—você vai acabar morrendo por causa disso – disse Melissa enquanto Pedro encolhia o rosto por causa do gosto azedo do papel que havia colocado na língua; a festa havia começado fazia umas 3 horas, e todos que não estavam chapados, estavam transando.

O ambiente inteiro da casa, e um raio de 2 metros fora dela fedia a pizza, parecia que aquele cheiro nauseante iria infestar na alma de quem estivesse perto pelo resto da existência, Pedro usou todo o dinheiro que juntou das pessoas que vieram pra festa pra comprar toda pizza que pudesse comer, porém ele foi um dos únicos que não comeu a pizza, Pedro ficou murmurando algo sobre o queijo ser feito de pele e a calabresa serem olhos o encarando e querendo ler seus pensamentos.

—esse bosta já tá viajando – disse Melissa enquanto ia cortando a pizza pros convidados com uma fome monstruosa por causa da erva. Depois que todos estavam com uma fatia de pizza na mão, ela se sentou no sofá ao lado de seu melhor amigo, colocou sua cabeça no colo dela e ficou acariciando seus cabelos.

—você tem olhos de caleidoscópio – disse Pedro encarando-a.
talvez a muito tempo atrás ele enxergasse ela como mais que uma amiga, mas depois de todo o sofrimento e merda que eles passaram juntos, ficar com ela era algo realmente irrelevante para ele, e ele imaginava que fosse assim pra ela também, mas no momento nada disso importava, o passado era só uma ilusão de sua mente, a única coisa que importava pra ele naquele momento eram os olhos dela. As pupilas dela pareciam muito fundas, não estavam grandes, não tão grandes assim, mas pareciam fundas demais, como o mar durante a noite, havia um brilho acentuado em seus olhos, eles eram tão lindos que não conseguia se expressar em palavras, bem no fundo no oceano da pupila dela, dava pra enxergar uma centelha, quase apagando, chamando pra entrar nela, ele aproximou o rosto pra enxergar melhor, e recuou quando tomou um susto; ele se viu nos olhos dela, ele estava dentro daquele mar negro e infinito, meu deus, ele havia se tornado parte dela agora, habitando sua consciência e seus pensamentos, podia passear em meio aos seus neurônios se quisesse, sentia que agora estava dentro dos olhos dela; até que afastou o foco de sua visão e prestou atenção em suas íris, eram castanhas, um tom de castanho que não é fácil de encontrar, meio esverdeados e hipnotizantes, até que enquanto começaram a criar vida própria, pareciam pulsar e se contorcer em uma espiral, o verde nos olhos dela foi se acentuando cada vez mais, então por fim um arco-íris foi tomando conta de seus globos oculares, parecia que novas cores brotavam de dentro de sua pupila/oceano e iam desaparecendo por trás das pálpebras dela. Ele ficou estático, e depois boquiaberto quando as cores começaram a saltar pra fora dos olhos, elas iam percorrendo o corpo dela, tomando de conta de todo o ser dela, seus cabelos agora eram um misto de vermelho com azul-marinho, sua camisa que era verde com estampas de concha agora era de um laranja neon, seu rosto que era branco agora era um show de luzes infinitas; ele esticou sua mão em direção ao rosto dela, queria ver as cores, senti-las de pertinho, encostou sua mão na bochecha dela e recuou imediatamente quando percebeu as cores se espalhando pelo seu braço, elas percorriam seu corpo de maneira relativamente lenta, lenta o suficiente pra ser agonizante, ele encostou a mão que agora era roxa no sofá e as cores foram se espalhando por ele também, Pedro passou os olhos pela sala e viu todas as luzes se movendo de maneira desenfreada pelo aposento, moveis, e por fim pelas pessoas, quando o arco-íris em seu corpo alcançou seus olhos ele sentiu medo, só por um segundo ele sentiu medo, todos os tons entraram dentro das pupilas dele, então ele percebeu tudo, aquilo era ela.. ela fazia parte de tudo agora, estava em todo lugar, sentindo tudo, sendo o universo da própria existência, Pedro podia sentir suas emoções, dores e medos, ele podia ver tudo através dela, ele via ela verdadeiramente agora, ele sentia as cores, tudo isso acontecia enquanto ela o encarava e mexia em seus cabelos, cada fio de uma cor diferente, cores novas que nunca havia visto antes, nem em seus sonhos mais loucos. Então as mãos dela, as mãos feitas de luz fluorescente começaram a se movimentar em cima de seu rosto, pareciam se deformar e se transformar em raios de luz, ela tinha se tornado algo além, tinha transcendido, bem em frente aos olhos de Pedro, então os raios de luz começaram a se aproximar do rosto dele, e ficaram encostando e se afastando de sua face de maneira gentil, começou a ficar mais agressivo e forte a cada batida, até que ele ouviu um som agudo e estridente.

