os sentidos do amor
31 Capítulo 31 – doloroso e necessário
Notas iniciais
Brittany continuava ninando a morena em seus braços, segurando-a apertado contra seu peito, esperando... era o momento de mostrar que estava ali com ela, não apenas fisicamente, estava entregue de alma, e tentava demonstrar com o calor do seu abraço todo seu amor.
Santana estava completamente entregue, frágil, sem medo da bailarina, sem medo de se expor para ela, era como se estivesse renascendo naquele momento, sentia todo o carinho que Brittany lhe transmitia, sentia-se leve com ela, completa, e mesmo no choro sentido sentia-se limpa como não acontecia há muitos anos.
Era o momento de se abrir à nova vida que estava despontando diante de seus olhos... Foi aos poucos abafando o choro, respirando profundamente, inalando o perfume da loira, voltando ao ponto em que era possível pensar, ser a dona de seus atos.
Ainda abraçadas perto da porta, Brittany pode sentir a tranquilidade de Santana se formando e se não estivessem em pé diria que ela estava dormindo.
A morena se moveu lentamente nos braços de sua amada afastando-se apenas o suficiente para olhá-la nos olhos. Ternamente a loira secou suas lágrimas, não desviando em momento algum o olhar dos olhos negros que demonstravam gratidão. Santana selou os lábios nos da loira por uns segundos num beijo casto, se afastou puxando-a consigo, segurando suas mãos e a guiou ao sofá.
Brittany ainda estava perdida, e a morena percebia isso em seu olhar, em sua carinha de preocupada.
— Britt... senta aqui precisamos conversar. — a morena falou se ajoelhando em sua frente, com a mão sobre o tórax, massageando, como se tentasse alcançar uma dor profunda. A bailarina fez o que ela pedia sem conseguir dizer nada, apenas mantinha o olhar doce em Santana. — Brittany... algumas coisas acontecem pra nos derrubar, é só o que dá pra entender, e mesmo assim, ficar pensando, tentando entender só piora, e não pensar, nos torna loucos... loucos, pois ao decidirmos não pensar, é meio como ser conivente, como se o que passou não fosse grave já que simplesmente resolvemos deixar aquilo quieto num pedaço de nossa memória, entende? Mas não importa, pensando ou não dói de um jeito inexplicável, me sinto como se estivesse morrendo um pouquinho por dia, e alguém vem e me reaviva só pra que no dia seguinte eu volte a morrer, é uma dor que não tem fim. — a morena soltava as palavras simplesmente, sem saber se faziam ou não sentido, estava com a voz embargada, tentando conter o choro e os soluços pra poder se abrir pela primeira vez.
— San eu não estou entendendo, do que está falando... eu fiz alguma coisa amor? — pergunta preocupada e totalmente confusa, sem se dar conta da forma como acabou de chamar a mulher a sua frente.
— Amor? — Santana se surpreende, olhando a loira nos olhos, mas volta ao pranto logo em seguida.
— San, me perdoa, eu não queria... eu não... você é meu... eu amo você e você é meu amor. — ela está confusa, gaguejando, não sabe como agir, acabaram de se beijar e a morena tem uma reação dessas. — Fala comigo, por favor, me explica o que está acontecendo.
— Eu tenho medo Britt, medo do que pode pensar de mim... pensei que quando me apaixonei por você, iria conseguir esquecer tudo que passei, mas não consigo.
— Santana olha pra mim. — pede firme. — Estou aqui contigo, e pode me dizer qualquer coisa, nada vai mudar o que acabou de acontecer entre a gente. Eu amo você Santana.
— Sei que me ama e que nunca faria nada pra me machucar, mas há coisas que me atormentam, que não consigo superar, e tenho medo que saia correndo daqui.
A morena estava num momento onde sentia que necessitava se abrir, primeiro pra explicar sua reação durante o beijo que ela tanto esperava e sabia que a loira também e segundo para começar uma relação de verdade com a loira, mas isso a fazia pensar em coisas que doíam demais, fazendo do choro inevitável, aquele que vem e vai sem que se possa controlar, precisando assim parar várias vezes de falar para se acalmar.
Brittany não sabia o que dizer, a olhava, abraçava, beijava o topo de sua cabeça, segurava forte em suas mãos... conseguia apenas lhe transmitir seu amor com o toque, com carinhos, mostrando-lhe que poderia confiar, que estaria com ela daquele momento em diante.
— San, não há nada que você me conte que me fará te amar menos, o que sinto por você é mais forte que eu... mas me diz, o que aconteceu pra te deixar assim agora? — dizia carinhosamente, com lágrimas nos olhos, se sentindo triste por ver seu amor tão frágil à sua frente, tão machucado.
Após mais um tempo em silêncio, apenas chorando, pensando na melhor maneira de falar, sabendo que esta não existia, Santana se abre:
— Eu fui... quando criança... abusada sexualmente. — solta as palavras sentindo o amargo da lembrança lhe vir na boca como se tivesse um sabor real.
Brittany que continuava olhando pra morena com o mesmo amor, sentiu os olhos arderem e as lágrimas rolarem, sabia que a morena precisava de tempo, ir com calma, então deixou que ela falasse sem interromper, sem perguntar nada, sem forçar sobre suas pausas pra chorar. Na verdade ela não sabia o que dizer, estava chocada... chocada, mas ali com ela, e era somente do que Santana precisava no momento, da presença dela.
— Imagina a pessoa mais simpática, aquela que se dá bem com todos, que todos gostam, cheio de amigos... aquele... monstro era assim... meu tio... irmão do meu pai.
