À Espada Pelo Sangue
15 Capítulo 14 - Tudo Pode Piorar
Notas iniciais
— A sua família vem me dando trabalho há bastante tempo, May. – Quíron deu um sorriso cansado – Sempre encobrindo suas ações, sua história e seus ideais. É trabalhoso para mim descobrir seus objetivos e o que ocorre entre vocês. Se houvesse um lugar para chamar de submundo dos semideuses, esse seria no seio dos Greno: a família envolvida em mais mistérios que os próprios deuses. Mesmo seu pai, que foi meu aluno, não me revelava muito. No entanto, ele me deixou encarregado de manter o Livro seguro. Pelo menos “até que a pessoa certa esteja pronta para tirá-lo daqui”, foi o que ele disse. Quem é essa pessoa, eu não sei, mas suspeito que seja você, e é por isso que vou te contar o que ele me explicou no dia em que me entregou a caixa.
Preparei a mim mesma para as perguntas que eu sabia que pipocariam em minha mente, bem como para o fato de que provavelmente poucas seriam respondidas. Sentada no sofá da Casa Grande, eu não sabia se ficava feliz que Quíron me explicaria tudo, ou preocupada com isso. Ele nunca me explicava o que eu pedia logo de primeira. Aquele assunto devia ser sério o suficiente para que eu soubesse de toda verdade logo de cara.
— O Livro dos Greno... – começou – Você já deve ter percebido que esse nome não é muito preciso. É comum que se refiram a ele dessa forma, mas no início foi nomeado como Página de Prata, o que faz mais sentido. De qualquer maneira, você vai perceber que a intenção com que foi criada é bem mais complexa do que o simples objetivo de guardar informações. A começar por Daímonas: ele foi o primeiro a morrer com um profundo desejo de vingança. Você deve se lembrar de que o mundo antes da Caixa de Pandora não conhecia o mal. Agora imagine que um mundo que sempre foi tão puro que não necessitava de leis, nem regras, nem polícia, é invadido por todos os males que a pobre moça liberou. Foi um caos no início, mas aos poucos a humanidade encontrou um modo de se organizar novamente. No entanto, até que isso acontecesse, muitos sofreram. Daímonas foi um desses.
Ele fez uma pausa e olhou para mim, como que se certificando de que eu estava acompanhando. Assenti com a cabeça e ele prosseguiu:
— A mitologia clássica registra apenas Pirra como como filha de Pandora e Epitemeu, mas ela não foi a única. Como você viu no outro dia, Pandora na verdade gerou mais vinte e um filhos, sobre os quais nenhum texto oficial histórico fala. Isso porque todos eles estão ligados à história da sua família, e, como sempre, eles fizeram questão de apagá-los dos registros oficiais. É impressionante que ainda restem alguns livros aqui no Acampamento que citem essa história. Quando Pirra já era adulta e casada, nasceu o segundo filho de Pandora, que, aos oito anos, foi sequestrado e feito escravo de um mago poderoso que havia perdido tudo e buscava vingança contra Pandora. O garoto sofreu muito, e morreu quatro anos depois, espancado.
Arregalei os olhos. Aquele menino havia passado por uma coisa dessas? Não me admirava que fosse em busca de vingança.
— Eu não sei os detalhes, mas ele foi capaz de encontrar um caminho para fora do Mundo Inferior e começou a buscar vingança. – Quíron assumiu um ar grave – Contra sua própria família.
Minha surpresa aumentou.
— O que? Por que?
— Durante os quatro anos que passou com o mago, seus ouvidos foram enchidos com as falas amarguradas do velho, que enfiou na cabeça do menino que a culpa de todo o sofrimento dele e do mundo era de sua mãe. Ele o levava para observar de longe como seus irmãos tinham tudo que ele não tinha, murmurando para ele palavras de ódio. Uma criança como ele não teria condições de resistir, então, praticamente foi envenenado pela sede de sangue e de vingança do mago. Quando morreu, esse desejo foi forte o suficiente para fazê-lo voltar. Ele possuiu o mago e lançou a Maldição que matou todos os descendentes de Pandora, exceto por Pirra, que o menino nem conhecia.
