À Espada Pelo Sangue
5 Capítulo 5 - E Agora Tenho Que Manejar Objetos Mortais
Notas iniciais
Meus sonhos foram preenchidos por fragmentos confusos e um pouco assustadores demais para que eu fosse capaz de lembrar. Acordei pela manhã com Annabeth me sacudindo. Todos no chalé já estavam envolvidos em alguma atividade, e eu me perguntei como não havia acordado antes com a movimentação. Ela me fez levantar e ficar pronta para meu primeiro dia. Quando saí do banheiro, os outros haviam se reunido em uma meia lua, e Annabeth anunciou o “ritual de boas-vindas” do chalé de Atena.
Para começar, cada um se apresentou. Tentei memorizar os nomes, mas sabia que demoraria pelo menos dois dias antes de poder lembrar de todos os quatorze. Sim: quatorze filhos de Atena entre doze e dezessete anos. “Mamãe esteve ocupada” pensei, sentindo-me estranha ao mentalizar uma coisa dessas.
A melhor parte veio depois, quando me entregaram uma caixa do tamanho de uma caixa de sapato. Quando a abri, havia uma coisa peluda de olhos grandes olhando para mim. Era tão feiosamente fofa — se é que isso é possível — que levei alguns segundos antes de perceber que era um filhote de coruja.
— A coruja é o símbolo de Atena, como já deve ter percebido. – disse Annabeth – Há dois anos começamos uma tradição: cada filho de Atena deve criar uma coruja aqui no Acampamento. Sabe, Poseidon tem seus cavalos, Demeter suas plantas, e até Hades tem seus Cães Infernais. Apolo cria vacas e Hermes tem cobras em sua arma divina. Então, nós decidimos criar um vínculo maior com o animal que representa nossa mãe.
Um dos garotos deu um passo à frente. Seu nome era Jake O’Coney, e era o segundo no comando do Chalé. Tinha um óculos apoiado no nariz, escondendo seus olhos intensos, e cabelos castanhos. Ele devia ter cerca de quatorze anos, e tinha uns dez centímetros a menos que eu (e eu nunca fui considerada muito alta), mas algo me dizia que sua altura não era um problema, tampouco sua idade. Sua personalidade não me parecia agressiva, mas eu tive a impressão de que seria uma má ideia tê-lo como inimigo. Empoleirada sonolentamente seu ombro, havia uma coruja preta adulta.
— Você deve dar um nome a ela. – Falou – E cuidar dela até que tenham um vínculo. Seu sucesso será verificado se, quando ela aprender a voar, ela escolher ficar com você. Uma vez que ela te escolher, jamais vai te abandonar. Corujas são muito leais quando decidem ser.
— Sério? – murmurei, ainda surpresa demais para dizer qualquer outra cosia. Eu fitei a bolinha encolhida na caixa. – Mas eu não tenho ideia de como cuidar de uma coruja.
— Não se preocupe – Jake falou – Annabeth já me encarregou de te ensinar até que você seja capaz de fazer sozinha.
— Ela é sua responsabilidade, May – Annabeth completou – Assim como muitas outras coisas aqui. Este Acampamento é um lugar seguro, mas isso não significa que vamos nos acomodar, certo?
Supus de devia concordar, então assenti com a cabeça.
— Muito bem! – Ela abriu um sorriso – Vamos encerar a cerimônia com nossa Chuva de Prata!
Ouviu-se um “pop!” e confete prateado voou, caindo ao nosso redor. Tampei a caixa para que a pequena ave não fosse incomodada e observei a queda suave da “chuva”.
Sorri. Sentia, de uma forma que eu não podia explicar, como se aquilo fosse tão natural e familiar, que era confortável, embora nunca tivesse feito nada daquilo.
Meus irmãos se dispersaram e Annabeth disse que poderia deixar a caixa aos cuidados de Jake por enquanto e me levou para fora do Chalé. Já era tarde para o Café da Manhã, então seguimos direto para a programação do dia.
— Como está o ombro? – Ela perguntou.
— Ah! – Exclamei, de repente lembrando do ferimento.
Movi o ombro cuidadosamente. Eu o senti formigar, mas não chegava a doer.
Franzi a testa.
— Não dói. – Falei, estranhando.
