Zodíaco, os treze reinos.
1 Zodíaco
Notas iniciais
∞ Há muito e muitos anos atrás ∞
Zodíaco é desde o inicio dos tempos governados por seres sobrenaturais. Dragões, Fadas e os Werecats. O País Zodíaco era dividido em reinos grandiosos e o povo convivia tão pacificamente quanto o possível, afinal nenhuma sociedade é inteiramente perfeita. Entre no meio deles havia os humanos, o meu povo. Nós aceitávamos as ordens que recebíamos, adorávamos nossos reis e rainhas, pois mesmo estando em guerra contra outros reinos, eram leais para com aqueles que viviam em suas terras e dependiam deles por que eles também dependiam de todos nós.
Mas nem todos de nós, humanos, via as coisas como eram. Grupos se formavam em pequenas sociedades secretas e tramavam contra os lideres, Os Ancestrais queriam algo que apenas os dragões e as fadas possuíam, ambicionavam a magia. E usando de toda astúcia que possuíam observaram, estudaram e aprenderam a dobrar a natureza á sua vontade. Indignados pela traição dos humanos ao fazerem uso de magia, os Dragões os atacaram com fúria. A guerra entre homens e feras durou por décadas e milhões de vidas se perderam levando á quase extermínio dos humanos até que as Fadas se envolveram na guerra e para manter a paz, expulsaram os Dragões para as Ilhas Vulcânicas e Cidades Flutuantes de Gêmeos.
A paz não fora inteiramente restaurada por que a confiança que as Fadas tinham nos humanos sofrera grandes abalos e os humanos passaram a se rebelar, guardando segredos e estudado magia. Para aqueles humanos que usavam magia, desde a guerra, eram chamados de Bruxos e esses estudiosos da magia não paravam de estudar e aprender e quebrar as leis da natureza. Os bruxos descobriram algo poderoso, algo que as Fadas chamavam de maldições e que era de uso proibido por inúmeras razões, mas os bruxos não se importavam com os detalhes, sabia que aqueles feitiços chamados de Maldiçoes deixariam seus exércitos mais fortes, mais poderosos e era apenas o poder que eles queriam.
A primeira grande maldição que os bruxos fizeram foi ligar lobos selvagens aos humanos. Levaram muitos anos para aperfeiçoar a Maldição do Lobo e quando finalmente conseguiram criar um lobisomem, criaram outros. E o exercito de lobisomens serviram as bruxas por muito tempo até que outro grupo de bruxas decidiu exterminar aquela espécie que estava aumentando e criando suas próprias leis muitas das quais iam contra as leis das bruxas. A Revolta Sanguinária durou por mais tempo e desta vez as Fadas nada fizeram para impedir, de um lado bruxas e lobisomens, e do outro lado bruxas e uma nova espécie de criaturas ainda mais letal que os lobisomens, criaturas notívagas que bebiam sangue e se regeneravam tão rapidamente quanto eram feridos, Vampiros.
Quando as Fadas souberam que um determinado grupo de bruxas ultrapassou os limites da Lei dos Mortos, então elas baniram as Bruxas e os Vampiros para o extremo leste, para o devastado Reino de Peixes, onde aprenderiam a conviver uns com os outros. Mas as feiticeiras e os vampiros não aceitaram aquelas decisões e fizeram uma proposta para os Dragões de Gêmeos, destruir todas as fadas. E os dragões aceitaram, planejavam vingar-se das fadas por terem sido banidos e a oportunidade era mais do que ideal. Conseguiram apoio de outros que assim como eles achavam que as fadas não possuíam o direito de controlar Zodíaco.
A Grande Guerra dos Elementos durou mais de cem anos. As Fadas ainda seguiam a Lei da Vida, e como matar causava nelas efeitos devastadores, muito da espécie se sacrificaram para acabar com a guerra aprisionando seus inimigos em Peixes e afundaram o continente inteiro sobrando na superfície apenas algumas pequenas ilhas inabitadas. A magia corrompida das bruxas de Peixes as transformou inexplicavelmente em criaturas com guelras e nadadeiras. Os vampiros recuaram quando compreenderam que as Fadas eram capazes de tudo para vencer. Os Dragões hastearam suas bandeiras brancas e a guerra finalmente acabou.
Mas o meu mundo nunca mais foi o mesmo. Para meu povo, os humanos, foi dada a chance de exercer o poder que tanto ambicionavam, sermos lideres do mundo que habitávamos. Houve sucesso e fracasso. Como magia era perigoso, decidiram por tornar algo proibido. Bruxas eram odiadas pelos humanos. Vampiros eram caçados. Lobisomens eram renegados por todos. Werecats se esconderam em suas formas mais inofensivas e se misturavam á paisagem de tal modo que nem mesmo um sobrenatural era capaz de percebê-los. Os Dragões tomaram posses de Cidades flutuantes e Ilhas vulcânicas onde viviam livremente de acordo com suas leis. E as fadas. Bem, as protetoras de Zodíaco nunca mais foram as mesmas, algumas se esconderam na natureza assumindo suas formas naturais, outras se misturaram aos humanos e alguns se ocultaram nas sombras.
