À Espera De Você...
4 Uma carta para Lia
Notas iniciais
POV Lia On
Horas depois de a Ju ter voltado para o Hotel, continuei sem entender meus sentimentos. Tudo o que minha amiga disse ainda martelava na cabeça e um aperto forte envolvia minha garganta me impedido de respirar.
Dinho e Fatinha juntos! E o melhor – PIOR – com um filho.
Ainda sentada no sofá, levantei-me e segui para o quarto. Já no abrigo da cama peguei a única coisa que poderia me ajudar a enfrentar toda essa situação: Minha guitarra. Ela sempre me escutou, e mesmo quando a maltratava ou a jogava no chão, ela não me julgava ou condenava. Ela não mentia como o Dinho mentiu. Ela me ouvia e chorava comigo quando nem eu era capaz de encontrar as lágrimas que precisava derramar.
Eu não deveria me sentir assim, né? Eu vim embora para a Inglaterra, ele ficou no Brasil. Eu encontrei um novo namorado, porra! Então, porque a noticia de que ele também tinha se refeito me feria tanto? A verdade é que acreditei que o Dinho ainda pensasse em mim, que sofresse por ter me perdido. Pode parecer egoísta, mas qualquer sofrimento é pouco pelo que havia me feito ao ficar com a ‘Vacatina dos infernos’! O problema não é a Fatinha, bem, é... Em partes. Eu só não consigo entender como isso foi acontecer. Eles eram só amigos! Como passaram desse estágio para o ‘Ate que a morte os separe’?
E ainda tinha o filho fruto do relacionamento dos dois. Um menino que devia ser a cara do Idiota, ou talvez, fosse semelhante à mãe. Loiro? Cabelos castanhos? Não sei. Só sei que pensar neles como uma família, dói... Dói pensar que o Dinho tem um filho, uma continuação de si e que ele também não é meu.
Hoje não é um bom dia. Haveria um bom dia depois de hoje?
POV Lia Off
Fugindo – Pra variar – dos próprios sentimentos, a Roqueira toca na sua inseparável amiga uma de suas canções favoritas de John Mayer.
“Quando você está sonhando com um coração partido a parte mais difícil é acordar...”... ♫
Lia não conhecia John pessoalmente, mas podia jurar que essa música havia sido inspirada nela, no seu coração partido. Mas ela estava acordada e o via, ouvia a voz do garoto/homem que tanto quis esquecer, olhando para ela encostado contra a parede.
Ela queria apagá-lo, arrancar do seu rosto aquele sorriso zombeteiro pela dor que ela estava sentindo. Mas quem disse que é fácil convencer o coração?
“Ela te leva com seus olhos de choro. Então, de uma vez, você tem que dizer adeus...”... ♫
Perdida nos próprios pensamentos e tristezas, a garota não viu as horas passarem. Só deu-se conta de que era tarde quando a irmã adentrou no quarto.
– Lia o que tá rolando, hein? Desde que a Ju foi embora que ‘Cê’ tá assim – Tatá sentou-se ao lado da irmã que permaneceu calada.
Suspirando a garota de cabelos cor de chocolate prosseguiu.
– Pode ficar calada se quiser, não preciso que você diga nada para saber que o motivo que te deixou assim atende pelo nome de Adriano Costa. Só ele tem a capacidade de irritar minha irmã mais velha e fazê-la chorar como um nenenzinho! – Debochou Tatá para raiva de Lia.
– EU NÃO TO CHORANDO! – Gritou a Marrenta a plenos pulmões.
– Não, tá fazendo pior! Tá reprimindo toda a angustia dentro de você, o que é mais triste do que chorar! Eu preferia te ver com lágrimas nos olhos do que nesse silêncio pesado, sabia? Poxa, Lia a gente é irmã! Acha que eu gosto de te ver assim?
– Eu não to pedindo pra você ficar! Pode ir embora se quiser...
– Claro! Você e essa sua mania de mandar todo mundo que quer te ajudar embora! Nem sei por que eu ainda insisto, viu? Quer dizer, eu sei: Porque não quero ver minha irmã deprimida! Mas ela é idiota demais pra aceitar ajuda!