Olhei espantada para Quíron. Então, fora Daímonas que lançara a Maldição? Não fora uma pessoa influente como eu imaginara, mas um garoto de doze anos?
— O resto da história você já sabe. O último filho que Epitemeu rejeitou foi único capaz de perpetuar sua descendência apesar das mortes precoces dos homens. Na quarta geração, uma mulher ofereceu um pacto aos deuses, e a longa Guerra dos Greno começou. E é aí que a Página de Prata é criada. Ela é uma arma, a primeira a ser encantada para atingir um eidolon. Mas ao contrário do que imagina, seu objetivo inicial não era enviá-lo para o Tártaro. O objetivo da Página de Prata era recuperar o espírito, ou seja, tirar dele o veneno da vingança, e Daímonas foi o primeiro em que foi usada.
— Recuperá-lo? – repeti – Mas como exatamente isso seria feito?
Quíron pousou a mão em sua barba.
— Pelo sangue. – disse – Para tornar-se senhor sobre Daímonas, é necessário que ele beba seu sangue. E então ele posiciona os dedos sobre o coração e diz “seu sangue é meu sangue”. Não é figurativo. Quando alguém livre da sede por vingança se torna senhor dele, ele começa um processo de purificação. Mas, para que este se complete, a pessoa precisa resistir às induções dele e aos seus próprios impulsos. Quando isso acontecer, ele poderá voltar ao Submundo como um espírito limpo.
Eu mexi em minha pulseira, apreensiva. Falei, devagar:
— Quíron, se ele ainda está preso aí... Isso quer dizer que ninguém até hoje foi capaz de resistir o suficiente para purificá-lo?
Ele assentiu, grave. Encostei as costas no sofá, dando-me conta do que havia feito. Eu me tornara senhora de Daímonas, e agora carregava a tarefa de purificá-lo, algo que ninguém, em mais de dois mil anos, fora capaz de fazer.
— As pessoas pararam de tentar, May. – Quíron disse – Depois da sétima geração, poucos se arriscaram a dar seu sangue a ele. E alguns dos que o fizeram, simplesmente desistiram quando começaram a perceber que não resistiriam, e fecharam a caixa até suas mortes.
Eu o olhei.
— Meu pai também?
Ele me fitou com seus olhos profundos.
— Eu não sei qual o envolvimento de Jack com Daímonas, mas não acho que ele tenha se arriscado desse jeito.
Balancei a cabeça. Claro que não: meu pai era um homem inteligente o suficiente para não fazer uma coisa dessas, ao contrário de mim. Fiquei chateada comigo mesma por ter feito algo tão inconsequente. Como sempre, agira sem pensar, e agora estava enrascada.
— Por que não destroem a Página? – perguntei, querendo achar uma solução – Se ninguém é capaz de purificar esse garoto, simplesmente deveríamos prendê-lo numa espada ou mandá-lo para o Tártaro.
— Porque a Página é importante e poderosa. Daímonas é o Livro, May. Isso não é um título qualquer: o conhecimento de todos os Greno até os dias de hoje está em posse dele. E ele é capaz de responder a praticamente qualquer pergunta, ou mesmo conceder alguns pedidos. Por isso ele te disse “um pedido, um preço”. É assim que ele serve em troca da purificação. Além do mais, não é como se fosse simples assim destruir a Página.
Passei a mão pelos cabelos.
— Droga. – murmurei – Se ao menos eu não tivesse dado o meu sangue a ele.
— Uma vez aberta a caixa, seria perigoso desistir. – Quíron ponderou.
Assenti.
— Eu tive essa sensação, mas não tenho ideia do motivo.
— Eu também não sei. Apenas foi o que Jack disse. – ele então afastou o pensamento com uma mão – Mas não pense muito sobre isso agora. Eu imagino que mais cedo ou mais tarde você abriria a caixa. Resta que você tenha em mente tudo o que te contei quando for conversar com Daímonas novamente, embora eu torça para que você não precise. O Livro é seu por direito, mas vou continuar a mantê-lo aqui até que esteja pronta. Enquanto isso...
— Eu sei. – interrompi – Foque-se em seu treinamento, certo?
Ele deu um sorriso gentil.
— Exatamente.
Suspirando, fiquei de pé, pronta para ir.
