Água de Sábado (Não) Sodomizada
1 Capítulo 1
Para Amanda Fonseca,
Filha, o quê você me disse sobre o bordel, sobre os homens que tinham lá, os bis, os homos, os trans, os seja lá o que for, filha... é tudo mentira. Mas você, Amandinha, me fez perceber algo que não vi anteriormente. Bah, filha, que bafo, que desabafo…
Vou te dizer, há muito tempo que não escrevo uma carta, sei nem se isso está certo. Mas você é uma vagabunda, isso sim você é! Então tenho que tratar vagabundas por onde, senão não sou eu. Sabe que eu não gosto desses assuntos grotescos de sadismo, masoquismo, ou sadomasoquismo. Aliás, eu nem sabia disso até ontem, quando o tal do Fernando me explicou. Pra mim era tudo a mesma coisa. Ele era um maluco. Não era nada do que você falou. Piranha tu, hein. Vocês combinaram, não foi? Confesso que na hora ali, na Horinha ali do H, eu perguntei a ele, Isso é brincadeira né? Foi a Amanda né?! Você fez o cara achar que eu era maluco igual ele. Vê se pode alguém passar vergonha assim? Não sou esse tipo de gente não. Isso nem é coisa que se faça com amigo, poxa. Mas vem cá, por que tu não me falou que o moreno tava nessas coisas de sadomasoquismo? O filho da puta (desculpe o palavreado) queria me transformar num sadista, num sadista! Sa-dis-ta! Sabe o que é sadismo? É o que os homens gostam de fazer nas mulheres: bater nelas, foder elas, passar dor pra elas. E não foi isso só que ele me falou não, o tal, o tal do… Fernando (tento lembrar do nome do infeliz, lembro do rosto e fico com raiva; culpa tua). Falou também de como era bom ser masoquista, que as mulheres eram naturalmente masoquistas, e tinha que ver minha filha, mencionou Freud e tudo. Pra falar a verdade o puto foi até “os primórdios da humanidade". Mas eu gostei mesmo foi daquele garotinho na recepção, não sei se você percebeu. O andrógino; eu sei que o certo é traveco mas eu prefiro andrógino porquê é mais chique, é moderno, tem aquele ar de grã-fino, sabe como é. Mas pra ser sincero, amiga… o cara não é traveco, é andrógino.
Te contar: saí correndo do quarto do Fernando quando ele começou a gritar pelas quatro paredes Me Bate! Mais forte! Assim não, parece um viado! Aí ele veio me mostrar como é que homem dava porrada. Se tu vir aqui em casa vai ver meu nariz todo esfolado porquê ele enfiou a mão na minha cara. Me deu um supapo que santa mãe de deus… minha vontade era de matar ele ali, na hora. Caí no chão e tudo, mas fiquei debilitado, fraco e magrelo do jeito que sou, só pensava em me entregar à morte. Enfim, saí, reuni forças e saí. Saí pro branheiro mas foi mais pra fugir. Quem encontro lá? A garota, ou o garoto, decida-se! A tal da Yui-chan (vi isso na plaquinha da recepção. Isso é o quê? Japonês? Se bem que ele (ou ela) tinha cara mesmo de japonês.) Aí, fui mijar e vi aquela mulher lá dentro do banheiro masculino. Ué gente, quê que isso? pensei comigo. Minha mente já tava ó, explodindo de estresse do Fernando, não queria ver problema a frente mas aquilo ali me cheirou numa merda que você não tem noção… ainda bem que meu pai e minha mãe me ensinaram a ser educado, porquê se eu fosse que nem esses putinhas favelados aí que a Jéssica fica se enturmando, ia dar um grito que meu deus… entrei no banheiro e tirei o cinto pra mijar. Rezava o nome de Jesus Cristo pra ele não ter me percebido, mas de quê que adiantou? Ele falou comigo. Nem respondi, fiquei quieto, eu queria era deixar ele ali, fudidão no abismo do vácuo. Mas olha só: só tinha eu e ele naquele quadrado de banheiro; nin-guém-mais! Amanda… se não fosse por você não sei o que teria me acontecido ontem. Enfim, ele falou um troço lá que não entendi direito. Acho que perguntou se eu queria ver, se eu queria ver, falou assim repetindo, eu não disse nada mas mesmo assim ele me mostrou. Aí, minha filha, já era, eu dei o foda-se pra tudo. Tem que aproveitar a experiência né…