—acorda ai Pedro, cê tá bobocando, cara – falou Melissa enquanto dava tapas na cara dele, primeiro fracos, depois um pouco mais fortes quando se mostraram ineficientes pra acorda-lo; quando as circunferências negras enormes que eram suas pupilas diminuíram para um estado não tão preocupante, ele abriu a boca e falou:
—você tem olhos de caleidoscópio
—e eu viajo em táxis feitos de jornal, cê tá falando essas doideiras faz cinco minutos, meu amor
—cinco minutos? Como assim só cinco minutos? – ela parecia não entender o sentido da pergunta dele, haviam passado cinco minutos, o relógio podia confirmar, mas não tinham sido só cinco minutos, havia passado mais tempo do que se podia medir, mas parecia que só ele percebeu isso.
—Pedro, do que que você tá falando? – perguntou ela parecendo preocupada
—nada não, deixa pra lá
—hm, tudo bem, eu tenho que ir, meu amor, esse aqui é o Lucas, a gente vai conversar um pouco a sós, tá bem? – Pedro olhou pro cara em pé ao lado do sofá, ele era alto, usava óculos escuros, meio estranho pois já tinha anoitecido, ele era um pouco musculoso, e tinha uma camisa dos Rolling Stones chamativa até demais, e tinha cara de que era arrogante; Melissa piscou com o olho direito pra Pedro, deu um beijo em sua testa, levantou e foi puxando Lucas pela mão em direção para algum quarto da casa.

Pedro se sentou, sentindo-se meio solitário, ele havia sentido algo bem forte, entre ele e ela, e ela simplesmente foi embora como se não fosse nada demais; Pedro começou a sentir um aperto no peito, tentava puxar ar pra respirar mas não conseguia, parecia que havia algo tapando sua garganta, tentou se levantar mas seus pés estavam pesados demais, como se a sola fosse feita de chumbo, ele caiu de volta no sofá, e olhou ao redor, tinha um grupo de garotas dançando e se beijando alternadamente à sua direita, parecia algo tirado de um filme que Pedro via na internet quando tinha 12 anos, ele respirou fundo e disse a si mesmo, como se estivesse dando um lembrete mental: nada disso é real.. nada.. disso.. é.. rea-
(PUTA MERDA)
os sapatos de chumbo pareciam afundar agora além de pesar, Pedro sentia que estava em areia movediça, e estava sendo puxado sem pressa até o chão, quando olhou pro chão, ele não era mais sólido, estava se mexendo, parecia um lago inquieto, e alguém havia jogado uma pedra nele, Pedro começou a puxar suas pernas na tentativa de sair daquele lugar, mas isso pareceu irritar o chão, agora o que era um lago se tornara um mar violento e caótico durante uma tempestade, se agitando e criando redemoinhos loucos, ele tentou gritar mas lhe faltaram as palavras, então em um pulo suas pernas saltaram e ele ficou de pé no sofá, que servia de jangada contra o oceano de chão, Pedro direcionou seu corpo em direção ao corredor fechou os olhos e pôs em mente seu pensamento anterior
(nada disso é real)
(nada disso é.. re-re-al)
(NADA DISSO É REAL, PORRA)
enquanto essa frase ecoava por sua cabeça ele pulou da jangada/sofá e correu cegamente até o corredor com os olhos fechados, correu por muito tempo, tempo até demais
(o corredor não é tão longo)
abriu os olhos, e se deparou com o que parecia sua antiga escola, ela havia sido demolida dois anos atrás, não tinha mais que dois andares, mas era extensa como um campo de futebol, tinha corredores enormes com portas iguais, sendo que a única singularidade das inúmeras portas era o número que tinha escrito em cada uma, que fazia os novatos se perderem facilmente, e os veteranos também; o corredor que antes tinha no máximo cinco portas, agora se estendia até onde a vista alcançava, e tinha mais portas que grãos de areia numa praia. Pedro não sabia em qual entrar, só queria ir pro seu quarto e escutar Pink Floyd até esse pesadelo passar, ele olhou pra trás, a luz no fundo do corredor, que levaria ele de volta pro oceano de chão e o sofá jangada parecia estar numa distância de 20 quilômetros, ele virou pra frente novamente, escolheu a porta na sua esquerda e abriu, estava tudo escuro, só tinha dois pontos de luz que o seguiam como se fossem olhos.
—olá? – Pedro perguntou, enquanto suava frio rezando pra não obter uma resposta
— olaaá, meu garotão.. você cresceu tanto desde da última vez que eu te vi, nem parece mais aquele moleque chorão com a cara cheia de lágrimas e sangue, nem parece aquele merdinha que estragou minha papelada, NEM PARECE AQUELE MERDINHA QUE FEZ A MAMÃE MORRER, E ME FEZ BEBER ATÉ ME AFOGAR E ENTRAR EM COMA, NEM PARECE AQUELE MOLEQUE DE BOSTA QUE NÃO FOI PRO ENTERRO DA TITIA QUE SE MATOU DEPOIS DO MARIDO DEIXAR ELA, VEM CÁ, FILHÃO DEIXA EU TE DAR UM BEIJO, DEIXAAAA –
(PAI???)
ele fechou a porta com tanta força que ela se rachou e um pedacinho dela caiu no chão
(pai)
ele fechou a porta o mais rápido possível, antes que pudesse ver o rosto da criatura dentro do quarto, ele tinha medo que
(pai)
fosse o que ele achava que era, então Pedro se virou e abriu a porta que tinha na sua direita.

