astrologus
1 I
Espantada, Lívia acabara de descobrir que tudo o que dizia tornava-se real. Logo agora que a lua estava em touro, animal de olhos pequenos e fronte colérica. Signo de terra sob efeito da intervenção branda do satélite.
“A lua está em touro”, ela lhe disse, mas ele não respondeu. Caíra no sono e o cabelo lhe caíra sobre a testa, feito criança. Achou-se sozinha, pensou em acordá-lo, porém desistiu ao notar que ele murmurava e, portanto, provavelmente estava sonhando.
Foi uma boa ideia dormir na varanda. Arrastaram um colchão de solteiro, cobriram-no com lençóis alvejados e novos, fizeram chá de sachê, falaram de outra coisa que não fossem caqueiros, contas, papeladas, parentes, doenças e sofás, tri-vi-a-li-da-des, ela ria. E lhe agradava a memória de outros verões igualmente quentes gastos naquela mesma varanda.
Ele caíra no sono, sim, feito criança. Achou-se sozinha, mas na cidade nunca havia silêncio. Às três da manhã ainda rodavam as sirenes da polícia, o violão ainda resistia no bar acompanhando pela voz de um bêbado, o vizinho fumava com o rádio ligado em volume baixo na varanda de cima. Tocava música clássica, talvez Bach, e o cheiro de cigarro barato impregnava-se nas suas roupas e nas plantas. Ás vezes distinguia o som de uns grilos ou de uma coruja.
E também havia o touro. Bicho tão desejoso de sangue, de corpo tão largo, cuja força era logo arrebatada pelo brio rubro de uns certos olhos castanhos.
Lívia inclinou-se para o lado, debruçando-se sobre o corpo dele. Sua mão sobrevoou-lhe o peito como uma libélula riscando um voo cego n'água, tentando acompanhar o movimento de subida e descida provocado pela sua respiração. Mas, no entanto, ela não podia precisar onde ficava o coração dele.
Aproximou-se muito de seu rosto e tendo-o tão perto lembrou-se de uma fotografia. O mesmo arqueio sutil dos lábios que ele fazia — ela prometendo a si mesma que um dia captaria a vibração da lua invadindo touro, derrubando-o com sua luz fria e pálida, arrebentando-lhe os nervos e veias como um sonífero. Antes que urano entrasse em escorpião, ela sabia.
Foi nesse instante que, espantada, descobriu que tudo o que dizia tornava-se real. Não era magia, era uma outra coisa incompreensível, um dom que supôs possuir desde a infância e somente percebido naquele instante. Esticou-se ao ouvido dele e com a boca cheia da espuma da maré de lua cheia, disse-lhe mansamente:
— Haverá um silêncio. Um silêncio grande e distante…
Ele despertou sobressaltado. Sonhara com a superfície gasosa e fria de um planeta longínquo boiando na escuridão sem fundo do espaço. Eram os dois parte de sua órbita incalculável e por ela vagavam noite adentro. Não havia sol, apenas invernos. Antes que pudesse contá-la sobre o sonho, Lívia ergueu-se assombrada e os braços dele não conseguiram outra vez alcançá-la. E viu-se de repente que estavam em Netuno. Ou quem sabe em Plutão.
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