e eu me casaria com você, todd
1 capítulo único
Aquela quinta-feira estava cinzenta e fria. Não era possível ver o céu de tão nublado que se encontrava, dificultando qualquer mínimo raio que o sol ousasse brilhar. Era um dia ótimo para ficar nos dormitórios, de pijamas e enrolados nos cobertores; talvez até tirando uma soneca. Mas para os alunos de Welton Academy era apenas mais um dia cheio de aulas, tarefas e estudos.
Os dead poets tinham acabado de sair da aula do Sr. Keating e planejavam se encontrar na caverna para mais uma reunião da Sociedade dos Poetas Mortos. Embora o clima desencorajasse qualquer saída ao ar livre, eles estavam animados. Era sempre o mesmo humor quando se tratava dos encontros: todos ficavam felizes, tranquilos, menos preocupados com as lições dos outros professores e mais inspirados em ler os poemas que passaram a semana inteira escrevendo ou separando justamente para aquela tarde. Alguns até acordavam mais dispostos para enfrentar o dia, mesmo que fosse um dia feio como aqueles.
E, é claro, todos os meninos ficavam mais tranquilos e à vontade na caverna: podiam fumar, conversar sobre besteiras, darem risadas sem se importar com o volume, falarem palavrões sem se preocupar com Hager tirando suas honras e inclusive xingar Hager escondido! E Nolan! E McAllister! As reuniões da Sociedade dos Poetas Mortos eram sempre um motivo para o dia ser feliz e mais leve.
Para Neil e Todd, era tudo isso e muito mais: as tardes e noites que os amigos decidiam se encontrar na caverna eraM uma oportunidade dos dois se comportarem como queriam: ficarem de mãos dadas, se abraçarem, trocarem elogios, dedicar poemas um ao outro e, às vezes, Neil roubava um beijo tímido dos lábios de Todd, jurando que nenhum dos outros dead poets vira.
O que não era verdade. Charlie sempre via como Todd ficava com as bochechas coradas e soltava um sorriso tímido depois de Neil o beijar, seguido quase imediatamente de um "Neil, os meninos!". Pitts, Knox, Meeks e Cameron realmente não notavam como o casal de amigos era discreto. Charlie sempre notou, mas nunca comentou nada. Preferia deixar os dois à vontade e aproveitarem o pouco tempo que tinham juntos longe de Hell-ton.
— Sabe, hoje é um dia que sinto inveja de vocês dois – disse Meeks, referindo-se a Neil e Todd, ao entrar na caverna com os outros dead poets – Tudo o que eu queria num dia frio desses era ter alguém pra abraçar. Ou alguém para me abraçar enquanto durmo.
Neil umedeceu os lábios, um pouco tímido e sorriu. Todd, por sua vez, ficou com o rosto completamente vermelho. Para ele, um comentário daqueles já era uma enorme exposição de sua intimidade.
Charlie deu risada.
— Qual é, não pensem que a gente não sabe que vocês dormem juntos – comentou, enquanto tirava um cigarro do bolso e colocava entre seus lábios, secos e rachados por conta do clima. – E não levem a mal, estou com Meeks nessa. Tenho é inveja de vocês por terem calor humano nessa amostra grátis do Polo Norte.
Todd tocou a mão de Neil, que estava gelada como um punhado de neve. Neil sorriu para seu namorado. Ele estava usando o suéter preferido de Todd, um verde escuro com as mangas bem compridas e gola redonda. Todd usava o seu suéter azul marinho por baixo do casaco de Welton, e por isso estava com o corpo bem mais aquecido.
Pitts interrompeu o silêncio tímido do casal ao olhar para as pedras da caverna.
— Gente, olhem isso! – disse, chamando a atenção do restante do grupo. – Hoje o dia está tão frio que até a superfície das paredes mudou.
Knox foi o primeiro a chegar mais perto de Pitts e passar a ponta da unha sobre uma das enormes pedras.
— Uau, dá até pra escrever alguma coisa aqui – comentou, rindo da própria descoberta enquanto Charlie tirava um estilete do bolso.
— A partir de hoje, esta caverna está batizada de Charlie Dalton – anunciou o dead poet para os outros amigos enquanto escrevia seu nome nas paredes em letras quadradas.
Cameron estava cabisbaixo naquele dia e não proferiu uma palavra sequer. Nem durante a aula. O ruivo também não revirou os olhos para a atitude do colega naquela hora, como normalmente faria.
Charlie sorriu enquanto terminava de escrever seu nome e afastou-se da parede, admirando o resultado. Neil se aproximou para ver mais de perto a agora assinatura da caverna.
Todd olhou para Cameron, que não havia movido nem um músculo para ver a arte de Nuwanda.
