the sweet taste of your lips | MATZ
1 the sweet color of your hair
Acredito que todo mundo tem algo para servir de conforto, seja um objeto, uma música ou, no meu caso, um lugar. A cafeteria do bairro era definitivamente meu lugar de conforto, onde eu ia frequentemente para estudar, ou mesmo somente para sentar na mesa de costume e pedir minha combinação de café e torta favorita.
Sempre fui um amante de café, porque ao contrário do que dizem sobre seu efeito, em mim trás apenas tranquilidade e conforto, algo como chegar em casa e se enrolar em um cobertor fofo e quentinho depois de um dia inteiro andando no meio da neve. Logo, me ajudava muito a limpar a mente para os estudos.
O motivo de eu ter procurado um lugar silencioso, foi devido ao excessivo barulho na faculdade, principalmente após a chegada dos novos calouros. Mas não me entenda mal, não os culpo, são apenas jovens cheios de energia, animados por terem finalmente passado no curso do qual tanto estudaram. Era compreensível, embora ainda me incomodasse bastante.
Por isso venho todos os dias, depois da aula, antes dela, ou em qualquer momento livre que tenho. Bom, pode ser que eu tenha algum tipo de apego estranho, porque não, eu com certeza não passei a vir com mais frequência depois que ele começou a trabalhar aqui.
Mas, por falar nele, era um pouco difícil não notá-lo, na verdade. Porque eu nunca tinha visto alguém tão autêntico e único como Kim Hongjoong, com seu cabelo cor pêssego chamativo atrás do balcão. Talvez minha mente seja um pouco diferente, mais provavelmente sendo apenas louca, porém eu pensava que se me concentrasse um pouquinho, conseguiria quase sentir o aroma de pêssegos frescos vindo dele, mesmo que não houvesse cheiro algum. Estranho, eu sei, no entanto, acho que sempre fui assim, imaginando as coisas tão profundamente ao ponto de realmente senti-las..
Hongjoong trabalhava ali a mais ou menos dois meses, junto de Seulgi-noona, que viu a necessidade de contratar mais alguém quando notou o aumento na clientela. Apesar de não termos trocado muitas palavras, gostava dela, era agradável, já conhecia todos os meus gostos e possuía uma grande gentileza. Eu prezava pelo silêncio e nunca gostei muito de conversar com as pessoas, mas o novo atendente me mostrou que, se eu quisesse permanecer ali, não teria outra escolha a não ser conversar com ele e responder todas as suas perguntas curiosas sobre meu curso.
Toda vez que ele ficava livre, saía do balcão e caminhava até minha mesa, e eu costumava revirar os olhos disfarçadamente, entretanto, era tudo uma fachada, porque a verdade era que Hongjoong chegava iluminando tudo, com seus fios brilhantes, o sorriso tão malditamente alinhado e igualmente cintilante, que me deixava parecido com uma garotinha do ensino médio, apaixonada pelo popular da escola. Ninguém nunca tinha feito questão de ficar perto de mim antes, direcionando-me tanta atenção repentina, eu preciso admitir que meu coração é muito fraco para esse tipo de coisa, não sei controlar emoções e muito menos disfarçá-las; acho que por isso ele continuava insistindo, pois não se intimidava com minha falsa falta de interesse.
Kim Hongjoong era irritantemente esperto, observador e, não sei, será que ele fazia algum tipo de magia ou simplesmente leu muitos livros sobre linguagem corporal e comportamento humano? Pois me conhecia há pouco tempo, mas a todo momento fazia eu me sentir como uma trilogia de livros que ele já havia lido diversas vezes, até mesmo de trás para frente. Ou isso ou eu realmente era muito ruim em esconder o que sentia.
Aos poucos, conforme os dias e finalmente um mês foram passando, eu percebi que, sim, ainda me sentia nervoso quando ele se sentava perto de mim, entretanto, agora tinha algo... diferente. Meu coração batia forte, as mãos suavam, o estômago dançava como se comportasse milhões de bailarinas de uma vez e ainda que continuasse envergonhado, chegava lá e torcia para que ele viesse sentar em minha mesa o mais rápido possível e começasse a tagarelar como sempre.
Eu queria estar perto de Kim Hongjoong, desejava que ele chegasse e bagunçasse tudo, ansiava para me desse mais e mais atenção.
Eu quero que você olhe para mim, Hongjoong, quero parecer bonito quando me olhar de longe e cheiroso quando estiver perto. Não sei demonstrar isso, mas você sempre tem sido tão bom em me decifrar esse tempo todo, então por que não faz isso agora?
- Hey! Seonghwa! — Sacudi a cabeça levemente para sair de meus pensamentos quando ouvi meu nome ser chamado.
