— Alunos, peguem seus livros Avançado de Poções e suas balanças para começarmos. Não sejam tímidos, vamos lá!

A professora de Poções pediu com um grande sorriso e se virou para mexer num grande caldeirão no centro da sala.

Apressei-me a pegar o livro, tentando ignorar o barulho dos alunos da Grifinória conversando com uma turma da Lufa-Lufa sobre o jogo de ontem. Busquei minhas anotações, amarrando meu cabelo loiro para trás. Como integrante da Corvinal, só havia duas pessoas da casa comigo, mas eram tímidos demais e ficavam afastados em seu canto, estudando.

Então sentei numa mesa sozinho e esperei a aula começar.

Fui surpreendido por um barulho de uma cadeira sendo arrastada e Lothias sentou-se perto de mim com um grande sorriso, seu perfume barato preenchendo todo o espaço entre nós.

— O que está fazendo aqui? A mesa da Sonserina é lá trás.

— Ela está cheia. – ele afastou os cabelos castanhos cacheados dos olhos e riu – Qual o problema em sentar aqui, Hórus?

Alunos de casas diferentes sentavam juntos raramente. Todos sempre preferiam seus colegas de classe. Principalmente aqueles considerados Puro-Sangue.

— Você sabe qual é o problema em sentar aqui.

— Não, não sei. – ele brincou com seu anel e sorriu irônico.

Ele sabia. Sabia desde o começo qual era o problema em se aproximar de mim. Sabia o que iriam dizer. Sabia o que ia acontecer com ele.

— Eu já disse que nós não podemos…

— Hoje vocês irão conhecer uma das poções mais perigosas do mundo. – a professora interrompeu o que eu ia dizer, mexendo o caldeirão – Alguém sabe qual é?

Olhei para o líquido de brilho perolado. Fumaça saia em espirais distintas.

— Amortentia… – sussurrei.

Lothias pigarreou e levantou a mão:

— É Amortentia, professora.

Encarei-o de lado, enquanto ele piscava para mim.

Além de sentar comigo, com aquele perfume enjoativo, roubava minhas respostas?

— Muito bem, Sr. Brecken. 20 pontos para Sonserina. Agora, alguém sabe o que ela faz?

— É uma poção de amor! – alguém da Grifinória respondeu e a sala se encheu de risinhos.

— Muito bem, Senhorita Griffin! Podemos percebê-la pelo brilho perolado e pela fumaça em espiral. Alguém sabe qual o outro modo em que podemos reconhecê-la?

Apressei a dizer, sabendo que Lothias poderia roubar-me novamente:

— Para cada um tem um cheiro específico. Algo que atrai a pessoa.

— Muito bem, se aproxime, Sr. Clark. — a professora chamou-me com um aceno de mão.

Levantei-me imediatamente, andando até ela.

Ela era mais baixa que eu, mas tinha mais confiança que a sala inteira.

— Respire. O que ela cheira pra você? – ela tinha um sorriso divertido no rosto.

Obedeci.

— O banquete de natal. E sinto uma mistura de livros velhos e couro.

Meus pais eram professores trouxas, e no tempo livre encadernavam livros. – Fascinante! Continue!

Parei quando outro cheiro me envolveu. Um perfume meio enjoativo e doce que eu reconhecia.

Era como se Lothias estivesse ao meu lado, me abraçando e encharcando-me com aquela loção.

Olhei para trás para ver se ele tinha se aproximado, mas ele continuava no lugar, com aquele sorriso irônico e a pele de ébano brilhante.

Paralisei, sem conseguir dizer mais nada.

— Ah, muito bem. 20 pontos para Corvinal. – ela começou a colocar a poção em frascos prateados, percebendo minha confusão.

— Professora, porque uma poção do amor é tão perigosa? – ouvi a voz debochada de Lothias, sem conseguir sair do lugar. – O amor não é algo, na maioria das vezes, benéfico?

Mais risos da sala. Ele tinha dado voz aos pensamentos de todos.

Ela riu com eles.

— Crianças, é chamada de poção do amor, mas o amor não pode ser replicado por nenhuma poção ou feitiço. O nome certo seria Poção de Obsessão. – ela colocou os frascos em uma estante – Imagine não conseguir parar de pensar em alguém. Ele é o algo mais puro e o mais sagrado que você precisa. Achar que ama, achar que precisa de alguém mais do que ar. O amor é diferente. É colocar as necessidades dos outros acima de si mesmo, sem nenhuma poção ou feitiço o forçando a isso.

Eu estava um transe, tentando entender o porque daquele cheiro…

Não podia ser a poção, podia?

Talvez eu tivesse passado tempo demais perto dele, e o perfume se impregnou na minha pele.

— Para a aula que vem, quero uma dissertação sobre a Amortentia. Seus usos, características e perigos. Sr. Clark, sente-se bem?

Eu acenei que sim e voltei para a minha cadeira de cabeça abaixada.

Não vamos nos enganar.

Eu era da Corvinal, e enganar a mim mesmo era pior que burrice.

Eu estava apaixonado.

Olhei para Lothias, que me olhava de um jeito estranho. Ele parecia saber algo que eu não sabia.

Eu não podia estar… Não por ele.

Quer dizer, algo rolava entre nós, era claro.

Mas ele era sonserino puro-sangue. Eu era nascido trouxa. Não era como se fossemos andar de mãos dadas pelo salão comunal.

Senti-o se aproximar de mim, quase roçando os lábios em meu ouvido:

— Também sinto seu perfume na Amortentia. Não me importo com o que vão dizer. Dane-se eles.

Bendito Empata.

Quem era o mais tolo?

A serpente se deixar levar pela águia ou a águia que captura a serpente?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!