café preto
1 café preto
Notas iniciais
Rosana já estava ficando enjoada daquele cheiro de bolo recém-saído do forno. Já estava ficando enjoada daquelas calçadas cor-de-areia que pareciam estar sempre molhadas. Já estava ficando enjoada dessas intermináveis pausas pro almoço. Já estava, acima de tudo, ficando enjoada de estar ficando enjoada.
Ainda vai levar um tempo até que ela se acostume. Fazem 3 semanas que está na cidade mas só começara a trabalhar essa segunda, e todo dia era o mesmo ritual que no começo parecia uma novidade que talvez pudesse ser até um pouco interessante, já que antes provavelmente ela nunca tinha almoçado fora mais que 5 vezes na vida (não, sério, Rosana é apaixonada pela própia comida e poderia passar o dia ou mesmo a semana inteira cozinhando se possível, é difícil convencê-la de que em certas ocasiões o melhor mesmo é sair de casa e procurar um restaurante), mas agora, depois de 5 dias seguidos de caminhada-rápida-até-aquela-padaria-no-começo-da-rua-pra-almoçar-e-matar-o-tempo, essa rotina está deixando-a melancólica.
A pausa pro almoço na clínica que ela trabalha dura 50 minutos. Generosa, até demais. São 5 minutos batendo perna, 2 minutos pra escolher um sanduíche pronto (e frio) que ficam o dia todo na vitrine e um suco de caixinha (porque sabe: não tem tempo pra prato executivo, que demora pra ser preparado, e nem pra self-service porque de qualquer forma ela demora mais ainda para comer), são uns 15 minutos pra terminar o almoço e para voltar, bem, mais 5 minutos, mas entre esses dois últimos sobram 22 minutos que ela mata sentada na mesa, na companhia do prato vazio, pensando (nesses últimos dois dias, niilisticamente) em qualquer coisa e gradativamente enjoando-se mais da vida.
Quando ela volta ao trabalho esse tédio ocioso some, ela gosta de entreter-se com qualquer tarefa, por menor que seja, e assim sente-se útil, mas quando finalmente está em casa só consegue pensar em como nada está acontendo, e em como de certa maneira, gostaria que algo acontecesse, um algo que fizesse valer o dia, naqueles inúteis 22 minutos.
“Eu sei que isso é uma padaria, mas prescisam estar A TODO TEMPO assando bolos?” Rosana comeu o último pedaço do sanduíche de frango e ricota, e começou a odiar o ambiente, toda a idéia de padaria, na verdade.
“Essa gente devia estar almoçando em casa” e bebeu o resto do suco “ninguém devia ser obrigado a sentar nessas cadeiras de metal fria e comer essa comida sem gosto com esse suco sabor-não-importa-a-fruta-que-vem-estampada-na-embalagem-vai-ter-sempre-o-mesmo-gosto-de-perfume-comestível”
Estava sentindo-se frustrada como nunca. A nova cidade, o novo emprego, a nova vida, eram para ser parte do pacote de experiência única e renovadora que ela acreditara ter comprado, mas tudo parecia ainda mais deprimente do que quando estava casada.
Tudo fazia-a se sentir vazia, só queria que as férias chegassem logo para poder ir visitar a mãe e as tias.
Mas lembrou-se então do que fazia quando estava na escola e era aluna nova no colégio: Observava (passava o primeiro dia e às vezes até o segundo analisando todo mundo. Quem é amigo de quem, ondem sentam, como riem e porquê, que fazem quando não tem ninguém olhando, como tratam uns aos outros) e então agia (tentava fazer amizade com aqueles que não conversavam muito, os que não tinham nenhum amigo, ou no mínimo aqueles que não debochavam tanto dos outros).
Mas veja bem, não é como se Rosana já não estivesse fazendo isso, ou pelo menos um terço disso. Claro que ela vinha observando todo mundo: Tinha o homem do caixa que parecia estar sempre pensando em como provavelmente é bom demais para esse emprego, a menina magrela que sempre vinha comprar pão às 1 da tarde e sempre aparentava ter acabado de acordar, o contraste entre os seios das duas únicas garçonetes (uma com os maiores peitos que ela já tinha visto e a outra que mal os tinha), a menina nervosinha do copão de café, o cara estranho que sempre falava alto ao telefone com a esposa...
A menina nervosinha do copão de café
Hoje, estava sentada na mesa ao lado de Rosana, com uma grande chícara de café preto (sempre pedia a mesma coisa).
“De longe o ser mais interessante a ser observado por aqui” ela tinha castanhos, longos e ondulados cabelos, sempre impecáveis (quanto tempo levava para arrumá-los?), era baixinha e tinha a maior cara de boneca.
“Ora, ótimo, agora o foco é analisar a garota do cafézão preto”
Ela não nunca parecia estar muito confortável, mexia bastante no celular e nunca terminava seu pedido.
“E, sinceramente, quem precisa dessa quantidade toda de café puro em horário de almoço?” a menina nunca comia nada “o intestino dela vai desintegrar”
Então, a garota da mesa ao lado de repente tornara-se algo muito interessante, e parecia ter sido o tipo de aluna que não conversava, nem debochava dos outros e nem tinha amigos.
“Nossa, eu podia muito, tipo, só chegar lá e falar com ela” e sentiu um frio na barriga “mas isso aqui não é um colégio, nem somos crianças”
...
