À flor da pele
15 Esses estranhos, tão familiares!
Notas iniciais

Diana
Segunda-feira.
08:00 – Me levanto. Meia hora antes do normal.
Theo não entrou em contato ontem, e eu não tive coragem de ligar para ele. E não sei como posso encará-lo daqui para frente. Não sei nem se vou a sua festa. Claro que eu posso estar exagerando e ele nem mesmo se lembre mais de quem eu sou. É uma possibilidade.
Cama arrumada, vou para o banheiro e faço minha higiene, depois prendo os cabelos em um rabo de cavalo. Rabinho curto, que tristeza!
08:09 – Coloco um shorts cinza e um top preto. Parece que será um dia abafado. Estamos no começo do inverno e os dias estão tão quentes quanto o meio da primavera. Será isso o tal aquecimento global?
08:13 – Calço os meus tênis de corrida do lado de fora da porta, verifico se meu relógio não está largo.
Tranco a porta e deixo a chave debaixo do tapete, então vou para rua. Passo o cadeado no portão e coloco a chave pequena e uma nota de cinco dentro do tênis. Dessa vez para fora da meia. Ando muito sensível ultimamente. Não gosto disso, até semana passada eu teria colocado dentro da meia e lidado bem com isso.
08:15 – Atravesso a rua em direção ao parque. Corro pela trilha no mesmo ritmo de sempre.
Minhas corridas não são tão longas, mas elas ajudam meu corpo a ligar pela manhã. Trabalhar sem correr por pelo menos cinco minutos, é pedir para me arrastar no escritório.
Logo, estou perto no banco que faço alongamento. Ainda é 08:23. Passo direto por ele e volto pela trilha, não atravesso a rua quando chego ao fim, mas volto.
Quando alcanço o banco de novo, já é 08:32.
Olho em volta, em busca do pipoqueiro que sempre compro água. Ele acaba de chegar e ainda arruma as coisas.
Tiro o dinheiro do tênis, sentindo muito nojo por fazer isso, mas tento ignorar. Tento.
– Bom-dia! — Digo ao senhor, que me olha surpreso.
– Alguém caiu da cama hoje! — Ele diz. Reparo que nunca antes conversei com ele, e o vejo todos os dias. Geralmente eu dou bom dia e ele apenas acena de volta.
– Às vezes acontece. — Ofereço-lhe um sorriso e entrego o dinheiro. Ele me passa a água sem ao menos me perguntar o que quero.
É engraçado como as pessoas passam por nós e até fazem parte da nossa vida. Como esse senhor, que me vende água todas as manhãs. Ou o garçom do restaurante que serve o almoço. Eu sempre me sento na mesma mesa, na mesma hora. É sempre seu setor, é sempre ele que me atende. Ou o homem do prédio em que trabalho, que abre todo os dias a porta para mim. Não sei seus nomes, não sei suas idades. Não sei se são casados, ou se têm filhos. Não sei nada sobre eles, no entanto, fazem parte da minha vida. Estão mais presentes que aqueles que eu sei o nome e outras informações mais sobre a vida. Mais presentes que a minha própria família.
– Como o senhor se chama? — Pergunto, conduzida por uma crescente e nova curiosidade.
O homem, de pele clara, olhos escuros, que usa um casaco preto, mesmo estando calor, sorri para mim.
– Baltazar, muito prazer! — Ele diz galantemente e sorrio por isso. É bonito.
– Eu sou Diana. O prazer é meu.
– Lindo nome, a princesa das amazonas!
– É o que dizem! — Ergo a água em sua direção, em um brinde. — Tenha um bom dia, Baltazar!
Começo a me afastar.
– Para você também, Senhorita!
Sinto falta de algum alongamento. Não fiz antes de sair, mas não farei agora também. Olho para o meu relógio de pulso, 08:43. Quando for nove horas, Theo vai atravessar as portas daquele prédio para tomar café. Não quero estar por aqui, eu acabaria o encarando. E justo hoje, deixei os óculos escuros para trás. Nem mesmo protetor passei. Realmente, estou uma coisa hoje!
Abro a garrafa de água, enquanto faço o caminho de volta com passos lentos. Dou um gole longo. Continuo caminhando, então, dou outro. Sinto uma leve dormência na canela que bati, mas está bem melhor hoje. Talvez eu possa até usar salto.
