À Sombra da Justiça
20 Norah e Esther
Notas iniciais
Piple Street. Londres, Inglaterra. 25 de Abril de 1894.
Algumas horas atrás...
Esther estava em uma confeitaria fazia quinze minutos. Tinha marcado um chá com Miss Lancaster, a feminista responsável por salvar seu emprego na Universidade. Tinha recebido da mulher uma caixa de bombons e um pedido para se encontrarem, pois a feminista tinha se mostrado entusiasmada com a coragem de Esther de se tornar professora em uma Universidade.
No entanto, não havia nenhum sinal dela, até uma moça jovem entrar.
–Perdoe-me, mas você é Sophie Sigerson, não é?
Esther deu um sorriso. – Sim, eu mesma.
–Miss Lancaster não pôde ir, tem um a reunião de última hora no jornal, mas ela me pediu para vir avisá-la disso e dizer que sente muito pelo inconveniente. – disse a jovem. – Perdoe-me, eu sequer me apresentei. Meu nome é Norah Rosewood.
As duas trocaram um aperto de mão.
–Prazer em conhecê-la, Norah. Você quer se sentar um pouco?
A jovem aceitou, puxando uma cadeira.
As duas tiveram uma conversa animada. Norah também tinha ideias feministas e Esther ficava interessada em seus pontos e também com sua coragem. Era impressionante verificar que havia ouras, como ela.
–O que lhe fez adentrar ao Movimento Feminista, Norah?
–Bem... Algumas coisas desagradáveis aconteceram na minha vida. Encontrei um homem, apaixonei-me por ele, mas depois do casamento eu verdadeiramente o conheci.
Esther se retraiu. – O mesmo aconteceu comigo.
–Os homens não são tão transparentes como nós, mulheres. Com cinco minutos de conversa, nós somos capazes de julgar quando uma de nós é confiável ou não. Quanto à ele... Lembro-me que Edmund era gentil quando me fazia à Corte. Mas depois, quando dividimos o mesmo teto, ele se transformou. Sequer o reconhecia mais. Não sei se isso tinha haver com seu emprego..
–O que ele faz?
–Ele é um policial.
Esther abriu a boca em surpresa. Aquela moça tinha mais em comum consigo do que ela poderia imaginar.
–Edmund tem um problema muito sério. Ele mergulha demais em seus casos policiais. Se algo não vai bem à delegacia, ele fica se remoendo por dentro. E eu o assistia se destruir a si mesmo, com sua culpa e remorso, sem fazer nada. Nada do que eu lhe dissesse o fazia esquecer de seus fracassos.
–Céus...
–Acho que os homens que se envolvem da Lei têm esse problema. Para nós, professoras, o trabalho acaba quando saímos da sala de aula. Não há mais o que fazer, além de estudar a próxima aula, é claro. Mas para quem trabalha com crimes, o trabalho jamais cessa. Ele vai pra casa, pensando no caso. Dorme pensando no caso. Fica sentado, olhando a esmo, abdicando de comida, bebida, esperando que saia algum estalo de alguma pista... E só o que podemos fazer é esperar.
De repente, Norah riu.
–Que loucura, eu estou falando de toda a minha vida e mal conheço você. Devo estar te perturbando com meus problemas...
Esther recusou. – Oh não. Acredite em mim, seus problemas são bem mais leves que os meus.
Os olhos azuis de Norah se arregalaram. – Realmente?
–Sim. Para começo de conversa, eu estou grávida.
–Oh, meus parabéns! – disse a moça.
–Obrigada, Norah. Mas... Eu queria que meu marido tivesse tido uma reação assim. Mas infelizmente, não foi o que aconteceu. Sabe, ele não é um policial, mas também é muito envolvido com seu trabalho. Ele o consome e eu só posso assistir à distância, porque moramos longe um do outro, ele está sempre viajando, enfim... Eu também sou casada recentemente e sinto que meu casamento fracassou. Eu jamais parei para pensar em como seria sua reação, pois tem cerca de dois meses que estou casada com ele e... Bem, não tive tempo para pensar a respeito de filhos. Simplesmente aconteceu essa gravidez, e agora, eu me sinto sozinha, à deriva.
–Edmund também não queria filhos. E eu sempre gostei de crianças. Eu não sei se agi certa, pois só agora eu vejo que o pressionei demais. Éramos recém-casados, afinal. Talvez ele só precisasse de tempo, e eu... Sinto que estraguei tudo.
–E eu, que sequer tive este tempo...
Norah tentou tranquiliza-la. – Talvez ele esteja assustado com a notícia.
Esther riu. – Ele não é um homem de se assustar com tão pouco.
–Edmund, meu marido, também se diz corajoso, mas eu sei que há limites. Podem não temer balas, bandidos, explosões... Mas temem o casamento, um bebê... Eles não foram preparados para estas coisas domésticas como nós, mulheres, fomos a vida inteira. E eu precisei acabar com meu casamento para descobrir isso. – lamentou Norah.
–Você parece arrependida...
Norah suspirou. – Eu amo Edmund Reid. Mesmo ele sendo um idiota, estúpido, arrogante, presunçoso, rude... Mas eu amo aquele brutamontes.
Esther riu. – Céus, ele é mesmo tão ruim assim?
–O que sempre me fascinou em Reid foi sua coragem, sua vontade de mudar o mundo...