Ela me lançou um olhar ladeado.
— Hm, não dói, não é? – Murmurou, quase que para si mesma. Então fez um gesto tranquilizador – Bom, então o Néctar fez seu trabalho.
Ela continuou a caminhar. “Sério?” pensei “Esse tal de Néctar é assim tão eficiente?”.
Nós chegamos a um campo aberto, onde alvos estavam dispostos em diferentes distâncias e vários campistas atiravam com arcos longos.
— Espera, Annabeth. – Falei – Vai me fazer treinar Arco-e-flecha?
— Não se preocupe. – Ela respondeu – Você vai ficar bem.
— Mas, eu tenho certeza que Michael me disse para...
— May! – Alguém gritou.
Procurei a fonte da voz e dei de cara com Shayla, correndo em minha direção. Ela me abraçou e então forçou uma cara emburrada.
— Você sumiu ontem e me deixou sozinha – Falou, fazendo com que eu me sentisse culpada.
Eu sempre fazia isso. Quando algo ocupava minha mente, esquecia de tudo ao redor. Às vezes demorava horas até que eu percebesse que havia esquecido que combinado com ela ou Kyle de fazer alguma coisa. Na euforia da noite anterior, havia esquecido completamente que ela estava comigo.
Deixei os ombros caírem, frustrada comigo mesma. Já havia prometido várias vezes que tentaria mudar isso, mas parecia impossível: quando alguma coisa ocupava minha mente, ficava difícil.
— Foi mal, Shay. – desculpei-me.
Ela fez um gesto de desdém. Como esperado, ela nunca guardava rancor sobre alguma coisa.
— Não tem problema. Mas você perdeu a melhor parte!
Ela parecia prestes a começar a dar pulinho de alegria. Eu ri. Essa era a Shayla de sempre. Era bom saber que algumas coisas não mudavam, não importa o quanto todo o resto se tornasse estranho.
— O que foi? – Perguntei.
— Eu fui reclamada! E adivinha?
Olhei para cima, fingindo imaginar quem seria o pai dela. Depois do que Kyle falara no carro, me surpreendia que Shay estivesse surpresa.
Ela não se segurou.
— Apolo! E isso quer dizer que sou irmã de Michael. – Acrescentou sorrindo para mim.
Ergui uma sobrancelha.
— Nossa, não sabia que havia gostado dele tanto assim.
— O que? – Ela disse, confusa – Não, o que eu quis dizer...
— Meninas. – Annabeth interrompeu – Peguem estes arcos. Quíron já está chegando.
Franzi a testa.
— O cara de cadeiras de rodas ensina arco e flecha? – perguntei.
— Não – disse Annabeth — O centauro ensina arco e flecha.
Não entendi imediatamente, foi então que Quíron chegou e eu percebi do que ela estava falando.
O cara era metade cavalo e metade humano, ou seja, um centauro.
É claro, por que não teríamos centauros no Acampamento? Super normal.
— Ele é...? – Shayla começou.
— Sim – disse Annabeth.
— Estranho. – eu disse.
— Sim. – Annabeth concordou.
Ela continuou andando sem esperar por nós.
Caminhei na direção de Quíron seguida por Shayla.
— Ahn... – eu comecei – Quíron?
— Ah, olá meninas. – ele disse – Como passaram a noite?
— Não há um jeito de descrever a primeira noite após descobrir que se é um semideus. – Respondi – Mas então, você é...
— Um centauro. – ele completou – Sim.
— Há outros centauros aqui? – perguntei.
— Não. – ele disse, com uma voz robótica, quase como se tivesse que responder essa pergunta muito frequentemente – Meus parentes não são muito convenientes, então nós os mantemos longe, de preferência.
— Ah.
— Mas vamos às aulas. – ele disse mudando de assunto.
Quíron seguiu para onde os campistas estavam reunidos, enquanto eu e Shayla o acompanhávamos. Segui o instinto de não ficar atrás dele. Eu já havia levado um coice uma vez, e não era uma experiência que eu queria repetir (se duvidar, ainda era capaz de encontrar a marca das ferraduras daquele maldito cavalo em meu corpo). Definitivamente não. Eu havia decidido que iria passar esse primeiro dia sem ir parar na enfermaria.