Quando estou na metade do parque, termino a água. Jogo a garrafa em um cesto no meio do caminho e termino o trajeto até a minha casa correndo. Quando paro na frente do portão, me apoio no muro e começo a alongar.
Me sinto uma estúpida por ir correr mais cedo. Será que Theo irá perceber?
Ah, droga! Será possível que vou pensar nele o dia todo? Ele nem deve mais se lembrar de quem eu sou.
– Dia! — Dou um pulo ao ouvir meu novo apelido...
Olho para trás e encontro Theodor, vestindo um terno negro, camisa cinza e gravata azul escuro. Ele tem um buquê de rosas amarelas na mão.
Atrás dele, um carro negro, o mesmo que o pega no café todos os dias. E uma mulher, loira, vestida com um terninho negro, uma boina na cabeça e óculos escuros. Está segurando a porta aberta. Parece que ela é o tal motorista que vejo todos os dias. Nunca o consegui ver inteiro, então, estou bem surpresa.
– Bom-dia! — Ele me diz animado. Parece o garoto hiperativo que eu conheci no sábado. Nada do Sr. “eu sou sério porque estou vestindo um terno”.
– Bom-dia... Você me assustou! — Meu coração começa a dar cambalhotas de antecipação. E minha razão me jura de morte, porque afinal, quem fez besteira fui eu. Claro que, isso deduzindo que as flores são para mim. Ele bem pode só estar passando para dizer que eu sou uma idiota, ou que está indo ver alguma garota.
– Eu... Não tinha certeza sobre seu horário, então... — Ele desvia o olhar do meu por um momento. O deixa cair sobre meu corpo, me deixando envergonhada e quente. — Você está... — Ele pigarreia – Linda.
Linda? Com roupas de ginástica e suada? Oh, por favor!
– São para mim? — Pergunto olhando para as flores em sua mão.
– Para o Tyler, na verdade. Ele está?
Ty...
Seu sorriso aumenta e o meu acompanha.
– Acho que ele não gosta de rosas. Cravos fazem mais seu estilo.
– Vou anotar isso.
Ele dá dois passos em minha direção, acabando com o espaço entre nós.
– Acho que terei que lhe dar então. Só para não desperdiçar.
– Claro, só para não desperdiçar.
Ele me entrega as flores, as aceito. É um buquê bem grande. Em seus braços não parecia tanto, mas eu sou bem menor que ele. Talvez nem tanto em altura, mas meu corpo fino é facilmente escondido pelos músculos dele. E essas flores parecem muito exageradas em minhas mãos.
– Nós estamos bem? — Ele pergunta e sou obrigada a tirar o foco das flores e encará-lo. Sinto-me culpada por sábado, por não ter ligado ontem e implorado por seu perdão. Ok, um pouco exagerado. Mas um pedido de desculpas era o mínimo. Então, como ele pode me perguntar isso, e me dar flores, quando eu é que pisei na bola.
– Eu é deveria fazer essa pergunta. — As bochechas estão queimando. Eu poderia facilmente fritar algo nelas. — Sinto muito pela forma que agi...
– Shi... — Ele leva seu dedo a meu lábio e sorri. É um gesto digno de filme. Não fosse o fato de que eu fico pensando em quanta sujeira seu dedo guarda.
Foco, Diana!
– Eu sinto muito, Diana, por ser tão... — Ele parece não saber bem o que dizer.
– Deselegante? — O ajudo e ele estreita os olhos, que agora parecem verdes pela luz do Sol que os ilumina.
– Não tenho certeza se é a melhor palavra... Talvez... Perfeito demais?
– Que tal “Egocêntrico em demasiado”?
– Talvez...
O silêncio cai sobre nós. Seus olhos bonitos, chamativos, me estudam. Sem intenção, acabo levando meu olhar para seus lábios e fico admirando o formato deles.
– Você... — E a rouquidão molha calcinha está de volta! — Já tomou café?
Café? Eu poderia imaginar várias formas de ter um café da manhã na companhia de Theodor Blake.
– Não... Na verdade, eu estou atrasada.
Mentira, totalmente mentira! Mas sei lá porque disse isso.
– Então, eu posso te oferecer uma carona?
– Obrigada, mas não precisa se incomodar. Ainda tenho que me arrumar.
Ele aproveita esse momento para me olhar dos pés a cabeça, de novo, e me sinto nua diante de sua presença.
– Mas está sem carro. — Ele diz, olhando sobre meu ombro.
