Zumbilândia - Matar ou Morrer.
40 Descoberta e carro novo.
Notas iniciais
Kimberly
Nós estávamos com sérios problemas. Kate torceu o pé enquanto corria, Jason e Jasmyn estavam cansados e John e Lucy mal conseguiam andar, nós estávamos sem carro, a neve tinha aumentado e Washington ainda estava longe.
Enquanto caminhávamos avistei uma casa abandonada. Era uma casa simples, de madeira, mas serviria para descansarmos. Carreguei Jason e Justin carregou Jasmyn, entramos na casa, vimos se estava tudo limpo e sentamos nos sofás da sala. Dallas pegou um pano e dois pedaços de madeira para tentar imobilizar o pé de Kate. Como a neve tinha aumentado, o sol nem era mais visível. Percebi que Justin sentou o mais longe possível de mim, eu sabia o motivo, mas não estava a fim de conversar sobre isso. A morte de Austin foi um pouco demais para mim.
–O que nós vamos fazer agora? — Dallas perguntou.
–Temos que achar um carro — falei.
–Erika e eu podemos ir atrás de um — Drake disse. Erika assentiu.
–Não, eu vou. Descansem um pouco — falei.
Olhei para Justin e vi que ele já estava em pé, perto da porta, me esperando. Sua expressão era fechada, estava de braços cruzados e sua metralhadora HK416 pendia em seu ombro. Tirei minha katana da bainha, ela parecia incrivelmente pesada, levantei do sofá e deixei a mochila com os soros aos cuidados de Erika. Dallas deu um beijo em minha testa e Kate disse para termos cuidado.
Sai da casa com Justin atrás de mim. A neve estava tão forte que o dia tinha escurecido. Tudo estava tomado pela neve. Ajeitei meu casaco, respirei fundo e caminhei até a estrada.
–Ah, ótimo. Uma nevasca — Justin resmungou.
Justin caminhou ao meu lado, mas ninguém falou nada. A rua estava deserta e tudo estava em um silêncio profundo. Era um pouco melancólico ver que uma estrada que antes, nessa época do ano, era cheia de carros com famílias indo passar as férias em outro lugar agora estava vazia. Isso me fez lembra alguns anos antes de tudo acontecer. Dallas, eu, mamãe e papai íamos passar as férias de fim de ano na Califórnia, porém, por causa da neve, o carro ficou preso na estrada. Tivemos que nos hospedar em um motel até o amanhecer. E Dallas, na auge da puberdade, ficava fazendo piadinhas obscenas. O que rendia algumas risadas do papai e censuras da mamãe. Agora isso parecia tão distante.
As lágrimas que rolaram de meus olhos estavam quentes comparadas com minhas bochechas, o que me fez estremecer. Coloquei o capuz da minha jaqueta e continuei andando. Justin parecia tão perdido em passamentos quanto eu, então preferi não falar nada.
–Por que você beijou o Austin? — Justin perguntou, depois de muito tempo.
–Ele estava morrendo.
–Você ainda sentia algo por ele, não é?
Olhei para Justin. Seu rosto era uma máscara sombria. Ele parecia cansado e nervoso.
–Você ouviu tudo o que ele falou, Justin. Queria que eu fizesse o que?
–Só responde minha pergunta, Kimberly.
Revirei os olhos.
–Nós precisamos achar um carro!
–É, já imaginava que você não responderia.
Ele caminhou, afastando-se de mim.
–O que você quer que eu fale, Justin? — perguntei, fazendo-o parar. — Se eu falar que sentia algo você vai ficar com raiva de mim, mas se eu falar que não sentia você não vai acreditar. Nós estamos com problemas caso você ainda não tenha percebido, não é hora de ficar falando sobre o Austin.
Apressei o passo e passei na frente de Justin. Não olhei para trás, não queria ver seu rosto. Não tinha lógica nenhuma ele ficar com ciúmes de um cara morto. O que quer que fosse minha relação com Justin, eu estava com ele agora. Já tinha deixado de gostar de Austin há muito tempo.
Continuamos em silêncio, agora Justin caminhava atrás de mim. Até que avistei uma casa com a luz acessa. Olhei para Justin e nós caminhamos até a mesma. A casa não era muito grande, mas estava com todas as luzes acesas, o que me deixou confusa. Ou os donos da casa tinham morrido ou eles estavam tentando chamar a atenção de zumbis. Na garagem da casa tinha uma mini van. Era perfeita. Já estava cansada de andar em carros separados. Justin e eu paramos na frente da porta.
–Você acha que tem alguém aí? — Justin perguntou.
Dei de ombros. Abri a porta e olhei para dentro. Tudo parecia em ordem. A lareira estava acesa, mas a casa parecia vazia. Entrei e Justin entrou atrás, estava colocando minha katana na bainha quando Justin desabou aos meus pés. Fiquei tão surpresa que não tive nem tempo de pensar antes de desmaiar também.