Os humanos desenvolveram ciências e tecnologias para vários fins, tentaram substituir a magia e até determinado ponto funcionou. Mas a sede de poder dos humanos ainda era grande e conflitos surgiam por todos os lados, humanos contra humanos. Suas razões variavam entre muitos motivos principalmente preconceito e a cobiça pelo poder de dominar. Por mais de mil anos as coisas funcionaram de acordo com os critérios humanos, mas enquanto meu povo se matava por ideais conflitantes, os sobrenaturais nos vigiavam. Espreitavam-nos, pacientes. Esperaram até o momento certo e quando encontraram uma brecha atacaram. Não houve uma guerra de sangue e cinzas, esta guerra fora diferente, fora uma Guerra Fria. Os vampiros foram os primeiros, assumiram o controle das coisas criando novos lideres, lideres humanos controlados por eles. Depois vieram os lobisomens aparando as pontas, esses foram ainda mais inteligentes ao controlar o povo de modo que conquistaram a confiança dos humanos. E assim as criaturas da noite se tornaram regentes supremos de Zodíaco.
Mas isso foi no passado. Há muito e muito tempo atrás, em um passado que só existe nos livros. Meu povo serve aos sobrenaturais. Somos escravos e não temos opções além de servi-los. Mas assim como no passado eles nos espreitaram, agora somos nós quem aguarda pela vingança. Não vai demorar, logo seremos livres.
∞ Apocalíptica Jacqueline ∞
— Jacqueline, eu preciso que se arrume. Temos um compromisso para o jantar.
A voz suave do vampiro chegou à piscina onde os escravos limpavam o sangue da ultima festinha de Pearl Nyx, sua senhora. Jacqueline, a humana que servia a família Nyx desde os onze anos apenas deixou o escovão e saiu como que hipnotizada pela voz de seu amo. Os outros escravos trocaram um olhar preocupado, sabiam que Jacqueline era capaz de ouvir o vampiro, mas como ela conseguia isso era um mistério. Havia comentários de que ela havia sido amaldiçoada por alguma bruxa e por isso tinha aquela estranha capacidade de ouvir melhor que os outros humanos, mas eram apenas comentários e os humanos faziam comentários e suposições sobre tudo.
Orion Nyx tinha quase quatrocentos anos de existência, fora transformado em vampiro aos 27 e era dono de um banco de sangue especializado em sangue tipo B, um tipo bem raro, pois grande parte da população humana de Terra-0 tinha sangue tipo AB ou O. Quando era humano Orion era escravo sexual de uma vampira Nyx chamada Clarissa, a vampira tinha segredos que foram confiados ao jovem somente depois que ele fora transformado em vampiro e ao longo de um século fora treinado para assumir os negócios da Família, Clarissa exterminou toda sua família de mortos-vivos sugadores de sangue e o deixou no comando para formar uma nova geração com ideais mais altruístas. Infelizmente não funcionou como o planejado, enquanto humanos seus servos de confiança eram altruístas o bastante para se sacrificarem uns pelos outros, depois de transformados se tornavam egoísta o bastante para matarem impiedosamente sem se importarem com as consequências. Resultando na desistência de Orion por formar um clã de vampiros que lutassem pelo que ele e Clarissa consideravam certos.
— O que quer de mim? – a voz baixa e delicada de Jacqueline o tirou de seus pensamentos.
Jacqueline o servia há oito anos. Tinha uma personalidade considerada sem graça pela maioria das pessoas que a conheciam, falava pouco ou quase nada, era obediente e discreta. E graças á ele, era uma assassina perfeita. Quase ninguém era capaz de desconfiar da moça pequena de ombros caídos, olhos pretos de olhar tristonho, cabelos castanhos cortados muito curtos, e nenhuma curva exuberante que um vestido de bom corte pudesse destacar. Pearl brincava maldosamente que a escrava era um garoto entrando na pré-adolescência, sem nenhum traço marcante.
— Hoje vou apresenta-la a um amigo, ele tem interesses em você.
— Que tipo de interesse? E que tipo de amigo?
— Esteja pronta as oito e descobrirá.
∞
O bistrô La Fontaine estava cheio de sobrenaturais, Viperon era uma província de comercio do Reino de Câncer, e as noites eram movimentadas, principalmente por vampiros e humanos que os serviam. Jacqueline percebeu os olhares dos clientes do bistrô direcionados ao homem bonito de orelhas pontudas, cabelos vermelhos e olhos prateados sentado em uma mesa de canto, não se surpreendeu quando Orion se direcionou para aquela mesa e puxou a cadeira para ela.