— Está tudo bem? – perguntou Todd, sentando-se do lado do vizinho de dormitórios. Cameron costumava ser muito fechado quanto aos seus problemas, pensamentos e questionamentos particulares, mas o Anderson mais novo sempre viu um pouco mais de abertura para conversar com ele.
O colega ruivo não havia notado a presença de Todd ali, então tentou disfarçar com um sorriso bobo e um chacoalhar de cabeça.
— Não, nada – respondeu, sem olhar diretamente para o amigo. Mas Todd não acreditou, e mesmo sem falar nada, continuou encarando Cameron. – É que... eu estou muito preocupado com o final do ano, sabe? Como a vida vai ser daqui pra frente, o que vamos fazer depois daqui.
Todd assentiu. Entendia Cameron, afinal, se sentia assim toda hora. E com seus pais sempre falando sobre o sucesso de seu irmão prodígio, as coisas se tornavam cada vez mais difíceis.
Ele chegou a dividir um pouco de suas agonias com Neil depois que começaram a namorar. E Neil também passou a dividir as suas com ele, todo o problema com seu pai, a alta expectativa de sua mãe em cima de sua carreira... não era nada fácil.
Mas Todd tinha Neil para dividir essas coisas. E Neil tinha Todd.
E Cameron? Cameron sempre foi o integrante da sociedade que nunca precisou dividir nada com ninguém. Sempre aparentou estar bem, feliz e tranquilo. E, francamente, ele era um dos melhores alunos de Welton na época.
— Sei como se sente – Pitts entrou no papo, sentando na frente dos dois amigos. – Não gosto muito de pensar de como vai ser a minha vida depois de tantos anos aqui, conhecendo a minha rotina e, por incrível que pareça, até gostando mais dela depois que passamos a ter aulas com o Sr. Keating.
Todd balançou a cabeça, concordando. Cameron o acompanhou. Meeks observava a conversa de perto e deu um sorriso tímido ao pensar que a Sociedade dos Poetas Mortos, Keating e a caverna fariam muita falta depois da formatura.
— De uma coisa eu tenho certeza – disse Meeks. – Tenho certeza que depois do nosso projeto do rádio – ele falou, tocando o ombro de Pitts, que sorriu de volta pra ele. – eu quero seguir uma carreira com aparelhos eletrônicos.
De repente, todos os dead poets se encontraram naquele questionamento. O que será de nós depois da formatura? O que eu quero fazer da minha vida?
Neil pediu licença a Cameron para se sentar mais perto e ao lado de Todd. Estava com frio e não queria perder mais nenhum minuto de seu cronometrado tempo de liberdade longe de seu namorado.
— Ok, uma coisa que eu quero muito fazer depois que a gente se formar – Charlie declarou com um sorriso enorme no rosto. – mesmo que isso não faça parte da minha rotina de banqueiro chato como meus pais querem pra mim: eu quero participar de uma banda, tocando saxofone.
Neil sorriu, aprovando completamente o sonho do melhor amigo. Afinal de contas, não era o único no clube que flertava com a arte. Incentivado pela fala de Nuwanda, o filho único dos Perry comentou:
— Eu quero ganhar um Oscar. Na categoria de Melhor Ator Principal em um filme.
O céu não era limite quando se tratava do tamanho dos sonhos de Neil Perry. Ele nem se importava com a reação dos demais colegas diante de suas palavras, ele só queria externá-las de alguma forma. Mas nenhum dos outros dead poets pareceu reprovar o sonho de Neil e nem agir como se fosse completamente impossível. Todos ali acreditavam muito nele.
— Eu quero me casar – comentou Knox. — Quero viver uma verdadeira história de amor e me casar. Eu sei que vou ter que acabar seguindo a carreira dos meus pais, mas pelo menos no final do dia eu quero ter algo que aqueça o meu coração e me faça ser grato pela vida que terei.
— Eu também.
Todos olharam para Todd, que reagiu como se as palavras tivessem escapado da sua boca sem sua autorização. O Anderson mais novo apertou os lábios um no outro, como se isso pudesse invalidar o que tinha acabado de dizer.
Mas a verdade é que Todd realmente queria aquilo, só que nunca tinha conseguido colocar em tão boas palavras como Knox Overstreet. Ele não fazia ideia de como seria sua vida depois de Hell-ton, depois de Keating, depois de Neil. Mas ele queria ser feliz, e se tinha uma coisa que não lhe garantiria felicidade era a escolha de emprego que seus pais fariam por ele depois da formatura.
