Zombie Attack
2 I - A Contaminação!
Notas iniciais
Pessoas morrendo e voltando como canibais, eu já havia lido sobre aquilo em algum lugar, mas aonde havia visto aquilo? Tenho certeza que foi há pouco tempo. (Eu)
Nesse momento uma enxurrada de informações invadiu a minha mente, pessoas enlouquecendo, raiva, medo, agonia, canibalismo. Essas foram as palavras que tomaram forma em meio aos meus deturbados pensamentos.
O som da televisão havia ficado extremamente baixo, eu não conseguia focar minha audição a ponto de compreender o que se passava, minha visão começou a ficar embaçada e minhas mãos a tremerem, nada disso deveria ser possível, não poderia ser real. Uma sirene de uma viatura policial passou na rua apitando alto e as luzes, vermelha e azul, que adentraram pela janela me tiraram de meu estado de transe.
Quando recobrei meus sentidos notei que minhas mãos se entrelaçavam sobre minha cabeça, apoiando-se em meio a meus cabelos loiro-acinzentados.
Eu me encontrava sentado no sofá quando o som da televisão retornou à minha percepção.
— O placar de hoje ficou em um a zero para os Mars, contra os Dyakes. Foi uma vitória acirrada, um grande jogo ate o fim... (Comentarista)
Passei minhas mãos por entre o meu cabelo e logo em seguida levei uma delas para baixo, à procura do controle remoto.
— Futebol? O mundo beirando a insanidade, doenças que sao imunes tanto a medicamentos quanto a vacinas e ainda assim eles se importam com esse tipo de coisa... (Eu)
— O velho pão e circo... (Eu)
Encontrei e peguei o controle remoto, elevando minha mão em direção à tela do televisor pressionei o botão mais acima, que fez com que respondesse imediatamente ao meu comando, retornando a sua cor original e mantendo-se desligada.
Uma certa curiosidade me bateu no momento.
O que tudo isso significa? Onde essas noticias vão parar? (Eu)
Levantei-me do sofá e pus-me a caminhar pela sala, indo em direção à meu quarto, notei pela janela que minha vizinha mantinha-se a realizar a mesma rotina, utilizando sua roupa azul de lã, e seu chapéu da mesma cor, enquanto molhava as plantas de seu jardim, ela mal me notou passando e observando-a de relance.
Adentrei ao meu quarto e puxei minha cadeira, sentando-me levemente na mesma enquanto clicava no botão central de minha CPU com a finalidade de iniciar meu computador.
Enquanto os sons característicos daquela maquina ligando estavam a soar encostei-me a cadeira e utilizando seu assento giratório pus-me de costas para o computador, olhando a distancia a janela de meu quarto. Nada fora do comum, além da luz do poste em frente à casa estar piscando constantemente.
Girei em meu assento observando meu quarto, a estante de livros que deveria estar repleta dos mesmos, mas que no momento guardava uma variedade de tranqueiras das quais eu não queria abrir mão, como jogos antigos, consoles que nem funcionavam mais e perdidos por entre eles alguns brinquedos dos tempos de criança, que eu bem me lembro chama-los de Action Figures.
Minha cama ao lado permanecia bagunçada como sempre, com lençóis e cobertores espalhados e o travesseiro de lado sobre a mesma. Ao lado dela um criado mudo marrom feito de madeira rustica com um retrato de minha família, junto do molho de chaves e de minha carteira.
Finalmente voltando a minha escrivaninha repleta de cadernos com anotações e livros marcados com diversos temas de pesquisa sobre o corpo humano, algumas doenças e nomes de possíveis ameaças à raça humana.
Meu computador ficava bem ao lado dessa bagunça toda, um gabinete antigo, mas que ainda rodava muito bem para a sua idade. Junto de um monitor novo que fora adquirido recentemente e instalado direto na parede do quarto.
Junto do gabinete havia uma impressora e um par de caixinhas de som que complementavam o ambiente.
O som que saiu por elas me confirmou ter finalizado a inicialização e estar pronto para ser utilizado. Minha mão deslizou facilmente até o mouse e com um gracioso movimento vertical tentei selecionar o navegador.
