poeira baixou Belle viu que estava com a perna quebrada, presa em baixo dos escombros. Roger forçou-se para ajudá-la, mas fora apressado por sua esposa para ir logo e salvar as crianças. Com lágrimas nos olhos e sem nenhuma palavra sequer, ele pariu rapidamente para a rua, onde encontrou um amigo, Carlos, que estava partindo também com sua filha, Marlene. Roger explicou o que houvera com Belle e então Carlos ofereceu-se para levar Sophia e Anna em segurança, enquanto o pai das meninas voltaria para ajudar sua esposa.

Correndo o máximo que podia, Roger voltou para a casa e Belle estava lá, olhando para ele! – O que houve com as meninas? – Perguntou; ele explica sobre Carlos e sobre o que fez para poder ajudá-la prometendo que logo os dois estariam juntos delas novamente. O que ele não esperava era que pedaços demasiado pesados haviam caído e ele não pudera levantar justo o que prendia sua esposa. Ele ia à janela diversas vezes para saber se o fogo ainda não havia começado a adentrar os canos, as chamas ainda não haviam chegado à ligação que os levaria para as casas, mas não havia muito tempo. Após muito tentar com objetos que encontrara no caminho, ele viu que não iria conseguir sozinho, e antes que pudesse chamar alguém, notou que o fogo finalmente estava vindo e se este chegasse ao duto onde o gás era partilhado com a residência sabia que isso traria uma nova explosão. Os dois não iriam sobreviver.

Carlos notou que Roger não apareceu mais e começou a preocupar-se! “Eu preciso levar minha filha para o abrigo logo!” – Disse olhando para as crianças de seu amigo; “Preciso ir, desculpem-me!” – Complementou. As meninas trocaram olhares confusos. Ainda dentro da casa, Roger e Belle deram suas mãos, trocaram um último selinho e se despediram, pois sabiam o que veria a seguir. “Eu te amo!”, foi sua última troca de palavras do casal. Lá fora, já com as meninas, antes que pudessem dizer alguma coisa, foram surpreendidas por um barulho muito alto, muito mesmo. A explosão finalmente chegou e as duas viram sua casa envolta de chamas, a maior, Anna, sabia que seus pais haviam morrido.

“Ei, você vai mesmo nos deixar aqui?!” – Disse Anna chorando para Carlos, ainda com o barulho agudo da explosão em seus ouvidos! Ele não respondeu nada na hora, olhou para Sophia e pensou um pouco.

– Não vou poder levar as duas; levarei apenas você, Anna!

– Mas e minha irmã?!

– A deixarei no Orfanato Sol. Você ainda é nova, mas deve saber como é o mundo em que vivemos; não poderei manter Marlene e mais duas crianças que nem minhas são.

Anna concordou, pois sua ingenuidade por ser ainda nova não a fez pensar muito, queria se salvar e infelizmente teve que deixar sua irmãzinha no tal orfanato. “Mana, não me deixe aqui... Eu quero ir com você!” – Comentou Sophia, ainda gaguejando, não sabia falar direito ainda. Anna não sabia o que responder, então comentou que ela viria o mais breve possível pegar sua irmãzinha novamente.

As duas se despediram e então Sophia foi deixada à porta do Orfanato Sol, onde tocou a campainha esperando por alguém que fosse aparecer. Ainda era noite, e por vergonha, Carlos preferiu não ficar junto dela quando alguém fosse atendê-la. Assim que partiram, uma senhora por volta dos sessenta anos abriu a porta e viu a jovem que lá estava.

– Menina, o que está fazendo aqui? – Comentou ao ver Sophia aos trapos, com uma pequena mochila e com seu pequeno vestido branco todo sujo de cinzas.

– Minha família, moça... – Tentou responder, apontando para a fumaça das chamas que podia ser avistada de onde estavam.

Sem nem sequer pensar, a senhora que abriu a porta para Sophia a levou para dentro. Ela pensou que a menina ainda pudera estar em choque devido ao que ela viu lá e então não conversou com a jovem sobre o ocorrido até que ela pudesse estar bem descansada. Separou logo um quarto para Sophia no terceiro andar na ala das crianças de três a sete anos. A criança ainda estava chorando, acabara de perder seus pais e de se despedir de sua irmã que foi levada por alguém que ela nunca nem conversou na vida, com uma voz tímida agradeceu pelo quarto. “Meu nome é Dulce, seja bem vinda ao orfanato... Poderia saber como se chama?” – Perguntou a simpática senhora que acabara de trazer da cozinha um copo da água. “Meu nome, moça... Me chamo Sophia!”.