imperdoável

1 Capítulo 1 - você nunca esteve realmente aqui


Os meses se transformaram em anos e toda aquela paixão e medo se transmutaram em uma rotina de coexistência pacífica, onde Rowena se sente tão constantemente aliviada que as palavras deixam de ser o suficiente e apenas suas ações podem transmitir o que ela gostaria de dizer. Para a sua sorte, Tom é tão hábil em ler seus trejeitos quanto em ler seus lábios – e a linha de sua coluna, e suas escolhas de vestidos, e seu coração, e a alma que eles compartilham.

São os espaços sobressalentes entre suas costelas e por baixo dos móveis antigos da ainda mais antiga mansão que se enchem por aquela paz e aquele conforto e aquela certeza de que, desde que ela o tenha ao seu lado, não há mais armários sob as escadas, palavras grosseiras ou solidão avassaladora. De todas as pessoas, é ele quem a ensina sobre decência humana básica, muito mais do que seus amigos jamais puderam, embora tenham tentado. Ainda há aquela parte de si, a pequena e cinzenta Rowena Potter de oito anos, que se espanta com os banhos quentes, as refeições constantes, as roupas novas e os olhares cheios de carinho que ela não entende exatamente, mas absorve cada grama de afeto e dignidade que é dirigida a sua pessoa com apenas leve hesitação.

Antes de Tom – porque sua vida era dividida em antes e depois dele; a intersecção de suas almas, o calor de seu coração – ela estava constantemente com medo e constantemente cansada. Ela é tão pequena ao lado dele, mal chegava aos um e sessenta, e tudo em si era destoante de tudo nele, desde a sua propensão a ser pacífica até a dele de ser violento (nunca com ela, no entanto). Talvez seja porque ela prende girassóis nos cabelos e frequentemente se pega adormecida por entre as flores do jardim; talvez seja porque seu repetitório de feitiços contém apenas um ou dois capaz de causar destruição e os nós de seus dedos não sejam feitos para lutas; a verdade é que ele nunca levanta sua voz ou é algo além de gentil com ela, respeitando mesmo sua inconstância no que diz respeito ao espaço-tempo da mansão. Ela tem (calos nas mãos, sujeira debaixo das unhas, hematomas nas canelas, cheiro de flores, gosto de hortelã-pimenta, e oh deuses acima e abaixo, o sorriso mais lindo que ele já viu em toda sua vida) dedos pequenos e os usa para traçar as curvas de seus cabelos e fica na ponta dos pés quando deseja o beijar.

Ele a enche de pedras preciosas, tecidos finos, laços de cabelo e luvas rendadas, contente em saciar seu profundo desejo em ser algo que sua infância jamais lhe proporcionou: a chance de gostar de algo e tê-lo para si – menino bobo que se prometeu, no meio de um bombardeio em Londres, que jamais permitiria que seu mundo fosse abalado daquela forma novamente, e seu mundo se traduz a pequena e efêmera existência dela. Contra todas as probabilidades, ela se vê transitando entre passeios de braços dados e longos momentos na biblioteca, finalmente podendo saciar sua necessidade de viver. E ela vive bem, entre a cama deles e seu eternamente reservado local perto a lareira da sala de estar. Ela vive até que Samhain chega e assim como Lily, ela deixa de existir por um segundo ou dois.

Sua incapacidade de adormecer em qualquer outro lugar se não grudada nas costas largas de seu Tom se transmuta em uma fobia a mera existência dele. Fotos e mais fotos de uma adorável jovem de cabelos tão vermelhos quanto os olhos de seu amado se espalham no chão junto com as jóias e as sedas. Rowena se encolhe em um canto escuro daquele cômodo já familiar; naquela noite, assim como em todos os 31 de outubro antes e depois daquele, ela não conseguiria dormir ao lado de Tom, não quando ele era o culpado pela morte de sua linda mãe, a razão pela qual tudo o que ela tinha de Lily era um vestido bonito e um par de diamantes.

A menina de pele escura e olhos claros tem facilidade de se perder em divagações sobre “Deixe Rowena em paz! Leve-me no lugar dela!” e “Eu vi seu coração, minha querida, e é meu.”. Tom, como sempre, recuava e a deixava em seu ponto de inexistência mútua com o fantasma do que Lily poderia ter sido. Naqueles dias, é como se seu mundo fosse colapsar em um vendaval de desolação e profunda saudade, e ela sabe que, logicamente, não deveria perdoa-lo. Mais logicamente ainda, sabe que devera ter morrido naquele cemitério ou talvez antes ainda, no lugar da menina de cabelos cor de sangue.

Não é assim que as coisas funcionam. Seu coração é leve demais par guardar ressentimentos, ou talvez ela só esteja cansada de guerra. Lily e seus diamantes e vestidos bonitos nunca estiveram realmente ali, sendo apenas sombras de um talvez que nunca deixaria de ser apenas aquilo. Contra todas as probabilidades, ela aprende sobre afeto e decência humana básica. Contra todas as probabilidades, ela cria seu próprio mundinho com pedras preciosas, flores e uma alma compartilhada. Contra todas as probabilidades, ela vive existe. Tom Riddle vive, portanto, Rowena Potter vive também.

(querida, você é o meu passado, presente e futuro)

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