À Espada Pelo Sangue

22 Capítulo 19 - Acho Meu Exorcista.


Notas iniciais
Oiii gente ^^ Então, eu sei que programei a postagem para sábado, mas talvez eu não tenha tempo amanhã. E, como o capítulo ficou pronto, resolvi postar hoje ^^ Enfim, vejo vocês no final :3

Foi o choro baixinho de Luther no andar de cima que me fez finalmente levantar de meu torpor. Peguei a adaga ao lado do corpo de meu pai, girei-a na mão e ela se transformou na presilha de cabelo que eu vira Layla tirar quando a luta começou, assim como a espada dele, que transformou-se em uma corrente com um pingente. Corri escada acima e puxei a portinha que dava acesso ao sótão, colocando a cabeça dentro, procurando por meus irmãos.

Eles estavam encolhidos em um canto, Laura tapando a boca de Luther com a mão, seus olhos arregalados expressando pavor. Eles provavelmente haviam ouvido os gritos lá embaixo, e deviam estar tremendo de medo até os ossos.

— Laura. – chamei antes de entrar para não os assustar mais ainda.

Minha irmã ergueu a cabeça, procurando. Fiquei de pé e caminhei até eles.

— Mamay! – exclamou Luther, estendendo suas pequenas mãos para mim.

Eu sorri para ele, e estiquei a mão para tocar seu rosto, mas parei ao ver o quão ensanguentada ela estava. “Com o sangue do meu pai” pensei, meus olhos voltando a arder “Com o sangue do pai deles. Como eu posso cuidar deles quando eu fui aquela que matou seus pais? ”

O olhar de Laura foi do meu rosto à minha mão, e então suavizou. Ela colocou Luther no chão ao seu lado, e segurou minhas mãos.

— Está tudo bem, May. – ela disse e me abraçou – Não é sua culpa.

Envolvi seu corpo pequeno em meus braços, espantada demais para responder. Como ela sabia? Foi então que lembrei: Layla havia dito que ela estava tendo sonhos. Será que ela sabia que meu pai...? Se sim, como ela conseguia me abraçar e dizer que estava tudo bem? Laura sempre fora precoce, mas isso? Chegava a ser assustador.

Um barulho veio do andar de baixo.

— Temos que ir. – falei baixinho, entre lágrimas.

Eu a soltei, de repente percebendo o perigo de continuarmos ali. Eu havia perdido tempo demais em minha dor. Layla já devia estar quase curada.

— Temos que ir. – repeti, mais alarmada.

Peguei Luther no colo e agarrei a mão de Laura. Colocando a mochila nas costas, por cima da que já trazia, corri para a janela do meu antigo quarto. Eu sabia que era perigoso demais passar pela sala agora. Assim, abri as cortinas e a janela, e coloquei as pernas para fora.

Olhei para Laura.

— Eu vou descer primeiro. Quando eu chegar lá embaixo, quero que pule para mim, entendeu?

Ela arregalou os olhos, apavorada, mas assentiu com a cabeça.

Segurando Luther com força contra o meu corpo, escorreguei pelo telhado e pulei para o gramado, rolando no chão para amortecer a queda. Levantei e coloquei meu irmão no chão, gritando para Laura pular. Ela obedeceu, e eu a segurei, caindo no chão com o impacto. Meu tornozelo agonizou de dor. Murmurei um xingamento, mas levantei novamente.

A porta da frente da casa bateu.

“Pelos deuses, são eles” pensei alarmada. Peguei Luther no colo novamente.

— Lau, — falei com pressa – preciso que corra, entendeu? Corra o mais rápido que puder, mas não saia de perto de mim, entendeu?

Ela assentiu, determinada. Eu agarrei sua mão e corremos para a rua. Vizinhos pasmos observaram enquanto passávamos a toda velocidade, provavelmente vendo minhas mãos molhadas de sangue e correndo para o telefone, ligando para a polícia. Rezei silenciosamente que a Névoa achasse uma forma de fazer tudo aquilo não parecer uma adolescente assassina raptando duas crianças.

Chegamos a um cruzamento, com carros passavam para lá e para cá. Olhei para trás e me arrependi imediatamente. O corpo de Layla, ainda ferido, corria em nossa direção, os olhos ferozes. Atravessei a rua, disparando, a procura de alguma avenida mais movimentada. Talvez o eidolon hesitasse em atacar estando em público. Ele provavelmente não iria querer que seu mais novo hospedeiro fosse perseguido pela polícia, ou pelo menos era o que eu esperava.

