Água & Sal
2 II
Os olhares estranhos e desagradáveis haviam perdido lugar para o respeito e admiração.
Ela firmava bem seus pés na areia ou no solo seco, equilibrando bem seu próprio peso, a espada em sua mão era como uma extensão leve e afiada. Não perdia a calma apesar da emoção de uma batalha lhe energizar. Os treinos eram sempre durante a tarde, quando os raios de sol eram mais fortes. Nenhum deles se acostumava fácil com o esforço que precisam lidar, embora o treinamento fosse um dos melhores momentos de seus dias.
Ela não era invencível, mas era como uma rocha. Da mesma forma que respeitavam, eles temiam, exceto aquele rapaz cujo olhar sempre cruzava com o dela. Com o passar dos dias ele parecia hesitar menos, sempre estava por perto ainda que não fosse capaz de trocar uma única palavra. Dificilmente se destacava entre os guerreiros daquele grupo, não havia alcançado a magia como a maioria. Também não se mostrava o mais habilidoso de maneira que ela estranhou quando o mesmo surgiu na sua frente e a desafiou. O rapaz não parecia obstinado o que a deixou um pouco desanimada em aceitar, mas lá estava diante dele esperando que avançasse.
Foi longe de ser uma luta prolongada principalmente depois que ela manteve a espada na horizontal quando ele investiu pela quinta vez. Nunca era apenas aço contra aço, era força contra força e ela o impeliu. Não demorou para que o guerreiro desse passos para trás e caísse na areia, dando fim a luta com uma reação inesperada.
Ele riu.
O sorriso branco e largo transmitia estranha satisfação, provavelmente por ter sido um treino divertido. Uma interpretação diferente dos outros que acabavam treinando com ela e torciam o nariz como se tivessem perdido a dignidade. Não por perderem para uma mulher, afinal todos se erguiam lado a lado quando precisavam defender seu território. Todos os outros queriam a ultrapassar ao visarem uma vitória para se exaltarem. Porém ele estava rindo e elogiando sua defesa. Ali ela encontrou um conforto em não ter de se preocupar em manter-se invicta por sua posição futura. Era apenas um treino comum num dia quente e outros mais sucederam aquele. E, como era de se esperar, o tempo fizera com que ela acabasse rindo de volta todas as vezes que ele caia na sua frente e parecia estranhamente satisfeito.
Dizem que é uma boa história para ensinar as pessoas a se tornarem mais cautelosas ou mais sinceras. Infelizmente também dizem que é uma história interessante para ensinar mentes perversas.
Os dias em Sorcha eram mais longos que a noite, muito mais do que o normal, e isso nunca a tinha incomodado de verdade. Não tinha pressa para que a noite chegasse, pois o que lhe importava era o dia. Não se engane, ela apreciava a noite e seu descanso, mas o dia era quando recebia energia. No entanto alguns meses com ele sendo seu parceiro de treino haviam mudado drasticamente suas preferências. O entardecer que sempre demorava era um momento que lhe deixava ansiosa depois de conhecê-lo.
Seus passos deixavam uma trilha pela areia quente ao atravessar uma parte do vale, indo diretamente para trás da duna mais distante do acampamento. Naquele ponto escondido ela o encontrava quase todas as noites. Ele tinha a pele queimada pelo sol e os olhos, embora escuros como o céu noturno, pareciam radiantes. Ela sentia borboletas se ouriçando em seu estômago quando ele lhe tomava pela mão, a incitando a deitar-se a seu lado na areia.
“Sorin deve me invejar lá do alto”, dissera ele uma vez.
“Ambicioso da sua parte dizer isso. O que te faz pensar assim?”
O rapaz não era o melhor com palavras, mas sabia se expressar bem.
“Ele só pode observar sua amada de longe, não importa o quanto a queira por perto. Mesmo quando ela se interpõe entre ele e algum planeta, jamais se tocam e nunca passa de um olhar.”
E sem concluir o pensamento devidamente ele entrelaçou seus dedos nos dela. A moça não precisou de mais palavras para entender o que estava nas entrelinhas, era suficiente. Lua e Sol estavam fadados à distância, desejando um encontro que jamais aconteceria. Porém eles não tinham essa falta de sorte. Ela podia apreciar aquele toque sutil que o rapaz proporcionava ao segurar sua mão.
Alguns pensam que essa declaração fora o ponto crucial onde ele havia ganhado o coração intocado. Qualquer um com um traço mais celerado em seu pensar ou agir sabe que não. Ele já o tinha e já sabia onde terminaria.
Foram exaustivos seis meses pelo deserto. Meses antes longos e cansativos que se tornaram incrivelmente leves e agradáveis com a nova companhia. O calor insistente, as caminhadas intermináveis e suor pareciam não fazer importância se no fim do dia ela pudesse estar ao lado dele e escutar seus sussurros de amor.
Um único detalhe a incomodava há poucos dias antes de finalmente alcançarem o mar naquele planeta quase inteiramente desértico. A liderança do povo era destinada a ser sua e a receberia quando finalmente chegassem à beira mar, o local favorito de seu pai e onde ele finalmente descansaria de seus anos levando o povo para onde fosse necessário. A responsabilidade finalmente chegava com o dia que jamais esqueceria. Contudo seria pelos motivo que não previa.
Seu nome era Nerissa. Dizem que significa guardiã das águas ou aquela que cuida do mar. Era como se o destino tivesse sussurrado tal nome aos ouvidos de sua mãe quando nascera, como se fosse um aviso do que a aguardava. Entretanto nunca fomos tão supersticiosos. Talvez fosse coincidência. O nome dele ninguém sabe mais, não se perdeu quando a história foi passada de geração em geração. Fora apagado de sua existência, retirado dos lábios daquela que o nomeara e jogado ao pó. Alguns suspeitam que naquela noite de declaração a própria Lua o amaldiçoou por desdenhar de sua dor. Eu não a culpo, ele sozinho escreveu o fim que tivera.
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