Zumbilândia - Matar ou Morrer.
27 Ela dá a vida para me salvar.
Notas iniciais
Kimberly
De manhã o meu despertado foi um certo ser de cabelos castanhos, olhos igualmente castanhos e que cantava sem parar a música We Are Young. Senti vontade de soca-lo até a morte, principalmente porque estava apenas de cueca.
–Justin, cala a boca! — falei, cobrindo minha cabeça com o edredom.
Ele continuava a cantar e ficava pulando na cama quase em cima de mim. Peguei o pé dele e segurei forte o fazendo cair enquanto ria.
–Que animação é essa, garoto?
–Se arruma logo, docinho.
DOCINHO? Eu juro que ainda vou matar Justin por me dar certos apelidos. Ele saiu do quarto cantando enquanto tocava uma guitarra imaginaria. Erika arrumou um par de roupa pra mim e fui tomar um banho. A água do banheiro estava tão gelada que eu tive que controlar um grito quando ela tocou meu corpo. Chuveiros são as coisas mais maravilhosas do mundo, você consegue pensar, cantar, tomar decisões, tudo debaixo de um chuveiro. Minha barriga roncou tão alto que eu tive que, contra vontade, finalizar o banho. Sai do banheiro e me vesti. Passei compacto para esconder as sardas e sai do quarto.
Encontrei Justin, Drake e Eleanor no restaurante da pousada. Um cheiro delicioso de pizza vinha da cozinha. Drake e Justin estavam conversando sobre algum jogo de vídeo game, Eleanor estava penteando o cabelo da sua boneca e Erika deveria estar na cozinha. Não conseguia encarar Eleanor, ela era uma garotinha tão frágil que imaginei como conseguiria se virar se deixássemos ela para trás.
–Kimberly.
Eu estava sentada naqueles bancos que ficam perto dos balcões de restaurante (n/a: espero que entendam o que eu quis dizer huehue), tive que olhar para baixo para ver quem me chamava. Eleanor estava ali, seus cabelos estavam levemente amarrados em um rabo-de-cavalo, estava usando roupas novas e parecia bem mais bonita depois de ter tomado um banho. Os olhos cor de mel brilhavam, o cabelo castanho parecia mais claro e sua pele — que era levemente bronzeada — estava com um aspecto mais limpo. Fiquei encarando Eleanor por segundos, até ela chamar meu nome de novo.
–O que você quer? — perguntei.
Ela fez um pouco de esforço e sentou-se em um banco ao meu lado. Seu olhar parecia triste e ela mexia na boneca sem parar, como se ficar ao meu lado fosse algo que a deixasse nervosa.
–Justin me disse que vocês vão ter que me deixar para trás porque vocês tem que achar um doutor. Justin me disse que ele tem a cura — ela disse.
Senti uma vontade de socar Justin, como ele conseguia dizer isso à uma criança que havia acabo de perder os pais?
–Bem, nós... Hã... Não vamos deixar você, Eleanor — ela olhou para mim, surpresa.
–Por que não? Eu sou um peso pra vocês.
Bem, ela era mesmo. Mas não iria conseguir deixa-la em qualquer lugar para morrer.
–Nós vamos dar um jeito, tudo bem? Só... Não pense nisso agora — tentei ser confiante, mas não deu muito certo.
Nós ficamos em silêncio por um tempo até que eu perguntei:
–Qual seu nome todo?
–Eleanor Collen — ela disse, passando a mão no cabelo da boneca.
–E qual é o nome da boneca?
–Meu pai disse que ela tem cara de Ele, uma abreviação do meu nome — ela sorriu.
–Ele — sorri. — Exótico.
Ela assentiu, rindo.
Antes que Eleanor pudesse dizer alguma coisa, Erika surgiu da cozinha segurando uma pizza que devia ter sido descongelada. Ela colocou em cima do balcão e nós atacamos a pizza.
–Não foi fácil achar um micro-ondas — Erika disse, de boca cheia. — Qual é a pousada que não tem um micro-ondas?
Nós rimos da cara de brava que Erika fez. Eleanor comia o seu pedaço de pizza calada, me perguntei no que ela estaria pensando. Eleanor era tão nova e pelo o que percebi já havia passado por poucas e boas.
–Kimberly, você acha que eu sou corajosa? Quer dizer, você acha que eu posso ser útil para algo? — ela me encarou.