— May. – ele chamou e eu o olhei – Não conte sobre esse Livro a ninguém. Ninguém mesmo.
“Como sempre” suspirei. Havia muita coisa que eu precisava manter em segredo, e chegava a incomodar. Mas não era como se eu tivesse alguma escolha. Como aquela história que meu pai havia dito sobre Gaia estar se erguendo. Ele falara aquilo com um tom tão absoluto que eu nem sequer cogitara contar para ninguém, mas ainda restava um pingo de dúvida se não seria a coisa certa a fazer. Afinal, aquilo dizia respeito ao pessoal do Acampamento, não? “Lady Hera tem seu tempo de revelar as coisas”, foi o que meu pai disse. Eu não sabia se era bom ou ruim, e esse era exatamente o motivo pelo qual eu ficava de boca fechada sobre aquilo, mas não conseguia espantar o incômodo de não dizer nada quando todos diziam que tempos de paz eram maravilhosos.
Mordi a língua, enfiando o pensamento lá no canto mais escuro da minha mente. Desviei os olhos do olhar intenso de Quíron e assenti com a cabeça.
— Minha boca é um túmulo. – falei, e então andei para fora da Casa Grande.
— Pelos deuses, May. – Shay suspirou exasperada quando lhe contei sobre Michael – Você quer dizer então que você falou aquilo tudo esperando que ele adivinhasse que desejava exatamente o contrário? Não acha que isso é querer um pouco de mais?
— Por que? – indaguei, casualmente soltando a flecha que colocara no arco – Ele sempre sabe, Shayla. E tenho certeza de que sabia dessa vez também.
Ela soltou sua própria flecha e olhou para mim.
— May, há um limite para as habilidades de qualquer um ao ler alguém, ainda mais quando se trata de garotos. Não superestime Michael, não é como se ele pudesse ler mentes, afinal. Chega uma hora em que você tem que dizer o que pensa, porque, com esse tanto de foras, até eu começaria a duvidar do meu julgamento, e olhe que te conheço melhor que qualquer um nesse Acampamento.
Eu mirei e atirei mais uma vez, olhando com insatisfação para o alvo. A flecha estava fincada no canto do círculo do meio.
— Tanto faz, no fim das contas. Foi ele que se afastou primeiro, pra começo de conversa. Hoje apenas colocamos um ponto final em tudo. Não faz diferença se eu falei a verdade ou não, porque essa foi a escolha dele, afinal.
Shayla tirou mais uma flecha da aljava e atirou. No segundo seguinte, ela já mirava uma segunda flecha.
— Ah, como você é boba, francamente.
— O que?
Ela soltou a flecha e rapidamente encaixou mais uma no arco.
— Ele estava fazendo tudo o que podia para conciliar a amizade de vocês e o namoro com a Kate. Estava se esforçando de verdade para manter pelo menos um pingo do que vocês tinham, sempre tentando ir vê-la sem que Kate soubesse, e fazendo de tudo para te ajudar com as pesquisas. Aliás, não foi Quíron que pediu que ele se encarregasse de você. Ele pediu isso a Quíron. Mas desde que você descobriu, tornou isso impossível, May. E agora faz uma coisa dessas...
— Não importa. – interrompi, fazendo mais uma seta voar até o alvo.
— O que?
— Estou dizendo que não importa o quanto ele estava se esforçando, Shayla. No final, ele ainda a escolheu. E onde Kate está, não há espaço para mim. Ele ainda é um completo...
Os olhos de Shayla me fuzilaram, fazendo minha voz morrer de repente.
— Você é idiota mesmo ou só está sendo teimosa? – ela disse – Escuta aqui, o Michael pode ter se afastado no início, mas foi você que tornou isso um inferno. Provocando a Kate, brigando com ele e sendo tão infantil... Ele talvez não esteja certo em fazer uma coisa dessas, e eu sei que isso te machuca, mas se quer saber, May, acho que a sua parcela de culpa nessa situação só está aumentando, e você não quer dar ouvidos a ninguém. Eu queria ajudar, mas se planeja continuar com isso, prefiro que não cite mais o nome do meu irmão e mantenha seus pensamentos para você.
