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1 primeira parte
Notas iniciais
i.
Está chovendo quando Lily Evans desembarca na estação de trem de Hogsmead. Ela suspira alto conforme troca o peso da mala de uma mão para a outra, dobrando e fechando os dedos da mão recentemente livre para estimular a circulação de sangue e ajeita os grandes óculos escuros no rosto estreito. Ela recebeu olhares esquisitos desde que embarcou no trem trajando a enorme armação em acrílico holográfico, porque isso aqui é Londres, e estamos naquela época esquisita entre outono e inverno, em que ninguém vê o Sol há pelo menos dez dias, e óculos escuros são desnecessários.
O que eles não sabem é que Lily está usando-os para esconder as grandes manchas arroxeadas debaixo de seus olhos, que se aprofundam cada vez mais conforme as noites mal dormidas se acumulam. Das duas, uma: ou ela não consegue dormir, apavorada frente à possibilidade de que será arrastada pelos pesadelos que têm povoado suas horas de sono pela última semana e meia; ou é mantida refém pela sua mente inconsciente, que insiste em mostrar, em loop, as mesmas imagens desconexas, ominosas, recheadas com gritos angustiados, cheiro de sangue e marcadores geográficos vagos.
Ela detalha os sonhos o melhor que pode para Alice Longbottom, sua amiga pessoal e ligação com o escritório de Londres do Conselho dos Guardiães; Alice entra em contato com outras pessoas que possuem qualquer proximidade com a rede de Sentinelas e Caçadoras até encontrar uma resposta. Hogsmeade, no interior da Escócia, é onde estão as ruínas do castelo que Lily tem percorrido em suas poucas horas de sono. Depois de uma ligação para o capítulo do Conselho na pequena cidade, Lily compra a passagem até lá no próximo trem, no qual passa outra noite insone.
Até agora, Lily não está nada impressionada.
— Senhorita Evans? — Uma voz delicada, musical e hesitante soa atrás de Lily. Ela vira nos seus calcanhares, e o rosto que a recebe é amigável, redondo e emoldurado por gloriosos cabelos cacheados. A mulher, que deve ter mais ou menos a mesma idade de Lily, pele negra sem falhas e uma argola dourada no septo, estende a mão para Lily. — Eu sou McKinnon. Nos falamos pelo telefone.
Lily tenta sorrir de forma simpática, puxando os óculos para cima, para que repousem em seus cabelos vermelhos, e aperta a mão que McKinnon estende.
— Marlene, certo? — A outra continua balançando a mão de Lily, seus grandes olhos castanhos fixados no rosto de Lily, quase em transe. — Me chama de Lily, por favor.
Marlene não parece muito disposta a soltar a mão de Lily, ainda claramente analisando as feições dela como quem aprecia um quadro num museu, até que alguma coisa faz com que ela arregale os olhos e solte a mão de Lily subitamente. Marlene limpa a garganta e desvia o olhar em seguida, pressionando os lábios um contra o outro.
— Lily! Sim! — Marlene alisa o casaco nervosamente. — Desculpa por... isso. Eu só nunca tinha conhecido uma Caçadora antes — ela cochicha, claramente constrangida.
Lily sente o sangue subir às bochechas e penteia os cabelos com os dedos para que eles sirvam para disfarçar momentaneamente seu rubor. Ela nunca soube lidar muito bem com a atenção dos mortais Despertos, especialmente com aqueles mais próximos do Conselho de Guardiães e de sua missão. Afinal de contas, Lily nunca pediu para ser uma das Caçadoras... ela só nasceu com o potencial em seu sangue, que foi despertado naquela fatídica noite, há dez anos. Desde então, sua vida tem sido lidar com os acadêmicos empolgados do Conselho, demônios que só querem semear o caos nesta dimensão, e, é claro, vampiros preocupados com a saúde do seu rebanho.
Isso me lembra...
— Marlene. — Ela chama a Sentinela discretamente, enquanto as duas caminham até o Nissan Nuvu prateado de McKinnon, estacionado a alguns quarteirões de distância da estação. — Como é... a vida noturna por aqui?
Marlene franze as sobrancelhas ao ouvir a pergunta de Lily, mas empalidece em seguida quando finalmente compreende o que exatamente a Caçadora quis dizer. Ela limpa a garganta antes de continuar e faz os penduricalhos em seu chaveiro balançarem contra seus dedos, num ritmo frenético.
— Agitada. — É a resposta que Lily ganha. — Você talvez tenha que começar sua investigação conversando com os Príncipes. — Marlene gesticula discretamente com a cabeça para o lado oposto da rua, na direção da pessoa de sobretudo cinza e lenço arroxeado no pescoço, que também parou de andar justo quando elas interromperam sua caminhada. — Eles sabem de tudo que acontece na cidade e já devem estar cientes que você chegou.
Lily concorda casualmente com a cabeça, olhando de canto de olho para a pessoa que está seguindo-as. Não há Sol visível por detrás das nuvens, mas está de dia e a aura ao redor do espião não tem o teor metálico dos vampiros — embora ela consiga reconhecer as pontadas acobreadas que indicam um Laço de Sangue.
Um Lacaio, então, espionando a chegada de uma Caçadora a mando de seu mestre.
Ótimo, pensa Lily, definitivamente aborrecida, tudo que eu precisava era ter os vampiros-chefes com a guarda levantada enquanto eu quero descobrir o que anda matando as meninas da região.
Ela diz a si mesma que não é nada com o que não tenha lidado centenas de vezes antes.
ii.
