Notas iniciais
Eu deveria ter postado este capítulo ontem, mas acabei tendo de sair e não tive tempo. Então trouxe hoje para vocês... Enfim... Boa leitura!

#Scarlett Anders

Eu estava dirigindo, meus pensamentos, porém, não estavam nem um pouco fixos na estrada e sim, em minha infância. A chegada de Nef despertara em mim lembranças boas e em certo momento triste. Fui arrastada por um blecaute enquanto minhas mãos continuavam agarradas ao volante.

Eu tinha 8 anos. Eu e Nefarius estávamos andando de bicicleta perto de casa enquanto nossas mães estavam sentadas em cadeiras de jardim batendo papo. Nós costumávamos apostar corridas de bicicleta, ao qual, Nef sempre ganhava.

— Não é justo! — Eu gritava, sempre após uma derrota, cruzando os braços. O suor escorria por minha testa fazendo minha franjinha colar.

— Eu não tenho culpa. — Dizia Nef sorrindo.

— Você não me deixa ganhar — Falei emburrada.

— Se eu deixasse não teria graça. — Falou ele descendo da bicicleta e vindo em minha direção.

Olhei para ele de cara feia.

— Ah, você sempre ganha de mim nos jogos de tabuleiro. — Disse Nef me olhando nos olhos.

Seus cabelos castanhos e ondulados estavam encharcados de suor. Suas vestes de verão estavam sujas de terra e seus olhos azuis demonstravam o quanto ele estava se divertindo.

— Quero ganhar na corrida também. — Falei.

— Minha mãe sempre diz que não podemos ter tudo — Disse Nef.

— Scarlett, Nefarius, venham comer. — Gritou minha mãe.

— Vamos! — Disse Nef sorrindo e pegando minha mão.

A cena mudou em minhas lembranças.

O clima estava tenso. Nuvens pretas se ajuntavam no céu, uma tempestade se aproximava. Os galhos das árvores balançavam violentamente ameaçando se soltar, mas ninguém parecia preocupado com o clima.

— Eu não quero que você vá! — Falei triste. Meu rosto estava manchado de lágrimas e eu sentia meus olhos inchados.

Nefarius estava a minha frente segurando minhas mãos, seus olhos estavam igualmente inchados, mas seu rosto estava seco. Ele parecia mais velho do que realmente era.

— Eu também não quero ir. Mas vamos nos encontrar, eu prometo. Estamos unidos como o Yin e Yang, lembra? — Falou ele puxando de dentro de suas vestes um cordão preto com um pingente de Yin.

Puxei de dentro de minhas vestes o outro lado do pingente, também preso num cordão preto. O Yang. Assenti com a cabeça.

Ele me abraçou. Era centímetros mais alto que eu e costumava me proteger de qualquer coisa que se aproximasse. Mesmo tendo apenas 8 anos, todos diziam que éramos extremamente evoluídos para tal idade.

— Vamos Nefarius — Disse um homem alto, magro e carrancudo dentro do carro. O pai de Nef não se parecia nem um pouco com ele.

— Tenho de ir. — Disse ele se afastando. Nossos dedos se entrelaçaram formando o último toque que iríamos ter em anos.

Ele entrou no carro e baixou a janela para um último olhar. O carro tomou partida, Nef continuou acenando e eu corri atrás do carro até que alcança-lo fosse impossível, mesmo para um bom corredor. Me ajoelhei no chão, lágrimas dançaram pelas maçãs de meu rosto avermelhadas devido ao frio. Foi preciso minha mãe e meu pai me pegarem para me levar para dentro de casa. Sentia como se metade de mim estivesse partindo para longe, como se um elo de empatia estivesse aos poucos se partindo e me causando uma dor lancinante.

Durante anos, me forcei a acreditar que sua promessa era real e que, ao fazer 18 anos conquistando sua liberdade, ele iria me procurar novamente.

Não precisei esperar tanto.

Voltei ao presente, o carro ia atravessando uma grande ponte e um cheiro de água salgada adentrava minhas narinas. Havíamos enfim chegado a São Francisco.