Kim aproximou-se, secando as pequenas mãos em um pano, guardando-o no bolso do avental em seguida. Ele sentou-se ao meu lado dessa vez, me fazendo enrijecer de imediato, engolindo a seco. Hongjoong olhou curiosamente para os papéis dispostos sobre a mesa.
- O que está fazendo hoje?
- Hum... é para uma coleção de inverno fictícia. Mais um trabalho da faculdade.
- Oh, posso ver? — Assenti, juntando as folhas já prontas e entregando em suas mãos.
Ele sorriu, animado, como uma criança que tinha acabado de ganhar seu doce favorito da mãe. Kim já havia deixado claro que não entendia nada de moda, mas sempre fazia questão de observar tudo com total atenção, até mesmo dava algumas opiniões sobre as obras, e embora eu eventualmente ignorasse suas falas, levava muito em consideração.
Em todas as vezes em que ele estava olhando os desenhos e tagarelando distraidamente, eu aproveitava para admirar seu rosto. Hongjoong possuía olhos grandes, marcados, um nariz perfeitamente pontudo e afiado como uma lâmina nova, e seus lábios... rosados e tão visualmente doces como todo o restante dele, principalmente seu cabelo.
- Seu cabelo é tão lindo...
- O que? — Seu olhar surpreso me despertou e eu imediatamente arregalei os olhos, tampando a boca rapidamente com uma das mãos. — Seonghwa! Você acabou de me elogiar?!
Aquele maldito sorriso largo e travesso que eu já conhevia apareceu, iluminando seu rosto e fazendo seu trabalho perfeito de esquentar minhas bochechas.
- E-eu...
- Merda! Nunca pensei que você fosse me elogiar um dia! — Sua risada gostosa preencheu o local. — Você gosta mesmo? Eu estava pensando em mudar a cor, mas já que descobri que gosta, deixarei assim, ok?
- Você não precisa fazer isso e... só esqueça o que eu disse, ta bom? — Pedi, surpreendendo a mim mesmo por não ter gaguejado dessa vez.
Eu certamente não tive tempo o suficiente para me preparar mentalmente para quando ambas as suas mãos seguraram os dois lados do meu rosto, me fazendo virar a cabeça para olhá-lo assustado e com a pele provavelmente muito mais vermelha do que antes.
- Suas bochechas estão vermelhas! — A gargalhada ecoou. — Park Seonghwa, você é adorável, sabia?
Antes que começasse a tremer como um idiota, afastei as mãos dele de mim com pressa, virando de volta para tentar me concentrar nos desenhos, obviamente falhando, como esperado.
- Me deixe em paz!
- Não seja assim, vai. Tudo bem me achar bonito! Até deixo você tocar no meu cabelo se quiser, hum? Vamos, não seja tímido!
Tentador...
- Pare! Se veio aqui apenas para me atrapalhar, então pode voltar para o seu balcão!
- Tudo bem, tudo bem! Não precisa ser um gatinho tão arisco. Vou ficar quietinho aqui agora, prometo! — Cruzou os dois dedos indicadores na frente dos lábios.
Suspirei, com o peito ainda batendo forte, tentando com todas as forças esquecer da sensação de suas palmas macias segurando meu rosto tão cuidadosamente, apesar da brincadeira. Entretanto, eu sabia que meu cérebro teimoso jamais deixaria aquilo passar.
Não foi difícil perceber que eu sentia algo pelo Kim, o difícil foi a parte de aceitar, mas eu sempre soube o que era a paixão, embora nunca tenha sentido antes por ninguém. Meus livros fizeram um bom trabalho em me contar o que ela é, de diferentes formas: boas, ruins, aconchegantes, turbulentas, e eu ainda não sabia definir em qual dessas definições meus sentimentos por ele se encaixavam, porém, se fosse para descrever de algum jeito, eu diria facilmente que é como tomar meu tão amado e precioso café. Deixava minha mente alerta, é confortável e esquenta tudo por dentro, como um abraço gostoso.
Como seria abraçar Hongjoong? Ele provavelmente pareceria ainda menor em meus braços, meu nariz ficaria na altura de seus lindos fios coloridos, e então poderia comprovar se cheirava mesmo a pêssegos ou se era, de fato, coisa da minha imaginação fértil.
Para a minha infelicidade, Kim precisou levantar-se quando um casal entrou. Pude finalmente sorrir pequeno, contido, erguendo a destra suavemente até tocar meu próprio rosto, como se ainda fosse possível sentir sua palma macia ali.
Durante esses dois meses, tudo que costumava ser cinzento e desbotado para mim, começou a ser vagarosamente pintado com a cor rosa pêssego mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida e, bom, Kim Hongjoong era um pintor muito dedicado.
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