A casa de Marlene parece ser saída de um filme de terror gótico — apropriado, dado o status ancestral de Sentinela de sua família. A casa é toda ângulos afiados e vitrais coloridos, madeira escura e pé-direito alto — uma casa extremamente vivida, com os sons de um piano sendo tocado em algum lugar, o cheiro de café emanando da cozinha, as correntes de ar que parecem sussurrar as histórias guardadas na biblioteca que ocupa grande parte do térreo. Lily passa pelo batente em que palavras de poder estão gravadas em tinta dourada e é imediatamente atingida pelo gosto da magia que emana do lugar, fazendo cócegas no início de sua garganta.
Ela espirra, alto, e sente que as proteções colocadas ao redor do casarão chegam até mesmo a abafar os sons que vêm do lado de fora. Marlene olha para ela de forma apologética.
— Foi mal. As pessoas mais sensíveis demoram um pouco mais a se acostumar...
— Eu gosto — Lily se apressa em assegurar, sorrindo honestamente. Numa casa tão protegida como essa, ela sabe que está tão segura quanto possível, e espera que até mesmo seus pesadelos sejam impedidos de entrar. — Sua casa é muito bonita, Marlene. E pacífica.
Marlene sorri, satisfeita.
— Obrigada! Gerações da minha família trabalharam para que fosse assim... estamos aqui em Hogsmeade desde o século XVIII. — Marlene começa a ir na direção das escadas e gesticula com a cabeça para que Lily a siga. Lily dá uma última olhada no suntuoso hall de entrada, em que espadas antigas estão em exibição e casacos despontam de um armário bem ali no canto, quase despercebido, antes de segui-la.
Os degraus da escada são forrados com carpete verde, já um pouco gasto no centro, mas claramente bem cuidado. O corrimão tem um sem-fim de letras marcados a canivete, e Lily sorri diante da imagem — ela se lembra de quando era criança, com Petunia, e as suas escreviam suas iniciais no vapor de suas respirações contra o vidro da janela da casa em Little Whinging, e a memória é agridoce. Ela balança a cabeça para afastar pensamentos de sua irmã e alcança Alice no segundo andar da casa. O corredor é amplo, mas tomado por aparadores, sapateiras e porta-chapéus do lado das diferentes portas; nas paredes, diversos retratos e pinturas adornadas por molduras ostensivas, mas decadentes.
— Aqui ficam parte dos quartos e a Sala de Artes — explica Alice, apontando para o cômodo no fim do corredor, o que tem portas duplas abertas e um grande caixote abarrotado de papéis e papelões bem na entrada. — Meus pais, meus tios e avós ficam aqui nesse andar. Eu e meus primos nos dividimos nos outros dois. Depois eu te mostro onde fica o elevador.
Lily acena com a cabeça, só agora tendo dimensão exata do tamanho do Casarão McKinnon. Quatro andares, mais sótão e porão e ainda a cabana que fica no quintal da propriedade, onde ela toca parte da floresta que cobre a região de Hogsmeade e cidades vizinhas. Lily, que cresceu num dos conjuntos habitacionais de Little Whinging e desde a morte dos pais tem vivido numa das pequenas quitinetes de propriedade do Conselho de Guardiães, nem sabia que pessoas realmente viviam em casas desse tamanho.
Marlene a leva para o terceiro andar, e aqui ela convida Lily a andar corredor adentro ao invés de continuar subindo as escadas. Este andar parece menos habitado do que o anterior, mas mais caótico: ela vê algumas peças de roupa jogadas ali e aqui, um aparador de mármore cor-de-rosa tomado inteiramente por brincos, colares, pulseiras e acessórios de cabelo, uma estante recheada de DVDs completamente fora de ordem. Lily percebe que não há carpete no terceiro andar, e que a madeira que cobre o piso é do mesmo tom daquela do corrimão; a atenção aos detalhes de quem quer que tenha construído (ou reformado, alternativa mais provável) essa casa é admirável.
As duas param em frente a uma porta marcada por uma mandala da Flor da Vida, os círculos concêntricos prendendo todo o mal dentro de si e impedindo que entrem no cômodo que protege. Lily pensa que parece exagerado que Marlene tenha mais uma camada de proteção em seu quarto dentro dessa casa que já praticamente um cofre blindado contra poderes malignos — mas aí...
— É aqui que você vai ficar, Lily.
Oh. As orelhas de Lily esquentam instantaneamente — Marlene deve ter posto a mandala ali para impedir que os pesadelos encontrem Lily aqui em Hogsmeade.
— Eu tô no quarto da frente. — Marlene continua, sem perceber o turbilhão de emoções que sua simples gentileza causou em Lily. — Vou deixar você se acomodar. Nós perdemos o almoço, mas sempre podemos beliscar alguma coisa enquanto isso...
— Obrigada, Marlene. — Diz Lily, finalmente encontrando sua voz e suas boas maneiras. Ela entra no quarto (que em si mesmo deve ser só um pouco menor do que sua quitinete londrina) e coloca sua mala e mochila aos pés do chapeleiro vintage que fica logo ao lado da porta. — Eu queria muito tomar um banho e tentar dormir um pouco, na verdade. Se não for incomodar.
— Claro que não! — Marlene responde, apressada, dispensando a preocupação de Lily com um acenar de mãos. — Descansa o quanto quiser. Eu só marquei de tomarmos chá com Remus, meu amigo e nosso contato no departamento de polícia local para sabermos mais sobre os desaparecimentos.