Aquela, porém, não era a São Francisco que eu conhecia. Diversos carros estavam parados em torno da ponte e ao final dela, destroços, sangue, corpos, pedaços de vitrines quebradas estavam dispostos no chão. Estava um verdadeiro caos. A cidade era linda, antes dos infectados aparecerem e começarem a destruir toda a vida pacífica.

— O que vamos fazer agora? — Perguntou Jeff.

— Temos de ir até o Forest Hill, meu pai disse para o encontrarmos lá. Já é um começo. — Falei.

— É muito longe daqui? — Perguntou Ruby.

— Na verdade não. Uns 30 metros, talvez. — Respondi.

— Vamos dar sinal para eles pararem e vamos a pé até lá. Talvez a gente encontre um lugar seguro por aqui. — Falou Jeff.

— Ok.

Jeff estendeu o braço para fora da janela do carro e nós paramos. Atrás de nós, o outro grupo também parou. Descemos do carro.

— O que houve? — Perguntou Nefarius se aproximando.

— Meu pai disse para nos encontrarmos com ele no Forest Hill, não deu tempo de dizer o lugar exato, mas acho que deveríamos ir a pé ate lá e tentar encontrar um lugar seguro para passar a noite.

— Ok. — Respondeu Frederick.

Pusemos nossas mochilas nas costas e pegamos nossas armas, começamos a caminhar pelas ruas devastadas. Todos estavam me seguindo, aparentemente ninguém havia visitado São Francisco até hoje. Tinha certeza de que a cidade agora não passava uma impressão muito boa.

— Nossa, parece que passou um furacão por aqui — Falou Chrystal.

— É, mas aconteceu pior — Respondeu Vênus.

Após 15 minutos, adentramos um bairro repleto de árvores e arbustos. As casas eram praticamente todas iguais, repletas de grama e flores murchas. Uma placa verde-musgo num poste anunciava: Você está em Forest Hill.

Continuamos andando por vários minutos, procurando por uma casa segura, ou por vestígios de pessoas.

Depois de algum tempo, Chrystal apontou para uma casa diferente das outras. Era uma casa de tamanho médio. A frente da casa havia um muro de uns 2 metros de altura, com cerca elétrica. Havia grades nas portas e janelas da casa.

— Parece segura — Disse ela.

— Parece sim — Falei.

— Vamos entrar! — Disse Nef.

O portão de madeira estava entreaberto e quando o empurramos, fomos saudados por um infectado, ou zumbi como o grupo de Nef costumava chamar.

Frederick, que estava a frente, enfiou uma faca com cabo de madeira na cabeça do zumbi e este, caiu imóvel.

Todos passamos pelo portão e nos encolhemos no quintal.

— Um minuto! — Falei.

Passei a frente de todos, peguei o machado e comecei a bater o cabo de madeira na grade de ferro da porta. Nada aconteceu.

— Pra que isso? — Perguntou Nefarius.

— Eles não enxergam então, naturalmente, se movimentam usando a audição. Se tivesse algum zumbi ai dentro, eles viriam até nós ao ouvir o barulho. — Respondi.

— Nossa, faz sentido — Respondeu Chrystal.

Nef pareceu sorrir, como se estivesse impressionado.

Enfiei a mão na mochila e peguei a lanterna, depois, puxei a grade de ferro e entrei na casa em alerta, mesmo sabendo que não haviam zumbis ali.

Eu estava num corredor, as paredes sujas estavam pintadas em um tom de pastel. Tateei até encontrar um interruptor. A luz invadiu todo o aposento. Guardei a lanterna e continuei andando com o machado preparado.

Revistamos a casa toda e por fim, decidimos que era seguro passar a noite ali. Avisei a todos que ficaria de guarda e que podiam se acomodar na casa.

Peguei uma cadeira e uma almofada e coloquei na frente da porta com a grade fechada. Fiquei ali, admirando o céu através das barras de ferro. Apoiei minha cabeça em minhas mãos atrás do pescoço e fiquei, curtindo a brisa e o barulho distante do mar.

