os sentidos do amor
35 Capítulo 35 – Santana e Quinn
Notas iniciais
No banheiro as duas ainda estavam dando risada da história.
— Ainda não acredito que tirei os ingressos, dinheiro e celular de dentro da privada. — Quinn fala abrindo os botões da calça e indo para o reservado do banheiro antes que faça ali mesmo, nas calças.
— Eu queria ter visto essa cena. — a morena fala indo em direção a pia lavar as mãos, evitando se olhar no espelho pra não ter outra crise de riso.
— E o tempo que fiquei secando tudo, segurando embaixo daquele vento que ao em vez de secar as mãos só faz ressecar. — diz apontando para o aparelho na parede do banheiro. — Pior foi a cara de “não sei de nada” que fiz quando o bilheteiro me olhou inquisidor pegando os ingressos que eu entregava. — antes mesmo de terminar de dizer Santana já tinha soltado uma gargalhada.
— Conviver com a Rach e pra isso mesmo. Ela sempre nos faz pagar micos assim, é excessivamente intensa e nos obriga a vexames como esses, mas to vendo que você se encaixa certinho com esse lado dela. — falava debochada.
— Palhaça, mas você tem razão, viver com ela é uma aventura, não tem como ficar monótono.
— Quando éramos crianças ela sempre me colocava em alguma fria e depois o problema era eu conseguir me livrar da bronca ao explicar o que aconteceu para meus pais... meus pais... — repete baixinho, mais pra ela mesma.
Quinn que até então estava se olhando no espelho, olhou pra morena no momento que esta ficou calada e percebeu que uma tristeza repentina havia tomado seu coração.
— O que foi San? Algum problema? — pergunta preocupada, chegando mais perto e colocando a mão esquerda nas costas de Santana, num gesto de “to aqui, sabe que pode se abrir, confiar”.
— Não vejo meus pais há cinco anos. — Quinn a olhava em silêncio esperando que ela continuasse. — Saí de casa quando completei 18 anos e não voltei mais. Rachel no começo ainda tentava me convencer a voltar pra uma visita, ou nas festas de aniversário, mas eu sempre dava uma desculpa qualquer e... ah, eu nunca voltei, nunca mais os vi. Com o tempo ela parou de tentar, e depois parou até de me trazer notícias já que eu nunca mostrava interesse.
— Sente a falta deles?
— Eu não sei. Passei anos sob o mesmo teto, mas era como se eu já não estivesse lá. Nunca participava de nada, sempre estudando, ensaiando para alguma peça... só voltava pra casa pra dormir, isso já bem tarde e no dia seguinte saía cedinho, então quase não os via. Éramos como estranhos.
— Acho que problema com os pais todos tem, mas...
— Nunca tive problema com eles.
— Então por que se distanciou tanto assim? Rachel me disse que acha que aconteceu alguma coisa entre você e sua mãe, pois se lembra, vagamente de uma cena quando eram crianças, de você chegar até ela chorando e dizer que haviam brigado e que depois disso foi ficando diferente. — a loira ia falando prestando atenção nas feições da morena, estava com receio de ela explodir e acabar sendo grossa.
Por mais que Santana estivesse mais solta ultimamente, ainda dava certo medo falar com ela, ficavam esperando a todo instante a bomba latina explodir.
— Eu me sinto tão perdida, tão sozinha desde que saí de casa. Agora tenho a Brittany, tenho você, Rachel sempre esteve comigo, mesmo quando eu não queria, quando a negava, a afastava, mas pensar em meus pais agora... — uma lágrima escorre pela face morena e a loira pensa se deve pressionar ou se deve deixá-la ter o tempo dela e ir falando aos poucos.
— Eu to aqui. — diz carinhosa, o que dá ainda mais confiança em Santana.
— Não tem como eu pensar em meus pais e não me lembrar de momentos ruins, não que eles sejam os culpados, mas é algo que tem uma certa ligação. Há muito tempo eu não me permitia sequer pensar em minha mãe, meu pai, pois tudo vem como uma bomba e eu desabo, então não quero falar, desculpe, mas não dá.
A morena recostou a testa no ombro da loira e esta a puxou mais perto para um abraço apertado.
— Não precisa me dizer o que aconteceu se não quiser, mas para uma pessoa você vai precisar, vai ter de se abrir querendo ou não... para a Britt, ela pode parecer sensível demais algumas vezes, mas tem uma força dentro dela capaz de nos salvar de situações que pensamos não ter saída.
— Ela já me salvou... — diz se afastando do abraço. — Salvou minha vida no momento que eu a conheci, ela me tirou da escuridão e me trouxe de volta pra um lugar onde sei que posso ser feliz. Ela e eu conversamos essa noite, na verdade foi a única coisa que fizemos se é que quer saber. — diz meio envergonhada, mas trazendo nos olhos um pedido silencioso.
— O que foi? Pode falar, acho que já te conheço um pouquinho.
— Odeio que me conheçam assim, sabia? — a loira arregalou os olhos assustada.
— Desculpa, eu só queria...
— Tudo bem, não me importo quando é você, mas nunca gostei de ficar exposta dessa forma.
— Ninguém gosta, né? Mas me fala o que está te incomodando agora.