Um arrepio percorre a espinha de Lily quando o motivo de estar aqui nesta casa tão suntuosa é trazido à tona novamente. Ela sente os olhos pesarem, quase que instantaneamente, e tem que lutar contra o instinto de apertar a ponte do nariz para tentar conter a dor de cabeça que se agrava por conta das noites mal dormidas.
— Tudo bem. — Ela respira fundo, sabendo que tem um trabalho a cumprir nessa pacata cidade do interior. — Mal posso esperar para conhecer seu amigo.
iii.
Até que essa tal cafeteria Madame Puddifoot é charmosa, quando sua visão se acostuma com os mais diversos tons de cor-de-rosa que decoram cada centímetro de superfície plana. Pelo menos os quatro gatos da proprietária, os verdadeiros donos do lugar, ficam passeando entre as mesas e recebendo afagos de clientes selecionados.
Lily está na terceira xícara de café — mesmo que “xícara” seja uma descrição generosa demais dos grandes baldes de cafeína que estão equilibrados precariamente ao lado da Caçadora. Em algum momento da reunião com Remus, ela prendeu os cabelos no alto com uma das canetas do detetive e conseguiu manchar o canto da boca com tinta azul, embora não tenha percebido.
— Então houve uma guerra de clãs? — Pergunta Lily, em tom incerto, ao revisar as informações que Marlene acabou de recitar como se estivesse lendo um livro-texto.
— Não exatamente — Marlene responde, comparando relatórios com mapas estelares, traçando a esmo os contornos das constelações. — Foi mais um golpe dinástico. Um dos Príncipes também é do Clã Black. Ele renegou a própria família ao reivindicar o território de Hogsmeade para si.
Um calafrio atravessa a espinha de Lily. O Conselho tem inúmeros problemas com o Clã Black — a criação do clã tem origem na Baixa Idade Média, quando os Black eram uma importante família da nobreza que entrou em contato com os vampiros do continente. Em toda geração, pupilos humanos dos Black são Abraçados e trazidos para o lado das trevas, e sua única lealdade é à família e aos seus estimados padrões. Eles tentam pintar imagem de civilizados e extremamente respeitosos da Máscara, mas aqueles que vivem no sobrenatural conhecem bem seu histórico violento, seu desdém pelo Conselho e suas regras e a maneira detestável pela qual tratam os humanos.
Lily nunca ouviu falar de um Black se voltando contra os seus. Ela está surpresa, embora não saiba se de forma positiva ou negativa.
— Os homicídios violentos diminuíram desde que os novos Príncipes expulsaram a Príncipe anterior — ressalta Remus, em tom casual.
Eles estão falando as maiores barbaridades possíveis no tom mais leve que conseguem, para não chamar a atenção dos demais clientes. Essa é uma prática corriqueira para Lily, que já está tendo que tratar desses assuntos cabulosos como se fossem cotidianos há uma década, e seus companheiros de mesa conseguem acompanhar seu ritmo sem muita hesitação.
Hm. Vampiros sendo piedosos com humanos? Essa é boa, pensa Lily. Pra tudo se tem uma primeira vez, supõe.
— Bom, pelo menos podemos ter certeza de que os desaparecimentos que estamos investigando não são mandados pelos Príncipes. Isso é um alívio.
Lily já incendiou e destruiu um bom número de covis vampíricos violadores da Máscara, mas detestaria ter que fazer isso numa cidade pequena como Hogsmeade, onde a tragédia tem menos chances de passar despercebida. Pelo menos o Conselho tem bons contatos dentro do Departamento de Polícia na região, mas Lily gosta de ser tão cautelosa quanto possível, e não quer depender das leis dos mortais que desconhecem o mundo das trevas.
— Mas são Príncipes, né? — Lily quer confirmar. — No plural?
— Sim. Dois. O segundo não tem clã.
— O que parece é que estão tentando montar seu próprio clã — avalia Remus, girando a caneta nos dedos. — Já ouvi pessoas se referindo a eles como “os Marotos”.
Lily ri baixinho.
— Que nome horroroso pra um clã de vampiros.
— Acho que é essa a intenção — opina Marlene. — Eles não se parecem muito com os vampiros sanguinários que já li nos relatos históricos do Conselho. Acho que porque são mais jovens.
Lily vocaliza sua concordância com um som que vem do fim de sua garganta. Ela nunca se preocupou muito em navegar nas águas perigosas da política vampírica — para ela, a única coisa que importa é matar vampiros, não ficar tentando entender brigas de alianças e conexões ancestrais que têm tanto peso para os sanguessugas.
— A sede do principado é num hotel reformado que fica dentro da floresta nos arredores da cidade — continua Marlene, espreguiçando-se longamente e fazendo seus cachinhos saltarem pra cima e pra baixo. — Talvez a gente devesse levar tudo isso com a gente pro Casarão — sugere ela, bocejando tão fortemente que quase faz tremer a mesa que estão dividindo.
— Ninguém sabe que eu tirei os documentos dos arquivos, Marls — Remus adverte, tirando os óculos de tartaruga do rosto com uma mão e usando os dedos da outra mão para apertar a ponte do nariz.
— Mas o Chefe Moody...
— O Chefe Moody já tem coisa demais com a qual se preocupar. — Remus faz uma careta e encaixa os óculos novamente no rosto. — Não quero ficar dependendo dos favores dele. Logo o resto do pessoal pode desconfiar.
