Eles se conheceram oficialmente depois do funeral de Tony, quando Peter estava muito ocupado chorando para prestar atenção aos seus arredores e Bucky estava fingindo que ter sido trocado por Peggy mais uma vez não o tinha doido tanto quanto doeu. O Complexo dos Vingadores estava insanamente silencioso, sendo habitado apenas pelos dois e Bruce Banner, que ficava cada vez mais enfurnado em seu laboratório.

Era noite e as estrelas não brilhavam como costumavam brilhar, e Peter encarava estoicamente as enormes janelas de vidro novíssimas. Ele tinha ajudado como pode na construção da nova base, que ficava a cerca de vinte quilômetros da antiga, mas agora que o trabalho acabou ele se via sem saber o que fazer. Foi assim que ele foi encontrado pelo Barnes.

O soldado emprestou um lenço para o cientista, que por sua vez compartilhou seu sorvete de baunilha enquanto o sol estava nascendo na frente deles, fingindo que o mundo estava bem. Que alguma coisa ainda fazia sentido e que eles podiam forçar mais um sorriso ou dois.

Para Peter, além do incrível abismo deixado pela morte de seu mentor, havia os papéis de divórcio recém-assinados em sua mesa de cabeceira. Ela queria filhos e se mudar de Nova York e ele... ele entrou em pânico. Ele não estava pronto para assumir aquele nível de responsabilidade, menos ainda para deixar a cidade que amava. MJ nunca o perdoou por ter se aliado ao Homem de Ferro e ele nunca conseguiu acompanhar o ritmo dela; eles eram jovens demais quando se casaram.

Para Bucky, havia aquela última carta de despedida de quem ele positivamente podia afirmar ser o amor de sua vida, as sessões de terapia forçadas com uma terapeuta de quem não conseguia gostar e décadas e mais décadas de trauma. E havia também os filhos e netos de Steve, que ele teve de conhecer um por um na reunião mais infernal de toda sua vida. E também tinha Natasha, de quem ele nunca pode se despedir, e Yelena, quem ele nunca pode ajudar.

Peter tinha vinte e poucos quando Thanos veio e dizimou metade do universo, Bucky tinha quase cem. O mais novo sobreviveu, o mais velho não, mas eles não eram exatamente amigos naquela época (havia muita animosidade por associação entre os dois, com a Guerra Civil, os Acordos, os Stark e o próprio casamento em decadência do Parker). Eles se uniram por seu amor em comum por sorvete de baunilha, música dos anos cinquenta e ciência (mesmo que o Barnes mal soubesse matemática básica), mas em nenhum momento se tornaram o tipo de amigos que compartilhavam as coisas.

Quer dizer, James sabia sobre seu divórcio, o fim de sua amizade com Ned e a grande briga com tia May que o levou a se afastar de tudo e de todos com que um dia se importou, e Peter por sua vez sabia sobre sua auto aversão, culpa e dos detalhes mais superficiais de seu relacionamento com Steve, mas acabava por ai.

(ele nunca contaria ao aracnídeo sobre aquela vez em que perseguiu a já idosa Peggy Rogers por três dias seguidos com uma faca entre os dedos)

(ele nunca contaria ao soldado sobre quando subiu até o topo do Empire States e desistiu no último momento)

(havia tantas coisas que eles jamais diriam um ao outro)

O tempo passou e quando perceberam, eles eram de alguma forma, melhores amigos e completos desconhecidos.

Eles sabiam qual era a cor favorita do outro, mas não conheciam seus maiores anseios, seus sonhos mais profundos, o nome de seus pais ou seus grandes arrependimentos. Bucky era alheio em relação às coisas favoritas de Peter e o vigilante por sua vez não tinha paciência o suficiente para tentar descobrir o que o mais velho gostava.

Mas eles de alguma forma se davam terrivelmente bem.

Bucky sabia exatamente qual a forma que os pesadelos de Peter tomavam, e ele por sua vez era o único capaz de conter o ex-assassino quando esse tinha seus próprios; eles se refugiavam nos sofás que ninguém usava, nas salas que ninguém ia e ficavam em total silencio. Bucky, como um gato em formato gigante, estava constantemente estirado no colo do Parker, seus braços circundando a cintura do cientista e sua cabeça apoiada em sua virilha e Peter, como um pedaço de luz do sol depois de uma longa tempestade de verão, sempre espantava o medo do escuro que seguia o Barnes desde sua infância. Sam, que ainda achava que eles tinham um caso e em partes desaprovava e em partes era grato por eles ao menos terem um ao outro, sempre arrumava desculpas para as ausências nas reuniões de equipe.

E por mais que May ainda se recusasse a atender suas ligações, por mais que Pepper desaprovasse a proximidade dos dois, por mais que o mundo estivesse pegando fogo ao seu redor, eles estavam bem. Toda aquela merda com os apátridas foi difícil de lidar e Mysterio ainda era um idiota total (embora Peter fosse ligeiramente menos ingênuo aqui), mas dessa vez eles tinham para quem ligar na discagem rápida. E eles lidaram com isso, e eles superaram a dor, e eles ficaram bem.

Naquela vida Peter era mais velho e mais endurecido, Bucky era mais sensível, o mundo era um lugar melhor e pior. E entre altos e baixos, eles ficavam bem.

Sobre Bucky, que ainda tinha medo do escuro; sobre Peter, que era como a luz do sol depois de uma longa tempestade de verão.

Notas finais
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