por nós, quer-nos, oprime-nos
7 VII: por nós, oprime-nos.
Notas iniciais
p o r n ó s, q u e r n o s, o p r i m e n o s — VII
O mundo de Emídio gira num ângulo de 360º e, de uma vez por todas, cai.
“Mas são a mesma coisa!” Ele se afasta de Calisto, o apontando a acusação. Cai na areia, atordoado, se molhando ainda mais com a água.
“Acredite no que quiser, mas não o são.” Calisto se levanta, o observando com um tão característico olhar reprovador. “Porque as bruxas as quais Hemitério, assim como todos os outros, acredita existir, não existem.”
Pela primeira vez em sua vida, Emídio não acredita que uma profanação tão crua viesse logo da pessoa com quem passou a vida inteira ao seu lado. Uma profunda perplexidade — complexa, em partes — o atinge; é como estar sem as muletas de fé que o apoiam diariamente a continuar andando.
“Eu... sabia.” Calisto murmura, com um sorriso amargo. “Sabia que você não entenderia, Emídio. Seu silêncio é a prova disso.”
Diante do argumento dele, Emídio se vê indefeso. Não há voz, nem palavras, que expressem a batalha entre acreditar em Calisto ou acreditar na igreja — portanto, em Deus — dentro do mais profundo do seu ser.
“E pensar que você realmente é igual aos outros...” Calisto cospe. “Eu não deveria ficar tão desapontado com isso, imagino. Mas, sabe...”
Eu gostaria de estar errado, as palavras saem num murmuro surdo. É naquele momento que Emídio tem a impressão de que, além da água da chuva, um rastro de lágrimas também começa a manchar a pele de Calisto.
Ele estica o braço em direção ao amigo — em vão, pois, enquanto permanece imóvel, o outro some do seu campo de visão, o deixando para sempre.
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Anotações de alguns trechos da Bíblia repousam sobre uma escrivaninha próxima da cama. Emídio lançou a elas um olhar desgostoso, para, então, se enfiar por debaixo das cobertas em busca de ir dormir. O dia já está quase amanhecendo no horizonte de Coimbra, contudo, ainda lhe vale o esforço de tentar descansar um pouco.
Logo, percebe que não consegue; a cabeça dói muito; dores sobre o universo e o mundo, e sobre a pessoa que reside no centro deles: Calisto. Como chega a essa conclusão? É outra das coisas que Emídio procura refutar dentro de si.
Quando se dá conta, já chega hora de ir à igreja. Como não poderia faltar daquela vez, se apressa em sair de casa o quanto antes, se limitando a comer pobremente o que pouco tem.
Na praça da cidade, Emídio observa, há grande tumulto. É com má vontade que põe seu corpo a ir até lá averiguar o que quer que estivesse acontecendo naquele episódio.
E, ao pôr os olhos no olho do furacão, as cores vivas das chamas passam a se alastrar em seu campo de visão pouco cromático; assim como um rosto conhecido que aos poucos se torna menos.
Achara-o; pegara-o; julgara-o; seu Deus. Ou melhor, a convenção humana.
O averno que Emídio agora observa que o cerca — que Calisto procurou fazê-lo enxergar que sempre o cercou — se inunda no cheiro doentio da carne queimada; nos gritos de felicitações dos demônios a sua volta; no sorriso que o mundo nunca irá trazer de volta.
Por ter atirado a primeira pedra, Emídio paga o preço.
E em meias-certezas sobre sua fé, seu amor agora queima.
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