mas o inferno pode ser confortável
1 Há os dias bons, e então, há os dias ruins
Notas iniciais
Jason nunca se imaginou em uma situação como essa. Talvez porque, antes, ele não tinha nada a temer. Sabia que era forte. De que importava se fossem monstros, titãs, deuses? Ele daria sua vida para proteger seus amigos.
Mas, às vezes, somente lutar não é o bastante. Somente tentar. Talvez nem mesmo morrer. Quando confrontadas com algo com o que não podem lidar, as almas mais frágeis quebram; e Gaia estava muito além de qualquer situação pela qual Jason já tivesse passado — muito além do que ele podia suportar.
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Há os dias bons. Neles, Jason acorda e não há nada com que se preocupar. O filho de Zeus deixa seu chalé e o Sol — o Sol é uma estrela brilhante a milhões de quilômetros de distância, assim como seus problemas. Nesses dias, o chão é sólidos e estável, uma realidade tangível e alcançável — verdadeira — na qual Jason pode se agarrar; as batidas de seu coração são ritmadas, uma após outra, um som tão reconfortante quanto uma canção de ninar há muito esquecida.
Quando chove, Jason pode se afastar até além do pinheiro que marca os limites do Acampamento; as gotas d’água são mornas e molham seu cabelo e escorrem por seu rosto, fazendo grudar as roupas no corpo e levando embora tudo que há de ruim — as dores, as mágoas, os remorsos e arrependimentos. E quando não chove, Jason pode sentar próximo à Arena de Treinamento e assistir os campistas duelarem — ele pode sentir o calor em sua pele, tímidos raios de Sol desenhando padrões sobre o chão e fazendo jogos de sombras com as árvores.
(Jason não duela com ninguém há um bom tempo)
Nesses dias, Percy e Annabeth passam a tarde de mãos dadas nos campos de morangos, e eles representam o tipo de amor que todo casal deseja ter. Nesses dias Hazel — dos olhos de ouro e cabelos de bronze — e Frank — Frank, que é agora Pretor e soldado honrado de Nova Roma — juntam-se com Leo — o melhor amigo que alguém poderia querer — e Calipso — que é flor de deserto, exceção — e fogem para encontrar Piper — que era, e de certa forma ainda é, a garota dos sonhos — num cinema qualquer de Nova Iorque.
Nesses dias, Nico — Nico, que é filho do deus dos mortos e que decidiu ficar — sorri, e Jason sabe: o sorriso dele é o mais bonito no mundo todo.
E Jason respira. Ele respira, e o ar é uma dádiva, uma mistura de vida e familiaridade que diz que a Legião é — sempre será — sua família, mas o Acampamento Meio-sangue é seu lar.
Então, há os dias ruins.
Eles geralmente começam com um pesadelo. Jason sente o fogo, a terra, os dedos gélidos de Gaia fechando-se em sua garganta. Matar, matar, matar. Ele acorda sufocado em seus próprios gritos, em seus soluços e engasgos e lágrimas. Não novamente, não novamente, não novamente.
“Por favor”, ele implora para uma deusa que foi colocada em sono profundo — e que queiram os deuses que ela permaneça assim.
Jason não tem medo da morte — nunca teve —, mas há somente uma quantia de sofrimento que uma pessoa pode aguentar. Todos têm cicatrizes; revivê-las em pensamento e memória é cruel — mas revivê-las em sonho consegue ser pior.
Sangue, responde a deusa em sua cabeça, e a voz dela é um som que Jason jamais esquecerá; é algo que vai assombrá-lo pelo resto de sua vida. Sangue.
E Jason se encolhe na cama, gritando contra o travesseiro até perder a voz, sentindo as lágrimas salgadas descendo como lava em seu rosto até que não possa mais chorar, comprimindo as mãos em seu peito até que não consiga mais senti-las. E seu coração desesperado falha, e seu corpo fraco treme, e Jason não pode aguentar mais, ele não pode aguentar mais.
(e é muito mais que medo, é muito mais que um tremor;
é pavor, é horror, rastejando como vermes sob sua pele)
Nesses dias, não importa se há Sol, chuva, neve ou tempestade. Jason se esconde no chalé, uma criança assustada tentando afugentar seus monstros que se escondem debaixo da cama — porém, os demônios que o perseguem são muito mais que carne, osso e magia; seu próprio corpo luta contra ele, revivendo os pesadelos.
Nesses dias, Nico é o único a aparecer. E talvez ele não seja um protetor, mas quando seus braços — magros e fortes e pálidos como sempre foram — se fecham ao redor de Jason, o filho do deus dos céus se sente seguro; ou tão seguro quanto é capaz.
Nico não faz falsas promessas. Ele não diz que vai ficar tudo bem. Ele não diz que algum dia, talvez, Jason será capaz de segurar uma espada novamente e enfrentar um monstro. Ele não diz que o pânico vai acabar. Ele não diz que as feridas pararão de doer — mas di Angelo é a prova de que elas cicatrizarão e, por ora, isso basta.
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