Os outros dead poets não o julgavam, muito pelo contrário: no fundo, cada um queria isso também. Mas é claro... a mente de Todd brincava muito bem com ele ao fazê-lo achar que todos os condenavam por sua fala, mesmo que fosse uma simples concordância com o que Knox acabara de dizer.
Neil segurou a mão do namorado, tratando-a de um jeito tão delicado como se estivesse mexendo numa pétala. Ele sorria.
— E eu me casaria com você, Todd.
Meeks sorriu e olhou para Pitts, que olhou para Cameron, que olhou para Knox que olhou para Charlie, que sabia exatamente o que fazer.
— É ISSO! – Exclamou Nuwanda, enquanto se levantava, animado com a ideia que acabara de ter. – É esse o evento que vai inaugurar a agora chamada caverna Charlie Dalton.
Neil e Todd fizeram uma expressão de dúvida. Não faziam ideia a que o amigo se referia.
Charlie soltou um pigarro.
— Gentlemen – começou, fazendo seus típicos trejeitos quando ia contar alguma ideia que julgava ser genial. – Tenho a honra de anunciar que a caverna Charlie Dalton receberá seu primeiro casamento da história da Sociedade dos Poetas Mortos.
Meeks deu um sorriso tão largo que era incapaz de disfarçar o quão alegre ficou com a fala do amigo. Pitts fez a mesma coisa. Cameron dava risada, admitindo mentalmente que dessa vez, Charlie havia se superado. O ruivo até chegou a esquecer que estava mal. Talvez os meninos realmente fossem amigos em que ele pudesse confiar.
Neil sorria também. Sorria tanto que era capaz de deixar escapar uma das borboletas que estavam inquietas em seu estômago naquele momento. Todd estava vermelho, totalmente envergonhado, mas no fundo, adorou a ideia de Charlie.
Perry se levantou para conseguir ajoelhar direitinho na frente de Todd, que permaneceu sentado. Ele não tinha nada com ele que pudesse improvisar um anel, então simplesmente tirou o livro que usava para abrir todas as reuniões da Sociedade do bolso. Quando ergueu de uma forma que ficasse visível para todos da caverna, os dead poets deram risada do improviso criativo.
Neil parou de rir e olhou tranquilamente para seu namorado, com um nervosismo que jamais sentira antes. Nem quando ele e seu colega de quarto deram seu primeiro beijo.
— Todd Anderson – pronunciou o nome de seu amado sem hesitar. De repente, a caverna inteira estava em silêncio. – Você aceita viver deliberadamente comigo, sugar a essência da vida, aproveitar o dia e dividir não apenas o dormitório, mas também todas as suas angústias, medos, problemas e momentos de felicidade comigo?
As bochechas do Anderson mais novo queimavam tanto que poderiam formar nuvens de ar quente no clima frio daquele dia. Encarava Neil com a boca em formato circular, de tão surpreso e incrédulo de que aquilo realmente estava acontecendo.
Os outros dead poets seguravam a respiração, apreensivos. Sabiam que o sentimento dos colegas era recíproco, mas precisavam admitir que havia um certo medo de que Todd declinasse o pedido de Neil.
Todd arfou e começou a rir, traduzindo seu nervosismo em um grande sorriso que se distribuía por todo o seu rosto e bochechas vermelhas e pousou delicadamente a palma de sua mão em cima da capa do livro.
— Eu aceito, Neil Perry.
Os outros dead poets gritaram tão alto que as paredes da caverna formaram ecos de "YAWP", repetidos alegremente por todos os amigos do casal.
— Então vamos começar a cerimônia! – Charlie declarou e imediatamente Cameron, Meeks, Pitts e Knox se alinharam como se estivessem sentados em uma igreja com um enorme e longo corredor entre eles. Na porta, Neil e Todd.
Nuwanda decidira ser o mestre daquela cerimônia matrimonial sem avisar ninguém, mas também não fora impedido. Os outros meninos já esperavam que ele tomaria aquela atitude.
— Senhores e senhores! – Charlie falou alto após subir em uma pedra e fingir que estava em um altar. – Estamos aqui reunidos hoje para celebrar a união desse casal formado por um poeta e um ator, que se apaixonaram profundamente um pelo outro dividindo um pequeno dormitório em Welton Academy no ano de 1959.
Todos os dead poets assistiam atentamente à cerimônia improvisada. Neil estava nervoso, Todd mais ainda. Mas os dois não escondiam a felicidade estampada em suas faces.
— Nuwanda! – Knox levantou de seu lugar. — Se me permite, eu gostaria de ler o poema que escrevi especialmente para a reunião de hoje durante essa linda cerimônia.
Charlie olhou para Knox e sorriu, satisfeito que todos estavam entrando no clima de brincadeira.
— Mas é claro, senhor Overstreet! Junte-se a nós!