Marlene suspira. Lily encara a enxurrada de papéis que ocupam cada centímetro possível da maior mesa da cafeteria, que os três ocuparam violentamente assim que chegaram, e sente um repuxar incômodo na nuca. Essa é a forma pela qual sua intuição lhe diz que está deixando escapar alguma coisa, embora isso dificilmente torne as coisas mais fáceis para Lily. Ela entende a frustração de Marlene, que com certeza estava esperando que a investigação de Lily e Remus envolveria muito mais ação e menos leitura.
— Marlene, pode ir pra casa se quiser. — Lily informa, esfregando os olhos e esfregando o ponto no início do pescoço onde sua intuição insiste em dar um alerta incompleto. — Se o Detetive Lupin...
— Remus — enfatiza o homem do outro lado da mesa, sem nem levantar os olhos do relatório que está lendo.
— ... se o Remus não se importar, eu quero ficar um pouco mais. Acho que ainda podemos tirar alguma coisa dessa papelada.
Marlene parece dividida entre o cansaço e a vontade de ajudar. Seu telefone toca, uma notificação de mensagem nova subindo na tela, e ela confere o celular por alguns segundos.
— Minha prima Olivia tá precisando de uma carona... — Fala, como quem pensa em voz alta. Seu olhar sobe em seguida, encontrando o rosto compreensivo de Lily. — Você se importa, Lily?
— Claro que não. Eu dou um jeito de voltar pro Casarão.
— Assim que terminarmos eu deixo a Lily em casa, Marls — oferece Remus, alcançando uma xícara de chá decorada com flores azuis e fazendo uma careta depois de dar um gole. — Não se preocupe com a gente.
Marlene despede-se e insiste em pagar a conta pendente antes de sair. Lily e Remus trocam olhares por cima da papelada, respiram fundo em sincronia e continuam a estudar as minúcias das vidas das últimas meninas desaparecidas. Do lado de fora do café, a noite é estrelada, mas a Lua nova denuncia o que Lily já sabe: essa história está longe de ser concluída.
iv.
Lily sussurra o encantamento contra a fechadura, a chave enfeitiçada esquentando em sua mão e girando suavemente como se fosse feita para essa porta. Lily consegue destrancar a porta com um audível click!, o que faz com que Remus esboce uma careta em seu rosto extremamente sincero.
Francamente, Lily não faz ideia de como alguém como Remus Lupin foi parar na força policial — ele não tem nenhum osso desonesto em seu corpo, e Lily sabe que o trabalho de investigador exige algum nível de lábia e às vezes um pouquinho de farsa. Lily teve amplas oportunidades para desenvolver as duas coisas, mas Remus dá a impressão de ser certinho demais, às vezes.
— Pareça casual — Lily sussurra para Remus, entredentes, girando a maçaneta da porta principal da casa dos Abbott, cuja filha Hannah foi notificada como desaparecida no dia anterior. — Até parece que nunca invadiu a casa de alguém antes.
Como Remus não protesta diante dessa última colocação de Lily — na verdade ele parece até empalidecer um pouco —, ela sabe que pisou num calo. Eles entram na casa dos Abbott sem ruído, e embora o instinto de Lily seja tirar os coturnos para não trazer poeira da rua para dentro da residência, ela se mantém calçada.
— O Chefe Moody vai manter os Abbott lá até a gente sair — informa Remus, checando o celular. — Mas é melhor a gente não demorar muito.
Lily acena com a cabeça e os dois se dirigem ao andar de cima, com cuidado para não tirarem nada do lugar. A menina não desapareceu de casa e a perícia já visitou o pequeno duplex que ela divide com os pais, mas os dois preferem pecar pelo excesso de cautela do que pela falta. O quarto de Hannah é no final do corredor do segundo andar, a porta toda decorada com estrelas adesivas daquele material plástico que brilha no escuro.
Remus e Lily entram no quarto com a solenidade de quem sabem que estão violando profundamente a privacidade alheia, mas se houver qualquer coisa nos pertences pessoais de Hannah Abbott que conecte os desaparecimentos das meninas... Esse é um preço que Lily está disposta a pagar.
O interior do cômodo reflete a decoração da porta: as paredes escuras, pintadas com constelações, nebulosas e planetas, em vários níveis de complexidade. A mãe de Hannah é uma artista plástica, Lily se recorda de ler na ficha xerocada ilegalmente. O pai é um engenheiro; profissões comuns, da mesma forma que os pais das outras adolescentes desaparecidas. Hannah é a mais nova até agora: 13 anos, louca por Star Wars, não voltou pra casa depois da aula de natação.
O quarto dela é exatamente aquilo que se espera de uma garota da sua idade, colorido e um pouco bagunçado, a mesa de estudos cheia de canetas e cadernos semi-preenchidos, fotos de uma Hannah sorridente abraçada com os pais, com um casal mais velho, com um enorme labrador e com mais algumas outras pessoas da sua idade. Lily sente-se subitamente nostálgica pelos tempos mais simples, quando era mais nova, e tem que se concentrar para não ser sugada pela onda das lembranças.
Lily e Remus passam os minutos seguintes revirando minuciosamente o quarto de Hannah. Ela não tem um diário, nem qualquer outra coisa analógica que eles possam consultar para conferirem se ela tem interagido com alguém sem seus pais saberem. Ela desapareceu com o celular e o computador já está na mão da perícia digital na delegacia de Hogsmeade; resta aos dois esperarem o resultado do exame dos arquivos digitais da garota.