Drake, Erika e Justin me encararam, sabia que eles estavam com o receio de que eu falasse algo que deixasse Eleanor em depressão pro resto da vida.
–Bem, Eleanor, todos tem um pouco de coragem dentro de si, com você não é diferente — baguncei seus cabelos.
–Mas eu quero ser útil para esse grupo. Não quero que vocês me deixem sozinha.
–Nós não vamos deixar você. Esqueça isso — falei e ela deu um sorriso. — Agora, come a sua pizza se não eu como.
Ela riu e voltou a comer.
Não conseguia parar de pensar em como iriamos atrás do doutor com Eleanor, ela poderia estragar tudo. Antes que eu pudesse formular uma estratégia para deixar Eleanor para trás, mas em segurança, a porta da cozinha foi aberta e dela surgiu um monte de zumbis.
Nós cinco levantamos dos bancos em um pulo e começamos a correr. Drake, Erika e Justin não tinham muita munição então a única que podia fazer alguma coisa era eu.
–Vão pela escada de incêndio. Eu encontro vocês daqui a pouco — falei.
–Não, Kimberly. Você vai se machucar — Eleanor tentou vir até mim, mas Justin puxou ela até a escada de incêndio.
Legal, era só eu e uns quinhentos zumbis.
–x-
Eu já não estava mais aguentando matar zumbis. Meus braços estavam gritando de dor e eu me sentia mais cansada do que nunca. Não tinha mais alternativa a não ser correr para a escada de incêndio, minhas pernas já estavam doendo também, não conseguia entender porque eu estava tão cansada esses dias.
Disparei pela escada de incêndio, estava rezando para que os outros tivessem conseguido achar um lugar seguro para ficar. Conseguia escutar os zumbis correndo atrás de mim e se atropelando enquanto desciam as escadas. Sentia minha pulsação nos meus ouvidos, minha respiração estava acelerada e estava banhada em suor. Quando cheguei ao lado de fora, a luz do sol me cegou, escutei alguns gritos e vi que eram Justin, Drake, Erika e Eleanor acenando para mim.
O carro estava do outro lado do prédio. As ruas estavam infestadas de zumbis. Nossa única solução era ir por cima dos prédios, o que não foi uma ideia muito boa. Saímos correndo, mas é claro, fomos perseguidos, e por muitos zumbis. Demos a volta na pousada e encontrei uma escada que levava para o telhado.
–Ali, ali — falei, apontando para um beco. — Entrem no beco e subam a escada.
Drake, Erika e Justin correram até lá, mas Eleanor ficou ao meu lado. Ela colocou a boneca de pano no cós da calça jeans que usava e pegou um pedaço de pau que achou no chão. É, parece que alguém estava crescendo.
–Atrás de você, Kimberly! — Drake gritou e eu virei quando um zumbi estava prestes a me morder. O que mais me chocou foi o fato de Eleanor ter acertado o pedaço de pau que ela segurava na barriga dele, eu apenas enfiei minha katana em sua cabeça.
–Vocês conseguem ser mais rápidos aí? — Eleanor perguntou. — Tá difícil segurar os zumbis aqui!
Drake começou a ajudar Justin a puxar a escada. Eu e Elanor estávamos empurrando uma lata de lixo imensa para que os zumbis não passassem pelo beco, porém isso não os seguraria por muito tempo.
–Essa escada tá emperrada! — Justin disse e então Erika foi ajuda-los, e, finalmente, a escada desceu. Drake subiu e Justin e Erika subiram atrás.
–Deixem a lata de lixo e saiam correndo para subir a escada — Justin disse do topo da escada.
–Vamos lá, Eleanor — eu a encarei e ela assentiu. — 1, 2, 3 e... Já!
Nós largamos a lixeira e disparamos até a escada, coloquei Eleanor na minha frente e ela subiu, os zumbis já estavam correndo na minha direção. Eu comecei a subir, mas ainda estava muito embaixo.
–Rápido, Eleanor — falei.
Justin pegou na mão de Eleanor e a puxou. E eu consegui subir.
–Algum arranhão? Mordidas? — Drake perguntou, e eu e Eleanor respondemos que não.
Subimos mais uns sete lances de escada e chegamos ao teto do edifício, então começamos a pular de um edifício ao outro, eles era bem juntos, mas tínhamos que tomar cuidado, pois alguns telhados pareciam estar mais fracos e poderíamos cair. Estávamos tentando chegar no teto do estacionamento, mas estava um pouco longe. Depois de passarmos uns três prédios completamente colados um no outro, veio um com uns 5 metros de diferença entre um e outro. Percebi que era o teto do estacionamento, que droga!