Chegamos a uma principal. Pessoas transitavam nas calçadas, apressadas demais para prestar atenção em nós. O trânsito estava congestionado, e motoristas impacientes buzinavam, colocando a cabeça para fora e gritando palavrões. Um dia normal nas avenidas de New York. Exceto pela garota ensanguentada correndo com duas crianças, fugindo de uma mulher.

Atravessei a rua, esperando poder despistá-la. Corri, olhando para trás para verificar a posição de Layla, mas acabei trombando em alguém. Laura caiu no chão ao meu lado. Olhei para cima. Um homem enorme olhava para nós com a expressão dura, as veias de seus braços saltando. Eu poderia facilmente dizer que aquele era seu estado normal, se não fosse pelos olhos dourados e o tremor em seu lábio. Ele estava possuído.

Levantei e puxei Laura comigo, virando para o outro lado. Mas Layla havia nos alcançado, cercando-nos pela esquerda. Estávamos encurralados, com uma grade atrás de nós e o mar de carros movendo-se à frente. Minha única opção agora seria lutar.

— Lau, feche os olhos e não abra até eu mandar, entendeu? Também não deixe que Luther veja isso. – Eu disse, sabendo que podia acabar tendo que machucar a mãe deles. “É minha mãe também” pensei, com um aperto no peito.

Ela balançou a cabeça e abraçou o menino, enterrando o rosto dele em seu ombro.

Coloquei meus irmãos atrás de mim, encostados à grade, larguei as mochilas no chão e saquei a espada. Graças às minhas aulas de Karate eu sabia bem como lutar com uma barreira atrás de mim. Afastei as pernas e flexionei os joelhos, de forma que não precisaria ficar de costas para nenhum dos monstros. Nenhum dos dois tinha armas — a exceção de um pedaço de madeira na mão do homem — o que me dava certa vantagem mas ainda assim eu sabia que não seria fácil. Eu havia visto o que o eidolon havia feito em meu corpo: a forma como ele se movimentara mostrou que eles certamente não dependiam apenas das habilidades de seus hospedeiros, mas podiam ser fortes por si só.

Eu levei uma das mãos à boca e assoviei alto, chamando por Link, que, eu sabia, estivera me seguindo desde a minha saída do Acampamento. Ele orientava-se pelo som do sininho pendurado em minha mochila, bem como por suas habilidades de rastreador. Sua resposta foi imediata, e ele desceu em um voo rápido, com as garras apontadas para frente, mirando o rosto do homem.

Layla avançou. Desferi um chute lateral com a perna esquerda, atingindo sua barriga com a faca do pé. Seu corpo cambaleou para trás, mas ainda conseguiu desviar minha estocada com a espada, saltando para mais longe. O grandalhão não perdeu tempo. Enquanto minha atenção estava voltada para Layla, ele deu um tapa em Link, que caiu no chão, e lançou-se para frente, numa tentativa de atingir minha cabeça com a estaca de madeira com um arco horizontal. Abaixei-me, flexionando os joelhos e, usando a subida como impulso, dei uma cotovelada em seu queixo.

O impacto o desestabilizou, mas não foi capaz de causar muito dano. Com reflexos rápidos, ele fez um arco com a madeira na direção do meu abdome, apesar de estar caindo para trás. Sem tempo para defender com a espada, estiquei o braço para aparar o golpe, percebendo tarde demais que era uma péssima ideia. Gritei de dor, mas não tive tempo para lamentar, pois Layla investiu novamente. Ergui a perna direita em um chute alto, atingindo sua cabeça, que bateu contra as grades com força.

— Desculpe por isso – falei, fazendo um corte profundo em sua perna com a espada. Ela caiu no chão.

Link se recuperou e voou para atacá-la, arranhando suas costas, enquanto ela tentava se desvencilhar. Quando um movimento brusco a fez bater a cabeça no chão, ela pareceu desmaiar.

Desferi um arco com a espada em direção ao homem, aparando mais um ataque da estaca, e esta se partiu em duas. Ele rangeu os dentes, jogou em minha direção o pedaço que havia sobrado, me desequilibrando, e avançou. Não tive tempo de reagir. Ele me derrubou e partiu para cima de mim, desferindo socos em meu rosto com seus punhos enormes. Posicionei meus braços de forma protetora, numa tentativa de evitar os impactos, mas meu braço esquerdo já estava machucado e não suportaria muito. Eu sabia que Link o deveria estar atacando no momento, mas não estava surtindo efeito. Senti gosto de sangue na boca, meus sentidos começaram a ficar entorpecidos, a dor se espalhou pelos meus ombros e tronco.