Mas o ponteiro na tela não obedecia aos estímulos dados pelo rato em posse de minhas mãos, o que me causou algum desconforto momentâneo.
Levantei-o da superfície da mesa brevemente e notei que a luz avermelhada que deveria sair de sua abertura logo abaixo não se manifestava, com pequenos toques e uma leve batida contra minha outra mão fez com que o mesmo voltasse a funcionar.
Já achei que teria que comprar outro... (Eu)
Dessa vez o ponteiro se mexeu e pude iniciar o navegador com dois cliques, abrindo direto na pagina de busca do Google com a janela preenchendo totalmente a tela do monitor, me bateu uma curiosidade, aquilo estava muito estranho, as noticias eram assustadoras e não havia explicação para elas, Puxei o teclado com o suporte deslizante que ficava acoplado logo abaixo da mesa e digitei no retângulo central, com o intuito de procurar na internet fatos sobre o canibalismo.
Tudo o que eu achei foram espécies de insetos, aranhas, tubarões, larvas, sapos, diversos animais que consomem a carne de outros de sua espécie. Seres humanos praticavam um ritual ao comer uma ou mais partes do corpo de outros com a intenção de adquirir as habilidades, força e virilidades daqueles que eram seus prisioneiros. Os poucos casos de canibalismo de humanos registrados na história da sociedade ocidental moderna estão ligados a situações-limite de satisfação do instinto de sobrevivência do indivíduo perante uma opção de vida ou morte.
Além disso, comecei a vasculhar historias e/ou seres que cometiam esse tipo de atos. A primeira coisa encontrada e que mais fazia sentido era sobre os zumbis. Segundo o estereótipo popular, um zumbi é um ser humano dado como morto que, depois de sepultado, foi posteriormente desenterrado e reanimado por meios desconhecidos. Devido à ausência de oxigênio na tumba, o morto vivo seria reanimado com morte cerebral e permaneceria em estado catatônico, criando insegurança, medo e portando-se de forma a ver os seres humanos normais como presas.
Como um estalo em minha mente me veio uma conversa com um de meus melhores amigos, ele chegou a citar que havia uma serie que retratava um mundo pós-apocalíptico onde os inimigos eram seres canibais, digitei rapidamente o nome do site de relacionamentos e amizade atualmente mais utilizado.
Quando a página foi completamente carregada entrei com meu usuário e senha, então logo após a confirmação fora aberto na pagina inicial, contendo fotos e postagens recentes de pessoas e grupos dos quais eu acompanho e faço parte.
Sem muita enrolação eu me ajeitei na cadeira e comecei a procurar por entre minhas conversas, até que encontrei a qual eu estava interessado. Voltando um pouco no histórico, notei que a gente conversava bastante e um dos assuntos que veio à tona fora o seguinte.
...
2:58 (Pedro) — Eae rafa blz?
3:00 (Rafael) – De boa, e você?
3:01 (Pedro) — Sempre!
...
3:12 (Pedro) — Cara achei uma série muito massa, estava entediado de todas aquelas que eu estava acompanhando.
3:12 (Rafael) – Qual?
3:12 (Pedro) — TWD!
3:13 (Rafael) — TWD???
3:13 (Pedro) – The Walking Dead!
3:14 (Rafael) — Ah ta po... E ela eh sobre oq?
3:14 (Pedro) — Um mundo pós-apocalíptico repleto de zumbis e baseado na história em quadrinhos, eu não consigo parar de assistir.
3:14 (Rafael) — Blz, vou dar uma olhada aqui!
3:50 (Rafael) — Caralho!!
3:51 (Pedro) – Não falei?
3:52 (Rafael) – Que foda! Assim que é bom se começar em um apocalipse, td maquinado. Beleza eu vou assistir!
3:52 (Rafael) – Esse parceiro policial dele é um fdp.. kkk
3:52 (Pedro) – Sim! kkk Agr estou saindo aqui, tenho que ir pra facul e já estou atrasado.
3:52 (Rafael) – De boa, vai la. Flw.
3:53 (Pedro) – Flw.
...
