Zombie apocalypse - You need to survive
12 A promessa quebrada
Notas iniciais
#Scarlett Anders
" Consciência é uma palavra usada pelos covardes, para incutir medo aos fortes. " {Willian Shakespeare}
Acordei com o som dos pássaros cantando. Da janela de madeira e vidro, uma brisa refrescante e renovadora entrava. Tudo parecia estar tranquilo, mesmo que dentro de mim não estivesse.
Sonhara mais uma vez com a casa escura e abandonada, atravessei novamente a janela que se era usada como porta, mas quando meus pés tocaram o outro lado, eu novamente despertara. A curiosidade e apreensão me consumia a cada instante. Que lugar era aquele? Por que eu nunca conseguia atravessar o portal? Essas perguntas rondavam a minha mente e eu não fazia esforço para afasta-las, eu realmente gostaria de saber.
Ainda deitada na parte de baixo do beliche, deixei meus pensamentos viajarem até meus pais na esperança de que fosse suficiente para saber como estavam. Confortei a mim mesma com o pensamento de que meu pai era um ótimo policial e certamente poderia proteger a si e a minha mãe.
Um movimento na cama de cima me fez perceber que Ruby havia acordado, mas não quis dizer nada, esperava ficar mais alguns minutos em silêncio e de olhos fechados acreditando que isso faria toda essa guerra interior e exterior acabar.
Após 10 minutos, Lett desceu da cama e se sentou ao meu lado com a cabeça curvada para caber na cama de baixo. Eu me sentei também, mas não precisei me curvar tanto quanto ela pois eu era alguns centímetros mais baixa.
— Como você está? — Perguntou ela.
— Bem — Menti — E você?
— Eh... Um pouco preocupada com meus pais, mas acho que estão mais seguros que nós, eles foram passar a semana na casa da praia, é bem afastado da cidade.
— Ah, devem estar bem, lugares afastados são bem seguros, não?
— É, devem estar bem sim.
— Bom dia! — Disse Jeff se sentando no colchão no chão e esfregando os olhos.
— Bom dia! — Dissemos eu e Ruby ao mesmo tempo.
— Eu estava pensando... — Disse Jeff — Estamos bem afastados e não vi nenhum infectado aqui por perto, você podia nos ensinar a atirar antes de irmos para São Francisco, não sabemos o que encontraremos por lá.
— Sim, ótima ideia. -Falei.
Ruby não disse nada, apenas assentiu com a cabeça. Havia percebido, desde o porão, que Ruby sempre ficava meio apreensiva com a ideia de atirar, se alguma coisa havia acontecido ela não havia me contado, mas eu sabia que a ideia não a deixava nem um pouco confortável.
— Vamos lá! — Falei. — Podem, por favor, pegar suas berettas e as munições.
Nós três nos abaixamos para pegar nossos coldres de couro com as berettas que havíamos colocado no chão próximo a nossas camas. Arrumamos nossas vestes e camas e fomos para o lado de fora da casa.
— Ok, a beretta é uma arma extremamente fácil de se usar. Na verdade, a grande maioria das armas são fáceis. Tudo se baseia em prática e mira. — Peguei minha beretta e a ergui o suficiente para que ambos pudessem ver. — Você empurra aqui para destravar a arma, para recarregar basta retirar o pente, desta forma, e colocar um novo, assim. E então você mira, e puxa o gatilho.
Quando terminei de falar, virei o braço e o rosto para uma árvore grande, próxima a parede da casa, mirei numa maçã e puxei o gatilho sem prestar muita atenção. O barulho ensurdecedor que a arma deveria fazer em circunstâncias normais foi abafado pelo silenciador. Ruby e Jeff se aproximaram da árvore para ver onde eu havia atirado e eu fui junto. A bala não estava à vista, não havia chegado na árvore. Por um momento pensei ter errado a mira, mas Jeff soltou uma exclamação e apontou para o chão onde uma única e solitária maçã estava completamente estourada.
— Meu Deus, que mira é essa? — Perguntou Ruby com admiração.
Eu sorri.
— Ok, peguem suas armas e um de cada vez tentem acertar as maçãs — Falei. Jeff e Ruby pegaram suas armas e recarregaram. — Mas antes — Jeff e Ruby olharam para mim — Deixe eu pegar uma maçã antes que vocês estourem todas.