— Você parece bem a vontade — Disse uma voz atrás de mim. Ergui meu machado e me virei pronta para atacar. — Calma, calma, sou eu.

Percebi que era apenas o Nef, segurando uma cadeira e sorrindo para mim.

— Ah. Você me assustou. — Falei, me sentando novamente.

Ele posicionou a cadeira ao meu lado e após alguns minutos, quebrou o silêncio.

— Fiquei todos esses anos imaginando como seria quando nos reencontrássemos e como você estaria quando isso acontecesse. — Disse ele se apoiando nos braços como eu.

— E correspondi às suas expectativas? — Perguntei olhando as estrelas.

— Você foi mais além — Respondeu ele virando o rosto para mim.

Me virei para olhá-lo também. Seus olhos azuis fixaram-se nos meus e ele sorriu. Voltei meu rosto para o céu, me sentia feliz, porém, havia algo a mais que eu não queria que ele visse. Não tão cedo.

— Então, qual é a desse tal de Jefferson? Estão namorando? — Perguntou ele um tanto indiscreto.

— O quê? Eu e o Jeff? Não, somos amigos. — Respondi, sem olhar.

— Ah, sim.

— E o que você fez durante todo este tempo? — Perguntei.

— Ah, nada de mais. Eu simplesmente contei os dias que se passavam.

— Bom... Temos algo mais em comum, não? — Falei, me virando e sorrindo para ele.

Ele sorriu, seus olhos se iluminaram. Ele se inclinou para mim, seus lábios entreabertos, seu rosto cada vez mais próximo. Ele posicionou sua mão delicadamente em minha nuca e então, seus lábios tocaram os meus.

Uma explosão de sentimentos invadiu minha mente, eu não sabia como reagir, estava em choque. Aquilo fora tão rápido, tão imprevisível. Mas por quê eu gostava da sensação que ele me fazia sentir enquanto nossos lábios continuavam colados? Gostava de ter sua companhia e gostava da forma como ele me fazia sentir especial?

E então, um barulho de passos arrastados me trouxe de volta a realidade. Me afastei, mas não consegui olha-lo nos olhos. Me levantei, abri a grade e matei o zumbi que passara pelo portão arrastando seus pés.

Continuei de costas para Nef, não conseguiria olhá-lo nos olhos, o clima de repente ficara pesado. Preferi simplesmente ficar olhando para a noite.

— O que foi isso? — Perguntei sem me virar, tentando manter a voz calma.

— Eu... Eu sinto muito, eu não consegui me conter, eu...

Me virei para ele, e o olhei tentando esconder qualquer emoção.

— Eu te amo, sempre te amei, desde que tínhamos 8 anos, e quando tive de ir embora, senti que meu coração na verdade havia ficado com você na Califórnia. Quando te vi hoje, Lett, todos esses anos, eu nunca deixei de pensar em você nem por um segundo. — Disse Nef, se levantando.

Eu não sabia o que dizer. Sabia que o que eu sentia por ele sempre fora algo mais que a simples amizade, e isto sempre me impedira de namorar algum outro garoto. Quantos garotos já se aproximaram de mim e me pediram em namoro? Quantos garotos eu recusei? Eu nunca pensara nisso, mas agora eu sabia. Sabia que tudo isso era consequência de um amor que fora obrigado a ser esquecido por anos. Mas eu não precisava esquecer mais. Ele estava aqui agora, e ele também sentia tudo isso.

Ele se aproximou e pegou minha mão. Não precisei que ele desse novamente o primeiro passo, eu sabia o que queria e sabia que ele queria o mesmo.

Passei as mãos por sua nuca e me ergui na pontinha dos pés. Nos beijamos, sorrindo vez ou outra.

— Sempre adorei os seus cabelos Disse ele enrolando o dedo em alguns cachos de meus cabelos ruivos.

Olhei seus olhos, sorri.

—Sempre amei os seus olhos. — Falei

Notas finais
Uma pitadinha de romance nunca é de mais, certo? Hahaha... ♥ *Próximo capítulo: 04/02/2017 - Sábado* Não deixe de conferir!