Notas iniciais
Todo nível 1 de um jogo era fácil. Apenas para mostrar como tudo funcionava, aprender os controles e as regras. Tão simples que nem todo mundo dá a devida importância. Afinal, sem o nível 1, não há início do aprendizado. Não há início de nada.
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Tinha se tornado um jogo entre eles. Sempre atentos, tentando flagrar o outro encarando.
Nico claramente tinha a dianteira, sempre conseguindo desviar o olhar milésimos de segundos antes de Will virar a cabeça. Porém, grande parte das vezes, quando Nico se virava, Will já estava olhando pra ele.
Não podia não ser intencional. Não com o jeito que o rosto de Will se iluminava e o mais afetuoso dos sorrisos se espalhava por sua face, sorriso esse que, sob hipótese alguma, fazia Nico corar. A vermelhidão em sua pele era por causa do sol ingrato que nunca dava trégua.
Nenhum dos dois sabia exatamente quando começara. Talvez imediatamente depois da batalha contra Gaia? Ou durante os reparos nas cabines? Era difícil afirmar com certeza. Às vezes achavam que estavam nisso desde sempre, ambos muito inseguros de terminar de cruzar aquela distância, dar o passo definitivo.
Nico já estava mais do que acostumado a se privar das coisas que poderiam fazê-lo feliz simplesmente por ter desaprendido a viver com o sentimento. Porém... algumas vezes ele se pegava pensando... “e se?”
Se esses pensamentos apareciam logo quando Will surgia em sua linha de visão, Nico clamaria ser mera coincidência.
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Will não estava impressionado e nem satisfeito quando Nico entrou na enfermaria ostentando vários hematomas e arranhões e um tornozelo torcido. De braços cruzados, seu olhar era tão aborrecido que Nico se ouviu dizendo:
— Eu posso explicar.
— Pode? — Will arqueou uma sobrancelha, o resto de sua expressão inalterada.
— Houve esse pequeno problema nos Campos de Asfódelos e...
— Local este para o qual você foi viajando nas sombras, algo que eu fortemente recomendei para você não fazer em nenhum futuro próximo para que você não virasse um resquício de ser humano? — Will riu sem humor algum.
Nico revirou os olhos, mas antes que pudesse retrucar, Will já havia se virado e apontado para uma das camas.
— Você não sai daqui até segunda ordem, Di Angelo.
Nico poderia ter discutido, mas então Will voltou com bandagens e ambrosia, e tratou seus ferimentos com tanto cuidado que não havia realmente motivo para isso. Então ele ficou exatamente onde estava, onde podia ver o semblante concentrado, contar as sardas que se espalhavam pela pele bronzeada e talvez começar a se acostumar com aquela sensação engraçada na boca de seu estômago.
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Não deveria ter demorado tanto para Nico admitir que gostava de Will. Era bem óbvio desde o começo, mas ele era habitante eremita do mundo da negação.
— Você... me chamou pra sair? — Nico não queria soar tão embasbacado, mas a vida não é justa.
Will corou profundamente e começou a bater a ponta dos dedos das duas mãos uns nos outros.
— Bem... sim. Quero dizer... — Nico não acreditava que tinha vivido para ver o dia em que Will estaria tão envergonhado. — Não precisa ser um encontro, se não quiser. Eu realmente gosto de você e queria...
— Eu também. — Nico se via incapaz de desviar os olhos, mesmo que seu próprio embaraço estivesse lhe dando vontade de uma viagem só de ida para a Austrália.
O sorriso de Will foi tão aliviado e completamente radiante que Nico só pode classificar como injusto. Ele não tinha a menor chance.
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Nico não tinha se preparado para aquela situação.
Ele tinha se preparado para frases gaguejadas, faces coradas e silêncios constrangedores; Nico não tinha contemplado a possibilidade de ficar tão tranquilo ao lado de uma pessoa desde a morte de Bianca.
O fato era: era fácil conversar com Will. Nico não se sentia invadido, por que Will escutava como se cada palavra fosse a coisa mais importante do mundo. Já havia passado o tempo que Nico não sabia lidar com a intensidade do olhar sobre si. Porém, ainda lhe surpreendia querer ser olhado daquela forma.
Eles tinham caído em um silêncio confortável depois de uma rodada de risadas que Nico tinha esquecido que era capaz. Estavam deitados no gramado do Central Park, o sol se pondo a distância, virados de forma a continuarem se encarando quando Will colocou a mão suavemente na face de Nico e de repente era demais.
Will estava ali, sorrindo tão abertamente que Nico sentiu algo subir pelo seu peito e se acomodar em sua garganta e não havia nada que o impedisse de avançar alguns centímetros e finalmente beijar o garoto a sua frente e aquela realidade o atingiu de tal forma, que ele não pensou até que seus lábios estivessem firmemente colados aos de Will. E não era nada demais, mas ao mesmo tempo era, porque Nico finalmente se sentia bem o suficiente para beijar um garoto que não era qualquer garoto, era Will e aquele sentimento em sua garganta não ia embora e Nico achou que era a melhor forma de sufocamento que já havia sentido. A mão de Will estava em seu cabelo e ali ficou quando se afastaram minimamente, suas testas ainda coladas.
— Finalmente — Will sussurrou.
— Finalmente — Nico concordou.
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