— Deus. — a loira solta num sussurro.
— Eu tinha oito anos e... já naquela época eu me perguntava quem acreditaria em mim? (choro) Pra todos da família ele era um santo, e se acreditassem, meu pai certamente o mataria... como eu poderia ser a responsável por meu pai estragar sua vida?! Na verdade a família toda seria destruída... — as duas sentiam as lagrimas escorrerem quente pela face. — Não sei se era isso que eu pensava, mas é o mais perto que consigo me lembrar da forma como me sentia. Eu imaginava meu pai sendo levado pela polícia... via isso nas novelas que minha mãe assistia, e pensava que ela passaria a vida toda dela indo pra prisão levar bolo embrulhado num pano de prato... — a morena se entrega ao pranto novamente, soluçando alto, por lembrar não somente da violência que sofreu, mas por pensar em tudo que poderia ter acontecido se ela tivesse contado pra alguém.
— Amor... eu... eu nem sei o que dizer... é muito sofrimento pra alguém passar, ainda mais uma criança.
— É bem difícil eu explicar como me sinto, como me sentia. Sei que é errado o que ele fez, mas na época pensava que eu estava fazendo alguma coisa errada e que isso era um tipo de punição, no fundo eu sentia raiva de mim e não dele, raiva por não entender o porquê daquilo. E quando ele passava por mim e nem me olhava, me sentia ainda pior, como se de algum modo ele estivesse me castigando, desistido de me ensinar a lição que além de não entender por que era tão nojenta, saber qual era, não sabia por quê merecia aprender.
— Eu sinto muito amor. — a loira dizia em meio às lágrimas que insistiam em cair sem sua permissão.
— O tempo foi passando e eu sempre com medo de acabar sendo acusada, me sentia culpada pela situação, não sei por quê, mas... na minha cabeça todos me achariam culpada também, me virariam as costas, então fui me fechando, me tornando mal humorada, e me afastei de todos na família... foi sem querer, eu não queria, mas sentia vergonha de estar perto das pessoas, era como se elas pudessem escutar o que eu pensava e vissem a sujeira em mim... não sei explicar direito... (mais alguns minutos de pranto) a única que permaneceu ao meu lado foi a Rachel.
— Ela sabe? — pergunta não conseguindo esconder a dor na voz.
— Não, nunca contei pra ninguém. Ela, chata como sempre foi, ficava no meu pé, não me deixando mantê-la afastada de mim.
Mais uma vez a morena se entrega ao pranto e Brittany sabe que precisa ser forte pra dar apoio ao seu amor, mas não consegue se conter e chora junto, com a morena joelhada em sua frente, abraçando-a forte.
— Eu agradeço com todas as forças do meu corpo por Rachel ser essa pessoa insistente, insuportavelmente adorável... se não fosse ela em minha vida, não sei a merda que eu poderia ter feito, talvez nem estivesse aqui agora.
— Não fala isso, por favor... não saberia viver num mundo onde você não existe.
— Eu... eu não sei... é uma dor que não tem fim. — mais lágrimas eram derramadas a cada frase. Era um momento dolorido demais, mas pela primeira vez na vida a morena não sentia nojo dela mesma.
— Desculpa por... não sei o que dizer eu só sei que amo você Santana... e mesmo que seja estranho isso, mas... agradeço por confiar em mim.
— Fiquei com medo de você sentir o mesmo nojo que sinto de mim às vezes. — diz soluçando, envergonhada, mas certa que a loira não a deixaria e desejando que após ter se aberto deixe de se sentir tão mal... se sentir mal é pouco pra explicar como se sente. — Eu... me desculpe, mas... perdi o controle e lembrei disso enquanto nos beijávamos... é difícil pra mim me entregar pra alguém... eu só não quero que...
— Você San, é a pessoa mais linda desse mundo, a mais sincera, de um coração puro, e meu amor por você é maior que eu, reafirmo isso, quero que acredite em mim... e eu entendo perfeitamente o que sentiu, me desculpe se fui...
— Você foi perfeita Britt... apenas me pegou... não sei... mas obrigada... essa é uma situação que nunca pensei que passaria. Me abrir, me expor, é dolorido demais... é vergonhoso, mas é como se eu tivesse tirado uma tonelada das minhas costas. — consegue dizer uns minutos depois, já um pouco mais calma.
— San, você é a mulher da minha vida, qualquer coisa que diga ou faça, só me fará te amar ainda mais. Obrigada por dividir esse pesadelo comigo, por confiar em mim, e isso me faz ter ainda mais carinho por você.
A loira abraça Santana ainda mais apertado e ficam na sala, no silêncio da madrugada, entregues, por vários minutos, sem mais palavra alguma ser dita, até que a morena quebra o silêncio:
— Posso te pedir uma coisa?
— O que você quiser minha pequena. — a bailarina responde com carinho, pensando no quanto a morena é linda, lhe pedindo permissão.
— Quero tomar um banho bem demorado e deixar que o resto dessa história de terror vá pelo ralo, mas... — para por um instante, envergonhada.
— Fala amor, não tenha medo de mim.
—Quero que... eu queria... poderia me dar banho, não quero ficar sozinha — diz baixinho, olhando o chão.
Brittany não poderia se sentir mais amada. Ouvir o pedido de sua morena, após toda exposição de Santana, todo constrangimento, era mais uma prova de que Santana confiava nela.
Levantam, se abraçam forte, Santana enlaça as penas na cintura da loira, e Brittany a leva no colo em direção ao banheiro.
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