— Sou eu a serva, é meu dever fazer isso – ela repreendeu seu amo que não lhe deu atenção.
— Beatrice tinha razão – comentou o homem de cabelos vermelhos – Para alguém que se importa tanto com humanos, você cuidou muito mal dessa menina.
— Não me culpe por ela ser esquisita – respondeu Orion se virando para a humana. – Jack, este é Dragomir de Gillion. Meu amigo.
— Não são amigos – comentou pegando um pãozinho de abobora e mordendo – Talvez sócios ou aliados ou companheiros estranhos em alguma aventura imoral, mas amigos vocês não são.
— Por que acha isso, criança? – questionou o dragão Cristal
— Um vampiro amigo de um dragão? No teatro e na literatura é possível, no mundo real nem pensar. É como um dinossauro ter um Lhamacórnio alado.
Dragomir desviou o olhar confuso para Orion.
— Eu não faço ideia do que seja um lhamacórnio. Mas vamos ao que importa, negócios. Quero acabar logo com isso.
Dragomir colocou um athame de prata com entalhes rúnicos sobre a mesa, o metal reluzente atraiu olhares ansiosos e Jacqueline ficou nervosa diante daqueles olhares.
— O que está acontecendo, senhor? – perguntou torcendo as mãos debaixo da mesa – Para que serve essa faca?
— A partir de hoje as coisas ficarão por sua conta, Jack. Não se preocupe, terá auxilio.
— Do que está falando?
— Apocalíptica – disseram os dois homens
Aquelas palavras soaram como sinos nos ouvidos de Jacqueline que se levantou agarrando o athame e se movendo com a habilidade de uma bailarina pelo salão. Como uma coreografia macabra os clientes se levantaram tentando se proteger da prata fria que lhes cortava e perfurava impiedosamente. Desde que era uma criança no abrigo á espera de um amo para servir, ela conhecia aquela palavra, Apocalíptica. Sua lembrança mais antiga a relacionava com várias outras crianças usando branco dentro de cilindros que emitia uma engraçada luz azul-clara. Depois vinha o gigante de olhos azuis no abrigo, ele lhe sussurrara “... e quando ouvir o chamado, Apocalíptica, não corra, não fuja”, ela sempre achou que aquele fosse seu nome, mas as educadoras do abrigo lhe nomearam de Jacqueline e ela aceitou o novo nome. Aos onze anos o gigante de sua infância retornou para buscá-la e somente ele até então lhe dizia aquela palavra estranha que descobriu não ser seu nome.
Apocalíptica era uma espécie de código, uma palavra-enfeitiçada ou uma palavra de comando. Ela respondia inconscientemente por que em algum lugar dentro de si sabia que não devia fugir, aquela palavrinha com ares de caos e destruição significava que ela tinha que lutar. E era isso que ela fazia. Orion a ensinou á matar tão impiedosamente quanto um vampiro, apesar de sugerir que estava a preparando para ser um deles, nunca ficou claro a que “um deles” ele se referia. Talvez a treinasse para ser uma Nyx ou apenas uma vampira ou quem sabe algum outro tipo de sobrenatural. Ela não entendia quais os planos que seu amo tinha para ela e não questionava, confiava em Orion apesar dele ser tão misterioso.
O cheiro de sangue estava fazendo Orion apertar as laterais da mesa com todas suas forças para não se deixar levar pelo seu lado sanguinário. Diante dele, Dragomir sorria divertindo-se em ver a tortura por qual o vampiro passava estando próximo de tanto sangue.
— Achei que sendo dono de um banco de sangue já tivesse aprendido á lidar com essas situações, amigo.
— Vai se ferrar, Drago – rosnou o vampiro.
Jacqueline parou perto da mesa deles, sua roupa estava molhava de sangue, o piso parecia um espelho d’água vermelho e o athame na sua mão ainda reluzia prateada.
— Treinou bem a sua assassina, Orion. Ela está pronta para a guerra – informou o dragão se levantando – Boa sorte, Jacqueline.
A humana apenas o olhou sem interesse, e quando ele fechou a porta ela enfiou o athame do coração de Orion que sorriu ao sentir-se livre da sua existência amaldiçoada. E ao sair do bistrô, Jacqueline derrubou um castiçal sobre uma mesa sabendo que não destruiria seus rastros. E correu, não para fugir e sim para sobreviver. A guerra estava se aproximando, ela precisava se reunir com os aliados de Orion e aguardar novas instruções. Mas seu amo estava morto e ela não precisava mais seguir as regras dele. Agora ela era livre, uma criminosa que seria caçada, contudo, livre.
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