Eu havia encontrado, era uma série antiga sobre mortos vivos, mais conhecidos como zumbis, andando na terra, contaminando tudo e todos, e infectando os humanos sobreviventes. O problema é que eu havia apenas assistido aos primeiros episódios. Fiquei de continuar vendo, mas surgiram compromissos atrás de compromissos e eu acabei por não arranjar tempo para voltar a assistir.
Espero muito que esse surto anunciado não acabe como na ficção, porque pelo pouco que eu vi não seria nada bom ocorrer algo do tipo. (Eu)
Busquei meu celular próximo ao computador, mas ele não estava ali, tateei meus bolsos, e quando não o achei, lembrei que o deixei sobre a mesa da sala, rapidamente levantei-me da cadeira e pus-me a andar depressa ate lá, encontrei-o sobre alguns papeis e jornais, desbloqueei a tela e procurei o número de meu amigo, mas após alguns minutos chamando não obtive resposta. Tentei repetir o procedimento nos dias seguintes, mas ele não chegou a atender em nenhuma das vezes.
Com a crise econômica avançando eu acredito que seja mesmo muita sorte não terem tantas pessoas "infectadas" com essas tais células, afinal são poucos os que tinham dinheiro para isso, ainda mais em nossa pequena cidade. (Eu)
Após mais ou menos um mês e meio parecia que tudo havia se normalizado, sem mais notícias a respeito do acontecido em lugar algum, exceto por pequenos resquícios apenas em bancas de jornal e pessoas de sanidade questionável nas ruas gritando que esse seria o fim do mundo.
Era uma segunda-feira tediosa e comum, minha última semana na faculdade de medicina, havia terminado de suturar um paciente que levou um tiro na perna acidentalmente proferido por ele mesmo.
Que patético não é mesmo? (Eu)
E isso enquanto tentava recarregar sua arma.
De repente ouvimos gritos vindos da sala de operações, curiosamente eu caminhei em direção ao corredor, vendo diversas pessoas correndo tanto pra dentro quanto pra fora daquela sala, um dos médicos segurando um pano todo ensanguentado em torno de sua mão e algumas enfermeiras com seus jalecos ensanguentados, chamei um enfermeiro que estava passando por ali com intenção de lhe perguntar.
— Hey, o que houve ali? (Eu)
Ele andando depressa e com uma expressão assustada me respondeu.
— O paciente que eles estavam operando já tinha sido dado como morto, mas de uma hora pra outra ele se levantou na maca e mordeu o Dr. Raul, as enfermeiras que estavam perto tentaram ajudar, mas só conseguiram controla-lo amarrando. (Enfermeiro)
— Que estranho! (Eu)
— Sim, muito estranho... (Enfermeiro)
Ele voltou a caminhar pelo corredor, me deixando sozinho com meus pensamentos.
Eles devem ter feito um diagnostico incorreto, não é nada incomum algo do tipo... Mas porque ele iria morder o médico? Será que tem algum distúrbio mental? (Eu)
Eu estava exausto, já havia trabalhado a noite toda e era a minha troca de plantão, dei meia volta e voltei à sala, peguei minha mochila, fui ate o banheiro mais próximo e troquei de roupa guardando-a na mochila, logo em seguida joguei a mesma sobre os ombros e passei meu braço para encaixar em minhas costas, finalmente saindo pelo corredor em direção à garagem.
Chegando lá estava tudo um tanto quanto calmo, as luzes iluminavam bem o local repleto de automóveis, caminhei em direção à minha moto, um estilo antigo em uma versão mais nova e bem mais recente lembrando muito a Kawazaki Z750, uma moto vermelha que ganhei do meu pai em meu aniversário um mês atrás.
Ao aproximar-me dela, duas ambulâncias chegaram rapidamente pelas ruas e adentraram o local, ambas estacionando de forma brusca, com suas sirenes piscando e um som ensurdecedor vindo delas. Esperei mais alguns minutos ate ver os enfermeiros retirarem macas com pacientes amarrados e deitados nas mesmas, cada maca sendo carregada pelos enfermeiros e motoristas que saíram do banco da frente e foram ajuda-los.
Subi na moto, peguei a chave em meu bolso e a liguei, coloquei meu capacete, recolhi o pezinho e saí em direção à rua, visando minha residência.