Eu a encarei, pasma, vendo a raiva brilhar em seus olhos. Sem dizer mais nada, ela voltou a atirar furiosamente no alvo. Tive medo de quem ela estava imaginando no lugar dos círculos vermelhos e brancos.
Shayla não permaneceu chateada por muito tempo, mas eu decidi que era melhor não tocar no assunto novamente. Michael e eu também não nos falamos mais, e claro que eu não procurei Will para ser meu médico. Passei a tomar mais cuidado para não me ferir, e se acontecia, eu pedia para que Drake costurasse. Ele o fazia sem muitas perguntas, então eu não reclamava. Kyle insistia em tocar músicas de cura em uma flauta, dizendo que ajudava no processo. Eu ria, pensando que não tinha como minha cura ser mais eficiente, mas deixava que tocasse.
Meu treinamento seguiu intenso, de modo que eu não tive mais muito tempo para ficar pensando sobre o que Shayla dissera, o que ajudava a manter minha decisão de não pensar mais em Michael. Além disso, o dia da minha partida estava se aproximando e eu estava de certa forma animada.
Não peguei mais o Livro, e também fiz um esforço para mantê-lo longe dos meus pensamentos. A preocupação com Daímonas não era algo que eu precisava naquele momento, embora às vezes ela me visitasse em sonhos. Eram sempre muito vagos, mas eu via seus olhos intensos, seu sorriso insano ou seu cabelo escuro. Eu me perguntava se seria capaz de purificá-lo, mas, apesar de até desejar que fosse possível, duvidava que pudesse ser aquela a conseguir essa façanha.
De qualquer jeito, eu estava concentrada no que precisava fazer no momento, e esforçando-me para não deixar todo o resto me atrapalhar.
Foi nesse meio tempo que os problemas de verdade começaram.
Para começar, o dragão que guardava as fronteiras surtou de vez. Sim, existiam dois dragões: um guardava o Velocino, outro a fronteira em geral. Havia certo tempo que este último estava instável, e a única pessoa que era capaz de acalmá-lo havia morrido no último verão. Então certo dia ele enlouqueceu pra valer e atacou alguns campistas, também arrancou parte do teto do chalé de Hefesto. Depois, fugiu pra floresta e ficou escondido lá.
Os garotos de Hefesto tentaram ir atrás dele, mas deu tudo errado e o Conselheiro-chefe deles ficou mal pra caramba. Havia certo tempo que burburinhos sobre o chalé de Hefesto estar amaldiçoado haviam começado, mas depois daquilo, a Maldição do Chalé 9 era o assunto do momento. Nada do que eles projetavam dava certo. Até o portal mágico do chalé de Atena que eles haviam ajudado a construir estava com defeito. Um de nossos irmãos foi parar no banheiro feminino ao invés do terceiro andar inferior (bem, talvez isso não tenha sido tão acidental assim, mas é o que ele afirma).
Mas o resto passou como um borrão, e isso talvez se deva ao que aconteceu depois.
Numa noite, depois da Fogueira, Percy, Annabeth e eu ficamos até mais tarde conversando no chalé de Poseidon. Fazíamos isso de vez em quando. Claro que eu só estava com eles para garantir que não levantariam suspeitas constrangedoras do tipo: “O que vocês dois estavam fazendo sozinhos no chalé de Poseidon?”. Então, eu meio que ficava de vela. Mas eu adorava esses momentos. Era um dos poucos que eu me sentia normal, pelo menos como uma semideusa. Percy e Annabeth estavam na lista dos poucos que não me afastava deles. Além disso, eu era fascinada pelas aventuras dos dois, a história deles. Para mim, se havia casal que merecia ser feliz, era aquele.
Enfim, quando resolvemos que já havíamos passado demais do toque de recolher, Percy despediu-se de mim com um toque de mãos especial e deu um beijo em Annabeth.
Na manhã seguinte, ele havia desaparecido.
Nós reviramos o Acampamento, perguntamos aos espíritos marinhos, aos espíritos das árvores, tentamos mandar uma Mensagem de Íris, e até tentamos falar com os pégasus, mas ninguém sabia dele. Blackjack estava tão nervoso que teve que ficar preso. Montamos grupos de três pessoas e procuramos nos arredores do Acampamento. Nada. Sua mãe Sally também não tinha ideia do que havia acontecido.