Eles sorriram. Me dirigi a árvore e pulei para pegar uma maçã extremamente grande se comparada as outras. Limpei-a nas vestes e me afastei para ficar longe do campo de visão de jeff e Ruby. Encontrei um pedra grande mais atrás e me sentei de perdas cruzadas dando uma enorme mordida na maçã.
— Atacar! — Falei.
Jeff foi à frente empolgado e Ruby ficou logo atrás, próxima a mim com uma expressão curiosa. Jeff destravou o gatilho e mirou por alguns segundos, e então atirou. A bala passou bem acima da maçã que ele havia mirado.
— Ops! Esqueci de dizer uma coisa — Falei com a boca cheia de maçã.
Engoli tudo antes de continuar, entreguei a maçã pela metade para Ruby — Segure para mim. Esqueci de dizer a vocês que a maioria das armas tem o coice, embora algumas sejam mais leves que outras.
— O coi... o quê? — Perguntou Ruby.
— Coice, é a reação que a bala causa na arma quando disparada. Faz com que você erre a mira devido ao impulso, e dependendo da arma, pode até te derrubar.
— O que fazemos então? — Perguntou Jeff.
— Ah, é fácil, calcule a força do coice. Quando você atirou, quando a arma se moveu?
Jeff mostrou com a arma o movimento involuntário que ela realizara minutos antes.
— 15 centímetros. Mire 15 centímetros abaixo de seu alvo. Com licença. — Falei.
Fui até o lugar onde Jeff estava segundos atrás, mirei a minha beretta 15 centímetros abaixo da maçã e atirei, produzindo um ruído abafado. A maçã estourou e caiu no chão.
— Você é demais!
— Ah, é só praticar e estarão como eu logo logo. — Peguei a maçã na mão de Ruby e me sentei na pedra novamente. — Sua vez — Disse apontando a maçã para Ruby. Jeff se afastou.
Ruby fez como eu havia dito e mirou 15 centímetros abaixo da maçã, mirou, atirou. A bala acertou a maçã no último milímetro e ela caiu com menos da metade no chão.
— Isso ai! — Falei jogando fora o miolo da maçã que eu havia comido — Muito bem, excelente. Jeff?
Jeff se adiantou, mirou os 15 centímetros negativos, atirou e acertou em cheio a maçã, explodindo-a completamente.
— Vocês tem certeza de que nunca atiraram antes? — Perguntei impressionada.
Jeff e Ruby sorriram.
Ficamos quase 3 horas treinado tiro ao alvo. Em certo momento do treino, achei que já deviam treinar alvos em movimento e comecei a atirar objetos aleatórios no ar para que eles atirassem. Demorou bastante até que ambos pudessem atirar corretamente nos alvos que se moviam, e quando isso aconteceu, já havíamos gastado 2 caixas de munição e estávamos de dedo roxo e extremamente famintos. Nos sentamos no chão ao lado da casa conversando alegremente sobre assuntos diversos, nos sentindo empolgados pela conquista e até Ruby parecia mais tranquila com relação a armas e tiros.
— Vou ao banheiro — anunciei deixando Ruby e Jeff absortos em conversas sobre jogos, músicas e tudo o mais, menos a guerra dos infectados. Nenhum dos dois percebeu que eu havia me retirado.
Entrei na casa guardando a beretta no coldre, pois não gostaria que a Sra. King me visse empunhando uma arma dentro de sua casa. Estava me dirigindo ao banheiro quando um barulho estranhamente familiar e assustador me chamou a atenção. Um ruído de pés se arrastando, correntes sacolejando e dentes rangendo. Segui o barulho penosamente, assustada demais para emitir algum som, e ao me aproximar do quarto da Sra. King o barulho foi aumentando e uma voz doce começou a surgir distante.
— Calma querido, eu trouxe a carne do jeito que você gosta. — Disse a sra. King.
Adentrei um quarto arrumado e limpo, as colchas e cortinas eram de crochê rosa. Na parede oposta, uma pequena porta de madeira envernizada estava entreaberta.
— Isso, coma tudo! — Disse a voz doce e aveludada vindo de dentro da porta.
— Sra. King? — Falei em voz baixa.
Ela aparentemente não ouvira. Continuei entrando e me deparei com um cômodo totalmente oposto ao resto da casa. A tintura branca estava encardida e descascada, o chão estava imundo e um cheiro de carne podre e sangue adentrava minhas narinas me dando ânsia. A cena a seguir me fez querer gritar.