– Não estou. — Olho para trás e percebo minha garagem vazia e provavelmente já estava assim quando saí mais cedo. — Tyler...
– Carona? Eu posso esperar.
Um limpar de garganta chama atenção. A mulher atrás de Theo fecha a porta do carro. Ela não parece feliz. Pergunto-me se ele não vai nos apresentar.
– Se arrumar então? — Ele continua, sem me dar uma chance realmente para decidir, ou conhecer sua motorista.
Sua mão vem para minhas costas e me empurra, sutilmente, para o portão.
Seguro as flores, que atrapalhavam minha vista, com mais força, para não cair. É um buquê muito elaborado e exagerado.
– Eu seguro isso. — Ele pega as flores.
– Obrigada.
Me apoio no portão e tento alcançar, discretamente, a chave no meu tênis. Claro que não é nada discreto quanto eu tento fazer parecer, e é bem vergonhoso. Preciso comprar roupas com bolso.
Quando alcanço a danada, vou abrir o cadeado e descubro que ele está aberto. Na pressa, provavelmente, não o fechei. Não acredito que paguei o mico de pegar a chave e o cadeado estava aberto... Agora ele pode ter certeza que eu não tenho TOC. Pelo menos duvido que uma pessoa que tenha colocaria a chave ali, e ainda, teria coragem de recuperá-la depois.
Caminho até a porta, onde me abaixo e pego a chave de casa.
– Essa não é a chave dessa porta, espero... — Ele comenta atrás de mim.
Mordo o lábio, ele parece sério.
– É...
O vejo fechar os olhos por um momento e respirar fundo.
– Isso é muito, muito, perigoso, Diana!
Continuo o olhando, esperando que ele sorria e diga que está brincando. Mas não...
– Theo, não é grande coisa. Eu não tinha bolsos! Essa chave é bem grande para ir na meia, sabe?
Ele parecia decidido a não aceitar desculpa nenhuma que eu desse. A determinação estava estampada em seu rosto. A mesma que eu vi em Tyler muitas vezes.
– Diana...
– Dia! — O corrijo, como ele já fez um dia comigo. Tento trazer algum humor para a conversa, que parece quase dar certo...
Abro a porta e entro, ele me segue, a fecha atrás de si.
– Dia, você tem quantos anos?
Ok... será que ele não sabe que é muito, muito, errado perguntar a idade de uma mulher?
Devo responder? Devo dizer a verdadeira? Será que 22 seria muito nova?
– Dia? — Ele me chama de novo. Paro no corredor, o olhando.
– Hum... 25? — O vejo estreitar os olhos e morder o lábio para não sorrir. Será que me achou nova? Velha? Quantos anos ele tem? Aposto que deve ter algo no Google.
Theo volta a usar a sua máscara séria.
– Ok, você tem 25 anos e mora sozinha... Certo?
E essa agora? Ele vai dar um sermão ou só quer saber para poder vir me matar de noite?
– É...
– Mora sozinha, e é linda. – Oh, meu deus, o que ele está fazendo? Por que tem que dizer essas coisas tão despreocupadamente? — É alguém que chamaria atenção de outras pessoas.
Fico quieta, corada, só o escutando.
– Você precisa ser cuidadosa. — Ele continua. — Esse tipo de coisa – Ele aponta para a porta. — Não pode acontecer.
– Você está dando muita corda para isso. Não é nada realmente. Sério, moro aqui há anos e nunca aconteceu nada. Não se preocupe.
Eu sei que ele está certo, mas assumir isso é outra coisa.
– Mulher teimosa! Agora me diz uma coisa. Como é que você sai para correr com o pé machucado? — Ele aponta para baixo.
– Oh, Theo! Pare de ser um pai!
Pego sua mão. Me arrependo no mesmo instante, é um gesto muito pessoal e ele desperta coisas em mim. Coisas como querer que seus dedos estejam em outros muitos lugares...
O puxo para a sala.
– Você fica aqui enquanto me arrumo. E as flores... — Fico imaginando onde é que as guardarei, não consigo pensar em nada grande o suficiente para abrigar todas as rosas.
– Por que é que você não vai se arrumar e eu cuido das flores?
– Eu não sei se tenho um vaso tão grande. — Confidencio a ele.
– Podemos dividir em dois.
Gosto da ideia. Posso deixar um vaso na sala e o outro no quarto, do lado da minha cama...
