as cinco leis do paraíso.

1 esse mundo não vale o mundo, meu bem.


Notas iniciais
Para a Rayssa, porque a vida termina em arco íris, até nos lugares mais frios.

as cinco leis do paraíso.

porque para nós a vida se resumia em cinco, nosso número de ouro.

(para a Rayssa, porque a vida termina em arco íris, mesmo nos lugares mais frios.)

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Nevava, e eu imaginava que a qualquer momento ela -a neve, seria capaz de invadir o quarto através da janela frágil, a que que inutilmente lutava contra o vento forte e os pequenos flocos violentos, e manchar o chão de branco. Branco gritante, pacífico e detestável. O cheiro de cigarro era a única coisa presente naquele cômodo pequeno do apartamento. Você amava cigarros. Eu detestava até o cheiro.

Eu tentei, tentei inúmeras vezes aprender a fumar, gostar de fumar, e você até tentou me ensinar, porque fumar é uma arte. Uma arte qual eu definitivamente não domino, a não ser que engasgar e queimar a ponta dos dedos consigam produzir o mais belo quadro pintado a óleo dessa arte. Mas tinha algo de gracioso, de legal, no jeito que você fumava. Legal do jeito que me fazia querer rir, porque eu nunca daria conta de fumar, e você fazia parecer tão normal.

E quando você me beijou você tinha gosto de cigarro, você tinha o péssimo gosto de cigarro. Eu tinha gosto de chocolates. E esse foi o momento número um.


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Você sorriu, e isso parecia tão lindo, eu sempre amei o jeito que você sorria, o jeito que você sorri, tão espontâneo. Tão para mim. Você puxou a minha mão, aos poucos, e nós começamos a dançar, entre pisões e reclamações, mas dançamos. E tocava O Teatro Mágico, porque você amava, ama, MPB, e eu também. E era certo, porque era poesia, e poesia é perfeita em todas as suas formas. É a metamorfosia, é a matemática, é a vida, e é as pequenas coisas. Ela é nós.

Você segurava um cigarro entre os dedos e o seu hálito era café, forte e amargo. E você inclinou de vagar, foi só um roçar de lábios, e você tinha gosto de café amargo. O meu gosto era wisky. Esse foi o momento número dois.


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Você não tinha a menor ideia do que queria fazer de faculdade e a sua opção segura era publicidade. E foi o que você fez, mas você parecia detestar isso. E detestava mesmo. Eu soube disse quando você se jogou no sofá do meu lado e tacou todas aquelas folhas para o alto, não é como se o nosso apartamento fosse organizado, de qualquer forma. Eu fazia engenharia, você publicidade, e isso não era certo. "Fotografia ou música", eu disse, e você sabia que eu largaria a faculdade. "Fotografia", e você também largaria.

E o nosso apartamento virou uma mistura de cores e formas, de fotos reveladas grudadas nas paredes, e pinturas falsificadas despenduradas, despenduradas a cada centímetro desocupado que haviamos achado para fazê-lo, porque o nosso emprego era uma merda e não pagava o suficiente para se ter os originais. E não se vende a Mona Lisa original. Pastas de papéis com notas grafadas se estendiam por todo o apartamento, e ele cheirava a cigarro, cheirava a wisky e cheirava a sexo.

E parecia certo. Parecia feito para nós. E esse foi o momento número três.


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Eu definitivamente aprenderia a tocar O Fantasma da Ópera no violino, não é como se estivesse indo muito bem com isso, na verdade as notas saiam estridentes e você brincava que a qualquer momento não teríamos mais taças de vidro para se quebrar. Mas eu conseguiria, você sabia disso.

Eu te acordei seis horas da manhã e o meu rosto deveria estar parecendo a de alguém que planeja matar o presidente da maior potência atual e esconder o corpo no jardim vizinho, mas eu havia conseguido. Havia mesmo. E você disse um parabéns de quem ainda não acordou e me mandou fechar as cortinas e tudo que eu conseguia pensar é que eu havia me matado para aprender a tocar aquela música e você deveria, ao menos, me fazer um bolo ou um chocolate quente, mesmo que você fosse um desastre na cozinha.

Você não concordava, e me puxou pelos tornozelos quando eu subi em cima da cama, pronta para pular em cima de você e obrigá-la a levantar. E o quarto voltou a cheirar a sexo, e você me desejou parabéns pedindo uma pizza, porque você era uma negação em frente a um fogão. E esse foi o momento número quatro.


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Eu detestava acordar cedo, sempre detestei, então você era responsável por me acordar, querendo você ou não. Me acordar mesmo que fosse obrigada a tacar água gelada em cima de mim e depois se virar para que eu não morresse de hipotermia. Mas você não fazia isso, ficava minutos me balançando de um lado pro outro. "Esse mundo não vale o mundo, meu bem.", e eu ri, seu hálito fazia cócegas. E você também riu e se tacou na cama do meu lado enquanto eu te puxava para baixo da coberta, o nosso aquecedor tinha quebrado e nós não tínhamos dinheiro para coisas fúteis como ar quente.

Você virou e ficou me olhando, minutos ou segundos, talvez só milésimos de segundos, e nós sorrimos. E esse foi o momento número cinco. Foi o último, é o que eu guardo com mais cuidado. Nele tudo vale a pena.

Porque você vale a pena.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!