e então cantarei que é passado o tempo do amor

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Quando já houve tantos cumprimentos e despedidas, eles, como nós, querem que tudo isso acabe.

Doris Lessing.

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Há um quê de solidão amargando a minha boca agora, mesmo que eu esteja mais acompanhado do que jamais me lembro. É claro, claríssimo como o sol — algo deu errado, em algum momento, mas de algum jeito eu sei que minha cabeça está confusa (em algum grau), mas ao mesmo tempo eu não compreendo. (suspiro) Eu lembro que Jeanne disse pra mim, semana passada — mas qual é afinal a medida do tempo quando tudo já se perdeu? —, ou algo que soa como a semana passada, que iria viajar, ficar uns dias foras. Visitar Arthur na Inglaterra. Ah, Arthur! Pobre Arthur. Pobre de mim, que fiquei aqui—

Eu bato os dedos de forma ritmada, um padrão de três, na minha perna — e um dois três começo outra vez e um dois três um dois três um dois três — esperando que a mulher vestida toda de branco apareça na minha porta. Ela demora algum tempo, mas eu não sei mais me localizar no mundo. Ela chega, eventualmente, e seu sorriso amarga. Tudo amarga, ultimamente, até um doce que me deram esses dias, que dias?, amargava minha língua e se espalhava, esôfago laringe tudo se tornando um borrão cor de café de solidão amarga.

(uma pausa, uma longa, longa pausa)

O que acontece quando se é um país farto de si mesmo? Onde é que a gente pode trocar de motivos — onde é que a gente pode trocar de história? Durma, Francis, tudo isso estará melhor de manhã... Não estará melhor de manhã, não estará não estará, e você sabe por quê? Nunca estará melhor porque de manhã eu ainda vou ser eu, eu ainda habitarei meu corpo e governarei — ou algo perto, perto — minha cabeça e eu só estou

muito

farto

(há algo na expressão que faz a enfermeira dar um passo para trás sempre que entra naquele quarto — 202)

Jeanne, meu amor, e então Arthur — minha luz do sol encoberta pelas nuvens de Londres. Ambos foram embora, me deixaram aqui, sozinho sempre sozinho. Sempre, sempre, sempre, semp—

(sono)

Faz horas que estou acordado, disseram-me. Ando em círculos, continuamente, obsessivamente, eu. não. consigo. parar. Arthur deixou-me um bilhete. Tenho certeza que foi Arthur, o bilhete, tenho quase certeza que cheira a Earl Gray. Jeanne também me deixou algo, uma rosa vermelha com perfume de fogo, labaredas em chamas— Redundante, redundante. O cheiro fétido de morte.

Ergo-me e então caio, ergo-me e caio, Francis Bonnefoy, França, Grande Nação, ó Pátria Mãe! Me perco e me encontro e, em algum grau, eu sei que há algo errado comigo. As feridas que aparecem e somem, ininterruptas — há algo de quente, escuro e triste na sensação contínua de morrer.

Eu me sinto falecer mas sempre acordo na parte que finalmente morro. Enfim, enfim! Eu me consolo que talvez, em outra realidade, eu tenha vivido a vida que vivi aqui, até a parte onde tudo se torna borrão, uma realidade onde a Morte deixa de soprar e, então— Toca.

(solidão)

Cuspo sangue imaginário e nele tem algo de azul. Eu me lembro da Rainha doce e tão, tão, brilhante, vestidos cheios de fitas que caem e caem e seu sorriso maquiado, seus lábios vermelhos e seus olhos oblíquos, azuis; tem tempo que eu não a vejo, minha resplandecente Rainha. Ela parecia tristonha, eu me lembro vagamente, olheiras em sua pele de marfim, suas crianças agarradas a saia do seu vestido — simples, finalmente, parecendo a menina que chegou e não a Mulher-Rainha que se tornou —, e as crianças, confusas, assustadas, mamãe, mamãe!

JEANNE

ARTHUR

MARIE

Algo borbulha dentro de mim, mas borbulha quieto, como fonte termal, e explode! Explode!

Estou me acabando, sumindo, desaparecendo, mas não é súbito — é devagar, como adormecer com febre.

Eu sinto o amargor na minha boca, e Marie sorri e rodopia e rodopia e desaparece nos corredores, seus cabelos loiros esvoaçando, volte aqui, minha Rainha, volte aqui...! Arthur toma seu chá e fuma um charuto, na janela, imóvel debaixo do sol, como planta fazendo fotossíntese. Ele me olha e então sorri. Jeanne se perde infinitamente nas escadarias, na memória, o cheiro de chama e fogo e queima, queima, queimem a bruxa!

Queimem a bruxa, murmuro febrilmente, queimem a bruxa e queimem-me também...

(marie, marie, marie) (jeanne, enfim!) (ah arthur mon amour você está tão calado)

(resolução — tome seus remédios — mas uma Nação, uma Nação não—)

Pisco languidamente e cabelos loiros em cachos, loiros lisos, negros e flamejantes, dançam em frente aos meus olhos—

em algum lugar existe uma realidade onde vivi as mesmas coisas que vivi aqui, mas onde queimo na pira, tenho minha cabeça decapitada, e adormeço sob a chuva de londres — e a amargura e a solidão me abandonam, enfim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!