Quíron nos deu atenção durante quase toda a aula, já que éramos novas no ramo dos arcos-e-flechas e corríamos o risco de machucar os outros com nosso esplêndido senso de mira. Ora, vamos. Até que eu não era tão ruim assim: a postura era algo fácil de incorporar, visto que se treinava muito isso no Karate, e eu também tinha a força, então meu desemprenho não era ruim para uma iniciante. Mas Shayla era incrível. Ela acertou no alvo várias vezes, e não precisou que ficassem explicando várias vezes sobre como posicionar a flecha ou como segurar o arco. Acho que era por que seu pai é o deus do Apolo e tudo mais.
Quando a aula acabou, meus braços estavam da mesma forma de quando meu professor de Karate mandava eu socar o saco de pancada por cinco infinitos minutos: parecendo gelatina. O que eu mais queria, era cair de cara no chão e não me mover por pelo menos uma hora, mas Annabeth logo anunciou que estaríamos seguindo para um treino de Esgrima.
Shayla e eu começamos a reclamar.
— Annabeth, meus braços vão cair! – falei.
— Acostume-se. – ela respondeu, fria – Agora, vamos. Nós temos que escolher suas armas.
Já no arsenal do Chalé de Atena, ela me fez experimentar alguns tipos de armas, mas nenhuma era ideal, até que uma adaga finalmente pareceu se encaixar nas minhas mãos.
— Você definitivamente vai de espada. – Ela declarou, tomando a arma.
— Mas... – eu me interrompi diante de seu olhar intenso.
Annabeth me observou cuidadosamente, como se conseguisse descobrir que tipo de arma eu deveria usar apenas olhando. Seus olhos pareciam esquadrinhar todo o meu corpo, chegando a me deixar um pouco constrangida. De repente eles pousaram em meu pulso e se arregalaram. Annabeth apontou para a minha pulseira de prata.
— Deixe-me ver. – ela disse.
Eu levantei meu braço lentamente e ela segurou meu pulso.
— O símbolo de Atena. – ela disse — Como conseguiu isso?
— Meu pai disse que minha mãe me deu — Eu disse baixinho.
Um pequeno sorriso brotou em seu rosto.
— Foi o que eu pensei. – ela disse.
Annabeth analisou cuidadosamente a coruja que a pulseira portava. Seus olhos estudavam cada detalhe, até que ela os desviou para mim e disse:
— É uma arma. Talvez uma espada ou uma adaga, mas é sempre o que você vai se adaptar melhor. Você só precisa descobrir como fazê-la se transformar.
— Quer dizer que a pulseira dela pode virar uma arma? – Shayla perguntou encantada. – Como isso é possível?
— Magia. – Annabeth respondeu — Os deuses muitas vezes transformam simples objetos em armas ou pedem que Hefesto faça isso por eles. Meu namorado, Percy, tem uma caneta que se transforma em espada e eu tenho um boné de invisibilidade.
— Isso é simplesmente incrível! – eu disse analisando minha pulseira – Como faço para ela se transformar?
Então, uma ideia me ocorreu. Puxei com toda a força a pulseira do meu braço sem me preocupar se ela quebraria ou não. Imediatamente ela se transformou em uma espada de prata reluzente. No punho, a cabeça de uma coruja com olhos de brilhantes. A arma cabia perfeitamente em minhas mãos.
Eu a manejei de um lado para o outro, hipnotizada por sua beleza e leveza. Ao mesmo que passava uma sensação de ser forte e letal. De certa forma, parecia tanto adequado quanto confortável. Meu pai uma vez dissera que a pulseira poderia me proteger em momentos de perigo, e agora eu empunhava a espada.
— É linda! – Shayla disse.
— Isso não é bronze celestial – Annabeth disse estreitando os olhos e depois os arregalando – É prata olimpiana! Esse metal é mais raro que o ouro imperial!
— Sério? – perguntei – Por quê?
— Antes, todas as armas feitas para os semideuses eram de prata olimpiana. Com o passar dos anos, esse metal foi ficando cada vez mais escasso e passamos a usar o bronze celestial. De vez em quando, encontramos uma ou outra arma feita dela. Normalmente nós a enviamos para o Olimpo, já que os deuses exigem os metais mais preciosos para eles. Aqui no acampamento só há uma adaga feita de prata.