O meu também.
–... Ele é sempre tão corajoso, tão perspicaz e destemido...
Ah, o meu também...
Esther interviu. – Hey, se você realmente gosta dele, por que não volta?
Norah se retraiu. – Ele está envolvido com o mesmo caso que arruinou o nosso casamento. Foi um caso muito importante e ele fracasso.
Seria o mesmo que Holmes está envolvido?
–Hum... Então você está esperando isso acabar...
–Sim, eu confesso. Assim que ele pegar Jack, eu...
Imediatamente, Norah levou a mão na boca, ao perceber que falou demais. Os olhos de Esther se arregalaram junto.
–Oh, meu Deus... Eu nem deveria ter contado sobre isso...
–Seu marido está investigando o Estripador? – perguntou Esther, aos cochichos.
–Sim, parece que ele voltou. Ocorreram algumas mortes pelo East End, mas dessa vez não foram prostitutas.
Esther lembrou-se imediatamente do caso que Holmes lhe contara e do quanto ele temia por sua vida. Com toda a certeza, era o mesmo caso. Deus, como ela foi burra! Holmes estava demonstrando preocupação consigo, e ela simplesmente o destratou! Tudo bem que ele agiu errado ao saber sobre o bebê, mas ainda assim, foi ela quem errou primeiro.
–Percebe porquê eu não quero voltar agora? Será um erro! Preciso deixar que ele pegue esse crápula primeiro!
–Sem dúvida.
A conversa seguiu agradável para outros tópicos, até as duas decidirem voltar para casa. Norah morava agora com seus pais, perto de sua casa, e Esther decidiu dividir o cabriolé com ela.
De repente, o trânsito ficou horrível.
–O que está acontecendo? – perguntou Norah ao cocheiro.
–Comunistas, minha senhora. Parece que está havendo uma greve na Fábrica de Martelos...
–Era nestas horas que eu odiava Edmund... Ele batia nesses coitados sem piedade.
Esher cochichou outra vez. – Você é comunista?
–Sou, sim. Está espantada?
Esther ficou sem palavras. — Bem, eu...
–Calma! – Norah começou a rir. – Claro que não sou comunista. Quero dizer, eu já frequentei sim, reuniões... Até que eu saí.
–E porquê você saiu?
–Descobri que eles se aproveitavam de meu relacionamento com Edmund para saber das investigações policiais. Eu sempre denunciava a eles quando a polícia estava prestes a estourar o local. E também porque....
Esther percebeu que Norah se retraiu. – O quê?
–O líder do Partido, Barney. Ele não era o homem que eu pensei que fosse. Ele criou o Movimento Comunista Feminino apenas para nos usar. É assim que ele faz. Defende-nos na rua, em nosso trabalho, depois faz um convite... E quando as moças vão, ele... Simplesmente as usa.
Esther ficou pálida, pois tinha quase certeza de quem ela estava falando. – Ele fez isso com você?! Ele...?
Norah suspirou. – Quase. Uma vez, ele me pediu para ficar depois que a reunião terminasse. Quando fiz isso, ele tentou me seduzir, mas eu disse não e fugi. Eu acho que isso não aconteceu porque eu sou muito apaixonada por Eddie. Mas não posso dizer o mesmo de outras, que não conheceram o amor e se deixam levar por ele. Uma delas era a pobre da Lisbeth. Uma moça engajada com a luta, mas que lambia o chão que ele pisava. Qualquer coisa que ele pedisse, ela faria.
–Isso é terrível!
–E há algo muito sério que eu descobri com ele. Depois que ele tentou me seduzir, eu voltei ao Partido, em um dia que não estava havendo uma reunião, para buscar a minha bolsa. Eu não queria encontra-lo face a face. Entao, eu encontrei sobre a mesa um livro estranho...
Norah abriu sua bolsa e o retirou.
–Eu entreguei para Miss Lancaster descobrir o que era, pois ela é poliglota, mas ela me confessou que não conhece o idioma. É hebraico, eu acho.
–Hebraico?!
–Estava em uma de suas aptidões de seu currículo o hebraico. Seria pedir demais que você traduzisse isso? Eu sei, estou pedindo que você se meta nisso, mas... Pode ser algo muito sério. O problema de Barney não é o Comunismo, mas a maneira vil que ele usa nós, mulheres, em seus planos. Ele não tem pena da gente, e isso precisa acabar. – disse Norah, oferecendo o livro. – Você aceita?
Esther suspirou. – Norah, eu sei que irá parecer estranho, mas... Porquê você não entrega isso ao seu marido?
Norah riu, descrente. – O quê? No quê Reid poderia me ajudar?
–Porque antes de tudo, ele é um policial.
–Ele irá rir de mim! Achar-me uma tola! Então, vai me ajudar ou não?
Esther concordou. – Sim. – Norah entregou-lhe o livro.
Esther desceu do cabriolé, enquanto era observada por um jovem rapaz, ruivo e com os olhos obcecados, que fumava um cigarro enquanto a assistia adentrar ao prédio, sem desviar-se um só momento dela.
Em seu bolso, uma lâmina gelada tocava-lhe os dedos. Embora o sangue escorresse de seu pequeno ferimento – provocado propositalmente para encher parcialmente um tinteiro – ele pouco se importava, diante do grand finale que estava prestes a executar.
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