Zodiacals Generation - fic interativa
3 O Principe Perdido
Notas iniciais
Clã Aldebarã – “Os abandonados pelo Rei”
– Theo! Acorda!
Hum... vejamos... será isto um ex-Anjo mal humorado? É que... esta cena não parece muito digna de um Anjo, não?
Analisando a cena de maneira mais profunda, para além do breu quase intenso, consegue começar-se a distinguir algumas figuras no espaço estranhamente pequeno para qualquer quarto normal num dos Doze Clãs. Mas claro que eu sei perfeitamente o que se passa, afinal... sou eu que narro esta história!
– Theo! A escola!
Mais um grito que sobe até ao quarto escuro e comum, porém a figura, por agora, indescritível deitada na cama por de baixo de meia dúzia de cobertores e almofadas não parece importar-se muito. Talvez ainda não tenha percebido a “gravidade” da situação.
– Se não te arrumas eu vou aí buscar-te por uma orelha! – resmunga mais uma vez a voz exaltada.
Neste momento a figura obscura parece acordar, mesmo que não totalmente.
– Orelha... – boceja ainda meio a dormir – Pobre orelha...
As “muralhas” de maciez e calor ao redor do corpo deitado são de repente empurradas enquanto outras voam até ao chão. Mesmo com isto o ruivo parece ainda meio adormecido. Os olhos abrem e fecham lenta e preguiçosamente revelando vez ou outra as esmeraldas escondidas, os braços levemente bronzeados, agora descobertos, sobem com as mãos até aos fios ruivos rebeldes e totalmente desalinhados como num ritual para tentar despertar.
– Bom dia, tio... – murmura o ruivo enquanto chutava os lençóis de forma preguiçosa para depois pular da cama com um salto. – Lindo dia, não? – pergunta calmamente, como se o homem lá em baixo fosse realmente ouvir.
– Eu dou-te o “lindo dia”! Estou a chamar-te à 15 minutos e tu nem se quer-...!
O homem que abrira a porta do quarto simples com brusquidão para poder reclamar melhor com o sobrinho quase grita de susto ao ver o jovem ruivo já vestido enquanto apenas encaixava o pé no ténis escuro.
– Bom dia! – exclama o ruivo como se apenas agora tivesse percebido a presença do mais velho no quarto, enquanto passava pelo homem com calma e descia as escadas sorridente.
O moreno finalmente solta o ar que nem se apercebera de prender entre os lábios e depois suspira resignado e cansado levando os dedos às têmporas doridas:
– E eu que pensava que ele tinha acabado de acordar... – murmura começando a descer as escadas igualmente – Este rapaz dá comigo em doido...!
Assim que o homem alcança a cozinha vê o ruivo a trincar uma fatia de pão torrado de forma descontraída, como se nem estivesse em risco de chegar atrasado às aulas.
– Theo – chama com um suspiro cansado – Tens de te apressar ainda.
– Uhum – concorda simplesmente enquanto engolia meia caneca de café de uma vez.
– Como assim “uhum”, Thales?! Além disso não podes beber café! Dá cá isso! – resmunga o mais velho acabando praticamente deitado na mesa de cozinha ao tentar arrancar a caneca do ruivo com sucesso. – Sabes que a cafeína te deixa agitado! – reclama dando um gole no café quente.
– Tu já és agitado mesmo sem café, tio – comenta o ruivo com um sorriso doce, dando mais uma dentada na torrada.
– Nha, nha! – resmunga o mais velho enquanto encosta a base das costas à mesa fria dando mais um gole – Despacha-te e deixa-te de comentários sem utilidade!
Thales solta uma risada suave ao reparar bem na reação do tio. Toda aquela pose resmungona e alterada quase que conseguia arruinar o fundo calmo e controlado do mais velho. E o mais divertido para o ruivo era perceber que o mesmo homem que agora parecia tão aborrecido com os atrasos do sobrinho já fora, à alguns, bem poucos, anos atrás, a causa de muitos castigos para o mais novo por causa dos ditos atrasos. Era incrível como um pouco mais de responsabilidade acabava por afetar tanto o irmão mais novo do ex-Anjo Taurus.