Uma das coisas que Lily pode fazer, e faz, é afanar um dos chaveiros que estão pendurados nas bolsas de Hannah. Ela acha que reconhece a figurinha, mas não sabe da onde: um boneco cuja cabeça é grande coração vermelho com lábios amarelos, e corpo azul com bolinhas. O que importa é que a energia da garota irradia do bonequinho e deve ser o suficiente para fazer os feitiços que precisam para descobrirem mais do paradeiro dela. Feito isto, Remus e Lily começam a se preparar para sair, quando o olhar de Lily é puxado para cima, como que por vontade própria.
— ... Espera aí — ela fala baixinho, mais para si mesma do que para Remus. Ela está encarando o modelo de fases da Lua que Hannah pintou no teto de seu quarto. Não muito longe, há uma ilustração explicativa de como eclipses ocorrem, a sombra da Lua obscurecendo o Sol e a sombra da Terra obscurecendo a Lua. Um desses eclipses está circulado em tinta branca, com uma data anotada ao lado, decorada com fogos de artifícios e o nome de Hannah.
A nuca de Lily quase dói e seu estômago afunda em alívio. Ela aponta para o alto, para o desenho.
— Aquele é o aniversário da Hannah?
Remus puxa a ficha pirateada do bolso enquanto Lily está desbloqueando o celular.
— É sim.
— Foi um eclipse lunar — ela anuncia, com os olhos vidrados na tela, os dedos tremelicando um pouco. — Qual o aniversário da Rose?
Remus tem que procurar um pouco no caderninho que leva consigo para todos os lugares.
— Trinta e um de maio de 2003.
Lily digita a data junto da palavra “eclipse” na busca do Google.
— Eclipse solar — sussurra, o repuxar em sua nuca confirmando que sim, encontraram o que estavam deixando passar. — Kathryn?
— Vinte e oito de outubro de 2004.
— Eclipse lunar. Irina?
— Catorze de abril de 2004.
— Eclipse solar. Eileen?
— Oito de abril de 2005.
— Eclipse solar. — Lily engole em seco. — Remus, acho que finalmente encontramos a conexão entre as meninas desaparecidas.
Remus concorda com a cabeça, ainda sem fala e um tantinho embasbacado. Lily sente um peso deixar seus ombros: pelo menos esse mistério, qual marca essas garotas têm em comum, está desvendado. Agora eles só precisam descobrir o que estão fazendo com elas e onde elas estão — embora Lily tenha suas suspeitas acerca dessa última pergunta.
Diante da revelação que todas as desaparecidas nasceram em dias de fenômenos astronômicos, a cabeça de Lily começa a fazer saltos lógicos que nem ela mesma entende, mas que não tenta controlar. Nesses casos, ela aprendeu a confiar em sua intuição e nos caminhos desembestados em que sua mente a conduz, encontrando ligações pouco usuais.
— Será que a fase da Lua também tem alguma coisa a ver com o desaparecimento delas? — Lily se pergunta em voz alta, os olhos passeando pelas paredes pintadas no quarto de Hannah Abbott. — Qual a fase da Lua de ontem?
— Lua nova — Remus responde sem hesitação, sem nem pegar o celular para jogar “calendário lunar” no Google. Lily soergue uma sobrancelha numa pergunta muda. — Eu... tenho boa memória para esse tipo de coisa — tenta disfarçar Remus, com um rubor subindo-lhe as bochechas.
Lily consegue sentir o cheiro da mentira dele preencher o espaço entre os dois. Ela permanece com a sobrancelha soerguida, questionando-o sem verbalizar nada, mas também dando o espaço para que ele mantenha sua privacidade. Ela só não finge que acredita nele: Lily tem que saber quando estão mentindo para ela, por questão de sobrevivência, e é uma habilidade que aprimorou em seus anos como Caçadora, mistura em ler muito bem a linguagem corporal alheia e acreditar em seu sexto sentido. Parece que é a disposição de Lily em não insistir que faz com que Remus se decida.
Ele suspira e esfrega a nuca com a mão que está segurando a caneta esferográfica azul que usou para atualizar os eclipses nas datas das meninas desaparecidas.
— A Marlene não te contou?
Lily nega com a cabeça.
Ele hesita por alguns instantes, e finalmente encontra o olhar de Lily com o seu.
— Eu sou um lobisomem.
Ah. As dissonâncias que Lily identificou no caráter de Remus fazem sentido, agora, encaixando-se melhor no quebra-cabeças que ela sempre está montando quando conhece uma pessoa nova. Um bom homem, honesto e com o coração no lugar — mas que carrega consigo um terrível segredo. Pelo menos ele tem Marlene consigo, alguém que conhece o mundo das trevas e pode confortá-lo e ajudá-lo quando possível. Porque, e isso não demorou muito para que Lily descobrisse, embora só esteja convivendo com Remus há poucos dias, Remus Lupin é daquelas pessoas que merecem serem ajudadas e confortadas, sem nenhuma hesitação.
— Acônito? — ela pergunta, avaliativa, já suspeitando da resposta de Lupin.
— Sim. Marlene prepara para mim sempre que preciso.
Lily concorda com a cabeça. Ela não tem tanta experiência com lobisomens quanto tem com vampiros, mas sua experiência com lobisomens é infinitamente mais positiva do que sua experiência com vampiros — e ela já gosta de Remus, então nada mudou entre os dois.
— Okay. — Lily reconhece o comprometimento de Remus com seu lado humano com essa simples palavra. — Obrigada por me contar. Então, você acha que a fase da Lua pode ter a ver com os desaparecimentos?
Ele está franzindo as sobrancelhas, como se outra cabeça tivesse brotado no pescoço de Lily.
