i forgot me in your hands
1 commedia dell'arte do não sentir.
Notas iniciais
e m s u a s m ã o s
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No dia em que escala o monte Ebott, deixando para trás toda a humanidade a qual suportou conviver durante todos aqueles anos, Chara, de uma vez por todas, vive. Pois, afinal, alguém finalmente escuta a sua voz; o seu tremor; os seus soluços que pedem socorro para as paredes frias que lhe cercam desde que caiu.
Aquele alguém é Asriel.
Quando Chara o vê pela primeira vez, um misto esdrúxulo de alívio e apreensão rapidamente tomam conta de seu peito. Sua maior vontade é a de segurar aquela mão, que parece tão calorosa, e não a soltar até que lhe guiasse para longe da escuridão.
Contudo, a desconfiança para com ele lhe acerta em cheio como um dardo.
“Você está bem?” Asriel — até então desconhecido para si — pergunta, com um tom de voz preocupado. “O que faz aqui...?”
Naquele momento, Chara não consegue respondê-lo. A sensação de travamento na garganta, resultada pela constante vontade de segurar o choro — em vão — ainda está ali, a tentar lhe sufocar com mais e mais apreensão.
Ainda, depois de diversas tentativas frustradas de direcionar palavras a Asriel — que começa a lhe olhar com desespero por não saber como lidar com sua pessoa — Chara sussurra, após tomar uma decisão, “Me tire daqui. Por favor.”
Isso é suficiente para que aquela pequena conversa entre ambos se finde.
Dessa forma, Asriel vai ao seu encontro — com uma expressão um pouco mais determinada no rosto — para lhe ajudar a se levantar. A tentativa de ficar de pé, no entanto, quase faz Chara escorregar no chão — quase, se não fosse pela rapidez em segurar o suéter do outro para não cair.
Aquela situação seria cômica, caso não sentisse tanto pavor assim — pavor do desconhecido; pavor de onde está indo; pavor sobre o que aconteceria dali em diante.
Um sentimento real demais para Chara se forçar a rir.
“Então... vamos?” Asriel esboça um sorriso tímido. “A minha casa é aqui perto, não vai demorar muito para a gente chegar lá.”
Sem muita escolha, Chara concorda com a cabeça. Mesmo que o garoto ao seu lado estivesse sendo gentil para consigo, ainda lhe resta saber como os outros habitantes daquele lugar se comportariam com relação à sua intrusão no território deles.
Desse modo, ao chegar às portas de um castelo gigantesco — de fato, nunca havia visto um lugar tão grande — não demora muito para que Chara descubra as respostas que procura.
E, para sua surpresa, ele percebe que fez a escolha certa.
Nos braços de Asgore e Toriel, a partir daquele momento, Chara passa a se sentir protegido. Para si, oferecem torta de caramelo com uma xícara quentinha de chá. Oferecem conhecimento sobre o que se passa no subterrâneo. Oferecem tudo o que seus pais biológicos nunca lhe deram — todas as coisas boas.
É a primeira vez que Chara sente um sorriso escapar por entre seus lábios de maneira natural. Por pouco, o pensamento de aquilo tudo ser um sonho confuso passa pela sua cabeça; mas Asriel, sentado ao seu lado no tapete da sala de estar, lhe observa com animação.
“Você finalmente está rindo, Chara.”
Talvez, de forma involuntária, suas bochechas tenham ficado um pouco mais vermelhas que o normal pelo comentário.
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Quanto mais Chara passa o tempo entre os monstros, mais o desejo de vê-los livres das amarras que os prendem na escuridão toma conta dos seus pensamentos. O sentimento é claro — e fica visível na forma como, aos poucos, o desinteresse pelas coisas comuns cresce em seu coração.
Pois, afinal, poderia estar fazendo alguma coisa a respeito daquilo ao invés de estar brincando com bonecas de pano e blocos de montar.
O problema é que Chara não tem o poder necessário para destruir a barreira que separa este mundo do outro — o que, até onde se sabe, é a única forma de resolver aquela situação. Por esse motivo, as vezes em que se sente inútil são inúmeras — e impossíveis de serem contadas nos dedos.
Todavia, algo dentro de si não lhe faz querer desistir de procurar uma solução; e é por causa desse sentimento que Chara, depois de muito ponderar, tem uma ideia.