Mas... num momentinho à parte... o que se passa com esta manhã tão... comum? Bem... resumidamente digamos que o jovem Thales é um dos poucos herdeiros perdidos. Viver na ignorância das suas verdadeiras forças nunca foi grande problema para uma família tão pequena e descontraída como a Aldebarã. Os dois grandes fugitivos, o ex-Anjo Taurus e sua esposa, nunca levaram muito em conta o tipo de personalidade associada ao símbolo da família e, depois de toda a confusão passar e a tempestade assentar... decidiram aproveitar um pouco até serem de novo arrastados para as suas obrigações. Viajar... Passear pelo mundo inteiro sem se ter que preocupar em chamar a atenção sempre foi um grande desejo e como o Grande Herdeiro não poderia realizar essa façanha... foi deixado algum tempo com o tio estranhamente bipolar.
– Hum... Sabes...? – murmura o mais velho depois de alguns segundos de silêncio, ainda de costas para o sobrinho e com a caneca encostada aos lábios – A tua mãe enviou-me uma mensagem ontem.
A esmeraldas parecem brilhar um pouco mais com essa noticia e por um segundo toda a calma dá lugar a expectativa.
– E o que dizia? – pergunta sorridente.
– Ah... tu sabes! O costume! Os dois têm muitas saudades, vão trazer-te uma máscara de Veneza e mais não-sei-o-quê e que depois de passarem em África voltam para cá – comenta com desinteresse fingido e com mais um gole no café.
– Hum... deve ser bonito por lá... – comenta o ruivo elevando o olhar ao teto caramelo da cozinha para depois colar os olhos nas costas largas do tio – Qualquer dia destes... que tal irmos nós dois fazer uma viagem pelo mundo? – pergunta sorridente, erguendo-se da cadeira e pegando nas coisas da escola.
– Se conseguires ganhar o teu peso em moedas de ouro à hora, aí sim, podíamos pensar em algo... – murmura o mais velho em tom de brincadeira.
O ruivo solta mais uma risada e apressa-se para alcançar a porta de casa enquanto gritava:
– Seria mais difícil de conseguir se eu pesasse tanto quanto tu!
– Tento na língua, meu menino! – reclama o moreno com um sorriso divertido.
– Ah! E já agora... – o ruivo pausa um pouco com a porta já aberta — ...adoro o teu avental...! – e sai disparado com uma piscadinha marota.
O homem permanece alguns segundos parado sem entender bem o que acontecera antes daquele “piscar-de-olhos-nada-Theo” e quando desliza o olhar lentamente até ao seu próprio colo percebe a causa de risos e a, até então, esquecida causa do seu sofrimento e mau humor matinal.
– Tsc – faz um som com a língua levando a caneca vazia até ao lavatório – Cor-de-rosa e florzinhas... A tua mãe sempre teve gostos estranhos, rapaz – resmunga como se o sobrinho fosse ouvir.
– Eu por acaso até gosto! – exclama uma vozinha vinda da caneca de café.
O homem volta a pegar no objeto cilíndrico e suspira cansado ao encarar a figura rosada e floral da chávena.
– Eu não te disse já para deixares de existir...?! – sussurra como num sermão – Assim o Theo ainda vai descobrir...!
– Ow... – suspira a boneca desenhada na superfície levemente manchada de café – Mas o mestre sempre afirmou que esta era a sua caneca favorita por mi-nha cau-sa! – diz sorridente, separando as silabas das ultimas duas palavras para destacá-las.
– Mas eu prometi aos pais do te-u mes-tre... – resmunga dando igual ênfase — ...que ele apenas iria descobrir a verdade quando eles voltassem das reuniõ- digo, viagens pelo mundo.
– Hum... mas isso ainda vai demorar... E se o mestre descobrir antes? – pergunta curiosa.
– Se tu não te mexeres ele não descobre! – avisa ainda sussurrante; depois regressa ao tom de voz normal – Agora vamos! Tenho que tirar este avental para tentar acalmar e meditar um pouco! Sai dessa caneca porque eu sei muito bem que consegues ficar em forma humana!
– Sim, senhor... – murmura a boneca, aborrecida.
De repente a boneca na loiça estica os braços e pernas para fora do seu espaço como se estivesse a pular uma cerca e toma um tamanho real de criança ao lado do moreno.
– Podes começar por arrumar o quarto do teu “mestre” enquanto eu arrumo isto aqui! – ordena com o olhar fixo na pequena confusão matinal.
– Isto é escravatura...! – choraminga a outra com passos lentos até às escadas.
– Sem reclamações, boneca 3D!
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