–Temos que pular — Justin disse.
–Ah, sério? Pensei que íamos acampar até o prédio vir nos buscar — falei e ele revirou os olhos.
–Eu pulo primeiro — Erika disse. Ela pulou muito bem e conseguiu chegar ao telhado. –Quem vem agora? — Erika gritou do outro lado.
–Eu vou — Drake disse e depois deu um salto, mas tropeçou na parapeito e por pouco não caiu, Erika o ajudou a subir no telhado do estacionamento. –Tomem cuidado, vocês não vão querer cair — Drake disse e apontou para baixo, eu, Eleanor e Justin olhamos: estava cheio de zumbis, todos olhando e apontando para cima como se estivessem querendo nos pegar, e eles realmente queriam.
–Nossa, ver isso me deixou super calma, valeu Drake — falei. Ele deu de ombros.
–Eu pulo agora, depois vem você Eleanor e eu te ajudo — Justin disse e depois pulou. O pulo dele foi perfeito, ele parou ao lado de Erika e ainda caiu de pé.
Justin deu de ombros, rindo.
–Vem Eleanor, agora é você — Drake disse.
–Gente, eu... — comecei, mas fui interrompida.
A porta de incêndio do edifício que estávamos foi aberta e vários zumbis estavam se espremendo ali para conseguirem sair. Ah, qual é? Eu e Eleanor nos olhamos.
–Vamos Kimberly, você consegue vir com a Eleanor. A gente vai te ajudar! — Erika disse.
Meu Deus, eu não conseguia pular! Mas o pior é que eu preciso pular, ou é morte na certa.
–Kimberly, que merda, pega a Eleanor e pula isso de uma vez! — Justin disse.
Eu olhei para Eleanor, não ia conseguir pular e nós acabaríamos mortas.
–Eu... Eu não posso. Vá você — falei para ela.
Eleanor estava chorando e me abraçou.
–Esperava que quando eu crescesse fosse igual a você — Eleanor disse. — Mas acho que esse dia chegou.
–O que? — eu encarei ela. — Você não... Eleanor, você tem que pular!
Ela finalizou o abraço e limpou as lágrimas.
–Vá, Kimberly. Pule. Encontre o tal doutor, ache a cura, salve o mundo e faça a minha morte ter valido a pena — ela sorriu. Pegou a boneca que estava no cós da sua calça e colocou na minha mão. Eu apertei os dedos ao redor da boneca e funguei.
–Eleanor, NÃO! — eu puxei seu braço. — Eu disse que não íamos te deixar para trás.
Ela deu um sorriso fraco.
–Eu tenho que ficar para trás. Confio em você Kimberly, sei que você vai achar a cura e vai salvar as pessoas. Bem, boa sorte.
Meus olhos estavam cheios de lágrimas, puxei Eleanor para perto e dei um beijo em sua testa.
–Você é a garota mais corajosa que já conheci. Não vou me esquecer disso nunca. Eu vou achar a cura, prometo.
Ela assentiu.
–Adeus, Kimberly.
Eleanor pegou o pedaço de pau que achara na rua e correu na direção dos zumbis. Eu corri e pulei até o outro prédio, cai meio desajeitada no chão e Justin me ajudou a ficar de pé. Olhei para o outro prédio e vi Eleanor correndo de um lado para o outro gritando para que os zumbis a seguissem. Ela olhou para mim e sorriu, acenou e parou de correr. Eu corri até a ponta do prédio e comecei a gritar para que ela corresse, estava forçando a voz por causa do choro. Eleanor me encarou e gritou:
–Salve o mundo, Kimberly. Eu confio em você.
E então, a garotinha de olhos cor de mel se entregou aos zumbis.
–NÃO! — gritei. Mas já era tarde demais, ela já devia estar morta. Meu choro se tornou algo alto e até mesmo assustador. Justin me puxou para trás e me envolveu em um abraço, eu apertei a bonequinha de pano contra o peito e me deixei ser abraçada.
Eu nunca iria me esquecer daquela pequena garota de sete anos, de cabelos castanhos claros e olhos cor de mel, que havia sido corajosa o suficiente para dar a vida para salvar quatro pessoas que nem conhecia direito, mas confiava.
Eleanor Collen, eu vou achar a cura! Não vou desaponta-la!
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