Cada um no Acampamento preocupava-se tanto com Percy que se esqueceram completamente dos receios que tinham com relação a mim. “Pelo menos há um lado bom nisso tudo” pensei, mas me senti culpada por isso imediatamente.
Annabeth transformou-se numa pilha de nervos. Dormiu pouquíssimo e comeu menos ainda. Quando as equipes de busca voltaram no fim da tarde, exaustas e sem nada encontrar, ela ordenou que voltassem e procurassem mais. Drake e eu precisamos chamá-la de volta à razão quando começou a gritar, extravasando sua raiva e frustração nos pobres campistas. Ela se sentiu culpada e pediu desculpas. Quando chegou a noite, pedi que fosse descansar.
— Como posso descansar?! – Exclamou.
— Annie, se continuar se desgastando tanto não poderá ajudar Percy. Poderá cometer erros que não cometeria se estivesse em plena força física e mental. Sério, você precisa descansar e comer um pouco. Mesmo que não esteja com vontade, seu corpo precisa disso.
Ela protestou, mas sabia que eu estava certa.
Não pude dormir naquela noite. Annabeth, por outro lado, caiu de exaustão e adormeceu imediatamente. Ela estava resmungando durante o sono, assim como vários outros dos meus irmãos. Normalmente eu não me incomodava. Era quase normal que houvesse resmungos no chalé de Atena. Muitas vezes estudávamos tanto que sonhávamos com aquilo. Mas naquela noite, eu tinha certeza de que os sonhos não eram tão tranquilos.
Um incômodo se agitou em meu peito. Era estranho que eu tenha sido mais sensata que Annabeth. Era quase antinatural. Eu ficava feliz que pudesse ajudar de alguma forma, mas descobri que, se para eu ser útil minha irmã tivesse que ficar naquele estado, eu preferia que não precisassem de mim.
Era quase cinco da manhã quando levantei e fui para a praia. Era no mínimo irônico que eu buscasse refúgio lá.
Encarei a imensidão marinha. Eu ia muito à praia, mas não é como se gostasse tanto dela. O oceano era tão grande, tão uniforme e tão belo... Ao mesmo tempo que mudava drasticamente sem aviso, e podia tornar-se um pesadelo. O mar, eu sabia, era algo que eu poderia passar anos observando sem conseguir entender ou prever. Eu ainda não tinha certeza se o admirava ou detestava por isso. Mas um fato é certo: era um lugar onde eu podia estar não importava que tipo de pensamento se passava pela minha cabeça. Qualquer situação parecia se encaixar naquele cenário.
Suspirei.
Imersa em pensamentos, tirei do bolso um Dracma de Ouro e mandei uma mensagem de Íris:
— Ó, Íris, deusa do arco-íris, aceita minha oferenda. Mostre-me Jack Jacobs.
Meu pai estava dormindo ao lado de Layla.
— Pai. – chamei e ele levantou alarmado. Layla também acordou.
Qualquer um estaria com uma aparência péssima ao ser acordado antes do sol nascer, mas Layla conseguia de alguma forma continuar linda. Seus cabelos castanhos caíram ao redor de seu rosto, acentuando seus astutos olhos cor de âmbar, que brilhavam. Eu não podia me lembrar de ter alguma vez olhado para ela sem pensar em como era bonita. No entanto, eu sabia que o mais belo nela era sua personalidade, sempre paciente e carinhosa.
— May, – disse ela – bom te ver, minha querida.
— Tenho más notícias. – contei-lhes o que estava acontecendo.
Meu pai passou a mão pelo cabelo.
— Então começou mesmo – ele resmungou.
— O que começou? – perguntei.
— Seu pai anda tendo umas visões – disse Layla – Alguma coisa grave, alguma coisa mais grave, está para acontecer.
— Mais grave? O que poderia ser?! – senti o desespero brotar.
— Nada que eu possa prever. – ele disse vagamente, e eu de alguma forma soube que ele não estava contando tudo – Mas, May, sabe que nossa família está envolvida nisso, não sabe? Direta ou indiretamente. Não pode desviar totalmente a atenção para esse problema agora. Precisa continuar com o plano de vir a New York e encontrar seus primos. A reunião é amanhã.
