À Espada Pelo Sangue
7 Capítulo 7 – "O melhor jogo do mundo".
Notas iniciais
A hora do jantar foi chata.
Eu me sentei com meus irmãos na mesa de Atena, e, durante a refeição, eles me fizeram tantas perguntas que quase perdi a paciência, o que acabaria com meu esforço por manter a calma, mas fui salva pelo gongo.
— Campistas! Hoje teremos Caça à Bandeira. – Quíron anunciou – Atena e Ares lideram. Preparem-se!
— O que é Caça à bandeira? – Perguntei à Annabeth.
— O melhor jogo do mundo. – Ela respondeu enquanto se levantava.
Todos começaram a se dispersar. Annabeth parou para falar com várias pessoas sobre o tal jogo. Eu tentei achar Michael ou Shayla, mas eles não apareciam.
Quem me salvou foi Percy.
— Hey! May, Annie!
— Percy. – Falei aliviada – Dá para me fazer um favor?
— Hum... – ele sorriu – Acho que já sei o seu problema. Deixe-me adivinhar: Annabeth não te explicou ainda o Caça à Bandeira.
— É... Acho que estou boiando.
— Bom, não é difícil. Nós só temos que pegar a bandeira do outro time e levá-la para o nosso território. É permitido usar armas e todo o tipo de apetrechos mágicos.
— E ninguém se machuca?
— Às vezes não. – disse ele – Venha, hora de jogar.
— Às vezes? Não gostei disso.
Meu coração estava acelerado.
Annabeth tinha me colocado para vigiar a bandeira e aquilo estava me deixando paranoica. A qualquer mínimo barulho, meu coração parecia querer sair pela boca.
Eu estava em cima de uma árvore, segurando com as mãos molhadas de suor um arco e com uma aljava cheia de flechas de ponta redonda. Estava pronta para atirar no primeiro que aparecesse, embora torcesse para que ninguém desse as caras. Ou teria um ataque cardíaco.
Estava tudo calmo e eu não ouvia — nem fazia — o mínimo barulho. Até que percebi um vulto, e, no segundo seguinte, a bandeira não estava mais lá.
Quase entrei em desespero.
Pulei da árvore e olhei ao redor. Armei o arco, com medo. E esperei. Até que alguém passou correndo por mim.
Corri atrás, mas a pessoa era rápida. Mirei uma flecha, mas ela passou zunindo por seu braço.
“ Vamos, May!” falei a mim mesma “ Sebo nas canelas!”
Acelerei. E, quando alcancei o que percebi ser um garoto, em cinco segundos eu vi: a forma como ele se inclinava ligeiramente para a direita, a leve hesitação em seu passo me avisaram que ele mudaria de direção. Com cálculos rápidos, lancei a flecha para onde pensei que ele estaria quando ela o alcançasse. Por um milagre, a flecha atingiu sua armadura e o lançou no chão.
— Desculpe, – falei pegando a bandeira de volta da mão do garoto – mas acho que isso me pertence. Agora, você é o meu prisioneiro.
Eu peguei a flecha do chão e a apontei para seu pescoço.
— Levante-se.
— Acha que pode me prender usando uma flecha? – ele desdenhou, uma vez em pé – Você ainda tem muito que aprender, novata.
O garoto agarrou minha mão com tanta força, que deixei a flecha cair.
— Solte-me! – falei segurando-me para não dar um grito. Meu rosto esquentou em irritação
— Quem é o prisioneiro agora? – Ele olhou para a bandeira em minha mão.
— Ah, não. Isso não. – Estiquei a mão o mais longe que pude, como uma criança que não quer entregar o controle da televisão.
O garoto riu.
— Você é ainda mais idiota do que pensei. – Ele esticou a mão e agarrou a bandeira, mas eu não a soltei. – Solte isso!
— Não!
Ele puxou com mais força, mas continuei grudada.
— Larga!
— Não!
Então ele deu um tapa no meu rosto.
— Solte essa bandeira! – Grasnou.