Eu já estava no limite quando senti os socos pararem. Tentei abrir os olhos, mas apenas um deles obedeceu. O grandalhão ainda estava em cima de mim, mas havia uma espada de prata atravessando seu corpo. Não havia sangue, mas uma aura branca e gélida era absorvida pela espada. “Alguém o matou” percebi “Não qualquer um, mas um Greno”. Eu sabia que qualquer semideus carregando uma lâmina de Prata Olimpiana provavelmente seria um Greno, visto que a maior parte desse metal fora consagrado à nossa família.

O corpo caiu para o lado, fumegando, abrindo a visão para o meu salvador. O garoto acima de mim retirou a espada das costas do homem caído. Ele tinha um cabelo preto bagunçado, olhos verde-mar faiscantes, a pele bronzeada e usava brinco na orelha direita. Vestia uma calça jeans skinny que eu não sabia dizer se fora feita para parecer surrada ou se realmente o era. A blusa tinha uma arte sobre skates estampada, mas estava quase toda coberta por uma jaqueta preta.

Ele não se ofereceu para me ajudar a levantar. Com o rosto e os braços latejando de dor, fiquei de pé. O garoto caminhou até Layla, segurando a espada de prata relaxadamente ao lado do corpo.

— Espere, não. – falei, mas minha voz parecia afogada em sangue. Link voou de volta para mim, parecendo preocupado. Ele pousou no chão à minha frente, mas meus olhos estavam presos ao garoto.

Ele se virou com um olhar questionador. Tossi e cuspi sangue, mas manquei até ele.

— Não pode usar a espada nela. Ela é uma semideusa. – disse eu. – Uma Greno como nós.

Eu sabia que metais do Olimpo não feriam mortais como aquele homem, mas não era assim com semideuses. Não podia deixar que aquele garoto machucasse Layla ainda mais.

Ele franziu a testa e se agachou ao lado dela. Seu peito subia e descia, indicando que estava apenas inconsciente. Havia um corte grave em sua testa que sangrava, a sua blusa estava estraçalhada nas costas, onde minha coruja a havia atacado. O garoto pegou um de seus braços e puxou a manga da blusa que vinha até a mão, revelando seu pulso e virando-o para cima. As veias estavam saltadas, quase pretas em sua pele pálida, pulsando.

— Ela foi curada. – ele falou, afastando-se. Seu sotaque indicava que era estrangeiro.

Olhei para ele sem entender.

— Há quanto tempo foi possuída?

— Talvez uns dez minutos. – estimei.

— Então precisamos nos apressar. – concluiu, avançando com a espada novamente.

— O que? Não! – segurei seu braço.

Ele se desvencilhou.

— O que está fazendo? Quer que ela fique possessa para sempre? Ela não tem muito tempo.

— O que? – repeti.

Ele revirou os olhos.

— Pelos deuses. – murmurou – Ela foi curada por eles. Isso quer dizer que resta pouco tempo até que a possessão seja irreversível. Se chegar a este ponto, a espada não será capaz de absorver o demônio. Mesmo agora há poucas chances de eu conseguir prendê-lo.

— Mas e quanto a ela? – perguntei.

— Talvez sobreviva. – disse – Lavará meses para se recuperar, mas pode viver.

Pode viver?! – exclamei em descrença – Ah, não. Você não vai enfiar isso nela. Terá coragem de matá-la?

Ele me ignorou e, correndo até o corpo de Layla, se ajoelhou ao seu lado, apalpando as costelas dela. Eu tentei correr, mas minha perna vacilou. Caí de joelhos, o mundo girando. Link se aproximou, parecendo confuso sobre o que fazer. Olhei para o garoto novamente. Ele começou a recitar em Grego Antigo, e então, enfiou a espada em seu lado. Layla gritou de dor, mas ele a segurou firme no chão. A espada começou a brilhar e todo o corpo dela foi envolvido por uma aura branca, de aspecto gélido como a que eu vira no homem. Ela se contorceu mais, sangue molhando sua blusa.

— Pare! – gritei – Pare com isso!

O garoto não me deu ouvidos, concentrado. O brilho da espada aumentou e a aura começou a enfraquecer, sendo lentamente puxada em direção à lâmina, enquanto Layla agonizava, até finalmente ser completamente consumida.

Minha madrasta parou de gritar, seu corpo ficou mole. O garoto retirou a espada e levantou, cambaleando, o rosto suado.

Erre es korakas! – gritei para ele, ficando de pé apesar da dor – Se ela estiver morta, eu vou...