— “Okay”? — Remus pergunta, voz incrédula. — Eu acabo de contar pra você que sou um dos monstros que seu Conselho caça e você só... Dá de ombros?
— O Conselho de Guardiães só caça lobisomens que não estão comprometidos com a humanidade — Lily responde, sem entender onde Remus está querendo chegar. — Você toma poção de acônito, preparada por uma Sentinela, e é claramente uma pessoa bem engajada aqui na vida da cidade... Pra ser sincera, eu tô mais preocupada é com o seu consumo excessivo de cafeína.
Remus pisca uma, duas vezes.
— Mas... e você? Você não tem medo de estar trabalhando tão próxima de um lobisomem?
— Nope. — Lily até estala os lábios em resposta. — Você é um cara legal, e eu não sou nada indefesa. Pode deixar que eu me preocupo com a minha segurança. — Ela deixa o silêncio cair entre os dois por alguns segundos. — Mas a minha pergunta. Você acha que...
Remus começa a folhear seu caderninho de anotações. Talvez Lily devesse ter um desses também, e fingir que é uma jornalista para quando precisar de um disfarce.
— Sim. — Remus tamborila com a caneta numa página em branco. — Todas as meninas desapareceram em noites de Lua nova. Hannah e Rose desapareceram em meses seguidos, mas as outras meninas desapareceram mais esparsamente...
— Então o que quer que esteja sequestrando as garotas — Lily engole em seco, um arrepio percorrendo sua coluna — tá ficando mais desesperado.
Eles se entreolham e respiram fundo. O estômago de Lily está começando a se embrulhar, e os dois saem da casa em silêncio, fazendo o mínimo de barulho possível. Lily está digitando o que descobriram para Marlene enquanto Remus envia as fotos que tirou do quarto de Hannah na conversa em grupo que criaram. Marlene vai preparar um ritual para que descubram se Hannah ainda está viva usando um de seus objetos pessoais, e o ritual também relevará a localização da garota — mas Lily sabe muito bem onde poderá encontrá-la.
Nas ruínas que ficam nos arredores da cidade. No velho castelo de Hogwarts.
Ela está prestes a pedir um Uber para que possam ir até a casa de Marlene quando um Aston Martin preto e brilhante, estalando de limpo e exalando riqueza, estaciona em frente aos dois. Do banco do motorista sai uma mulher pequena, de pele marrom, com longos cabelos pintados em cores-fantasia, vestida de preto dos pés à cabeça e mascando chiclete audivelmente. Lily pisca algumas vezes, adaptando sua visão e descendo ao nível de consciência necessário para enxergar as auras alheias, e o formato dessa aura em comum lhe parece familiar.
É a pontada metálica que faz com que Lily reconheça a aura: a pessoa com um Laço de Sangue que estava observando-a chegar na estação de trem de Hogsmeade.
— Remus. — Lily chama o nome do seu parceiro em voz baixa, mas clara. — Fica atrás de mim.
A mulher levanta as mãos num gesto de rendição.
— Calma lá, Caçadora. Não vim te fazer mal. Nem ao teu amigo. — Ela sorri, e mesmo que Lily saiba que ela é humana, seus caninos parecem perigosamente afiados. — Eu me chamo Dorcas. E tenho um convite a fazer pra vocês dois, Holmes e Watson do sobrenatural. Em nome dos Príncipes de Hogsmeade.
Lily e Remus trocam olhares. E decidem entrar no carro de Dorcas.
v.
Grimmauld Place, é o nome do hotel que os Príncipes de Hogsmeade administram, e eles exigem que todos os hóspedes estejam trajando roupas formais. Lily quase ri na cara de Dorcas quando ela fala tudo isso no carro, enumerando as diversas regras de etiqueta que Lily e Remus deverão cumprir quando estiverem no domínio dos Príncipes. Tudo isso parece muito esquisito pra Lily — não porque ela nunca teve que lidar com vampiros aficionados por protocolo, mas porque tudo o que ouviu sobre Sirius Black e James Potter até agora fez com que ela formasse em sua cabeça uma imagem muito diferente daqueles vampiros tradicionais com quem tinha que lidar em Londres.
Mas quando Remus e Lily chegam no tal hotel e Dorcas a conduz para um dos quartos onde grandes embrulhos vermelhos estão esperando por Lily, ela sabe exatamente do que se trata. Vampiros amam estar no controle, seja por detrás de suas maneiras aristocráticas, normas políticas ou por simplesmente tentarem foder psicologicamente com todos aqueles que conseguirem. Portanto, parece apropriado que eles tenham convocado Lily até este lugar desconhecido e agora estejam querendo ditar até mesmo a forma com a qual ela deve se vestir.
Bem, Lily vai só mostrar a eles. Se estão tão interessados em falar com ela, que a esperem. Ela põe o celular para carregar e manda a localização para Marlene, avisando a Remus via mensagem de seu plano. Ele não parece ficar muito feliz, mas concorda em seguir a deixa de Lily, já que ela tem mais experiência em lidar com os vampiros do que ele. Lily toma banho, seca os cabelos e abusa dos produtos de skincare que colocam a sua disposição, trajando o roupão felpudo que tem as iniciais do hotel bordadas em linhas douradas no bolso superior.
Quando ela abre a primeira das caixas em cima da cama, assobia em resposta.
— É um Alexander McQueen — diz para si mesma, sentindo o tecido deslizar por entre seus dedos. O vestido é verde, mas quase preto, com uma fenda que se abre até a coxa de Lily e com ombreiras com correntes que parecem de vidro. — Eu com certeza não vou devolver isso aqui.