Respirei fundo, sentindo meus nervos à flor da pele. Meu punho se fechou com força, a ponto de minhas unhas perfurarem minha palma. Com os olhos faiscando e os dentes trincados, percebi que estava prestes a perder o controle.
— Você não fez isso...
— Fiz e faço de novo!
— Vai se arrepender.
— Cale essa boca e largue logo essa bandeira, imbecil!
Não aguentei. Estava me esforçando para me segurar, mas aquele garoto fora longe demais. Dei uma joelhada em sua barriga e ele se dobrou para frente. Aproveitei e dei um soco em seu nariz. Depois, um chute no lugar entre suas pernas o deixou no chão e provavelmente estéril. Com ele caído e se contraindo de dor, pisei em seu peito.
— Quem é que precisa aprender aqui, hein? – Perguntei.
Estava prestes a continuar batendo quando me dei conta do que estava fazendo. Obriguei-me a parar. “Conter o espírito de agressão, conter o espírito de agressão” repeti para mim mesma o lema do Karate, numa tentativa de me acalmar.
Segurei a bandeira e voltei ao meu posto, deixando o garoto lá, caído e gemendo pela dor.
— Bem feito. – Murmurei.
Armei meu arco e me posicionei à frente da bandeira, ainda com raiva.
Ouvi um barulho entre as árvores. Havia alguém ali.
Apontei o arco e estreitei os olhos. No escuro, não podia ver muita coisa, mas pude notar o leve brilho do Bronze Celestial de uma espada. A silhueta de alguém pareceu se aproximar. Era alguém grande, mas a minha raiva encobriu o medo, e permaneci com os pés grudados no chão.
A pessoa percebeu que eu já a havia visto e saiu do meio da vegetação.
Era uma menina alta e forte. Usava uma armadura grega completa, que tinha o símbolo de um javali no peito.
Ares. Era uma garota de Ares. E tive certeza que isso significava que eu já era.
— Que imprudência! – A garota riu – Colocar a novata para guardar a bandeira? Só pode ser piada!
Em alguns minutos, eu provavelmente estaria na enfermaria com Michael me dando uma bronca, mas respondi firmemente:
— Você não faz ideia do que eu sou capaz.
Apontei uma flecha.
— Flechas? Que fofo. – Ela girou a espada – Mas prefiro o estilo mano a mano.
Ela avançou.
Comecei a atirar, mas a garota desviava e continuava vindo.
Desisti do arco e peguei minha espada. É claro que não podia contar com ela, pois não tinha nenhuma experiência em esgrima, mas uma defesa a mais poderia ajudar.
A garota se lançou sobre mim. Girei para o lado e desferi um arco em sua direção, mas eu não tinha força no golpe. Ela o aparou e me deu uma rasteira. Caí de costas no chão, e tive tempo apenas de rolar para o lado a fim de não ser atingida pela lâmina da garota. Levantei e contra-ataquei. A garota desviou o golpe com a espada e bateu com o cabo em minha testa.
Senti a cabeça latejar e minha visão ficou turva.
— Você já era. – Ouvi a garota dizer.
Olhei e vi que sua mão livre já estava agarrando a bandeira.
Num lampejo, tive uma ideia.
Já havia percebido que não tinha nenhuma chance contra ela com a espada, mas eu não tinha só isso.
Virei-me para ela.
— Vamos lá, Prostátida. – sussurrei – Me dá uma força.
Aproveitei sua distração. Dei um chute em seu peito, e ela se desequilibrou, mesmo assim conseguiu mandar um arco horizontal em minha direção. Trincando os dentes, aparei golpe com Prostátida, desta vez sem vacilar. Girei sobre o calcanhar, enviando minha perna até o rosto da garota, fazendo-a cair no chão. Bati com o cabo de minha espada em seu capacete para desnorteá-la e depois apontei a lâmina para ela.
— Quem é a piada agora? – debochei e a imitei: — Que impudência! Mandar uma inexperiente capturar a bandeira!