Perdi a fala quando Laura passou por mim, correndo em direção ao corpo da mãe. Luther pôs a mão em minha perna e me olhou, os olhos cheios de lágrimas. Ele era pequeno demais para entender o que era a morte, mas provavelmente havia percebido que alguma coisa muito grave havia acontecido com seus pais. Sem saber o que fazer, eu o abracei.

— Ela está viva. – disse Laura. – Vai ficar tudo bem.

Seu tom tranquilo me espantou. Sério, quem era aquela garota?

Caminhei com Luther até ela, e segurei o pulso de Layla. Estava fraco, mas estava lá. Suspirei aliviada.

— Nós temos que ir. – murmurou o garoto, com a respiração pesada.

Ele estava encostado na grade, a espada na mão, os olhos fechados. Eu levantei e fiquei de frente para ele, meu rosto quente de raiva.

— Que tipo de maluco irresponsável é você? – ralhei – E se a tivesse matado?

Ele abriu os olhos, e eles me fuzilaram. Link voou até meu ombro e o encarou de volta, desafiando-o, mas o garoto não se intimidou.

— Ei, e você é o que? Uma novata, por acaso? – ele rebateu – Não sabe o que teria acontecido se eu não tivesse feito isso?

Eu me calei. Não, eu não sabia. Mas não queria admitir para aquele idiota que eu era realmente uma novata.

— Aliás, não precisa agradecer por salvar a vida de vocês. – ele acrescentou e eu rangi os dentes – Agora vamos. Não podemos ficar aqui por muito mais tempo.

Como que em uma sincronia, sirenes de polícia começaram a soar. Eu já havia esquecido que estávamos em um lugar público. Não poderia dizer o que os mortais haviam visto, mas com certeza não foi uma reunião amigável.

— Espera, não posso deixá-la aqui. – falei.

Ele bufou.

— Bom, fique à vontade para se explicar à polícia, então. – disse, revirando os olhos – Ela será bem tratada. Quanto a você, nem tanto.

— Ele tem razão. – Laura se aproximou, assustando-me novamente – Não podemos ficar aqui. Você não pode fazer nada se for presa, May.

Eu não tinha como argumentar com ela. E era pior ainda que uma garota de oito anos estivesse sendo mais sensata que eu. Ela e o garoto trocaram um olhar rápido e eu me perguntei se eles se conheciam, mas não tinha tempo para aquilo.

— Pois bem. – falei, segurando a mão de Luther. – Só preciso de um lugar aberto e dois minutos para chamar Pandora.

— Quem? – o garoto falou.

— Minha amiga, uma pégasus. – respondi.

— Não precisa. – ele disse – Só estamos a alguns quarteirões do local da Reunião. Ela começa em três horas, mas o local já deve estar cheio.

Neguei com a cabeça.

— Eu não vou para lá.

— O que? E vai pra onde?

— A um lugar seguro. – respondi, mancando em direção a um parque que lembrei ser perto, na direção oposta à que ele havia indicado. Link pulou de meu ombro e começou a me acompanhar em voo.

— Escuta aqui, — disse o garoto, colocando-se em meu caminho – não há lugar mais seguro que o prédio da Reunião agora. E você não pode desertar. É seu dever como Greno apresentar-se para...

— Acha mesmo que vou arrastar meus irmãos pra essa guerra? – eu o cortei – Minha responsabilidade para com eles vem primeiro que para com um bando de parentes que eu nem conheço. Agora saia. Da minha. Frente.

Ele me encarou por dois longos segundos, com a expressão dura. Ele devia ter cerca de quinze centímetros a mais que eu, de forma que minha testa ficava à altura de seu queixo, mas não desviei o olhar. Se não fosse pelo fato de que eu nem o conhecia, poderia afirmar que havia visto uma mistura de preocupação e alívio passar muito rapidamente por sua expressão. Vendo que eu não recuaria, passou por mim em direção ao outro lado e, colocando a espada na bainha em suas costas, foi embora sem dizer mais nada.

Notas finais
Oiee! Então, temos personagem novo!! Aí está o nosso exorcista hahahah O que acharam dele? Alguma teoria sobre quem ele é? O que acharam do capítulo? Algum erro? Algo que preciso melhorar? O que está gostando mais na fic? Deixa aí nos coments, que super ajuda ˆㅅˆ O próximo capítulo é: Capítulo 19 - De Volta À Razão. Vou postá-lo no sábado ^^ Bom, vou ficando por aqui! Beijos e até mais ♥ ♥