–x-
Quando abri os olhos, minha cabeça latejou. Quando consegui me acostumar a escuridão, percebi que estava presa. A única luz do cômodo era a de velas. Ok, isso estava estranho. Não estava mais sentindo minha katana, então entrei em desespero. Olhei ao redor, tentando saber onde estava e quando meu olhar parou em uma silhueta humana apenas iluminada pela luz das velas, dei um grito. Justin deu um pulo ao meu lado, mas ele mal conseguiu se mexer. Estávamos presos.
–Relaxem.
A voz que escutei era de uma mulher. A pessoa que estava na sala começou a andar e a apagar as luzes das velas. A sala se tornou um breu e meu coração disparou. Senti alguma coisa tocando minha perna e todos os meus músculos ficaram rígidos.
–Não precisa ter medo, querida.
Queria poder dar um soco nessa mulher, mas minhas mãos e meus pés estavam amarrados. Dedos tocaram minha mão e eu reconheci a mão de Justin. Ok, ele estava ao meu lado, provavelmente preso também. Quando percebi que a mulher se afastou, consegui respirar melhor, porém me arrependi na mesma hora. Um cheiro podre invadiu minhas narinas. Reconheci o cheiro de sangue e de carne podre.
Quando a luz da sala foi ligada, pisquei algumas vezes e olhei ao redor. Devia ser uma sala branca antes, mas agora estava toda manchada de sangue. Virei meu rosto para olhar para o chão e vi tantos corpos ali que meu estomago embrulhou. Minha atenção se voltou para a mulher que agora estava na minha frente. Ela não parecia ser velha, devia ter uns quarenta anos, usava calça jeans e uma blusa de frio. Os cabelos pretos estavam amarrados em um coque muito bem feito. Ela parecia incrivelmente calma.
–Estão confortáveis? — ela perguntou. Encarando-me, seus olhos castanhos tinham um brilho demoníaco.
Percebi que Justin e eu estávamos deitados em uma mesa gigante de ferro. E nossos braços e pernas estavam amarrados por correntes. O que quer que aquela mulher estava querendo fazer, não era coisa boa.
–Quem é você? — Justin perguntou.
–Meu nome é Sienna, querido.
–Por que nos prendeu? Você é louca? — perguntei.
Sienna gargalhou.
–Adolescentes são tão bobos.
–Não vai me dizer que você come carne humana — falei, lembrando-me da última vez que alguém tentou me fazer de jantar.
–Jesus Cristo, não! — Sienna franziu a testa. — De onde você tirou essa ideia?
–Então, por que estamos presos? — Justin perguntou.
Sienna andou pela sala e ficou na frente de uma porta. Ela lançou um sorriso demoníaco para mim e Justin.
–Eu não como carne humana, meu querido. Mas, meus bebês comem, não é crianças?
Ela deu três batidas na porta e vários gemidos impacientes vieram de lá. Ah, não! Não era possível. Me debati na mesa, tentando, em vão, arrancar as correntes.
–Ah, não tente, querida. Você não vai conseguir.
–Você é louca! — falei. — Como você consegue ter zumbis na sua casa?
–Se você tivesse filhos, entenderia — ela deu de ombros.
–F-Filhos? — Justin gaguejou. — Aquelas aberrações atrás da porta são seus filhos?
–Sim. Anne, Colin e Max. Nenhuma mãe deixaria três filhos adolescentes saírem de casa com toda essa neve caindo aí fora — Sienna sorriu.
–Eles são zumbis! — Justin disse.
–E daí? Continuam sendo meus bebês. Bem, vamos parar de conversar. Eles estão com fome.
Sienna destrancou a porta e saiu gargalhando da sala. Olhei para Justin e vi que ele estava tão nervoso quanto eu. Os filhos de Sienna deveriam são muito lerdos, pois não estavam saindo de onde estavam. Olhei para um canto da sala e vi que minha katana e a arma de Justin estavam lá.
–Kimberly, tenta puxar delicadamente o braço. A corrente não está tão apertada — Justin sussurrou.
Assenti e comecei a puxar o braço. Quando consegui soltar uma mão, o primeiro zumbi colocou a cabeça para fora da porta, percebi que era Anne, pois tinha cabelos longos. Ela estava olhando para algo e ficou desse jeito até eu conseguir soltar o outro braço, mas a corrente bateu na mesa e isso foi o suficiente para chamar a atenção de Anne e ela olhar diretamente para mim e Justin.
–Droga! — falei.