— Vocês não vão mandar minha espada para o Olimpo. – falei.
— Claro que não. – Annabeth disse – Atena deve tê-la dado a você por algum motivo, por isso, ficará com você. Eu posso ver?
— Sim. – respondi entregando a espada a ela, que a pegou com o maior cuidado.
Annabeth olhava cada detalhe do cabo, base e por fim ela parou na lâmina.
— Há uma inscrição em grego aqui. – ela disse. – Veja.
Ela me estendeu a espada e eu vi o que havia. Imediatamente a tradução veio em minha mente e eu disse em voz alta, surpresa:
— “À filha da sabedoria, àquela que é destinada. À portadora da arma, a benção de Atena.” O que isso quer dizer?
— Que você tem a benção de Atena, eu suponho. – Annabeth disse – Veja do outro lado.
Virei a espada e vi outra inscrição que minha mente também me deu a tradução.
— Prostátida... A protetora. – falei.
— Parece que mamãe estava inspirada quando fez a arma – Annabeth disse – O melhor da Prata Olimpiana é que ela não fere seu dono. Uma vez que a arma reconhece seu portador como digno, jamais será capaz de feri-lo. Vai atravessá-la como o Bronze Celestial atravessa os mortais. É como se criasse um laço entre lâmina e guerreiro.
— Awwwwnt – Shayla disse e depois olhou para o alto – Eu quero um assim também, Apolo!
Annabeth deu um sorriso.
— Sabe – ela disse para Shayla – você me lembra uma amiga.
— Quem?
— Silena, filha de Afrodite.
— Quero conhecê-la. – Shayla falou já se animando.
O sorriso desapareceu do rosto de Annabeth.
— Silena morreu há um ano, na guerra contra os Titãs.
— Ah. – Shayla disse desapontada – Eu sinto muito.
Annabeth assentiu tristemente, mas logo retomou a compostura e falou:
— Então, vamos ver uma espada para você também, Shayla.
Shayla fez cara de desgosto.
— Eu não posso ficar só com o arco e flecha? – ela perguntou.
— Não, todos no Acampamento precisam treinar com mais de uma arma.
— Então eu quero uma arma que seja de longo alcance. – Shayla falou.
— Uma lança? – Annabeth perguntou.
Shayla parou e olhou para o vazio durante dois segundos, da mesma forma que havia feito durante a viagem. Perguntei-me por que ela vinha fazendo isso com tanta frequência, mas antes que tivesse a chance de perguntar-lhe, ela olhou para Annabeth e disse:
— Talvez, mas... Não. Uma lança não. O que mais você tem?
— Temos espadas, lanças, adagas...
— Uma adaga! – Shayla disse – É isso!
— Mas, Shay, — eu disse — uma adaga não é uma arma de longo alcance.
— Eu sei. – respondeu – Mas é isso que eu quero.
— Por quê?
Shayla olhou para mim como quem dissesse: Depois conversamos.
— O.K. – eu disse – Vá em frente então.
Shayla sorriu para Annabeth que passava os olhos entre mim e ela, mas depois se virou e começou a procurar adagas. Ela se voltou para nós com uma adaga empunhada.
— Veja esta. – ela disse entregando-a a Shayla – Seu nome é Lámpsi, que quer dizer “Brilho”. Ela pertencia a um filho de Apolo que foi morto na guerra contra os titãs.
— Ela era de um irmão meu? – Shayla perguntou – Como era o nome dele?
— Lee. – Annabeth respondeu — Lee Fletcher. Ele morreu quando Cronos quase destruiu o Acampamento através do Labirinto de Dédalo. Ele não usava muito essa adaga, mas havia sido um presente de Apolo. É perfeita tanto para atirar como para uma luta corpo a corpo.
— Eu gostaria de usá-la, mas... Não sei se devo. – Shayla disse.
— Não se preocupe com isso. Aposto que Lee aprovaria.
Shayla sorriu e embainhou a adaga.
Annabeth olhou para o relógio e arregalou os olhos.
— Ai, meus deuses! – ela quase gritou — Estamos atrasadas! A aula já deve ter começado!
Corremos para fora do chalé e fomos em direção à arena.


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