Já estava amanhecendo, estava chuviscando do lado de fora da casa, daria pra sentir o cheiro da chuva se não fosse pelo fedor de pizza mofada, vômito, e o cheiro insuportável do ser vivo que estava desmaiado no sofá da sala de estar.

um soar metálico e irritante quebrou aquele clima de ressaca e melancolia que pairava sobre a sala, e sobre isso surgiu uma alma atordoada que acabara de acordar, e só conseguiu dizer:

— PUTA QUE PARIU, ALGUÉM ATENDE ESSE TELEFONE!

depois disso todos os projetos de seres humanos acordaram num pulo extremamente rápido e assustado, como se um policial tivesse aberto a porta da frente e entrado pra tomar um café, mas nenhum deles se levantou para atender o telefone que tocava em cima de uma pequena mesa ao lado de um pequeno kit para injetar heroína do lado do sofá.

até que uma garota apareceu, ela estava somente com uma calcinha vermelha de renda e uma blusa larga dos Rolling Stones que ela havia pegado emprestado de um cara que ela não lembrava mais o nome, apesar de ter transado com ele a noite toda; ela tinha os cabelos abaixo dos ombros, com tons ruivos e loiros, e grandes olhos castanhos hipnotizantes e penetrantes, junto com uma tatuagem no braço, uma frase que tinha um significado infinitamente maior pra ela do que pra qualquer um que a lesse.

ela foi andando meio cabisbaixa e coçando a parte de trás da cabeça com a mão esquerda até a sala, olhou por alguns instantes para achar o telefone, e o achou, ela pegou e o atendeu:

— alô? — tossiu um pouco e depois ficou em silêncio ouvindo, falou ''sim'' algumas vezes, tapou o telefone e disse meio que sussurrando:

— aí, imbecil, tem um cara querendo falar contigo.. acho que ele é médico ou alguma parada assim, atende isso ai que eu tenho que expulsar esse monte de viciado daqui e fazer o café — o rapaz que estava deitado no sofá era o mesmo que tinha acordado todos na casa, e também era o mesmo que tinha que atender a ligação, a garota o chutou repetidas vezes até que ele acordasse, o rapaz se sentou, procurou suas roupas pelo sofá, só teve a capacidade suficiente para achar a sua camisa com o logo do Nirvana, que era da sua banda favorita; vestiu a camisa e tomou o telefone da garota em pé ao seu lado, enquanto fazia isso, dizia:

— me faz um favor melissa, vai te à merda, cê sabe que dá má sorte acordar alguém que tá dormindo.. alô? quem é? — após isso se seguiu um telefone de 15 minutos, enquanto isso; Melissa chutou pra fora da casa todos os adolescentes de ressaca, ou seja, todos menos ela e seu melhor amigo que estava no telefone, após conseguir tirar quase todos da casa, o cara com quem tinha dormido mas não lembrava-se o nome apareceu, e pediu sua blusa de volta; ela tirou e o deu a blusa sem dizer nada, e ficou somente com a roupa de baixo pela casa, e havia perdido seu sutiã.

passaram-se 10 minutos até que ela conseguisse tirar todos da casa, mas conseguiu, e foi andando até a cozinha para fazer algo pros 2 comerem no café da manhã; ela fez 4 torradas com manteiga, 2 ovos e 2 sanduíches de presunto e queijo, ela deu um sorriso e disse alegremente:

— sabe o que dizem que cura a ressaca?

— um boquete? — ele respondeu sorrindo

— quase, espertinho, mas não, é um ótimo café da manhã que cura a ressaca! e sei lá que caralhos você fumou/cheirou/injetou/enfiou no seu rabo; só sei que depois de ontem cê precisa MUITO de comida, então vem aqui comer, pedro — Pedro se levantou, havia desligado o telefone fazia 5 minutos, foi andando e acidentalmente tropeçou num trapo que por acaso era sua calça jeans, a vestiu e sentou na mesinha da cozinha.

os 2 comeram em silêncio, as vezes se olhando e sorrindo sem motivo aparente, até que Melissa quebrou o silêncio perguntando:

— o que o médico disse?

— nada demais, vou no consultório semana que vem pra revolver isso

— hm, okay

Melissa foi se vestir enquanto Pedro sentou-se na sala e colocou um filme na televisão, ele não prestou muita atenção, o telefonema que ele recebera não saia da cabeça, estava assustado com algo que o doutor havia dito, ele tinha mencionado algo sob... — o pensamento de Pedro havia sido cortado por um grito estridente vindo do quarto, Melissa havia se assustado com algo; havia se assustado muito. Pedro pôs se a correr o mais rápido possível até o cômodo onde estava sua amiga, ele não a viu e entrou no banheiro na esperança de acha-la... ela estava lá, branca como a cerâmica do banheiro, Pedro olhou para o box e recuou, achou que iria vomitar... além do cheiro de pizza mofada, vômito e seu cheiro próprio, ainda acrescentou-se o aroma de sangue no ar; a garganta dele estava cortada, não seria absurdo achar que mais da metade do seu sangue havia escorrido até o ralo, seus olhos estavam brancos, sem brilho, como se nunca tivesse havido vida naquela carcaça morta que um dia já fora o mascote da garota ruiva que estava chorando no banheiro.

Pedro teve que conter o próprio medo para conseguir tirar Melissa do banheiro, ele fechou a porta e os dois foram para a sala, se sentaram no sofá e se abracaram; choraram um no ombro do outro; nada mais existia, nem a ressaca, nem a zona que estava aquela casa, nem ninguém, só existia a morte, apesar de ser um gato, aquele gato valia mais para eles do que muitas pessoas. os dois estavam na presença da morte, a vida tinha se esvaído de um ser vivo, eles tinham que demonstrar respeito e serenidade, em presença da morte.

Melissa, enxugou as lágrimas, o que não iria adiantar muito, pois ela continuava a chorar, então ela tentou juntar as palavras que buscava; respirou por um segundo e disse:

— QUE PORRA ACONTECEU ONTEM?