Ela rosnou para mim e veio na minha direção. Justin conseguiu se livrar das "algemas" e pulou da mesa, empurrando Anne em seguida. Os outros dois zumbis avançaram. Justin arrancou a corrente dos meus pés e eu fiquei de pé em cima da mesa. Justin conseguiu pegar nossas armas e então os zumbis ficaram ainda mais nervosos. Anne avançou, mas Justin atirou em sua têmpora. Porém, a zumbi pareceu nem sentir, ela olhou para Justin e rosnou. Os outros dois zumbis, agarraram minha perna e eu cortei suas mãos. É claro que eles nem se importaram. Tirei cuidadosamente as mãos das minhas pernas, tomando cuidado para não tocar no sangue.
–Kimberly, temos que sair! — Justin disse, apontando para a porta.
–Sério gênio? — perguntei ironicamente.
Pulei da mesa e corri até a porta que Sienna tinha saído. Graças a Deus, a porta não estava trancada. Justin atirou na cabeça de Colin e Max, eles caíram, mas voltaram a ficar de pé.
–Justin, vem!
Abri a porta e puxei Justin comigo. Os zumbis vieram atrás, mas Justin segurou a porta para que eles não saíssem. Olhei para a sala de estar e vi Sienna lá, sentada olhando para a lareira que estava apagada. Ela me lançou um olhar assassino e veio na minha direção.
–Vocês não podem ir embora! — Sienna praticamente rosnou as palavras.
Quando Sienna veio para cima de mim, a empurrei para o lado e corri até a sala de estar. Sienna pegou uma faca e correu na minha direção. Antes que ela pudesse me alcançar, liguei a lareira e dei um soco em sua barriga. Ela era louca, mas não era nem um pouco inteligente.
–Eu não quero matar você — falei, olhando para Sienna.
–Kimberly, rápido! — Justin disse, forçando a porta.
–Meus filhos precisam se alimentar!
Ela gritou e correu na minha direção, apontando a faca para mim. Em um movimento rápido consegui tirar a faca de suas mãos e enfiei minha katana em sua barriga.
–Você... Você... — ela engasgou com o próprio sangue e caiu no chão.
Deixei Sienna lá e olhei para Justin. Ele estava com problemas.
–Justin, tive uma ideia. Sai daí! — falei.
Justin me olhou como se eu fosse louca, mas fez o que eu disse. Quando ele parou de forçar a porta os três zumbis avançaram e correram na minha direção. É óbvio que eu já esperava por isso, então só fiz o que tinha planejado. Corri na direção deles e comecei a cortar cabeças.
Quando os três estavam caídos no chão e sem cabeça, pedi para Justin me ajudar a pegar as três cabeças que ainda mexiam os olhos. Ele hesitou, mas me ajudou. Jogamos as três dentro da lareira e nos afastamos.
–Eles não morrem mais com tiros, mas duvido que sobrevivam ao fogo — falei.
–Como você sabia disso? — Justin perguntou.
Dei de ombros.
–Eu não sou só um rostinho bonito.
Escutamos o barulho de passos vindo em nossa direção, viramos e vimos Sienna de pé cambaleando até nós, ela segurava a faca. Justin revirou os olhos e deu um tiro na cabeça da mulher. Finalmente ela caiu sem vida no chão.
Justin pegou a chave da mini van e nós saímos da casa. Peguei a chave da mão de Justin e fui dirigindo enquanto ele ia ao meu lado. Estávamos em silêncio até Justin perguntar:
–Como você sabia sobre o fogo?
–Foi só uma ideia que passou pela minha cabeça.
–Vamos precisar disso em Washington. A situação lá está um caos.
–Temos que achar gasolina e fósforos. Agora o plano é o seguinte: atacar, jogar gasolina, atear fogo e cortar a cabeça.
Justin olhou para o banco de trás e voltou carregando uma garrafa.
–Acho que não vamos precisar nos preocupar com a gasolina — ele disse, sorrindo. Ele colocou a garrafa no lugar e se ajeitou no banco. — Você sabe que ir à Washington é suicídio, não é? Ainda mais com um plano desses.
–E nós temos outra escolha, Justin?
–Bem, não...
–Então, nós vamos para lá e lutaremos até a morte — sorri. Parecia que estávamos em um filme de guerra.
Justin suspirou.
–Desculpa por ter falado sobre o Austin.
–Não tem problema, você só estava com ciúmes.
–Quem disse? — Justin me encarou.
–Você ainda sentia algo por ele, não é? — fiz uma voz grossa, tentando imitar a voz de Justin. Ele riu. — Faça-me o favor, Justin!