Ele entrou no quarto, parecia familiar, familiar pra caralho, mas algo estava errado, parecia meio podre e distorcido, como se tivesse cheio de fungos e bolor, Pedro passou a mão pela cômoda e achou um canivete, ele achava que tinha perdido, mas lembrou que melissa tinha pegado e nunca havia devolvido, ele o segurou com a mão direita e retirou uma pequena faca bastante afiada de um dos compartimentos, aquela imbecil vivia pegando suas coisas
(meu deus, CADÊ A MELISSA)
Pedro gritou o nome dela o mais alto que conseguiu, mas não obteve resposta alguma, pensou em entrar na porta que tinha na frente dele, podia ser o banheiro, talvez ela estivesse lá, gemendo e gritando de prazer enquanto transava com aquele filho da puta que usava aquela merda de camisa dos Rolling Stones
(FILHO DA PUTA)
Pedro chutou a porta com toda força que tinha e entrou no banheiro vazio e escuro, ligou a luz pra ver se tinha alguém com ele, pra surpresa desagradável dele, havia mais alguém lá, estava dentro do box, encarando Pedro com seus grandes olhos verdes e medonhos, tinha escamas, numa mistura de cinza com preto, dentes duas vezes maiores que suas garras, e tinha um rabo comprido que ficava se mexendo de maneira grotesca, as pupilas do monstro começaram a ficar finas, ele rugiu, e começou a espumar, preparou suas pernas pra pular e deu um salto na direção de Pedro
(merda)
ele no maior instinto de sobrevivência, passou o canivete pelo ar enquanto virava o rosto pro outro lado.

Silêncio.

Pedro abriu os olhos e não viu nada em sua frente, olhou pro chão e viu a besta caída em seus pés, ele havia dado um golpe certeiro e cortou a garganta dela de uma ponta a outra, ele se agachou pra ver melhor, ela se contorceu e Pedro caiu pra trás num susto, consequentemente ele chutou o monstro de volta pro box onde havia visto ele em primeiro lugar, ele ficou nervoso ao olhar pra faca e sua mão cheia de sangue, limpou a faca e lavou as mãos, em seguida jogou o canivete na privada e deu descarga, a privada estava quase totalmente preta de suja, mas pareceu funcionar, Pedro fechou o box, desligou as luzes e saiu do banheiro, após fechar a porta, ele percebeu que o quarto não estava mais tão estranho, nem o banheiro, então foi até o corredor e ele não parecia tão grande quanto antes, parecia minúsculo comparado a antes, ele foi andando até a sala novamente, se agachou e olhou pro chão, ele parecia sólido de novo, Pedro se ergueu e sorriu.

Ele foi andando até o sofá e se sentou, 30 segundos depois disso, duas garotas sentaram no sofá, uma de cada lado, a da esquerda disse:
—onde que você tava a noite toda?
—eu conheço vocês?
—ainda não, mas vai conhecer – respondeu a garota que estava sentada na direita dele, Pedro se sentiu meio estranho de novo, as duas levantaram e puxaram ele até o quarto vazio mais próximo, cada uma delas segurava uma garrafa de tequila, Pedro lembra de uma delas ter dito que ele tinha que ficar bêbado pra dar conta do que ia rolar, ele não lembrava do que ela tava falando, a outra coisa que ele se lembra era que a outra garota falou que não tava sentindo as pernas dela, ele se sentiu confuso com esses pensamentos de manhã, e enquanto sonhava com elas duas, o telefone da sala tocou.

Ele não lembra como foi parar no sofá.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!