Zia

2 Hotel adormecido


Notas iniciais
Escrevi pela madrugada, podem haver alguns erros de continuidade ou acentuação que logo que eu pude corrigirei.

Durante a viagem enquanto observava as estradas por onde passávamos pude assistir os campos vastos e verdes tornando-se pouco a pouco cidade cinza e vazia, em certo ponto a sinalização passou a deixar de existir, alguns prédios aparentemente vazios assombravam o caminho, ainda não havíamos entrado na cidade em si e estávamos por conta do que o motorista conhecia. Tentei puxar conversa durante várias partes do trajeto mas nada ele me respondeu, repetia constantemente que já havia dito o que deveria dizer e que não podia ficar falando demais, que as minhas perguntas seriam respondidas quando eu chegasse ao meu destino. Pra mim era tudo conversa fiada, ele provavelmente sabia melhor de tudo que estava acontecendo do que eu.

Assim que entramos na província e o ambiente me fez questionar seriamente pra que tipo de lugar eu teria que ir, o cenário era pós-guerra sem duvida alguma. Marcas de incêndios em portas e janelas, ruas vazias, lugares que aparentavam ter sido alvo de bombardeios, cheguei até me deparar com uns três prédios completamente destroçados. Aquela província fora evacuada à alguns anos devido ao seu governo tirano, as fotos no jornal não mal captaram a realidade daquele lugar, uma cidade fantasma.

Chegamos ao centro que pelo que se podia ver um dia já foi tão grande quanto o de onde eu vim, assim como tudo estava largado às traças. O que mais me impressionou foi que ainda haviam pessoas morando ali, pouquíssimas.

O motorista estacionou o carro na frente do que costumava ser um grande hotel, ele desceu e abriu a porta para mim me dizendo:

-Nós vamos jantar na minha casa porque chegamos muito mais cedo do que o esperado, minha esposa deve ter feito algo sabendo que as coisas dariam certo.

Aí estava algo que eu não esperava, um jantar.

-Como assim?

Ele me ajudou com a mochila e começou a andar enquanto eu seguia para dentro do hotel.

-Engraçado não é? O lugar mais seguro do mundo pra você agora é aqui.- Falou ele enquanto acendia um cigarro entrando no hotel.

-Esse lugar virou o abrigo de quem não podia viver uma vida na sua província, as poucas pessoas que restaram moram aqui, seu avô nos fornece agua potável. Existe um rio enorme para o lado das montanhas perto de onde ele mora, ele nos dá de graça, um bom homem seu avô. Por isso quando ele me pediu para te buscar eu não pensei duas vezes sem levar em conta o perigo que poderia ser.

Finalmente ele chegou em frente ao quarto que creio que estava me levando, ele tirou os óculos escuros, tinha olhos pretos, parou um segundo e olhou para mim sorrindo antes de abrir a porta.

-Quando ver ele por favor diga que nós somos muito agradecidos à tudo que ele tem feito por nós.- Ele estava sendo sincero.

-Claro- Respondi o que primeiro me veio à cabeça.

As poucas lembranças que tenho do meu avô, é um homem rígido e mal encarado que não gostava que eu brincasse perto dele, sempre de mal humor ele não cansava de dizer que suas costas doíam e que o meu pai era um péssimo marido para a minha mãe- mesmo ele sendo filho dele. Até onde eu sabia meu avô era dono de uma grande empresa na província em que eu estava agora, a empresa havia falido pouco antes da época que a cidade fora evacuada mas mesmo sem nada que o prendesse lá, meu avô não queria deixar a região e continuava morando perto em um chalé à poucas horas de distância.

Era surpreendente que ele estivesse ajudando essas pessoas, conhecendo ele da forma que eu conheci, uma atitude nobre dessas me fazia notar o quanto eu não conhecia dele.

Quando o motorista abriu a porta a minha surpresa foi sem igual. Toda uma família estava dentro de uma suíte de hotel tinham colchões espalhados pelo chão e um fogão ao lado de uma escrivaninha antes de chegar à porta do banheiro. Duas crianças corriam para lá e para cá, uma senhora estava lendo calmamente deitada na cama de casal, uma outra mulher já mais adulta cozinhava e uma moça dormia no chão cobrindo o rosto.

-Bem vinda ao nosso lar- Disse o motorista feliz me dando passagem para entrar antes do que ele.

- Agora posso falar com você normalmente, meu nome é Norah, essa é a minha sogra Sra. Dinah — Que me deu um sorriso caloroso assim que ele a mencionou

- Esses são meus filhos Tom e Leo — As crianças por sua vez nem me viram e continuaram brincando de pega-pega.

- A bela moça no fogão é a minha esposa, Ane. — Uma mulher loura e alta se virou e me cumprimentou, possivelmente uma das mulheres mais bonitas que eu já vi.

-E essa dormindo é a Olivia, ela vai te acompanhar na viagem, ela passou por maus bocados então seja paciente com ela.

A tal Olivia mal se mexeu, imediatamente pensei que estivesse muito bem.

-Ela precisa de ajuda?

-Toda ajuda que ela precisa está com o seu avô, ele tem medicamentos estocados, mas antes de corre para lá vocês tem que comer bem.

Me juntei à mulher que estava cozinhando, perguntei se ela precisava de ajuda mas ela recusou de imediato "Você é a visita, eu devo te servir" disse ela com um sorriso caloroso. Aquelas pessoas moravam amontoadas e pareciam mais felizes do que eu jamais havia sido durante toda a minha vida. Noah contou que antes da evacuação ele era um grande advogado, havia pertencido à marinha e era daí que vinha o sustento deles agora que a cidade se tornara deserta, ferido em batalha ele quase perdeu uma das pernas e por um processo o governo lhe pagava uma quantia mensal da indenização enorme que ele conseguiu.