– Isso. Espera... — Saio da sala e vou para cozinha. Em cima da geladeira tem um armário, Tyler colocou meus vasos grandes lá.
Puxo uma cadeira e subo nela, abro o armário e lá estão, três vasos grandes, de vidro, que uso para enfeitar a casa quando minha mãe vem.
– Dia – Me viro e encontro Theo na porta, encostado, de braços cruzados. Olhando minha... bunda. – Eu sou mais prestativo do que aparento. — Ele levanta o rosto e encontra meus olhos. — Se arruma que eu faço isso, você disse que estava com pressa.
Ele se aproxima, passos largos, mas lentos. Me estudando. Apreciando... Me sinto como a presa de um grande animal selvagem.
Estou feliz que não estamos mais... Estranhos um com o outro. Eu acho que gosto de ter Theodor por perto.
– Ok, só vou pegar... — Me viro para alcançar o vaso, mas nem o alcanço. Mãos firmes seguram minha cintura e sou puxada para fora da cadeira. Colocada com cuidado no chão.
– Eu tenho certeza que sou capaz de fazer essa tarefa tão simples. — Ele diz atrás de mim, sussurrando em meu ouvido, seu peito colado as minhas costas, sua mão direita, agora, deslizando pelo meu braço. Meu corpo está tenso, minha respiração se torna pesada. Aliás, acho que esqueço de respirar. — E não esqueça o cartão.
A mão esquerda circula meu corpo e se coloca a minha frente, com um envelope vermelho em sua palma.
Pego o envelope e sinto o calor de seu corpo se afastar, dando lugar a uma corrente de ar fria.
Abro o envelope e tiro um cartão branco com uma rosa vermelha desenhada. Ao lado a letra de Theodor. A mesma do meu convite.
"Me perdoe por ser um tolo
Theo"
Me viro, sorrindo, e o encontro atrás de mim, me olhando, com um sorriso grande e debochado nos lábios.
– Se arrumar? — Ele sugere.
Olho para ele, para os vasos no armário e então para a cadeira. Respiro fundo e concordo. Me retiro da cozinha, com as pernas ainda bambas pela grande excitação de segundos atrás.
Entro em meu quarto, deixo o cartão e envelope na penteadeira e vou para o banheiro, fecho a porta. Graças ao meu encontro com Theo, estou bem em cima da hora.
Tiro meu relógio e deixo sobre a pia. Coloco os tênis ao lado do cesto de roupa suja e me dispo. Ligo o chuveiro e mal espero a água esquentar para entrar. A água morna, quase fria me dá um choque. Meu corpo, todo quente, começa a relaxar conforme a água vai esquentando.
Lavo os cabelos rapidamente. Não é que eu esteja realmente atrasada, ou que eu precise ficar pronta rápido para impressionar... Ou algo assim, mas... Ah, sem mais! Estou me apressando justamente pela companhia que está lá embaixo.
Desligo o chuveiro e torço o cabelo, então puxo a toalha, quando um barulho de algo quebrando me assusta. E não é longe, não é lá embaixo. É no meu quarto.
Me enrolo na toalha, da melhor forma que a pressa permite, e vou até a porta, que está entreaberta. Olho em volta, tentando encontrar o que causou o barulho.
A janela está aberta, nem me lembro de tê-la aberto hoje. Prova de que os anos estão chegando mais rápido do que eu imaginei.
Caminho em direção a ela, mas paro. Uma figura alta entra em minha frente, fazendo meu coração bater com força e o pânico se instalar. A primeira coisa que penso é que Theo e Tyler vão dizer “Eu avisei” no meu enterro.
Quase levo outro tombo de bunda. Seria o terceiro da semana.
Os braços do invasor me seguram e meus olhos se encontram com os dele. Consigo segurar o grito que estava pronto a sair e relaxo, aliviada.
– Tá tudo bem? — Theo pergunta, me segurando.
– Você... — Estou tremendo e minha voz acompanha meu corpo. Tento me apoiar em seus ombros e me firmar, mas meu corpo teima em ser o de uma donzela assustada nesse momento.
– Diana? — Sou guiada para a cama, onde me sento e tento relaxar meu corpo tenso.
Tyler, e aparentemente Theo, podem achar que é teimosia viver sozinha e até que sou descuidada, desligada, ou quem sabe, despreocupada quanto à violência. Eles estão errados. Eu estou bem ciente de que sou uma mulher, mais fraca, naturalmente, que homens, e se alguém decidir me ter como alvo, meus dias estarão contados.