Estranhei as ruas estarem tão vazias, um ou outro carro passava por mim, mas não me importei e continuei pilotando minha moto, afinal não era sempre que eu encontrava o caminho livre dessa maneira, com os semáforos todos abertos e sem ter que ficar parando a todo o momento.
Quando me aproximei de minha rua, dando seta virei na placa já conhecida por mim e ao me aproximar de minha residência, notei que minha vizinha estava de costas na frente do portão de minha casa, trajando uma camisola cor de rosa, e calçando umas pantufas azuis do que pareciam ser coelhos.
Chegando próximo a ela, diminui a velocidade até quase parar perto da mesma, subi o visor do capacete, ela começou a se virar em minha direção enquanto me aproximava, ela estava com um olhar vazio vislumbrando o horizonte, enquanto olhava em direção à casa, mas ao se virar e notar a minha presença ficou nervosa de repente, começou a andar em minha direção rangendo os dentes e fazendo um barulho estranho.
Aquilo me surpreendeu muito mesmo, além disso, havia ainda uma marca de mordida em seu braço, e ela andava arrastando sua perna direita no chão, com o pé virado de lado, como se estivesse deslocado.
Naquele momento eu não pude pensar em mais nada, diversas imagens da série invadiram minha mente, eu tinha quase certeza que um apocalipse parecido com aquele da ficção estava começando, todos os sinais estavam ali, desde o hospital ate aquele ser inumano que antes fora minha vizinha, mas que agora caminhava em minha direção. Chacoalhei a cabeça tentando me livrar desses pensamentos.
Não era possível, era apenas uma coincidência enorme, ela estava doente, nada disso tinha ligação. (Eu)
— Você... Está... Bem? Como se machucou? Quem fez isso com você? — Disse eu em uma ultima tentativa falha de comunicação com ela que permaneceu grunhindo e rangendo os dentes. — O que houve com seu braço?... E sua perna?... Tem algo que eu possa fazer pra ajudar? (Eu)
Como não obtive resposta e ela já estava muito perto, apenas puxei o controle remoto do bolso da jaqueta e acionei o portão automático que subiu lentamente.
Meu corpo estava gritando para que eu saísse dali, um frio constante na espinha permanecia quando ela chegou próximo o suficiente para me tocar, senti sua mão batendo com força contra meu peito, enquanto ela me empurrou pra trás e veio tentando me morder, mas seus dentes batiam no capacete, ela acabou me derrubando da moto que caiu sobre minha perna e continuava demonstrando uma força sobre humana que me impedia de tira-la de perto. No chão eu me debatia, empurrando e tentando me defender dela que continuava persistentemente, quando em um rápido movimento eu consegui afasta-la o suficiente para que ela tropeçasse na moto e caísse de costas no chão uns metros pra frente. Meu coração pulsava no peito e eu sentia minhas mãos tremendo e suadas.
Levantei a moto rapidamente e tirei meu pé de baixo dela, quando notei que minha vizinha se arrastava no chão vindo em minha direção, igual filme de terror, peguei a moto pelo guidão e empurrei-a rapidamente, pressionando em seguida o botão que lentamente fechava o portão metálico, descendo aos poucos e impedindo que minha vizinha me seguisse para dentro de minha casa, me refugiando dentro de minha garagem, e deixando-a pra fora, batendo de frente com o portão.
Isso não foi nada comum, ninguém doente nunca faria nada do tipo, nem teria tanta força assim. (Eu)
Eu estava ciente de que caso houvesse começado mesmo o apocalipse teria de coletar suprimentos e armas, assim como fizeram na série, mas acima de tudo teria que me juntar com amigos ou conhecidos que também estiverem nessa situação, nós precisamos nos ajudar para que combater essas criaturas não seja tão impossível.
Por fim, esperei meu coração normalizar, inspirei e expirei fundo por diversas vezes, e então desci de minha moto, entrando pela garagem e caminhando para dentro de casa com uma pergunta em mente que surgiu desde o momento que eu havia visto minha vizinha.
Será que em meu bairro teriam mais pessoas que pagaram para ter as tão famosas células implantadas?
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