O jantar foi uma sopa rala que as crianças comeram como se fosse comida de festa, nós comemos sentados no chão em círculo. Todos contaram histórias de como era viver no hotel e como as outras pessoas que moravam ali eram, havia pelo menos mais cinco famílias dividindo o espaço com eles, segundo a esposa de Noah todos em busca de uma vida melhor.Perguntei porque eles não iam embora, não obtive resposta e não me importei.

Olivia não acordou durante a refeição, a Sra. Dinah a chamou por algum tempo mas optou por deixar ela como estava. Eles disseram que fazia muito tempo que ela não dormia e como nós tínhamos uma longa estrada era melhor para ela dormir se não ficaria debilitada demais para me ajudar. Ao fim da refeição me ofereci para ajudar Noah com a limpeza dos talheres e lhe perguntei:

-Que horas nós vamos sair?- o perguntei ansiosa, era reconfortante estar com uma família mas eu precisava saber da minha.

-Você e Olivia vão daqui à duas horas.

-Você não vai com a gente Noah? — Disse Olivia parando em pé atrás dele.

Não havia reparado nela, por um instante achei que ela fosse alguém da família mas não era possível, ela tinha um rosto fino com traços orientais. Tão delicada e frágil que me lembrava uma boneca de porcelana.

-Levarei vocês até a estação.

Ela concordou com o que ele disse e se sentou no chão como estávamos antes.

-Preciso ver aquele velho logo, essa é a neta dele? — Questionou ela apontando para mim.

Balancei a cabeça positivamente em sinal de resposta.

-Oi, eu sou a Olivia, seu avô é um merda, sabia?

Noah se virou com raiva para ela que deu de ombros.

-Você sabe o quanto ele faz por nós, tira do bolso dele para nos ajudar, toda vez que você fica doente de tanto vagar por aí ele te ajuda.

Olívia olhou para ele incrédula com a defesa.

-Eu não estaria vagando por aí se parte da culpa não fosse dele. -Noah abaixou a cabeça e voltou à fazer o que estava fazendo.

- Sinto muito se te ofendi.- Se desculpou comigo.

-Sem problemas, eu não sou próxima dele.- A mais pura verdade.

Ela deu de ombros novamente e começou a ajudar Noah à guardar os talheres secos em uma caixa e me disse que era melhor que eu descansasse logo pois nossa viagem seria longa, me deitei então em um dos colchões que estavam no chão. Escolhi um perto das crianças que já começavam a cochilar enquanto a avó as contava histórias. Não fazia noção do quão cansada estava até me deitar, em pouco tempo me deixei pegar no sono junto com as crianças.

Acordei quando ouvi passos e a porta batendo, olhei ao redor e vi que Noah, a esposa e Olivia tinham deixado o quarto sabe se lá porque. Pelas tempo marcado no relógio da parede, ainda tinha cerca de meia-hora até a partida, estava pensando no que iria fazer quando fui pega de surpresa por um dos filhos de Noah.

-Você acordou também? — Perguntou ele voltando do banheiro ao me notar ali sentada.

Aparentemente eu não era a única que fora incomodada durante o sono portanto assenti com a cabeça para ele.

-Você vai embora com a Oli daqui a pouco, não?- Se sentou ao meu lado.

-Sim eu vou.- O pequeno se deitou ao meu lado no mesmo colchão.

-Tome conta dela pra mim.- Me pediu ele com muita sinceridade em sua voz, aquele tipo que as crianças sempre carregam.

-Por que?

-Tia Oli, ela sofre muito, ela passa noites sem dormir e quando ela dorme ela chama por pessoas, ela sua frio, cuide dela.

Assenti, o que mais eu poderia fazer por uma criança que parecia estar mais preocupada do que todos os adultos da casa? Pensei em perguntar para ele coisas que vinham me deixado curiosa sobre Olívia mas fui interrompida porque sua mãe voltou para dentro do quarto na hora, havia vindo me buscar.

-O Tom acordou?- Então aquele era o pequeno Tom se comportando como o grande Tom, era demais para minha cabeça.

-Sim mas ele já começou a dormir outra vez- Afirmei enquanto me levantava e tinha certeza que de aquela criança ficaria apenas com os olhos fechados até os pais entrarem e se deitarem para dormir.

-Vamos?- Perguntou ela nervosa, agarrei a mochila e sai junto com ela.

As luzes do hotel inteiro estavam apagadas à principio não entendi o porquê mas Ane que para as autoridades era desnecessário o gasto com energia elétrica em tempo integral, então um toque de recolher fora criado e partir de tal hora nada elétrico funcionaria. Portanto ao sairmos do hotel foi ela quem me guiou até a saída do hotelconhecendo o caminho de cabeça pois para mim era impossível ver qualquer coisa no caminho, lá fora Olivia e Noah já esperavam dentro do carro, Ane parou na porta do hotel e disse que eu devia seguir em frente e me desejou boa sorte de uma forma que soava como se ela realmente quisesse se livrar de mim.

Toda a província parecia ainda mais assustadora à noite, dentro do carro de Noah a única luz visível na cidade era a dos faróis do carro que nos guiavam pelas ruas desertas entretanto, diferente do que vi à luz do dia, as construções abandonadas tornavam-se lindas pela noite, não sei como explicar mas tinha algo nelas que era bonito e triste ao mesmo tempo.

Quando chegamos ao ponto em que deveríamos pegar o ônibus nada havia além de escuridão, a única luz vinha de um poste distante que Noah não sabia explicar como mesmo com toda a história da energia limitada. Esperamos os três durante alguns minutos até que ele teve de se despedir e voltar para casa.Só tivemos um problema, o ônibus não veio.

Notas finais
Review, pretty please?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.