Continuamos em silêncio o resto da viagem. Estava feliz por ter conseguido sair daquela casa sem ter me tornado um ser cambaleante e com vontade de comer carne humana, mas estava triste por Sienna. Era triste ver até que ponto as pessoas chegaram. Sienna estava visivelmente louca, tudo bem que ela era mãe e, com certeza, não conseguia se conformar com o fato dos filhos terem virado zumbis, mas chegar ao ponto de amarrar pessoas para servirem de lanche para os filhos? Era completamente loucura. Senti um pouco de pena dela e também um pouco de culpa. Se todo aquele acidente não tivesse acontecido, talvez, daqui há alguns dias, os filhos de Sienna poderiam voltar ao normal. Eu, sinceramente, não queria ter matado Sienna, ela merecia encontrar uma família nova para reconstruir sua vida, mas, como sempre, não tive escolha.
Meus pais e Eleanor vieram na minha mente. Ainda não tinha percebido o quanto queria que tudo isso acabasse que as coisas voltassem a ser como eram antes. Não conseguia imaginar quantas famílias morreram, quantas mães estão na mesma situação de Sienna, quantas crianças estão sem pais. E se fosse meus pais no lugar de Sienna? Não duvido muito que eles teriam feito a mesma coisa que ela. E eu me sentia culpada por isso. Fechei os olhos e respirei fundo, ficar pensando essas coisas não ajudavam em nada.
Senti a mão de Justin apertar a mão. Mesmo estando tão frio, ele continuava quente. Abri os olhos e olhei rapidamente para ele.
–Já consigo ver uma fumaça saindo dessa cabeça — ele disse, me fazendo sorri. — Pare de pensar tanto, Kim. Nós vamos conseguir.
–E se mais alguém morrer, Justin?
–Isso não vai acontecer, Kimberly. Nosso grupo é ótimo. Um por todos e todos por um — ele sorriu.
Queria tanto poder acreditar em Justin... Mas de alguma forma eu sabia que a morte de Austin não ia ser a única.
Alguns minutos depois, chegamos a casa onde meu grupo estava. Estacionei a mini van e eu e Justin entramos na casa. Estavam todos sentados no chão, conversando e comendo. Assim que Kate nos viu, trouxe um prato com macarronada para mim e Justin. Não entendi muito bem o porquê estarem comendo macarronada até olhar para o relógio digital preso na parede e ver que já eram oito horas da noite. Eu e Justin passamos tanto tempo assim na casa de Sienna? Agradecemos a Kate e nos juntamos a eles.
–E então, conseguiram? — Drake perguntou.
–Depois do que aconteceu precisamos de férias — Justin disse de boca cheia.
Contamos a todos o que tinha acontecido na casa de Sienna. Contamos sobre o novo modo de matar os zumbis e tentamos dar esperança a todos, o que foi um pouco difícil. No fim de tudo, resolvemos passar a noite na casa e seguir viagem assim que amanhecer.
Às dez da noite, todos nós nos ajeitamos na sala e nos organizamos para dormir. Dallas e Justin passaram um tempo conversando, o que eu achei estranho. Eles dois nunca conversaram mais de dois minutos... Quando todos já estavam devidamente organizados e deitados, Kate e Dallas se ofereceram para vigiar e depois John e Lucy ficaria no lugar deles.
Eu e Justin estávamos dividindo o mesmo sofá, o que foi um pouco constrangedor, mas resolvi não falar nada, estava cansada demais. Por sorte o sofá era grande e ninguém ficou apertado.
–Já dormiu? — Justin sussurrou no meu ouvido.
Balancei a cabeça, negando.
–Quando tudo isso acabar, vou levar você para conhecer a Grécia — percebi que ele sorriu.
–Como você sabe que eu quero conhecer a Grécia? — perguntei, virando-me para encara-lo.
–Dallas me contou.
–Não tinha necessidade de contar isso pra você.
–Por que não? Quem sabe nós dois nos casamos lá.
–Casar, Justin? Nós ainda nem temos vinte anos.
–E daí? Isso não é desculpa, Mclean!
–Você é louco...
Justin me beijou.
–Louco por você.
Ele sorriu e fechou os olhos. Virei novamente e fechei os olhos também. A ideia de casar era uma loucura, mas não posso dizer que eu ainda não tinha pensado nisso. Sim, é estranho o fato de que Kimberly Mclean estava pensando em casamento, mas ultimamente eu estou me agarrando a qualquer coisa que posso me dar um pouco esperança. Então se pensar em casar com Justin pode me proporcionar um pouco de esperança para o futuro, eu vou pensar! E foda-se se nós dois ainda não temos vinte anos. Porém, é óbvio que essa era uma ideia distante. Meu Deus, eu ainda queria entrar na faculdade. Sorri e acabei adormecendo.
Na manhã seguinte, acordei com os gritos de Kate. Nem tive tempo de perceber que havia acordado. Já imaginava o que poderia estar acontecendo. Peguei minha katana e corri até a cozinha, já imaginava a cena e isso não me agradava nem um pouco...
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