Ela se maquila, se certifica que ainda está usando o cordão símbolo de sua deusa padroeira e olha com desconfiança para os sapatos que deixaram à sua disposição. Eles são Jimmy Choos, ela tem certeza, impossivelmente altos e provavelmente desconfortáveis; Lily decide não calçá-los, colocando de volta seus coturnos. Seus sapatos podem até não combinarem com o traje de gala que está vestindo, mas são ótimos para chutar vampiros no estômago e pressionar seus pescoços com o solado de borracha vulcânica.
Lily dobra e guarda suas roupas em sua bolsa, percebendo que no meio de seus cacarecos está seu fiel coldre de couro que usa para carregar consigo um par de estacas de madeira e o afivela na coxa, para ficar bem à vista por conta da fenda do vestido. Ela se olha no espelho pela última vez, respira fundo e abre a porta do quarto. Dorcas está lá fora, esperando, rolando pelo seu feed no Instagram e com cara de entediada.
— Uau, Caçadora — assovia Dorcas, as sobrancelhas subindo e se escondendo por detrás de sua franja. Ela pega a bolsa de Lily e põe em seu próprio ombro.
— Eu não quero nem saber como vocês descobriram meus tamanhos — rosna Lily, marchando até onde sabe que é o quarto de Remus. — Só... — ela bate na porta. — ... vamos acabar logo com isso, tá?
Remus abre a porta, antes de Lily sequer terminar de bater, e está trajando um terno muito bem ajustado, vinho, com uma gravata preta e camisa de botões branca como a neve. Ele está claramente nervoso, um pouco pálido, mas está deslumbrante na roupa emprestada, que também serve nele perfeitamente.
— Vamos nessa, Lupin.
Ele acena com a cabeça e lhe oferece o braço. Lily o aceita, e os dois seguem Dorcas para fora do corredor dos quartos, passando pelo grandioso hall de entrada, iluminado por um enorme lustre de cristais, e alcançando o restaurante que fica no sul da propriedade. É tudo muito aberto, com janelas de vidro que vão do piso ao teto, a floresta escura parecendo respirar do lado de fora, e Lily só consegue pensar em como a luz do Sol deve preencher cada canto deste lugar durante o dia. Não é muito apropriado para vampiros, mas é o disfarce perfeito para que se camuflem com as pessoas da região e até turistas desavisados.
— Altezas — a voz de Dorcas soa calma e poderosa, atravessando o salão recheado por mesas redondas e cadeiras de estofado perolado. O restaurante não está muito cheio, Lily estima que com apenas um terço da capacidade total, mas mesmo assim há um quarteto de cordas tocando no fundo. — A Srta. Evans e o Detetive Lupin.
Dorcas os conduziu até uma mesa bem no centro do salão, onde dois homens estão sentados, bebericando líquido vermelho extremamente viscoso de taças de vinho sem haste. Lily não precisa sentir o cheio acobreado para saber que aquilo ali é sangue, e mantém sua expressão neutra. Pelo menos eles não estão se alimentando do seu estoque vivo, bem na sua frente, o que acabaria por obrigá-la a incendiar essa bela construção.
Os dois homens se põem de pé, e pela descrição que Marlene tinha feito deles mais cedo, Lily não tem problema em reconhecê-los: o primeiro deles, que tem a mesma altura de Lily com suas botas, cabelos ondulados profundamente negros e olhos tão azuis que são cinzentos, é Sirius Black. Ele tem as bochechas e nariz aristocráticos de todos do seu clã, mas sua postura é relaxada e, quando ele sorri, não expõe os caninos afiados.
Ele pega uma das mãos de Lily na sua e faz uma mesura dramática.
— Nossa própria Caçadora! — Exclama, deleitado. — É um prazer conhecê-la, Srta. Evans. Eu sou Sirius Black.
Lily rola os olhos. Black volta-se para Remus.
— Detetive Lupin. — Ele estende uma das mãos e Remus, que parece estar se controlando para não fazer uma careta, aceita o cumprimento e a aperta. — Temos acompanhado bem de perto seu trabalho com o Departamento de Polícia de Hogsmeade. Parabéns pelo desempenho.
— O-obrigado?
— Não precisa agradecer! Nós apreciamos muito um trabalho bem-feito. Por favor, permitam que eu apresente meu melhor amigo e parceiro de negócios, James Potter.
Potter é mais alto que Black uns dez centímetros, com pele marrom brilhante, olhos castanhos amigáveis e cabelo também escuro, quase cacheado, extremamente bagunçado e com aparência de ser muito macio. Ele usa óculos de armação redonda no rosto, e tem um sorriso tão brilhante quanto o do amigo.
James não é tão dramático quanto Sirius, no entanto, porque se contenta com apertar as mãos tanto de Lily quanto de Remus, sem nenhum floreio ou gestos exorbitantes. Ele puxa a cadeira para que Lily se sente num gesto gracioso, e ela o faz enquanto o olha com desconfiança. Obviamente, Lily não teve tempo de fazer um scan mágico no salão, e por isso não sabe quais ameaças os Príncipes podem ter instalado por aí. Ela cai um nível de consciência e avalia as auras deles, que parecem relaxadas e satisfeitas, sinal de que se alimentaram recentemente e de que não se sentiram tentados com o sangue nas veias de Lily e Remus.
Eles que tentem a sorte ao atacarem Lily. Mesmo que consigam cravar as presas em qualquer parte de seu corpo, ela bebe extrato natural de verbena todos os dias desde que se descobriu Caçadora. Essa seria uma surpresa inconveniente para eles.