Sua animação sobre aquela descoberta, feita no meio da madrugada, é tanta que, sem pensar duas vezes, ele se vê correndo pelo quarto na procura de papel e giz de cera para esboçar seu plano de uma vez por todas (e é só depois de reunir tudo em mãos que se lembra de ligar a luz).
Poucos minutos depois, a sua algazarra acaba acordando Asriel, que passa a esfregar os olhos para entender o que está acontecendo.
“Chara, o que está fazendo?” ele pergunta entre um bocejo e outro.
“Eu tive uma ideia.” Chara comenta com um sorriso largo no rosto. “Eu tive uma ideia de como libertar todos os monstros daqui.”
Asriel pisca os olhos, sem entender. É só depois que o papel lhe é mostrado — agora com um plano rascunhado nele — que as coisas começam a se encaixar em sua cabeça. E, assim, com um medo indecifrável pesando nas suas palavras, ele murmura, “...não podemos fazer isso, Chara, de jeito nenhum!”
“E por que não?” Chara replica, com uma risadinha.
“Porque isso é arriscado demais!” As mãos de Asriel tremem ao continuarem segurando o papel. “Você não consegue ver isso?”
De maneira sincera, Chara maneia a cabeça em negativo. “Não é nada de mais, Asriel. Você não confia em mim?”
“É claro que eu confio em você...” Ele responde, cabisbaixo. “Mas isso... Você pode... você pode acabar morrendo para sempre, sabia?”
“Mas eu não vou morrer!” A animosidade nos olhos de Chara cintila como um raio de sol. “É sério, vai dar tudo certo. Desde que você queira fazer isso comigo, é claro.”
Asriel fica em silêncio, sem conseguir lhe olhar diretamente. A incerteza dele sobre aquilo começa a aborrecer Chara um pouco, mas, ao mesmo tempo, cria um balanço dentro de si sobre aquele ser um bom plano ou não.
O nervosismo lhe embrulha o estômago pela tensão do momento, mas assim que Asriel volta a falar, é como se tudo aquilo desaparecesse, “...certo. Vamos fazer como você planejou, então.”
A resposta dele não poderia fazer Chara mais feliz. Sua vontade é de sair pela casa gritando, entretanto, ao invés disso, com uma risadinha lhe escapando os lábios, ele se aproxima de Asriel e beija sua bochecha.
O momento é curto, mas, ao observar o rosto de Asriel corar pelo seu movimento imprevisível, Chara não consegue evitar sentir seu coração bater um pouco mais rápido.
Enquanto ele estivesse ao seu lado, tudo daria certo.
(É o preço da sua d e t e r m i n a ç ã o).
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Nos últimos suspiros do que imagina ser a vida que segura em mãos, Chara crê que, talvez, sua ideia foi boba e que, por isso, seu plano tem uma margem muito grande de dar errado. É como Asriel lhe falou: tinha chances de morrer, e é isso o que acontece.
Vê-lo triste, assim como ver seus pais tristes, enche seu interior de pesar. Sua vontade de nunca ter pisado no subterrâneo, de desaparecer da memória de todos para que não sentissem infelizes pela sua morte próxima, é grande; imensurável; maior que o mundo.
Contudo, Chara precisa encarar os fatos e aceitar sua realidade.
E é assim que, como um expectador antecipando o inevitável, ele se observa desfalecer. As cortinas, avulsas, intrusas, escuras, se fecham no palco da sua curta vida, e a todos, Chara dá seu adeus.
(Sua d e t e r m i n a ç ã o, todavia, continua a existir em seu corpo inerte).
Sua determinação; sim, isso mesmo. A responsável por trazer Chara de volta à vida, de lhe fazer abrir os olhos num corpo que não é seu depois de algum tempo.
“Asriel?” Chara chama o amigo em pensamentos, mentalizando sua imagem, voz e sorriso únicos. Não sabe exatamente porque ele lhe vem à cabeça naquele momento; apenas que algo lhe faz chamá-lo com veemência.
Alguns minutos depois, entre as paredes da imensidão desconhecida em que está, a voz de Asriel surge inesperadamente, “Chara? É você, Chara?”
Seu plano, de unirem suas almas no corpo dele para conseguirem passar pela barreira mágica, funcionou, então.