Constância saiu do quarto fechando a porta com um estrondo. Lia sentiu-se pior por aquela discussão com a irmã. Elas sempre se implicaram, viviam tirando sarro uma da outra, mas nunca chegaram a esse clima pesado que acabou de acontecer. Tatá e Lia eram BSF – Best sisters forever – e se orgulhavam disso, mas o aparecimento da antiga Lia, fechada e insuportável, colocava essa relação em perigo. Não que elas fossem deixar de se amar, isso não, mas palavras alcançam fundo nas pessoas e as palavras ditas pelas duas foram fortes.
A jovem Roqueira pediria desculpas, não fazia isso com frequência, mas nenhum orgulho é mais importante que a amizade da irmã. Se levantado de onde estava, Lia foi ate a sala a procura de Tatá, mas não havia sinal dela. Na conzinha, dona Paulina preparava o jantar.
– Vó, a Tatá tá por ai?
– Não, guria. Ela acabou de sair, parecia bem estressada. Aconteceu alguma coisa?
– Não, vó... Deixa pra lá, depois eu falo com ela.
– Você que sabe... Ah, eu me esqueci de te dizer, tava com tanta coisa na cabeça. Toma! – Dona Paulina entregou um envelope à neta.
– O que é isso?
– Uma carta, né? Chegou hoje de manhã.
– Hum... Estranho! Ninguém que eu conheço escreve carta.
– O que é uma pena! Cartas são mais delicadas do que essas mensagens sem pé nem cabeça que vocês trocam por celular! – Falou dona Paulina voltando sua atenção para a panela no fogão.
– Tá bom, vó. Quando a Tatá voltar avisa que eu quero falar com ela, tá?
Lia voltou para o quarto com o envelope na mão. Não havia remetente e isso a intrigou, já que correspondência apenas com destinatário não eram entregues. Usando um canivete, ela rasgou o papel se deparando com um texto enorme. Ela não precisou ler para saber quem havia escrito: Foi o Dinho. Era a letra torta dele gravada no papel. O primeiro impulso de Lia foi rasgar sem nem ao menos saber o que ele havia escrito, mas a curiosidade venceu. Por quê? Ou melhor: Por que agora? Perguntava-se Lia olhando, sem realmente ver, o papel.
Ele casou com a Fatinha, né? Por que teria interesse em falar, escrever, alguma coisa para ela?
Será que queria mostrar o quanto estava feliz? Sua intenção era mostrar que a tinha superado? Esquecido?
Cansada de tantas suposições Lia começou a ler o que estava escrito.
Oi, Lia.
Oi não é uma boa forma de começar, mas, bem, ainda é um começo, certo? Você deve tá se perguntado o porquê de eu te escrever agora, o porquê, depois de tanto tempo, eu voltar a te perturbar. Pois bem, não rasgue ou queime essa carta já que pretendo esclarecer tudo. Todos os meus motivos.
Primeiro: Eu sinto sua falta. Muita falta para ser sincero. Desde que você foi embora para o outro lado do mundo, que o meu mundo não é mais o mesmo. Não sei se você sabe, mas algumas coisas mudaram. Eu fiz coisas, fiz escolhas que acho que me deixaram mais longe de você. Não que eu me arrependa, mas sei lá... Acreditei que minha vida seria diferente. Em nenhum momento previ a distância que separaria nós dois, e sinto muito por isso.
Segundo: Sinto muito por muitas outras coisas também. Pela Valentina, por ter mentido, por ter permitido que você partisse. Por não ter me jogado na frente daquele avião só para não te ver me deixar. Mas eu não tinha o direito de atrapalhar a sua vida, não tinha o direito de impedir que você seguisse em frente. Mas mesmo tendo a consciência disso, eu ainda sinto muito.
– Mas você poderia ter vindo depois! Por que não fez isso?! – Gritou Lia para o vazio.