Ela fez uma cara feia.
— Vamos levantando, prisioneira. – Falei.
Ouvi um sinal soar e nosso lado explodiu em vivas. Havíamos ganhado.
Liberei a garota e ela saiu reclamando e batendo os pés.
Annabeth se materializou ao meu lado e eu quase morri do coração.
— Deuses! – Exclamei, chateada — Annabeth! Vê se não me mata antes do tempo!
— Foi mal. – falou, mas não pareceu estar realmente se sentindo mal – Bom trabalho aqui, hein?
Bufei.
— Como sabe? Não estava aqui para ver.
— Não exatamente. – Disse ela – Aquele garoto não vai querer encostar em você nunca mais, hein?
— O-o que? – Perguntei confusa, mas ela já tinha se juntado aos outros para comemorar a vitória.
Suspirei e comecei a me afastar, mas Michael se aproximou. Eu não estava no clima, mas ele me abraçou e me girou no ar.
— VENCEMOS! – Celebrou.
Revirei os olhos.
— Quer saber? Vou voltar para o chalé. – E saí andando.
— Ei! Onde pensa que vai? – Ele me puxou de volta.
— Quer fazer o favor de me largar?
— Nem pensar. Você vai ficar aqui. May, anime-se.
Puxei meu braço com força.
— Me deixa!
Girei sobre os calcanhares e fui andando para os chalés.
— Ei, o que é que você tem? – Michael me seguiu. – Estava tão bem mais cedo.
— Nada. – repliquei sem olhá-lo.
— Pare com isso. – disse ele – Posso te conhecer há apenas dois dias, mas já é o bastante para saber que não há apenas “nada”.
Suspirei, exasperada.
— “Que imprudência! Colocar a novata para guardar a bandeira! Só pode ser piada!” – Imitei a filha de Ares e depois o garoto: – “ Você ainda tem muito o que aprender, novata!” “ Você é ainda mais idiota do que pensei!”
— Ahn... – Ele fez cara de quem não entendeu.
Rolei os olhos. Meu rosto estava quente e meus punhos cerrados. Eu sabia que estava deixando a irritação tomar conta de mim, mas não senti vontade de resistir.
— É o meu segundo dia e um deus quase me matou, já fui ferida, rebaixada, chamada de idiota e um garoto de merda deu um tapa na minha cara! – Exclamei (lê-se gritei) – Vocês, semideuses idiotas, dizem que esse lugar idiota é seguro, mas até agora o mundo mortal foi bem melhor que isso. Eu deveria voltar para lá, isso sim.
— May...
— Não diga nada. Não vai adiantar. – Abri a porta do chalé de Atena – Estou cansada. Só me deixe em paz.
Bati a porta, sem lhe dar chance de dizer algo, e apoiei as costas contra ela, escorregando até o chão.
“Droga” pensei, de repente com raiva de mim mesa “Droga, May, não acredito que gritou com ele dessa forma!” Soquei o chão. Aquilo estava indo longe demais. Lágrimas de frustração umedeceram meus olhos.
Obriguei-me a levantar, e só então percebi que ainda segurava Prostátida. Estava prestes a fazê-la voltar a ser uma pulseira quando notei que seu brilho estava mais intenso que o normal. Foi suficiente para desviar minha atenção da briga com Michael. Olhei mais de a espada mais de perto. De alguma forma ela parecia diferente, como se passasse uma sensação maior de força. Deslizei os dedos de leve pela lâmina, mas acabei me cortando.
— Ai! – murmurei, levando a mão à boca.
“Achei que Prostátida não iria me cortar” pensei, perguntando-me por que ela o fazia, visto que Annabeth dissera sobre a Prata Olimpiana. Mas o esforço de pensar sobre aquilo naquele momento me pareceu grande demais, e meus olhos começaram a pesar.
Deixando a questão para depois, fiz Prostátida voltar à sua forma de pulseira e, arrastando os pés, fui me aprontar para dormir.

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