— Mas, pai! Como posso abandonar o acampamento agora?! Eles precisam mim. Precisam de cada campista possível. Você precisa ver como todos estão. Annabeth está desmoronando! E ela é a filha de Atena mais equilibrada que eu já vi. Preciso apoiá-los.
— Querida, cada um tem seu papel nessa história toda. E o seu dever é primeiramente para com os Greno. O Acampamento ficará bem sem você. Acredite: indo à reunião também os estará ajudando.
— Pai, você não entende. Esse pessoal é como uma segunda família pra mim. Além disso, não concluí meus estudos sobre os Greno ainda. Não sei nem metade da história, de forma que não poderia ajudar nem se quisesse. E eu sou necessária aqui. Quíron está nos mandando em grupos de busca, para procurar por Percy.
Meu pai abriu a boca para contra argumentar, mas Layla o interrompeu.
— Querido, acho que Luther está chorando. Pode ir vê-lo, por favor?
Meu pai nem hesitou. E eu tive a estranha vontade de fazer o que ela mandava.
Quando ficamos sozinhas, ela suspirou:
— May, sei o que está sentindo. Passei pelo mesmo dilema quando tive que deixar o Acampamento.
— O que? – Exclamei, perguntando-me se havia ouvido certo.
— É, eu sei. Devia ter te contado antes, mas eu sou filha de Afrodite, e também sou uma Greno de nascença. Seu pai e eu nos conhecemos no Acampamento, embora só tenhamos nos apaixonado quando você já tinha sete anos. Apesar de essa prática não ser muito aprovada pelo restante da família, nós fomos dois dos últimos três Greno a passar pelo treinamento de Quíron.
Minha mente só absorveu até o momento que ela disse ser filha da deusa que eu odiava.
— O que?! – repeti. – Mas como? Você é legal. Gentil, e não é louca por beleza e...
“E não rouba os amigos das pessoas” pensei, mas não disse em voz alta.
Ela riu.
— Receio que tenha tido algumas más experiências com as filhas de Afrodite, hein? Infelizmente isso é mais comum do que eu gostaria de admitir. A verdade é que alguns de nós têm a concepção errada do que significa ser filho da deusa do amor e da beleza. Mas esse não é o ponto. Eu suponho que Jack tenha lhe falado sobre a maldição. – assenti – May, quantos anos seu pai tem?
Pensei um pouco.
— Trinta e quatro, trinta e cinco, por aí.
— Ele tem trinta e quatro. – disse ela – E faltam três meses para ele fazer trinta e cinco.
Ela fez uma pausa significativa, como se esperasse que eu entendesse algo. A resposta me atingiu como um soco no estômago.
— Você quer dizer que...? – engasguei.
— Sim. – disse ela – May, ontem seu meu irmão se foi. Ele tinha feito trinta e oito anos. Por enquanto, os efeitos ainda estão lentos. Eles só estão morrendo tempo depois. Mas começam a sentir os efeitos ainda antes de fazer aniversário. Seu pai não admite, mas eu o sinto cada vez mais cansado.
— Deuses... – minhas pernas tremeram.
— Tem mais. Os Greno passaram séculos perseguindo os eidolons. Agora que eles não podem ser enviados para o Tártaro, estão em busca de vingança. Eles estão vindo atrás de nós. Jack não queria por esse peso sobre você, e eu também não. Mas você precisa saber que nós também precisamos de você. Laura tem tido sonhos. Eles estão chegando. Eu sei que você quer muito ajudar o Acampamento, mas precisamos da sua ajuda. Temos conseguido mascarar nossa presença, mas não podemos fazer isso pra sempre. De um jeito ou de outro, eles vão nos encontrar.
Meu coração se apertou. Meu pai estava morrendo. Meus irmãos estavam em perigo. Eu não queria deixar o Acampamento, mas... Tomei a decisão.
— Diga ao meu pai que eu o amo. Estarei lá.
— Obrigada, querida.
Eu estendi a mão para dissolver a mensagem.
— May – Layla chamou e eu me detive – eu amo você como se fosse minha filha. Sabe disso, não é?
— Eu sei. Eu também te amo. – falei e passei a mão na mensagem.
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