“Sim, você tem razão,” Asriel comenta, como se lesse seus pensamentos; não, ele está, de fato, lendo. “Parece que deu certo, mas...”
O processo funciona ao contrário também, pelo que parece, uma vez que Chara logo consegue desvendar o que se passa na mente dele, “Você está com medo de prosseguir com o plano, né?”
A pergunta, tão direta, acerta Asriel em cheio. “B-bem, então... eu acho... e-eu acho que não deveríamos mesmo fazer isso... eu não gosto desse plano...”
“Mas essa é nossa única chance!” Chara replica, com teimosia. “Eu perdi minha vida tentando fazer isso, Asriel. Não tenho mais nenhum outro objetivo além desse...”
A verdade é que Chara ainda sente culpa por ter perdido a vida de propósito, e que, acima de qualquer coisa, tem vontade de se desculpar com Asriel por não o ouvir. Mas, preso naquelas circunstâncias, não tem jeito; é preciso terminar o que começou — caso contrário, sua morte realmente teria sido em vão.
Aqueles sentimentos logo são transmitidos para Asriel que, ainda relutante, acaba cedendo controle do seu corpo a Chara definitivamente.
“Obrigado, Asriel.”
E, dessa forma, com as cortinas do seu palco uma vez mais abertas, ambos atravessam a barreira que os levaria ao mundo dos humanos — à superfície negada aos monstros.
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Às vezes — na maioria delas — Chara tem a impressão que os escritores do seu roteiro não gostam de si, porque é como se a agonia, a miséria e a consternação, de uma hora para a outra, sempre acabassem por tingir as suas páginas de vida.
Chara já se acostumou com aquilo; porém, voltar para o mundo humano — mais especificamente, para a vila em que nasceu — depois de tanto tempo, leva aquele sentimento a outro patamar.
A um patamar de insanidade.
Mesmo com todo o poder que conseguiu junto a Asriel, ainda não é suficiente para ambos lidar com a humanidade. A intensidade dos olhares que os observam com desgosto, indubitavelmente, lhe causa calafrios e imerge memórias no fundo do seu inconsciente que não gostaria de ter lembrado.
Pois mais frias que o inverno de Snowfall, e mais fervorosas que a lava que circunda Hotland, aquelas são as pessoas que Chara tanto odeia — odeia, odeia, odeia.
(Responsáveis por terem lhe feito querer se matar ao subir no monte Ebott, que é conhecido por ser um lugar onde ninguém volta com vida, para começar).
O seu rancor é sentido por pouco tempo por Asriel, que antes mesmo de lhe perguntar o significado de toda aquela raiva, acaba por desaparecer do seu lado — ou, melhor, é o contrário; Chara que desaparece do lado dele.
Ele não tem certeza do que acontece exatamente, mas sabe que perdem os poderes por consequência de se envolverem no território dos humanos.
E, assim, separados uma vez mais, a oportunidade de segurar firme a mão de Asriel e nunca mais soltar — como gostaria de ter feito desde o momento em que percebeu que se tornaram melhores amigos, não, bem mais do que isso — escorre por entre seus dedos para nunca mais voltar.
Chara não está pronto para morrer de novo. Mas desde quando tem direito para escolher? Seu destino final seria aquele, querendo ou não. É o que está escrito no script de seu personagem e, por isso, como uma marionete atada a cordas, deveria agir sempre de acordo com o que está ali.
(Fadado à escuridão do corredor da morte, onde está sua d e t e r m i n a ç ã o?)
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Um cheiro perfumado de flores se espalha ao redor de Chara e, de alguma forma, seus olhos se abrem de maneira lenta devido à sonolência.
Ao se sentar, percebe que, embaixo de si, há um canteiro de flores; amarelas, amarelas, as suas favoritas. O lugar lhe parece muito familiar, e não leva muito tempo para se lembrar de que foi ali o lugar ao qual caiu após escalar o monte Ebott.
Tudo parece difuso para si, como se estivesse vivendo um sonho ruim por muito tempo. Talvez o fosse. Chara só sabe que isso não é verdade quando, ao tentar se levantar mais uma vez, seu corpo não lhe obedece.