Dalton desceu da pedra que improvisava o altar, dando espaço para Knox recitar seu poema, que começou sem cerimônias:
"Je peux t'entendre, non?
ii.
Cuidadosamente, meus sentimentos redundantes sobressaem-se sob a fonte do amor.
Continha uma vontade insaciável, um apetite doloroso de acalento.
E recebi em teus braços tudo o que procurava.
Nem o mais árduo estudo, nem a mais laboriosa ciência desenfardaria o núcleo do meu deleite; por você.
Teu toque suave avoluma minha opaca alma. Sua áurea travessa me acolhe.
Tuas palavras, mesmo tão longes, desaquietam meu espírito.
Dentro desta plebe gruta, declaro meu ardor por ti.
Me parece idôneo. A você também? Alvejado, permito-lhe a mesma devoção.
Tu és anódino, balsâmico. E lhe aprecio por isso.
Que a funesta percepção da vida lhe tire o privilégio de veneração.
Por mim.
Les cupidons qui ont allumé cette
flamme dans mon cœur."
Os outros dead poets aplaudiram o amigo, sem entender os versos na língua estrangeira, mas maravilhados com o que acabaram de ouvir. Todd e Neil também aplaudiram, este último dando um tapinha no ombro de Overstreet.
Charlie arregalou os olhos, impressionado com o talento que acabara de exposto ali, diante de seus olhos.
Knox desceu do altar, dando lugar para Nuwanda continuar.
— Neil Perry! – Charlie bradou. – Você aceita a mão de Todd Anderson como seu legítimo esposo e promete aproveitar o dia com ele e tornar sua vida extraordinária?
— Carpe diem – Neil respondeu imediatamente sem hesitação e sem conseguir conter o sorriso bobo estampado em seu rosto.
Charlie deu um pequeno sorriso e virou-se para Todd, que esperava ansiosamente responder a pergunta.
—Todd Anderson – Charlie usou um tom mais grave para falar com o amigo, que fez Meeks e Pitts darem risada. -Você aceita a mão de Neil Perry como seu legítimo esposo e promete juntar suas palavras e ideias para mudarem o mundo juntos?
Todd deu risada da referência, lembrando claramente de Keating ter usado essa fala em uma de suas primeiras aulas.
— Carpe diem! – respondeu, olhando com tanta pureza para seu amado Neil Perry que em seus pensamentos, mais ninguém estava ali na caverna. Só ele e Neil, casando oficialmente e esquecendo de seus problemas, de seus pais, de Nolan, Hager e de Hell-ton. Somente ele e Neil.
Charlie fechou o livro que segurava para fingir estar lendo os dizeres da cerimônia.
— Agora, vamos registrar a união de vocês.
Os dead poets se entreolharam, perguntando-se o que amigo estaria tramando agora. Nuwanda não esperou ninguém perguntar, apenas sacou o estilete de seu bolso e virou-se de frente para a parede de pedra, começando a rabiscar algo enquanto o restante dos amigos tentava espiar acima de seu ombro.
Quando Charlie se afastou, a mensagem esculpida em pedra se revelou para todo mundo ver:
Todd Anderson e Neil Perry
19 de novembro de 1959
Os donos dos nomes escritos na parede se olharam. Charlie os surpreendera de novo.
— Sendo assim, os noivos podem se beijar.
Neil riu, sendo tomando por um momento pelo misto de graça que achava de toda aquela cerimônia improvisada, timidez ao pensar que beijaria Todd na frente de seus amigos, felicidade por estar vivendo um momento como aquele diante de seu amado namorado (e agora esposo, pelo menos nos encontros dos oetas) e também um pingo amargura, por querer que aquilo fosse real.
O filho único dos Perry afastou o pensamento negativo de sua mente e encarou Todd, que olhava para ele com nada menos que o misto de paixão e alegria transmitido pelo brilho de seus olhos. Neil segurou delicadamente o rosto de Todd e o beijou sem muita cerimônia.
O símbolo de afeto foi recebido por um alto barulho de aplausos, gritos e YAWPs de seus colegas enlouquecidos com a cerimônia.
Neil afastou seus lábios de Todd, mas manteve seu rosto colado ao do namorado.
— Eu te amo, Todd – sussurrou.
— Eu também te amo, Neil.
Charlie começou a bater palmas com o objetivo de silenciar a tamanha algazarra que se formara dentro da caverna. Knox, Pitts, Meeks e Cameron ficaram em silêncio e olharam para o amigo, prestando atenção no que iria dizer.
— Beleza, cerimônia realizada – declarou Nuwanda. – Agora vamos para a melhor parte: a festa. Meeks, você trouxe o rádio?
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