Lazuli saiu da nave com pressa.

— Lazuli! – chamei, indo atrás dela. Quando a alcancei, segurei sua mão – O que foi?

— Volte a sua missão. – ela murmura e se solta, voltando a caminhar.

— O que? Espera! – a alcanço de novo, e dessa vez só ando ao seu lado – O que eu fiz? Eu fiz algo de errado?

— Por que se importa? – ela para e me olha nos olhos. Sinto algo diferente ao encará-la.

— E-Eu não sei. – gaguejo. Eu realmente não faço ideia do porquê que de repente me importo com o que ela pensa de mim.

— Então vá embora. – ela me dá as costas e abre as asas – E não volte. – ordena, voando para longe.

Sinto algo estranho de repente, como se uma parte dentro de mim pesasse mais do que devesse. Algo como tristeza.

✧✧✧

“Peridot, faceta 2F5L corte 5XG. Planeta Natal.

Estou de volta a minha rotina.

E acho isso um tédio.

Digo, eu ainda faço viagens interplanetárias pelas galáxias próximas do Planeta Natal. Acredito que conheci mais da metade dos planetas daqui agora. Diamante Amarelo me elogia sempre. É uma grande conquista, de fato. Mas não consigo ficar tão feliz com isso.

Fico revendo meus diários de bordo. É legal. Como se eu pudesse voltar ao planeta sem que precisasse estar lá fisicamente.

Preciso ir. Novo planeta para descobrir. Até logo.”

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“Peridot, faceta... Ah, qual é. Eu preciso repetir isso sempre? É o meu próprio diário pessoal, afinal.

Enfim. O que estou tentando dizer é que eu estava revendo meus diários de bordo e encontrei o arquivo do 22-b.

E quer saber de uma coisa? Estou indo para lá agora mesmo. Deseje-me sorte, mais uma vez.”

✧✧✧

O planeta está da mesma forma que me lembro. Digo, já se passou três meses, quem sabe Lazuli tivesse o mudado de forma que pudesse ser visto do espaço nesse período?

Adentro a atmosfera relutante. Não quero ser acertada por um punho de água de novo. Aparentemente, ela não parece me notar. Ou está fingindo que não para que possa acabar comigo de perto.

Pouso no solo e saio da nave, olhando ao redor antes que eu saia por completo. Olho ao redor em busca dela, mas sem sucesso. Só consigo ouvir um leve som de água corrente. Analiso se devo chamá-la, afinal, não era nem para eu estar aqui.

— Me dê uma boa resposta para não acabar com você agora. – ouço uma voz atrás de mim e me viro.

— Você não ousaria. – sorrio. Ela sorri também e me estende a mão.

— Quero te levar a um lugar.

— Achei que não quisesse mais me levar quando soube que eu também posso voar.

— Bem, se você diz... – ela começa a recolher a mão.

— Não! Tá bem. Desculpa. – seguro sua mão e ela reabre o sorriso.

Ela me leva no ar até sua construção, bem mais estruturada que antes. Agora, está com o triplo do tamanho, com dois níveis e várias janelas pelas paredes. O telhado é estranhamente no formato de um prisma triangular.

— O que achou? — Lapis pergunta. Dá pra ver o orgulho que ela sente dela mesma nos olhos dela.

— Está incrível. Sério. Só não entendi a parte do telhado. O que era para ser ali?

— Ah. Queria fazer algo diferente – ela dá de ombros – Consegui construir um mini terceiro andar ali, mas não faço a mínima ideia de como decorá-lo. Na verdade, não faço a mínima ideia de como decorar a construção inteira. Não tive a oportunidade de conhecer o palácio das Diamantes ao contrário de outras gems – ela olha para mim.

— Entendi... – eu estreito os olhos com um sorriso – Então você só não acabou comigo quando me viu porque precisava que eu decorasse sua nova fortaleza?

— É, tipo isso – ela mantém um sorriso duvidoso.

— Quer que eu instale um sistema de reconhecimento de voz também?

— O que você quiser. – Ela analisa a construção por uns segundos e suspira – Ok, estou brincando.

— Eu já sabia.

— Sabia? – ela me olhou, surpresa – Mas eu treinei essas frases por semanas!

— Treinou, é? – cruzo os braços e arqueio uma sobrancelha. Ela cora e desvia o olhar — Parece que alguém sentiu minha falta – comento, provocativa.

— E você sentiu a minha, não é? Não teria vindo se não sentisse. — ela rebateu e deu um sorrisinho.

Sinto meu rosto esquentar.

— Me desculpe. Quero dizer, não só por isso, por ter mandado você embora da última vez.

— Então você não queria que eu fosse?

— Não – ela diz sem pestanejar – Mas sabia que em algum momento você teria que voltar.

— Bem, não preciso mais agora – conto e ela me olha com preocupação.

— Como assim?

— É... Não importa – resmungo.

Ela veio até mim e segurou meus ombros – Peridot, o que quer dizer com “não precisa mais agora”?

— É só que... Eu saí sem avisar ninguém, nem mesmo menti para onde estava indo porque não tenho intenção de voltar – ela manteve a mesma expressão assustada – Mas relaxa! Eu desativei os rastreadores, não tem como ninguém nos achar aqui.

— Então está dizendo que há a probabilidade de estarem procurando por você?

— É... Não? – queria não ter falado num tom interrogativo.

Lapis se vira e começa a resmungar. Antes que eu pudesse perguntar o que ela estava resmungando, ela torna a olhar pra mim.

— Quanto tempo você estima que vão levar até aqui?

— Duas horas, talvez mais – não era o que eu queria responder – Mas ei, os rastreadores da nave estão desativados...

— Isso não importa! – interrompe – A sua Diamante é a Diamante Amarelo, você é a queridinha dela. Quando ver que você sumiu vai vir atrás de você.

— Por que se preocupa tanto com isso? Não é como você fosse uma traidora da autoridade Diamante ou algo assim.

— A partir do momento que deixei de terraformar e andar com outras gems, eu me tornei uma traidora da autoridade Diamante. De Azul, principalmente. Você sabe como ela é. Viu o que ela fez com uma das Safiras dela?

— Bem, ela fugiu com uma Rubi antes que conseguissem fazer algo com ela – De repente, uma ideia me vem à mente – Espera. Vamos fugir.

— O quê? – ela olhou para mim como se eu tivesse dito “então vamos nos render!” – Eu não vou sair daqui.

— Por que não? Há milhares de planetas como este pelo espaço todo.

— Você não entende.

— Então prefere se render? Achei que Lapis Lazulis fossem desapegadas.

— E eu que Peridots fossem ignorantes – ela me lança um olhar intimidador e eu desvio o olhar.

Depois de um tempo refletindo com meus próprios pensamentos, tenho uma decisão.

— Eu vou voltar. Assim não te encontrarão aqui – levanto o olhar para ela. Ela faz o mesmo, me olhando nos olhos. Parece querer dizer algo, mas nada diz – Me desculpe pela preocupação, não vai se repetir.

Dizer essas palavras doeu. Digo, não sei por que doeu. É como se de repente eu me importasse mais do que devia com Lazuli. Espero que eu não precisasse repeti-las. Até porque, a essa altura, eu provavelmente não voltaria mais. Não só pela desconfiança que a corte Amarela pudesse ter, como Lazuli não iria mais aceitar minha presença ali. Eu estava causando problemas demais a ela e não queria vê-la ter de lidar com eles de novo.

Voltei à nave sem olhar para trás e decolei. Não sei porque esperava que ela me impedisse. Ela tinha tomado a decisão dela e eu, a minha.