Se eu te conheço bem você deve tá se perguntando por que eu não te procurei depois, né? Como eu disse, algumas coisas aconteceram e eu tive que escolher. Não pense que eu abri mão de você, pois vai estar se precipitando. Eu não te procurei porque fui mais necessário aqui e você já tinha me mandado ir catar coquinho mesmo... Não sei se ter ido até a Inglaterra iria mudar alguma coisa.
Terceiro: Lamento por como nossa história terminou. A culpa foi totalmente minha. Eu traí, eu menti, eu estraguei tudo e eu sei o quanto me arrependo por isso. Lamento por nós dois, por mim e talvez, ate por você. Mas é como dizem: Águas passadas não movem moinhos. E arrependimentos não concertam erros. Mas eu queria ter a chance de explicar, se isso é possível, os meus motivos.
Não houve um motivo. Eu não me apaixonei pela Valentina ou algo do tipo, eu não quis te magoar. Não, eu não me senti feliz por ter te traído. Ate hoje eu não sei por que, a única coisa que sei é que aconteceu. Não espero que você entenda ou me perdoe. Nem que continue me amando, seria hipocrisia minha esperar que ainda guardasse algum sentimento por mim, mas você me conhece... Eu sou um sonhador. Então, não se acanhe ou se constranja ao pensar em vir me ver, pois te receberei de braços abertos... Rsrsrsrs! Certo, isso foi idiota da minha parte, mas eu não seria o Idiota se não fizesse esse tipo de coisa.
Ate agora foram três pontos, né? Queria te dizer mais, mas prolongar isso seria inútil. Ainda não acredito que tive a coragem de te escrever, mas... Ah, eu precisava disso. Precisava mais que tudo por para fora o que eu tenho reprimido há anos. Precisava dizer que sinto muito, que lamento e que peço que me perdoe. Queria ter ainda mais coragem para ir ate onde você tá só para olhar o seu rosto, nem que seja pra você me mandar embora e me chamar de idiota uma vez mais. Preciso tanto te ver, te sentir... Te amo.
Droga! Prometi que não escreveria isso, porém... Ah, QUE SE DANE! EU TE AMO! TE AMO, TE AMO, TE AMO! Você pode não sentir o mesmo, pode não acreditar... Pode ate rir de mim e da minha infantilidade, mas eu precisava dizer: Preciso de você.
E eu te amo.
Dinho.
– Lia, a vovó disse que ‘Cê queria falar comigo... Lia?
Tatá correu ate a irmã que chorava desconsoladamente no chão.
– Lia?
A Roqueira nada disse, só continuou chorando. Todas as lágrimas que ela negou-se a derramar escorriam sem controle por seu rosto.
“E eu te amo.”
– Hey, vai ficar tudo bem...
Constância abaixou-se ao lado da irmã colocando a cabeça de Lia sobre as pernas. E esperou ate que a crise de choro passasse.
POV Tatá On
Tinha ido dar uma volta depois que discuti com a Lia. Odiava brigar com ela, mas odiava ainda mais vê-la se prender no seu mundinho de dor. A Lia sempre foi forte, ou melhor, ela sempre quis parecer ser forte, porém eu sabia que aquela armadura que ela apresentava para o mundo desaparecia quando o assunto era o amor pelo Dinho. A Lia ainda o amava, e ainda sofria pelo que havia acontecido.
Foram longos minutos nos quais Lia chorou e chorou. Sentia-me protetora naquela situação, tê-la como uma criança assustada no meu colo era algo novo e surreal. Sorri ao dar-me conta de que outrora havia sido a Loira a me amparar nos vários sumiços de Raquel.
Droga, meu pai tinha razão: Eu estava crescendo! Mas se ajudar minha irmã era um dos atributos que vem com a idade, então, tudo bem.
Notas finais
Minhas 'Dinahs' andam muito palpiteiras, e sem ter mais como esconder, sim o filho não é do Dinho. Mas existe mais coisa nessa história do que se pode imaginar, então continuem lendo hein? Ah... E só para o meu prazer fiz outra Fic. Isso mesmo, a terceira. Algumas pessoas já sabem do que se trata e quem tiver curioso é só ir lá e conferir. Link: http://fanfiction.com.br/historia/387189/Se_Fosse_Amor_Gui9829Lice/
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