Rosana passou o resto do tempo em que estava lá observando-a, ficou encantada com seus sapatos e resolveu tentar discretamente bater uma foto deles para tentar encontrá-los depois.
Ela pegou o celular e viu que seu horário de almoço havia acabado à 15 minutos.
. . .
Era sábado, e nos sábados Rosana costumava acordar às 8 e preparar um café da manhã assustadoramente gigante, demorando horas à preparar e comer, o que a fazia terminar tarde e a deixava sem fome na hora da refeição seguinte, essa que convenientemente demorava mais ainda para ser cozinhada, quando o almoço fica finalmente pronto (numas 4 da tarde), o apetite dela já estava de volta.
Só que nesse sabado ela não quis cozinhar.
Por algum motivo, Rosana decidiu que o melhor a fazer era sair de casa e procurar um restaurante.
Ok, mentira.
“Algum motivo” seria na verdade a esperança de encontrar-se com a menina do café, e ela não ira “procurar” nada porque “um restaurante” como você já deduziu seria a padaria no começo da rua.
Ela ficou intrigada com a menina. E mais ainda com o fato de que ela a havia feito voltar ao trabalho atrasada.
“Acho que realmente gostei daqueles sapatos. Ou talvez tenha ficado com raiva do cabelo dela, quer dizer, os meus fios não funcionam assim! Parece que foram desenhados num estilo cartoon. 2D” ela pensava enquanto lentamente caminhava pela calçada úmida e sem-graça.
Que ia dizer pra ela quando a visse? E se a visse. Rosana não sabe se ela também aparece por lá aos sabados. Não sabe de nada dela. Não sabe de nada.
“Vai pensar que eu sou maluca” e tropeçou no próprio pé.
“Com razão”
Parou um pouco de andar e tentou ensaiar uma apresentação boa.
“Oi! Você não me conhece e eu não te conheço mas aquelas sapatilhas que tu estava usando ontem eram tudo! E qual é a do seu cabelo, menina?”
“Ei! Oi! Tem alguma coisa te pertubando? Eu venho te observado esses dias e você sempre parece tão nervosa, tem alguma coisa a ver com esse celular que você tanto olha e abaixa, olha e abaixa?”
“Oi, posso sentar aqui? Eu sei que pareço inconveniente, e sou, então me desculpa, mas você é tão adorável que me deixou doida pra falar com você. Você quer falar comigo? Qual seu nome? Você é daqui? Será que por acaso a gente não podia fazer alguma coisa um dia desses, por favor diz que sim, eu estou nessa cidade a quase um mês e não fiz nada além de trabalhar, ir ao supermercado, cozinhar e ver tv, e você é tão bonita e tem um cabelo tão mágico, por favor, me dá uma chance”
...
“Meu deus, garota, sinceramente, pra quê tanto café?”
Nada era bom. Nada justificaria a aproximação inaceitável.
“Ora, inaceitável é uma palavra muito forte, não tem nenhuma lei que me proiba de tentar interagir do nada”
Louca. Totalmente sem noção ou bom senso. Era isso o que ela pensaria de Rosana.
Pois que pensasse.
A menina do copão do café tinha um cabelo tão insano e um rosto tão extremamente gracinha que não parecia ser possível olhar pra ela e decidir que a melhor coisa a fazer é deixá-la pra lá.
Então se decidiu e voltou a caminhar.
Incrível, ela havia reparado nela a semana toda, mas só ontem se dispôs à tentar lê-la, e acabou ficando interessada por completo. Era isso. Se a garota estivesse lá, falaria com ela.
Simplesmente porque nada realmente novo havia acontecido nesses últimos meses. A cidade nova não era assim tão diferente da que ela morava. O emprego também não. A única diferença é que Rosana agora estava finalmente divorciada e por conta própia, não que ter total controle de si seja uma coisa ruim, só não parece ser suficiente. Ela precisa preencher-se com algo novo. Uma ocupação nova. Um alguém novo. E por mais que provavelmente não estivesse prestes a se preencher com uma estranha qualquer que vira numa padaria qualquer, convenceu-se de que a aproximação impulsional era um começo, um progresso, queria dizer que ela estava disposta à recomeçar.
Chegando, esqueceu de cumprimentar a garçonete, como vinha fazendo desde a primeira vez que fora lá, seus olhos correram por todo o ambiente. Procurando, procurando...
Puta que pariu!
Ela estava lá!
De jeito nenhum que era o que Rosana esperava. Não estava contando muito com isso, pensou que na melhor das hipóteses ia ter de esperar por ela até a hora do almoço. O coração começou a bater mais forte e a sensação era de perigo.
Sim. Perigo! Você está prestes a fazer uma coisa tola!
Sem pensar nem um pouco no que ia fazer, sem saber o que ia dizer, ou como estavam suas roupas, seus movimentos, Rosana ia em direção à mesa da garota, que lia o caradápio, indicando que ainda não havia decidido o que comer.
Se é que ela ingeria alguma outra coisa se não metades de xícaras de café.
Não prestou muita atenção às expreções dela quando se aproximou.
Rosana apoiou as mãos um tanto trêmulas em uma das cadeiras.
“Você é tão baixinha e fofinha, e você sempre pede um xicrona de café preto todo dia mas você fica fazendo careta enquanto bebe e nunca vi você terminar, está tentando parecer mais adulta ou alguma coisa assim?”
FIM (ou é?)
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