Águas Ardentes
1 Capitulo I
Os olhos do garoto se enchiam de medo enquanto era levado à sala do capitão. Os gritos agonizantes que emanavam pela porta ao fim do corredor do navio podiam ser ouvidos por todo o porto.
O homem que o conduzia, cujas cicatrizes no rosto desenhavam uma teia, tinha a mão sobre o ombro do garoto, pararam em frente à porta de maneira, o garoto se encolheu ao som de outro berro.
— Entra, — disse o homem — o capitão vai ouvir o que você tem a dizer.
Com isto, bateu na porta, que foi aberta em seguida por um brutamontes com cicatrizes no rosto e uma espada curva presa ao cinto. As palavras que os dois homens trocaram não desviaram a atenção do menino da figura grande, sentada e lhe dando as costas no fim da sala.
Era o capitão, mais jovem do que imaginava. Seu pescoço e ombros eram grossos e fortes, tinha as mangas da camisa de linho manchadas de um liquido vermelho como os olhos do homem, sangue. Um sobretudo vermelho estava pendurado na cadeira ao seu lado, acompanhado do velho chapéu, um tricórnio.
— Gangplank... — gaguejou o moleque com a voz trêmula de medo.
— Capitão, talvez goste de ouvir isto. — disse o homem.
Gangplank não se virou, ainda entretido em seu trabalho. O marinheiro das cicatrizes empurrou o garoto à frente, o garoto se aproximou do capitão da Tortura como quem se aproxima da beira de um abismo. Ficou ofegante ao conseguir ver em que o capitão trabalhava.
Baldes de sangue estavam ao redor da mesa de Gangplank, além de um conjunto de facas, ganchos e instrumentos cirúrgicos. Um homem estava preso sobre sua bancada à tiras de couro. Somente sua cabeça estava solta, olhando à sua volta em desespero.
O olhar do garoto foi atraído à perna esquerda do homem; mutilada.
Gangplank desviou a atenção de sua arte para encarar o visitante. Em uma das mãos, ele delicadamente segurava uma lâmina entre os dedos, como se fosse um pincel delicado.
— É uma arte moribunda... — disse Gangplank, cuja atenção voltou ao trabalho. — Poucos têm a paciência para entalhar ossos hoje em dia. Leva tempo. Cada corte tem um propósito. O trabalho tem que ser feito de maneira delicada.
O homem ainda vivia, apesar da ferida bruta em sua perna, da pele e carne arrancadas do osso de sua coxa. Repleto de terror, o garoto viu os desenhos que o capitão havia feito naquele osso; tentáculos e ondas espirais. Era um trabalho delicado e belo; o que o tornava ainda mais terrível.
A tela viva de Gangplank soluçava.
— Por favor... — ele gemeu.
O capitão ignorou o apelo patético e descansou a lâmina. Com um jorro de rum barato sobre seu trabalho, ele limpou o sangue, fazendo com que o homem em sua mesa urrasse até que caísse em inconsciência.. Gangplank resmungou de desgosto.
— Lembre-se disto, garoto, — disse o capitão — às vezes até mesmo aqueles que são leais esquecem-se de seus lugares. Poder de verdade é como as pessoas lhe enxergam. Demonstre fraqueza, mesmo que por um momento, e você está acabado.
A criança concordou em um aceno; seu rosto pálido como papel.
— Acorde-o. — ordenou o capitão, gesticulando em direção ao recruta inconsciente. — A tripulação precisa ouvir suas histórias.
Gangplank devolveu sua atenção ao garoto enquanto o cirurgião do navio intercedeu.
— Agora... — disse ele — O que você queria mesmo me contar?
— U-uma... Uma mulher. — respondeu o garoto, seu maxilar trêmulo. — Uma mulher na casa do almirante de Porto Real.
— É para isso que vem aqui? — disse Gangplank. — Uma mulher? Não irá me dizer que caiu nas graças de uma mulher, irá?
— Nnão, — garoto engoliu seco.
— Continue, rapaz. — fez com urgência o primeiro homem.
— Ela cantava uma musica de marinheiro, tinha a voz mais doce que todos no porto já ouviram. A mulher possuía uma joia especial.
— Uma joia? — disse o capitão curioso.
— Uma das peças de Medusa, o Colar de Ouro
Gangplank levantou de sua cadeira em um supetão, igual a um monstro surgindo das profundezas.
— Diga-me o nome. — não podia ser ela, certo? Por 5 anos ele havia à procurado pelos 12 oceanos, pelos cantos mais escuros do mundo.
O garoto estava estupefato, os olhos do capitão vibravam em pura ira. A criança não foi a única em dar um passo para trás por precaução.
— Diga-me o nome da mulher!
— Elena, — garoto balbuciou — seu nome é Elena.
O rosto de Gangplank foi tomado por um tom enraivecido de carmesim enquanto puxava o sobretudo e o chapéu do gancho; seus olhos vermelhos refletiam a luz das lamparinas.
— Dê uma Serpente de Prata e uma refeição quente ao garoto. — ordenou o capitão ao primeiro homem conforme ia em direção à porta da cabine.
— E todos vocês se preparem. Temos mares à navegar, temos um encontro inadiável com Porto Real.
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