— Bem-vindos a Grimmauld Place, Srta. Evans e Detetive Lupin — cumprimenta casualmente Potter, bebericando sua taça de sangue. — Espero que tenham gostado das roupas.
— Espero que vocês saibam que não existe chance de eu devolver esse vestido para vocês — Lily responde, jogando os cabelos por cima do ombro e ouvindo o tilintar das correntes de suas ombreiras. — Considerem uma retratação pelo sequestro.
— Sequestro, Srta. Evans? — Discorda Sirius, escandalizado.
— É um presente, Lily — interrompe Potter, sorrindo de lado. — Tanto para você quanto para mim, que pude vê-la nele.
— Ugh. — Responde Lily, se controlando para não tocar a medalhinha que carrega no pescoço. — Esse papo furado pode funcionar com garotas humanas sem noção do sobrenatural, mas eu sou uma Caçadora há dez anos, Alteza. — Lily injeta o máximo de desgosto que consegue na última palavra. — Então podemos cortar os joguinhos e ir direto ao ponto: o que caralhos nós estamos fazendo aqui?
— Lily... — adverte Remus, o papel de diplomata apaziguador lhe servindo como uma luva. — Certamente os Príncipes não nos trouxeram aqui à toa...
— Para nos provocar, com certeza. Para saber até onde nossa investigação foi e para ver se já descobrimos a conexão deles com o desaparecimento das meninas!
Black dá com o punho fechado na mesa, fazendo talheres e louça se agitarem uns contra os outros, o som subindo como estrelinhas prateadas.
— Não nos ofenda desse jeito, Srta. Evans — rosna ele, perdendo toda a compostura por alguns segundos. — Não fiz o que fiz para conquistar o meu trono nessa cidade para ser acusado injustamente de...
— O que Sirius quer dizer — interpela Potter, sorrindo imperturbavelmente — é que as pessoas dessa cidade estão sob nossa proteção. Não faríamos nada para machucá-las.
Lily quase sorri em resposta. Então, é Sirius que tem o temperamento explosivo, temperado pela calma equilibrada de Potter. Bom saber.
— Me desculpem se não confio na palavra de vampiros sobre o bem-estar de seres humanos — replica Lily, desdenhosa, embora saiba muito bem que um rebanho feliz é benéfico para os Príncipes e sua corte. — Vocês querem mesmo que eu acredite que, numa cidade desse tamanho, comandada por um dos clãs mais ancestrais e desrespeitosos da Máscara que temos notícia...
— O Clã Black não governa Hogsmeade, Evans — adverte Potter, com voz firme. Seus dedos apertam mais ainda os ombros de Sirius, cujos caninos estão começando a despontar nos cantos dos lábios, depois que Lily mencionou a família dele. — Lembre-se disso.
Ela soergue uma sobrancelha.
— Ah, é?
— É — Sirius responde, ferozmente. — Expulsei minha tia e sua corja daqui há anos, e desde então essa cidade tem estado significativamente mais pacífica. — Ele respira fundo e Lily consegue ver suas bochechas se esvaziando, os caninos se retraindo, Black perdendo a pose combativa. — Não estamos por detrás dos desaparecimentos.
— E, visto que o Conselho mandou uma Caçadora... — continua Potter, como se não tivesse acabado de impedir o amigo de cometer um erro fatal. — Esse não é um crime humano, correto?
Lily desvia os olhos dos Príncipes, voltando-se para Remus.
— Vamos lá, conte a eles.
Lily precisava provocá-los para conhecer mais o caráter desses Príncipes. Ela surpreendeu-se com o que viu: vampiros do Clã Black são geralmente estoicos e desdenhosos, não intensos e a dois segundos de um ataque de raiva como Sirius. Se ela estivesse interrogando algum outro parente dele, em Londres, não conseguiria arrancar nenhuma palavra deles, muito menos a confirmação daquilo que ela já sabia — que os Príncipes não estão envolvidos no sumiço das garotas.
Remus e Lily deixaram Marlene fazendo a pesquisa sobre as prováveis criaturas e entidades por detrás dos sequestros, e por isso não conseguem responder as perguntas incisivas que os Príncipes lhes fazem. A Lua é importante, estando ligada tanto com o momento dos sequestros quanto quais garotas foram levadas — mas Lily não é um bestiário ambulante, e não faz ideia do que estão enfrentando. Só sabe que tem um lugar onde começar.
— As ruínas de Hogwarts.
— Também pudera. Como a Srta. McKinnon deve tê-la alertado, aquele castelo é uma confluência de energias místicas. — Potter apoia um cotovelo sobre a mesa, violando a etiqueta rigorosa que tinha seguido até então e encara Lily nos olhos. — Qual nosso próximo passo, Evans?
A pergunta a pega desprevenida.
— Nosso? — Ela questiona, surpresa. — “Nosso” coisa nenhuma. Eu vou até o castelo fazer reconhecimento do terreno e traçar um plano de ação com minha Sentinela. Não sabemos o estado das meninas. Não quero expô-las a mais risco levando vocês comigo.
Dito isto, Lily se levanta, a cadeira fazendo ruído alto em seus ouvidos e que deve ser quase doloroso para a audição sensível dos vampiros. Os três homens se levantam quando Lily o faz, como que respondendo a um campo magnético. Potter acompanha seus movimentos sem nem piscar, ajeitando os óculos em seguida.
— Acredito que já respondemos a todas as suas perguntas. E, agora, vamos embora. Passar bem, Altezas.
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