Me assusta pensar que alguém poderia entrar em minha casa e me fazer mal. Eu não sou boba como eles pensam. No entanto, eu não posso me dar ao luxo de ser meramente uma garota assustada, vivendo às custas de outros, amedrontada. Eu preciso viver e isso em si já é um risco.
– O que aconteceu? Tinha alguém aqui? — Presto atenção nele. Ele me deixa na cama e anda pelo cômodo, olha dentro do banheiro, no guarda-roupa e atrás dele.
– Estou bem. — Consigo forçar minha voz. Respiro fundo, preciso ser firme. Passar por cima do medo, do susto e me trocar. Porque agora eu já devo estar quase me atrasando. — Você me assustou.
Ele para e me olha, está agitado.
– Me desculpe. Eu ouvi o barulho de algo caindo e vim correndo. Pensei que estivesse ferida. — Ele me olha, me estuda. Não meu rosto, meu corpo. Estou apenas de toalha.
Parece que as situações constrangedoras são atraídas todas as vezes que Theo e eu nos juntamos.
Puxo a toalha mais firme contra meu corpo.
Ele desvia o olhar e então se concentra em algo ao lado da cama, eu olho também. Me inclino e vejo no chão minha caixinha de joias. O vidro de cima se partiu todo e alguns brincos e colares se espalharam. Tá certo que a janela estava aberta, mas é uma peça pesada demais para cair com o vento. Theo parece pensar como eu, porque ele vai até a janela, colocando a cabeça para fora. Me levanto e vou para junto dele, tomando cuidado para não pisar no vidro e nas outras coisas.
Logo abaixo da minha janela, sobre a lata de lixo reciclável, o gato do meu vizinho.
– Bicho maldito! — Resmungo. Não é a primeira vez que esse felino idiota entra em minha casa e estraga coisas. Isso quando não marca território, urinando sobre as coisas. Nunca ouvi falar sobre gatos que marcam território assim. Se bem que nunca tive um gato, ou conheci alguém que tivesse. Não sei quais são seus hábitos.
Graças a esse maldito, agora terei de fazer outra limpeza nessa casa.
– É seu? — Theo pergunta.
– Não, é do vizinho. — Me viro para olhá-lo, mas ele faz o mesmo e nossos rostos quase colidem.
– Devo falar com o vizinho? — Ele pergunta, perto demais. E eu... Não me afasto. Mas deveria...
Se afasta, Diana! Se afasta...
– Não... Ele não está agora...
Os olhos dele parecem verdes. A luz do Sol bate diretamente neles e o cabelo castanho parece bem claro agora. Um outro homem. Dois em um. Eu realmente adoro isso.
Está mais perto... O rosto dele. Ele tem uma pintinha ao lado do nariz, nunca percebi isso. É pequena e bem sútil. Aliás, fica maior a cada minuto. Próxima e mais próxima e seus olhos... Não desgrudam dos meus lábios. Isso é um beijo? Um beijo sem a ajuda de Tyler? Ah sim, sem a de Tyler, mas o gato ajudou bastante.
Ah, meus deus! Por que minha mente sempre tem que ficar tão ativa nesses momentos?
Droga! Não posso!
Levo a cabeça para trás, me afastando dos lábios, que tentam encontrar os meus, e a bato com força na quina da janela.
– Santa caçarola! — Digo me afastando da janela assassina. Esfrego minha cabeça no lugar dolorido.
Theodor solta aquela gargalhada gostosa, que tanto me enfeitiçou no sábado. Ele tenta se aproximar, mas estendo minha mão entre nós.
– Fora, Theo! — Digo irritada. Mas ele não leva a sério, felizmente, continua rindo. — Eu nunca vou conseguir ficar pronta desse jeito!
– Eu te distraio?
Que pergunta é essa? Se me distrai? Por favor, ele vira a minha vida de cabeça para baixo só por existir.
– Fora, Theo! — Eu seguro a toalha com mais força e uso a mão livre para empurrá-lo.
– Que mulher difícil! — Diz quando fecho a porta atrás dele.
Me encosto na porta fechada por um momento. O que eu estou fazendo? O que teria acontecido se eu tivesse não me afastasse?
O que eu estou fazendo?
O que eu estou fazendo?
O que eu estou fazendo?
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