poema para contar de dedo
1 Poema para Contar de dedo
Notas iniciais
Os meninos todos de olhos abertos
apurando a escuridão de dentro de seus quartos
todos prestes a desembestar —
servirá a vida para descobrir o amor?
Mais tarde, o sexo
também a vaidade e o ciúme.
E no meio de tudo, descobrir a si mesmo
e sempre na manhã seguinte
acordar em torno da cama desfeita.
Seria melhor ter feito
como fez Rimbaud?
Poeta aos 15, traficante aos vinte e dois
& morrer no meio do deserto.
Não ter nada. Esquecer-se
— será a vida esse amontoado de retratos, de retalhos
papéis de carta, fundos de gaveta
na prisão eterna da memória?
Será a vida essa pequena história
que contamos infinitamente a nós mesmos?
Quem sabe um pequeno apartamento
encolhido nas avenidas de Paris
e, chegando em casa,
após descalçar os sapatos,
acender uma a uma as velas na sala.
Roma em chamas! e os deuses, enquanto isso, tocam harpa.
Um táxi cruza Nova Iorque sob a bruta chuva de setembro.
Aleppo em chamas! e os deuses parecem
não poder fazer nada.
— será a vida esse dever solitário,
de pesos fortes sobre homens tísicos
de acordar todas as manhãs
e calçar o par de botas sujas
para pular sobre as poças d'água límpidas?
E se talvez enlouquecer resolvesse
fugir com um bando de ciganos
dar um tiro na própria cabeça antes dos 30
ou morrer de tuberculose antes de dobrar a esquina
— será a vida essa angústia persistente
essa chaga mal curada
saber que água quente não mata a sede
e tampouco o faz a cachaça.
Nem só os poetas pensam em suicidar-se.
E uma vez mais, sentado na cama,
Álvares risca nas paredes de sua longínqua caverna
o nome de outro amigo morto.
Também os meninos envelhecem
suas pálpebras vagarosamente tombam
e nelas pesam o sono etéreo.
Das mil e uma noites não dormidas
das mil e uma mulheres não amadas
das mil e uma musas não correspondidas
que não responderam seus bilhetes
que não atenderam suas ligações
que saíram levando os sapatos nas mãos.
Envelhece-se, fica besta.
É como um menino, mais triste e mais fraco,
tentando desesperadamente acender o cigarro
enquanto o vento geme em seu ouvido.
E os deuses tocam harpa e espantam os mosquitos
que tomaram conta das ruínas de seus templos de mármore.
É como um menino, mas seus olhos úmidos
já não veem nada dentro da escuridão
— será a vida o andar do desiludido?
a moça que se senta de lado no balcão do bar
e se chama mágoa.
Será prostrar-se nessa varanda?
Perceber a vista no entardecer esmaecido
o retrato do dia abatido na poeira fina
e vem um cão velho acomodar-se
sobre o par de chinelos aos seus pés.
Enquanto os deuses embebedam e sonham
com o destino triste dos homens.
Vencer é o de menos.
Toda manhã, eu me lembro.
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