— Eu quero sua ajuda numa coisa, mas tenho vergonha, não sei como falar sobre isso, mas também não quero ser pega de surpresa e acabar fazendo com que a Britt se sinta desconfortável por eu estar perdida, por não ter... não saber como... sabe? Eu nunca fui próxima de uma pessoa e agora ela chegou e me roubou o coração e eu estou desde hoje cedo pensando em como... como... certas coisas que acontecem, podem nos levar a ações e eu fico com medo disso, então queria que me mostrasse, não mostrar mesmo, mas que me explicasse como posso fazer pra...
— Deus... anos de convivência com os monólogos da Rachel e nem assim eu me acostumo quando alguém começa falar sem parar, mas acho que ficar ouvindo ela falando, falando, falando... eternamente, sem parar nem pra respirar me fez aprender a decifrar momentos como esse. — Santana acabou rindo da situação, pois percebeu que estava “num momento Rachel Berry” .
— Desculpa, eu me perdi aqui, to meio nervosa.
— Isso eu percebi, mas vamos ver se entendi essa mistura de coisas que você disse ou tentou dizer... — fez uma pausa, pensando e continuou: — Você está falando sobre sexo, é isso? “diz que não, diz que não! Como vou explicar sobre como levar minha prima pra cama?” — a loira pensou agoniada, mas já certa que era o assunto que constrangia a morena.
— Eu nunca... — respirou fundo pra tomar coragem. — Eu sou virgem, Quinn. Meu primeiro beijo foi com a Brittany. Sei que uma hora ou outra isso vai acabar acontecendo e não sei como fazer, não quero acabar decepcionando ela, ou machucando, ou frustrando, ou fazendo-a pensar que não tenho preocupação com os sentimentos dela...
— Você está começando falar sem parar de novo. Respira e vamos pensar juntas. “Como eu saio dessa?” — a loira pensava cada vez mais agoniada.
— Estou te alugando como mãe. — sorri envergonhada baixando a cabeça.
— Ok... “isso Quinn, você um dia terá essa conversa com os filhos que terá com Rach, então aproveite agora, é bom pra treinar”. Vamos lá então... quando a gente ama alguém, queremos ser o melhor, queremos dar pra essa pessoa o melhor da gente, e tudo que pensamos ou fazemos é com esse fim, tentar sem perfeito aos olhos do outro.
— Sim, vou fazer isso. — diz atenta prestando atenção em tudo que a loira dizia, parecia uma criança aprendendo uma lição.
— Não, não vai e espera que vou explicar por que...
— Mas eu pensei que mudar seria bom.
— Mudar é bom, é ótimo, mas apenas quando fazemos isso por nós mesmo. Não podemos ser aquilo que não somos só pra agradar outra pessoa... por mais que nosso mundo dependa dessa pessoa não é justo com a gente, entende?
— Entendo, mas o que isso tem a ver com sexo?
— Tem tudo a ver. Vamos lá... você, por exemplo, desde que nos conhecemos, vamos concordar que é outra pessoa, certo?
— Sim, eu me abri, aprendi a controlar um pouquinho meu gênio, vi que já estava na hora de me soltar um pouco, falar sobre... na verdade não foi uma decisão minha, apenas foi acontecendo, fui me entregando aos poucos ao que sentia, e isso tudo eu devo a Britt, ela me faz querer ser melhor, mas o melhor disso é que eu me sinto bem com essa mudança, me sinto mais leve, entende?
— Sim, entendo, e você entende que acabou de dizer justamente a mesma coisa que eu? — pergunta levantando a sobrancelha e a morena se liga que realmente a mudança nela aconteceu por ela, e não por uma imposição de outra pessoa.
— Tá, mas eu ainda não entendi o que isso tem a ver.
— Do mesmo jeito que aí dentro de você algo começou a te fazer querer mudar, essa mesma vontade de ser melhor pra ela e principalmente pra você mesma, vai te fazer querer aprender junto com a Brittany todas as coisas que só com ela você vai viver.
— Ainda não entendi muito bem. — fala visivelmente confusa.
— O que eu to querendo dizer San, é que não há regras pra se entregar a uma pessoa, não é uma coreografia, uma dança pré-ensaiada, é você e aquela pessoa num momento único entre vocês, e tudo que vem através dos carinhos, elogios, cuidados, preocupação... é uma consequência daquilo que o amor dará a vocês, e só com amor vocês vão aprender a dar tudo que a outra quer e receber tudo que quer também, vocês vão aprender juntas e ensinar juntas, descobrindo aos pouco o jeito de vocês, de se provocarem, se excitarem e tudo que vem com isso.
A morena ficou com as duas mãos apoiadas à pia sem saber o que dizer. Tentava processar todas as palavras ditas pela loira, estava entendendo que por mais vergonha e medo que sentisse, somente conversando com Brittany é que elas se entenderiam na intimidade do amor.
— Parece um bicho de sete cabeças, mas verás que não. Quando estiverem sozinhas, namorando e os beijos começarem se tornar mais quentes vocês vão instintivamente saber o que fazer e se posso te contar um segredo... — olha para os lados se certificando de não ter mais ninguém ouvindo. — Falar o que sente quando é tocada em certos lugares só faz com que a outra pessoa aprenda mais rápido a te agradar. Rachel e eu usamos muito o vocabulário nessa hora... é bom demais.
— Ai merda... eu não vou conseguir esquecer essa última parte. — diz passando as mãos na cabeça, tentando tirar com elas essas últimas palavras de sua mente.
— Ok... (riso), mas agora vamos ou daqui a pouco elas virão nos procurar pensando que fomos encanamento abaixo.
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