Aquela sensação esquisita, mas tão íntima, lhe é familiar; está no corpo de outra pessoa. Dessa vez, ao que parece ser, um ser humano como a ele próprio.
Aquilo começa a lhe dar nos nervos. Quantas vezes precisaria jogar o jogo até que pudesse descansar em paz? Chara não faz ideia. Mas seguiria quantas vezes fosse preciso se isso significasse, por uma vez sequer, vencer.
(Logo, Chara descobre que o que lhe traz de volta é a d e t e r m i n a ç ã o da pessoa que habita aquele corpo, e isso lhe dá uma ideia).
Não que tivesse boas ideias; contudo, não lhe custa tentar.
“Você está perdido e quer sair daqui, não é?” Chara assovia no ouvido do outro humano. “Eu posso te mostrar uma maneira de fazer isso.”
Aquilo, em verdade, é mentira; e Chara tem a impressão de que aquela pessoa sabe disso — afinal, quando estava no corpo de Asriel, conseguiam ler pensamentos um do outro. Por isso, não chega a levantar esperanças de que pudesse tomar aquele corpo para si.
Todavia, para sua surpresa — o que é inesperado pois pensou que nunca mais teria surpresas — Frisk, o humano, lhe dá um pouco do controle para que pudesse ajudá-lo a sair daquele lugar. Passado algum tempo, porém, Chara consegue fazer daquele corpo seu.
E é naquele momento que as cortinas do seu palco, uma vez mais, são abertas; abertas para um espetáculo especial; uma cena bônus; um extra que nunca deveria ter sido adicionado ao roteiro principal da trama por ninguém.
Em suma, um genocídio.
No instante em que Chara assimila o rancor que sente — que de tão grande, já não cabe mais em nenhum lugar — não apenas aos humanos, como a todas as coisas que existem, percebe que nada mais vale a pena ser salvo.
Dessarte, sua faca dança entre carnificinas, entre banhos de sangue e entre corpos sem vida — pois tudo o que ficasse em seu caminho seria eliminado. Tudo e todos. Ninguém sobraria.
E, assim, o ciclo se repetiria.
O que intriga Chara, no entanto, é aquela flor que parece possuir tantas coisas em comum para consigo. São ambos vazios, palavras dele. Talvez estivesse certo. Mas a pergunta que não se cala é: como sabe seu nome?
Por um tempo, Chara decide ignorar aquele fato. É um problema pequeno e, ele, uma existência insignificante. Entretanto, percebe depois que talvez tenha errado no seu julgamento — de novo — quando o encontra pela última vez, na hora em que pretende desferir um golpe fatal naquele ao qual um dia chamou de pai.
Pois não há sombra de dúvidas: naquelas inconsistências lineares, quase cruéis, à sua frente, Asriel está vivo e conversa consigo.
Não — não, não, não — está enganado. Porque mesmo que fosse, na sua cabeça, Chara não consegue permitir que a imagem de Asriel seja maculada pelas feiuras que aquela planta diz. Portanto, decidi, não são o mesmo.
E aquela realidade é suficiente para que Chara siga em frente, com um sorriso bem grande no rosto, após cravar uma facada no rosto de Flowey; não só uma, como também duas, três, quatro, cinco, seis. A sensação ainda continua na sua pele mesmo depois que tudo acaba — e é irresistível.
Caso Asriel estivesse vivo, gostaria de mostrar aquilo a ele — não, esquece, ele com certeza não iria gostar. Chara ri com o pensamento. A quanto tempo não ri com sinceridade? Nunca, nem depois de mil anos, conseguiria responder.
Porém, seus sentimentos — ou o que resta deles — não importam; nada mais importa. Destruir linhas temporais, onde a única coisa que lhe guia é o ódio — a visão vermelha — já torna seu vazio completo de diversas maneiras possíveis.
E, dessa forma, pisando naquela mistura de sangue e pétalas que se forma no chão, Chara observa a platéia que, vazia, não bate palmas — nem ri — ao final de sua apresentação.
“Obrigado, e até a próxima,” responde ao nada, com uma voz carente de afeição.
Talvez, infimamente, esperasse que Asriel estivesse ali para lhe ver — para lhe tirar uma vez mais da sua escuridão.
Mas não está; naquela comédia sádica, que lhe oprime e oprime a todos, ele não está em lugar algum.
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