a Elvis

2 São Paulo - Avenida Paulista


Era um vestido vermelho desbotado, indiano, desses com a saia rodada na cintura, até os pés. Não tinha uma jaqueta de couro ou um topete e, ainda assim, era maravilhosa, tanto que se encolheu quando ela chegou perto. Elvis era alguns centímetros mais alta, deveria ser um tanto mais velha também, mas isso não era uma surpresa por conta da maturidade que demonstrava nas conversas. Ficaram por um tempo, uma de frente para a outra, sem saber o que dizer, naquele constrangimento momentâneo de primeiros encontros. Até que Elvis sorrisse mais abertamente.

— Oi... – voltou a cumprimentar, envolvendo-a em seus braços em seguida.

E assim ficaram por um tempo, curtindo o abraço uma da outra, matando uma saudade irreal que tinham do que nem mesmo conheciam até aquele momento. Elvis foi quem se afastou, delicadamente. Estendeu a mão para a outra.

— Luiza. Ou... Elvis...— riu baixo, recebendo um aperto forte na mão.

— Pode me chamar de Luna, se quiser. Mas, de verdade, o nome é Tamires.

E saber o nome verdadeiro uma da outra pareceu ser um grande passo. Como se, apenas agora, se conhecessem plenamente. Não faltava mais nada. Conheciam-se nos sentimentos, nos passatempos e tédios, nos sonhos e na bruta realidade. Agora estavam ali, frente a frente. Eram táteis.

Elvis continuava a sorrir, olhando brevemente para as pessoas na estação de metrô, naquele ritmo paulista acelerado, entrando e saindo da estação. Naquele momento estavam num mundo diferente, completamente novo, entre aquela realidade física e as expectativas superadas de estarem uma de frente para a outra.

Starbucks?

Starbucks!

Passaram a catraca e subiram as escadarias.

Lá em cima, destoaram do movimento. As pessoas desviavam, bufavam, quase trombavam com a normalidade de seus ritmos em meio a cidade grande. Precisavam se segurar uma na outra e, aproveitando o momento, Elvis entrelaçou os dedos aos dela, escondendo o sorriso por baixo dos cabelos em seu rosto. Luna não sabia para onde olhar. A arquitetura de cimento da Avenida Paulista que sempre a encantara ou a imagem completamente nova daquela moça que a carregava para, segundo ela, o seu lugar preferido.

Sentaram-se do lado de fora, de frente ao Vão do MASP. Pediram frappuccinos: churros e coockies & cream. E por um tempo aquele silêncio envergonhado de quem acaba de se conhecer. Mas não era mesmo uma verdade. Há quanto tempo conversavam pela internet?

— Fiquei com medo de me atrasar – Elvis puxou assunto assim que os copos chegaram com seus nomes "fictícios" – Por causa da faculdade.

E bastou para a conversa fluir.

Elvis, vinte anos, estudante do segundo ano de Jornalismo. Morava próximo ao Metrô Santa Cruz, uma zona mais nobre da cidade, tinha algum dinheiro, resultado do recente trabalho que conseguira aos finais de semana. Jogava RPG desde os dezesseis anos, passando por plataformas diversas até encontrar-se no que chamavam de universo potteriano. Até encontra-la ali. Luna, dezessete anos, moradora da periferia da cidade. Nunca se sentira tão à vontade com uma pessoa.

Quando terminaram ali, caminharam pela grande Avenida Paulista, suas bancas de jornais e ruas cheias de carro. Elvis sentia sua mão ser apertada enquanto andavam e, olhando brevemente para Luna, não conteve o riso médio ao ver o brilho dos olhos finalmente rendidos à selva de pedra.

— Eu nunca vou me cansar desse lugar... – ouviu-a sussurrar um tempo depois.

— Vou te mostrar um ainda mais viciante – Elvis lhe respondeu, apressando os passos em seguida.

Consolação, Conjunto Nacional – Livraria Cultura. Quando Elvis soltou a mão dela, Luna manteve-se parada logo na entrada, observando o lugar de longe como se precisasse de permissão para entrar. Uma espécie de Paraíso de livros. Quando finalmente recobrou as forças, andou devagar por entre as prateleiras, surpreendendo-se com títulos que nunca antes ouvira falar, com títulos antigos de capas novas, com lançamentos e popularidade.

Não compraram nada naquele dia. Pegavam um título e outro, sentavam-se em meio às almofadas disponíveis na livraria, liam e compartilhavam a leitura. Luna um tempo depois tinha a cabeça recostada nos ombros de Elvis. Estava exausta.

Três e meia.

— Minha mãe disse que eu precisaria voltar cedo. Luz e Sé são estações lotadas demais em horário de pico... – explicou um tempo mais tarde, erguendo os olhos para a mais alta – Eu acho que preciso ir.

— Te acompanho para o metrô.

E, ainda mais devagar, caminharam de volta para a estação, as mãos ainda entrelaçadas. Talvez fosse a energia de São Paulo que sugasse as suas, o ritmo acelerado, todo aquele estresse entranhado no ar. Mas apesar de cansada – mesmo não tendo feito grandes coisas – ambas estavam felizes.

Passaram a catraca. Desceram a escada rolante. No meio da plataforma, esperaram para ver o primeiro metrô a chegar, já que iriam para caminhos diferentes. Frente a frente, permaneceram de mãos dadas. O primeiro, com sentido a Vila Prudente foi ignorado. Assim como o do outro lado da plataforma, com sentido a Vila Madalena.

E quando nenhuma delas desviou os olhos, as bochechas ficaram vermelhas. Precisavam separar-se. Abraçaram-se e, então, cada uma seguiu para um lado.

PARA: luna.love-notgood@gmail.com

DE: elvisandsuicide@gmail.com

ASSUNTO: Enfim, hoje!

Ei...

Precisamos trocar números de telefone, se me permite a ousadia rs.

Eu achei que, depois de findado o mistério, correríamos o risco de nos desiludirmos. Nos desencantarmos uma da outra, de deixarmos de lado esses e-mails bobos e seguirmos as nossas vidas. Confessor que era o meu maior medo e, por causa dele, protelei ao máximo conhece-la. Mas, ei! Prazer, Tamires... Sinto o quanto fui tonta prevendo desilusões. Você é maravilhosa e, depois de hoje, tenho vontade de conversar contigo pelo resto da minha vida.

Vamos marcar novamente?

Com amor,

E saudades...

Elvis.

Notas finais
Deixem feedbacks :) Eu não quero desistir do desafio, me ajudem a não desistir rs
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!