Ele abaixou a saia, tirou a calcinha, mas aí, eu já vi que não tinha nada volumoso entre as pernas, Que porra é essa? pensei, e não é que o garoto fez cirurgia pra tirar o troço? Tinha marca? Tinha marca! Um sequelão! Um troço feio, pra ser sincero. Mas o que me espantou não foi nem isso. Eu quero saber é: onde que essa criatura arranjou dinheiro pra fazer cirurgia dessa magnitude? Isso não foi no Brasil, não, não pode ter sido. Na hora ali eu só pensei numa coisa: essa bicha deve ter dado muito pra fazer isso. E tu sabe de alguma coisa? Soube de um tal de Vicente, dono lá do prédio, aí ali no banheiro, conversando com ele, ele me diz que era a “mascote” desse Vicente. Esse Vicente é rico? Olha só a pergunta que faço, deve ser né, pra ser dono daquilo tudo. Engraçado que não é que a criatura tinha um sotaque estrangeiro? Até me despertou interesse. Aí ficou zombando de mim, falando que eu e ele não éramos iguais, que ele era melhor, que não sei o quê, por causa disso e disso e aquilo, eu só com aquela cara de bunda minha, que tu conhece, e acenando a cabeça num “Aham, senta lá Cláudia.” Era uma criança. Mas não nego que ele tinha dotes sexuais que despertariam a libido até do homem mais másculo. Sabe o Rogério? Se não sabe eu te ajudo: aquele que andava comigo quando eu era criança e me traiu com a Larissa. Até esqueci de usar aspas no “traiu”. Na época eu não sentia nada por ele não, estou falando sério. Eu só passei a perceber que tinha essa rivalidade com a figura feminina. Enfim, aposto que se o Rogério, todo machão que é, machista-preconceituoso, visse aquele traveco, duvido que ele não ia ficar de pau duro. Até eu que sou viado quase fiquei! A questão aqui é a seguinte: essa bicha não é travesti normal não! Tem algo de especial nela, um aspecto místico, mágico, sei lá, já tô viajando. Mas acho que não dá pra dizer que ele é traveco não. Andrógino, vai? Andrógino, é andrógino. Andrógino vem de mitologia grega. Ih minha filha, você não tá sabendo. Já aí tu vê um monte de implicação que dá explicação do porquê eu quase fiquei ereto. Tô te falando, tem magia rolando aí, magia das boas. Diria até magia romântica, sabe qual é?
Logo vi que ele queria mesmo era arranjar briga comigo, mas deixei ele (ou ela) lá, fudidão/fudidona no banheiro berrando sozinho(a). Queria ver outro marmanjo entrar ali e pegar ele de jeito.
Saí mas não vi ninguém chegando perto. E o Fernando? Foi mal, filha, a culpa é tua por me pagar um traste daqueles. Não vem me falar de jogar dinheiro fora não porquê se você quer me matar vem aqui agora resolver esse papo comigo. Não paga vagabundo pra me matar não. É mulher? É mulher que mostra peito e não tem medo de chupar pau?! Então vem aqui, traz a faca e me mostra, se quer me matar. Brincadeira, filha, sabe que eu te amo morto ou não-morto.
Vê se pode uma coisa dessas… o cara falando que só porquê é masoquista, que os viados que entra lá é tudo igual a ele, tudo querendo ser fodido, o infeliz quer me usar de cobaia para um experimento e me mostrar os “prazeres do sadismo”. E a gente achando que já viu de tudo na vida. Mas olha só, aprende comigo (meio plágio da minha professora de química, mas vamos lá!): água que é líquido quando entra mercúrio não deixa de ser líquido. Sacou? Aqui ninguém vira sadista não. Não tem essa de transformar água em outro líquido e deixar de ter componentes de H2O. Mercúrio é metal, você sabe né? Mas como é líquido? Como é que tem ferro e hidrogênio, tudo junto? Tá entendendo? Não se pode mudar algo na essência gente, não pode, não-po-de! Até tenho tendência para o sadismo, mas poxa, quem não tende?
— Eduardo Sampaio
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