Um homem velho, enrugado e frágil estava preso pelo pé com uma corrente, presa ao pé de uma mesa de madeira velha. O homem cheirava à morte. Sua barriga estava aberta e uma grande parte de seu estômago arrastava-se ao chão, seus olhos estavam brancos como a neve e seus dentes amarelados e quebrados batiam ameaçando se enfincar no primeiro que se aproximasse. Seus braços estavam erguidos numa tentativa frustrada de agarrar Sra. King que aparentemente achava aquilo normal.
— Sra. King o quê?...
— Ah, Scarlett querida, quero lhe apresentar Kleiton King, meu marido, ele não é um amor? — Falou a senhora com a voz etérea.
— Sra. King, ele está...
— Lindo, não? — Ela me interrompeu e se virou de costas para o infectado, para me olhar.
Seus cabelos soltos e esbranquiçados bateram nos dedos do infectado e ele os agarrou, puxando-os. Me adiantei para ajuda-la mas ela segurou meu braço e sorriu.
— O quê você está fazendo, querida? — Perguntou ela.
— Te salvando — Disse tentando me desvencilhar.
— Dele? — Ela perguntou apontando para trás — Não, não, não, ele sempre faz isso, ta tudo bem, é sua forma de mostrar afeto, ele está doente, sabe?
— Sra. King, ele não é mais seu marido — Falei delicadamente.
O sorriso dela se desfez.
— Do que você está falando? É sim, olhe — Ela se virou e pegou a mão do infectado, ergueu-a e me mostrou uma aliança fina e dourada.
A mão do infectado agarrou com força a da Sra. King e puxou-a para sua boca, tentei pegar a arma no coldre mas a outra mão de Sra. King continuava a segurar a minha mão direita com força e não consegui pegar a arma com a esquerda. Tarde demais. Os olhos azuis da senhora se fixaram na parede suja e descascadas, seu olhar se tornou frio e assustado.
O infectado continuava a mordê-la e eu continuava a fazer força para me soltar, desesperada. A Sra. King segurava meu braço com uma força inexplicável e quando finalmente me soltei, o infectado já havia mordido todo o braço direito da Sra. King. Ela caiu no chão, o infectado se abaixou ao seu lado e com uma única mordida, deixou seu estômago a vista.
Os olhos extremamente azuis da Sra. King estavam vazios e se fixavam no teto sem conseguir realmente vê-lo.
Eu estava paralisada, em choque. Tudo acontecera tão rápido, por que eu não havia impedido o infectado de mordê-la? Por que o esforço que fizera não fora suficiente? Por que?
— Lett? — Ouvi Ruby gritar meu nome de longe e eu sai do transe. Peguei a beretta sem ver o que estava fazendo, mirei a cabeça do infetado e atirei, um líquido avermelhado voou por todo o aposento, espirrando em meu rosto e o infectado caiu com o rosto sobre o rosto da Sra. King. Sabia que logo logo ela se tornaria uma deles, mas eu não consegui impedir isso de acontecer, não conseguia matá-la, mesmo que tecnicamente já estivesse morta. Apenas guardei a beretta no coldre e sai andando do aposento como se nada daquilo fosse verdadeiramente real, como se não passasse de um sonho mal. Mas eu sabia que era real, eu simplesmente não queria focar naquela ideia.
Me encontrei com Ruby e Jeff na sala e ambos me olharam assustados.
— O que aconteceu? Lett isso é... Isso é sangue? — Perguntou Ruby assustada.
Contei a eles o que havia acabado de acontecer como se fosse uma história vista num filme.
— Temos de ir, ela vai voltar logo logo — Falei.
Ambos assentiram com a cabeça ainda perplexos. Pegamos nossas mochilas, enchemos as garrafas de água, jogamos tudo dentro do corola e seguimos viagem para São Francisco.
Minha mente me traía, tentava não pensar, tentava não rever a cena, mas tudo tornava a acontecer repetidas vezes na minha mente. Eu não conseguira protegê-la, havia prometido ontem e hoje, já quebrara a promessa.
Eu havia quebrado a promessa.
Percebi, então, que não adiantava prometer, era impossível. As pessoas morreriam sempre, neste novo mundo, viver não era tão fácil assim, a morte era a forma mais fácil de vencer e muitos apenas desejavam isso.
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